Entrevistas

Judite de Sousa: "Eu sou muito destemida. Não gosto de perder em situações de concorrência"

É, há mais de 30 anos, uma visita diária na casa dos portugueses. Pivot, entrevistadora, repórter, autora. Mãe. Uma mulher que se diz realizada e que, com todas as suas forças e fragilidades, revela já não ter medo de nada. A não ser da vida.
Por Rita Lúcio Martins, 10.11.2018

"Preciso de um café." Foi uma Judite de Sousa algo fatigada, a que encontrámos num começo de tarde de uma quarta-feira de outono. Vestido preto, justo. Saltos bem altos, pretos. Alguns acessórios, apenas. Suavemente dourados, como a manhã. "Estou viciada numa série da Netflix. Fiquei a vê-la até às quatro [horas] da manhã", justificou-se, casualmente, adiantando alguns pormenores sobre o enredo de A Lei Secreta, enquanto se aninhava, um pouco mais, no sofá castanho e afastava o smartphone que, ao longo da conversa, sem som, haveria de vibrar algumas vezes, sem nunca dispersar a atenção da jornalista. Não é difícil encontrar palavras para definir esta mulher de 57 anos, mas há uma palavra que se instala mais depressa do que as outras: focada. Judite de Sousa nunca perde o fio à meada. Nem quando as memórias se lhe atravessam pelo caminho e os olhos denunciam imagens que as palavras não querem concretizar. Nessas ocasiões, não raras, Judite emerge num silêncio, sempre breve, para logo retomar o discurso. As suas fragilidades – mais ou menos visíveis, algumas vezes exploradas e, tantas vezes, sobre-debatidas – podem continuar lá, mas não a limitam. Porventura, será precisamente ao contrário.

"Não há pessoas fortes", rejeita. "Há pessoas fracas que podem encontrar formas de dar a volta à vida e de ficarem um bocadinho menos fracas do que aquilo que são. Essa ideia de supermulheres ou de super-homens para mim não existe. O nosso controlo sobre a nossa envolvência é muito limitado." A vida encarregou-se de lhe mostrar isso da forma mais trágica, inesperada e cruel com a morte do único filho, André, há pouco mais de quatro anos. Ao longo da nossa conversa, o nome do filho seria pronunciado, várias vezes, a maior parte das quais com leveza e, invariavelmente, com uma profunda saudade. O André pequenino. O André estudante. O André viajante. O André conselheiro. O André cavalheiro. O André, a sua referência maior. O André, o grande projeto de vida de Judite. O menino que, tal como a mãe, tinha de ser grande, pergunto. Judite sorri, reconhecendo a (sua própria) expressão. "Desde os 18 [anos] que percebi que, para ser uma jornalista com substância, para ser alguém com coisas para comunicar do ponto de vista profissional, eu tinha de ser grande. E passei muito essa mensagem ao meu filho nas mais diversas frases do seu percurso. ‘André, tens de ser grande.’ Era uma frase que não precisava de mais palavras. Ambos sabíamos o seu significado. O que significa ser grande? É procurar a excelência. E eu procuro a excelência todos os dias."

O caminho começou a ser traçado bem cedo, logo aos 18 anos, com a resposta a um anúncio publicado no Jornal de Notícias. Foi assim, por acaso, por concurso, por convicção, que chegou à RTP como jornalista estagiária do primeiro ano. Sem sequer saber como se colocavam uns auscultadores na cabeça, como ela própria admite. Aos três meses de estágio, em Lisboa, seguiu-se a colocação nos estúdios do Monte da Virgem e, um ano depois, chegou o desafio que acabou por ser um dos momentos-chave da sua vida: o convite para ir trabalhar para Macau, ao serviço da Rádio Macau. "Eu sempre fui focada. Mesmo no meu começo, eu rapidamente percebi como é que não havia de me perder. Como é que havia de ganhar. Sem passar por cima de alguém, mas construindo-me a mim própria. Só assim se aceita, em 24 horas, um convite para ir para a China." Sem vacilar. Acabaria por lá ficar durante um ano e a experiência foi de tal forma marcante que, hoje, afirma repetidas vezes que a China é a sua segunda pátria. "Eu fiz 21 anos em Pequim. Acompanhei as reformas do Deng Xiaoping, a criação da lógica ‘Um país, dois sistemas’ ? politicamente uma ditadura, e económica e financeiramente [um sistema] de capitalismo selvagem. Estava lá quando tudo isso começou. Nesse aspeto, considero-me uma pioneira da globalização. Eu fui para a China sem nunca ter entrado num avião. Quando isto acontece e se vive o que eu vivi, se sente o que eu senti e se observa o que eu observei, a profissão fica, inevitavelmente, colada à pele. É por isso que, hoje, quando olho para mim, vejo mais a profissional do que a pessoa em si mesma. Estes mais de 30 anos de carreira fizeram com que as duas dimensões – a da pessoa e a da profissional – se tenham fundido numa só. Se a minha carreira tivesse apenas dez anos ou tivesse sido construída unicamente dentro do estúdio, eu não poderia dar-lhe esta resposta."

