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“Existe uma dureza inerente ao ritmo desta cidade”. Vera Casaca, uma cineasta portuguesa em Nova Iorque

Vera Casaca cresceu na Fuseta, no Algarve, mas o sonho de se tornar uma jovem realizadora e argumentista levou-a até à “cidade que nunca dorme”.
Por Rita Silva Avelar, 17.12.2018

Com 34 anos e todos os sonhos do mundo, Vera Casaca é uma cineasta portuguesa a viver em Nova Iorque. Prestes a estrear dois projetos em 2019 (Se Poirot Estivesse Aqui e Portugal Não Está à Venda) Vera está a escrever um livro sobre mulheres realizadoras que merecem destaque na História do Cinema.

Vera, que memória da infância associa ao fascinante mundo cinematográfico?

Basta relembrar-me de quais as cassetes de vídeos mais gastas! Sozinho em Casa, A Pequena Sereia, Aladdin e os Goonies fizeram parte do "meu mundo" cinematográfico desde muito cedo.

Quais são os seus realizadores/as de referência?

Gosto particularmente da escrita e humor de Woody Allen e dos britânicos Monty Python. Adoro a realização de Larisa Shepitko e Wes Anderson. E filmes que revejo vezes sem conta: Birdman (2014), A Rosa Púrpura do Cairo (1985), A Vida de Brian (1979), O Amor É um Lugar Estranho (2003), Relatos Selvagens (2014)…

Viveu em Inglaterra e na Alemanha e depois rumou a Nova Iorque. Sempre sentiu que tinha de sair de Portugal ou isso nem estava nos planos?

O meu pai viajava constantemente e, inconscientemente, pintou imagens do mundo na minha cabeça. Isso revelou-se muito cedo. Saí de Portugal sozinha porque nunca me senti presa a lado nenhum. Adoro viajar, ouvir outras línguas, provar comidas diferentes, observar costumes diferentes. Nem consigo imaginar a minha vida de outra forma. Todas estas mudanças de país foram decisões deliberadas e necessárias para o meu enriquecimento pessoal e artístico.

Estudou Argumento e Realização na New York Film Academy (NYFA) e na School Of Visual Arts (SVA). Qual foi a maior aprendizagem dos cursos?

Na NYFA aprendi muitas técnicas de escrita e a trabalhar sobre pressão e depressa. Tal como esta cidade exige! Tínhamos de criar histórias na hora, dar feedback aos colegas, escrever longas (metragens), tudo em tempo recorde. Na SVA, aprendi a colaborar em equipa e a ser praticamente a única mulher no set de filmagens. Mas quero relembrar que não são cursos em NYC que nos tornam especiais. É a nossa determinação em fazer e arriscar.

Quais são os maiores desafios da cidade que nunca dorme, para quem quer vingar nesta área?

Existe uma dureza inerente ao ritmo em que esta cidade se move. Mas acredito que, associadas a essa dureza, existem mais oportunidades. O facto de haver tantos artistas concentrados em tão poucos quilómetros quadrados aumenta o nosso sentido de comunidade. Somos uma comunidade jovem e sedenta que se encontra constantemente e se apoia nos diversos projectos. Por exemplo, posso ir dar uma ajuda a um amigo que precisa de filmar alguma coisa e ele pede-me para o ajudar a escrever uma curta. Criamos simbioses muito mais facilmente.

As curtas-metragens All I Want e Ao Telefone com Deus são dos seus primeiros projetos. Como correram essas aventuras na realização?

No filme Ao Telefone com Deus, as filmagens foram muito duras devido ao calor extremo no Algarve. Mas era uma história que tinha escrito em Nova Iorque e vê-la nascer na minha pequena terra algarvia, a Fuseta, foi um momento muito especial para mim. O meu último filme, Se Poirot Estivesse Aqui, já correu de forma mais tranquila, pois tivemos mais tempo para a pré-produção e como filmámos no interior, tudo foi mais contido. Mas faz parte de aprendizagens que levamos connosco para a próxima aventura.

Se Poirot Estivesse Aqui está em pós-produção. De que trata esta curta? E como surgiu a ideia do argumento?

Na adolescência li de uma assentada os livros de Sir Arthur Conan Doyle e de Agatha Christie. As personagens Sherlock Holmes e Hercule Poirot fazem parte da minha vida e decidi criar uma personagem feminina que fosse igualmente fanática pelos detetives. Como tinha limitações de tempo, espaço e budget, decidi criar uma história divertida que se passasse apenas num local, numa casa. Assim temos um jovem casal, (Mariana Monteiro e Eduardo Frazão), ambos lunáticos, que recebem uma misteriosa convidada (Cucha Carvalheiro) que nunca mais se vai embora.

Está a escrever um livro que reúne 25 mulheres realizadoras. Como surgiu essa ideia?

Fui convidada para um evento de Mulheres nos Audiovisuais de Danilo Godoy. Quando perguntei ao público nomes de mulheres realizadoras, mencionaram quatro ou cinco nomes e pesou um silêncio embaraçoso. Incrédula, cheguei a casa e decidi escrever um livro sobre 25 mulheres realizadoras merecedoras de atenção. Não porque são apenas mulheres, mas porque as suas obras e os seus percursos merecem ser conhecidos pelo público. Desde Haifaa Al-Mansour (Irao), Ildikó Enyedi (Hungria), Agnès Varda (França), Naomi Kawase (Japao), Lynne Ramsay (Escócia), a lista é extensa.

Qual é o objetivo derradeiro desse livro?

Dar a conhecer trabalhos de mulheres realizadoras para que sirva de inspiração a jovens mulheres (e homens também) nesta área. Existe lugar para todos, independentemente do género. Estas mulheres não desistiram e quebraram barreiras na sua arte. Merecem ser relembradas, conhecidas, faladas. Está a ser um processo catárctico para mim e é apenas a ponta do icebergue.

Numa indústria ainda dominada pelos homens, quais são os maiores desafios que as mulheres enfrentam na luta pelo equilíbrio?

No outro dia li esta frase: "If you don’t have a seat at the table, built your own table." Ou seja, se não nos dão oportunidades, temos de criar as nossas próprias. Se tivermos mais mulheres como produtoras executivas dispostas a apostar em realizadoras, argumentistas, diretoras de fotografia, diretoras de som, diretoras de arte, etc., inevitavelmente haverá uma maior homogenia de género nos sets e consequentemente nos filmes produzidos e distribuídos.

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