Natural do Porto (Massarelos, 2 de dezembro de 1960), Judite de Sousa estudou no Liceu Carolina Michaëlis, tendo terminado o ensino secundário com uma média de 18 valores. Boa aluna, dedicada e empenhada, adorava ler. Ela que não teve uma infância ou uma adolescência particularmente fáceis. Desses tempos, Judite lembra-se de sair das aulas e de seguir na direção da Rua de Cedofeita para comprar livros. Aos 14 ou 15 anos refugiava-se nos clássicos, movida pela enorme curiosidade que aponta como sendo um dos segredos para renovar, a cada dia, o gosto pela profissão. "Apesar de ser muito nova, eu tinha uma razoável cultura geral. E tinha uma grande sede de conhecimento e a vontade de querer começar a viajar, coisa que não tinha tido oportunidade, até então... O mais longe que eu tinha ido teria sido a Vigo ou a Tui." Hoje orgulha-se de ter cruzado o mundo e de ter pisado todos os continentes (com exceção da Oceania). Depois de Macau e no regresso a Portugal, Judite de Sousa voltou ao Porto, casou (com José Pedro Braga Bessa), engravidou e voltou a estudar. "Nessa altura, eu tive de reavaliar o meu plano de estudos porque trabalhava e tinha um filho. Concluí que o curso que me seria mais fácil de fazer já não seria o de Português-Francês, mas sim o de História [na Faculdade de Letras do Porto], porque me permitia estudar em casa e gerir melhor a minha carreira e as minhas obrigações familiares." Quando trocou o Porto por Lisboa, em 1991, assumiu a função de coordenadora do Telejornal. "E não sou e nunca fui uma pessoa estudada, no sentido de dizer ou de pensar aos 20 [anos] que, aos 30, quereria estar num determinado sítio a fazer determinada coisa. As coisas foram acontecendo naturalmente", esclarece. Por isso, foi com naturalidade que, em 2000, viu chegar a nomeação para o cargo de Diretora-Adjunta de Informação, na RTP (o Diretor era José Rodrigues dos Santos). "Assumi funções de responsabilidade logo muito cedo, desde os meus 30 anos. Não porque o tivesse pedido, pois nunca pedi cargos ou aumentos de ordenado, mas porque procurei sempre mostrar as minhas capacidades e aptidões. Posso dizer que nunca senti qualquer tipo de discriminação em função do género."

Ao longo de 30 anos na antena do serviço público, Judite coordenou emissões especiais, apresentou o programa de análise política Grande Informação (com participação de Mário Soares), conduziu a Grande Entrevista ou o Notas Soltas (com António Vitorino) e foi uma das figuras maiores dessa instituição nacional que é o Telejornal. Ainda assim, nunca se deu por satisfeita. "Eu nunca quis ser apenas uma pivot de informação. Sempre quis estar no terreno, procurar e conquistar grandes oportunidades profissionais. Sempre entendi que a minha dimensão enquanto jornalista tinha de passar pelo contacto direto com as pessoas, nos mais diversos palcos do mundo, e foi sempre essa a linha de orientação que imprimi à minha carreira. A minha conceção de Jornalismo passa pelo terreno. O facto de sair do conforto do estúdio e ir para os locais mais inóspitos dá-me um músculo profissional muito importante. E sinto que as pessoas, os espectadores, em suma, a opinião pública, quando olham para mim não veem apenas a pessoa que está sentada num estúdio a apresentar notícias. Veem uma série de coisas."

Nos últimos 30 anos, foram muitas as situações-limite em que, como repórter, esteve presente. Em 1994, no Genocídio do Ruanda; em 1995, aquando da ofensiva da Sérvia durante a Guerra dos Balcãs; em 2001, no Paquistão, no pós-11 de Setembro. Como Judite de Sousa gosta de afirmar, sempre que o mundo mudou, nestes últimos 30 anos, ela esteve lá. Qual é, então, a sua grande mais-valia como repórter? O que é que a torna especial, entre todos os enviados? "É difícil responder... Eu sou muito destemida. Não gosto de perder em situações de concorrência. Sou racional. Quando estou a fazer o meu trabalho, descolo de mim própria para me focar naquilo que estou a fazer. Não me disperso com coisas laterais. Sou objetiva. Não tenho medo. E desde que o meu filho faleceu passei a ter muito menos medo, percebe? Ultimamente tenho utilizado muito uma frase junto dos meus amigos: ‘Não tenho medo da morte. Eu tenho é medo da vida.’ Se calhar sempre pensei assim... Mas é este axioma – não ter medo da morte, mas da vida – que me fez ter ido para o Ruanda quando um milhão de pessoas foram mortas à catanada; para a Bósnia, onde fiz 300 quilómetros de Zagreb até Sarajevo em território minado pelos sérvios; e para o Paquistão, depois dos atentados do 11 de Setembro. Eu estive uma semana no [Hotel] Marriott, que era o melhor hotel de Islamabad, e onde estava [instalada] toda a imprensa internacional, e fazíamos os diretos do telhado... Passados nove anos, o hotel implodiu, foi alvo de um atentado e não existe mais. É extraordinariamente comovente ver as imagens do Marriott reduzido a cinzas (emociona-se). Sou completamente apaixonada pela reportagem. É assim que sou. Eu lanço-me."

Foi também assim na Tailândia para onde partiu, em julho passado, com o objetivo de fazer a cobertura do resgate dos rapazes que ficaram presos numa gruta durante 18 dias, juntamente com o treinador. Judite prontificou-se a ir. "Sou muito intuitiva. Eu tenho um ‘faro’ para perceber se determinada coisa vai dar. Acompanho o movimento dos meus colegas estrangeiros, já me cruzei com os grandes craques por diversas ocasiões. A [Christiane] Amanpour, o Anderson Cooper… Conhecemo-nos. Acredite ou não, eu tenho uma característica: sou humilde. Com os anos de vida e de experiência que tenho, eu não acho que sei tudo. Estou permanentemente atenta ao que os melhores do mundo fazem. E, quando estou no terreno, faço dos meus olhos uns imensos radares que observam aqueles que eu considero as grandes referências do jornalismo internacional. Procuro ver como se movimentam. Depois, quando eu estou fora [do país], não me canso. Na Tailândia, eu dormia duas horas por dia porque tinha de entrar em direto no jornal às oito [horas] da noite e eram duas da manhã, lá. A informação circulava de uma forma muito controlada e era preciso estar-se sempre alerta. O meu sentido de não querer perder nada importante fala mais alto. Mas cheguei à Tailândia muito cansada e as condições eram muito adversas…" Essa foi mais uma das ocasiões em que Judite de Sousa foi alvo de críticas acesas. No caso, imagine-se, relacionadas com a sua escolha de guarda-roupa. No ano passado, aquando dos incêndios de Pedrógão Grande, o tema foi mais delicado, desencadeando debates sobre os limites éticos dos diretos (depois de a repórter ter surgido ao lado do corpo coberto de uma vítima). As críticas permaneceram desde os primeiros dias e Judite diz ter-se habituado a elas. "Quem está no espaço público a este nível, no prime time televisivo, não é consensual. A forma como o meu trabalho é escrutinado é o preço que eu pago pela forma como eu estou na profissão. E eu estou na profissão de uma forma convicta, acreditando que é assim que tem de se fazer jornalismo. E não tenho outra pretensão que não seja fazer bom jornalismo, seja onde for." Também por isso, Judite diz ser ela própria a sua maior crítica: "Eu não preciso que me digam quando as coisas correm mal. Percebo-o no minuto."

Não se pense com isto que as críticas não são analisadas e valorizadas: "Quando se trabalha em televisão e numa estação privada, é importante ter as pessoas do nosso lado porque precisamos de apresentar resultados. E os resultados são um indicador da forma como o nosso trabalho está a ser percecionado pelos espectadores." É também por isso que a relação com o espelho é importante porque, em televisão, a imagem é o óbvio, o imediato. Só depois chega o conteúdo, a notícia. "A roupa, o cabelo, a maquilhagem são flashes. Quem está em televisão tem de perceber isto e procurar uma imagem de elegância e de sobriedade que está associada à credibilidade. Eu tenho essas preocupações. Tenho de me cuidar por várias razões. Porque preciso de sentir que estou bem; porque tenho de ter um distanciamento crítico, colocando-me do outro lado do espelho e antecipando as reações das pessoas em relação à imagem que eu passo; e, por último, e este é o fator mais importante, por ter muito respeito pelos espectadores. Mas posso dizer, nesta altura da minha vida, que estou confortável com a minha imagem."

Ao longo dos anos, Judite de Sousa foi mudando a imagem, foi-se sofisticando, mas manteve a figura esguia. "Genética!", desmistifica, explicando que a irmã é fisicamente muito parecida consigo. Prestes a celebrar os 58 anos, não se mostra particularmente preocupada com a idade, que diz ser apenas um termo de referência. Importam mais a atitude, o estilo de vida, a intensidade, a atividade. E, nesse aspeto, Judite parece ter a vitalidade de alguém que está apenas a começar. "É verdade. Nos últimos anos, eu lancei uma série de projetos. Criei o meu blogue, que está a crescer, e é o local onde posso interagir mais com as pessoas. Faço o meu trabalho na TVI, no estúdio ou no exterior. E desatei a escrever livros." Não Me Olhes Com Esse Tom de Voz (da Bertrand Editora), escrito em parceria com a médica ginecologista e obstetra Maria do Céu Santo e recentemente publicado, é já o nono. Uma semana após o lançamento, o livro ia na sua terceira edição. A ideia de escrever um livro onde se abordam temas como o amor e a sexualidade e se respondem a algumas questões práticas sobre relacionamentos surgiu durante um jantar de amigos, em casa de Judite (as duas conheceram-se no contexto do consultório, como médica e paciente, mas depressa transformaram a relação em algo mais próximo e pessoal). O livro, nomeadamente a sua promoção, traz-nos uma Judite num registo ligeiramente mais descontraído, a sorrir e a falar de amor. Sem nunca resvalar para a imponderação ou para a inconfidência. "No que diz respeito ao trabalho, eu sou 100 por cento profissional. Já na vida pessoal, eu sou muito emotiva. Sou o género de pessoa que no seu círculo mais privado faz coisas e passados cinco minutos está a arrepender-se de as ter feito... Nos últimos quatro anos eu vivi tanta coisa..." O fragmento de silêncio instala-se, uma vez mais. E a voz pausada cala-se. É inevitável regressar a André. Falar do impossível, do absurdo. "Eu tenho o maior respeito e partilha de dor com todos os pais e mães que perderam filhos, mas nem todas as situações são iguais. O meu filho tinha 29 anos, estava na flor da vida. E eu só tinha aquele filho. Não tenho mais nenhum. Quando se perde um único filho passamos a ter medo de viver e não de morrer, não é? Agora tudo me pode acontecer", diz com a voz embargada. "Quando se vivem situações de naufrágio emocional, como diz o padre Tolentino Mendonça, que compara a morte de um filho a um naufrágio emocional, só há duas hipóteses: ou se desiste ou se reaprende a viver, se possível com mais força. Durante algum tempo, eu hesitei sobre o caminho a seguir até ter interiorizado que tinha de seguir em frente. Não há uma terceira via quando nos desaparece alguém tão chegado."

No livro Duas ou Três Coisas Sobre Mim (Oficina do Livro, 2018), Judite afirma, a certa altura, que todos temos uma figura central na vida. André, definitivamente, era a sua. "O André era um fora de série. Era lindo. Não era por ser meu filho, mas acho que era mais bonito que o pai e a mãe juntos [ri]. Era cultíssimo. Adorava viajar. Lia muito. Com 14 anos pediu ao professor de Português que lhe emprestasse os Humilhados e Ofendidos, de Dostoiévsky, dizendo que a mãe tinha os livros todos desse autor, menos aquele. Estudou em Londres e no Brasil, viajou durante três meses pela América Latina ? esteve na Argentina, no Peru, no Chile, no Uruguai, no Paraguai… Levei-o à China. Fez 21 anos em Zanzibar, a terra onde nasceu o Freddie Mercury, de quem gostávamos muito. Trabalhou na City." Recupera o fôlego. Morde o lábio. "Era muito bom. Era um grande orgulho. Foi o meu grande projeto de vida. E foi um projeto de vida muito conseguido. Fui uma mãe muito exigente porque as coisas, para mim, foram difíceis de conseguir. Eu tive de começar a trabalhar muito nova e não tendo tido uma infância e adolescência fáceis, tornei-me uma mãe muito exigente. Eu dava tudo ao meu filho, mas cobrava-lhe. Ele não me podia desiludir. E realmente ele nunca o fez… E viveu a vida intensamente. Viveu mais do que muita gente com 80 ou com 90 anos. Eu agarro-me a estas memórias. São estas pontas da vida às quais me agarro. É isso." E, depois disso, ao trabalho. Sempre o jornalismo, o terreno, a reportagem. "Aquilo que me dá mais prazer profissional é poder dizer que, nos últimos 30 anos, fui testemunha dos grandes acontecimentos que mudaram o mundo. As pessoas podem não se identificar com o meu trabalho, mas esse património ninguém me tira (...). Os jornalistas de televisão que são apenas pivots vão acabar mal as suas carreiras porque vão envelhecer e, se não tiverem uma retaguarda profissional, quando chegar o momento da saída do ecrã, vão ter de tomar muitos antidepressivos e ansiolíticos. Tenho isto muito presente. Eu sempre procurei estar na profissão de uma maneira que, quando chegar esse momento, irei estar preparada." Como? "Irei continuar a dar a volta ao mundo. Irei continuar a fazer reportagem. Irei continuar a ser enviada especial."
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