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"Eu cheguei a um ponto que disse que bastava", testemunhos de violência contra as mulheres

Nas vésperas do Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, que se assinala a 25 de novembro, a Máxima recolheu dois testemunhos de violência doméstica que são também histórias de esperança e determinação.
Por Carolina Carvalho, 23.11.2018

"As mulheres podem mudar. Basta quererem"

Testemunho de uma mulher, de 34 anos, proferido sob anonimato.

"Conheci uma pessoa com a qual acabei por me juntar porque eu trabalhava e precisava de alguém que tomasse conta dos meus filhos. O tempo foi passando, essa pessoa sabia que eu não queria ter mais filhos, mas ele queria ter filhos. Havia qualquer coisa que eu ainda não tinha percebido, bem ao certo, o que seria. A minha filha fugiu duas vezes de casa, foi dormir para casa de uma vizinha e depois foi descoberto que tinha uma depressão e não percebia porquê. Entretanto, eu soube que estava grávida com quase seis meses. Já tinha três filhos, mas só dois é que estavam comigo. Tive a bebé e ele arranjou trabalho, porque estava desempregado, então começou a sentir-se um senhor e as coisas foram piorando desde que a bebé nasceu. Ele começou a bater-me, à frente dos meninos também. Muitas vezes ele batia na minha filha, até com um cinto. Entretanto, eu comecei a trabalhar, mas ele queria que eu tomasse conta da bebé. Eu queria trabalhar e, por isso, larguei um trabalho por turnos e comecei a trabalhar noutro local. Cheguei a pagar a uma ama, a um infantário, a renda da casa, a água, a luz e ainda a comida. As coisas foram piorando e eu descobri que tinha um mioma com quistos e não podia fazer esforços e ele batalhava para que eu ficasse em casa a tomar conta dos filhos, com quem eu já tinha pouco contacto porque quando chegavam a casa tinham de ir para o quarto, não podiam andar pela casa, tinham de pedir para ir à casa de banho e até para beber água… Eu cheguei a um ponto que disse que bastava. Fui pedir ajuda à Polícia e estive numa instituição, mas ele não me deixou levar a bebé. Entretanto, eu voltei para casa por causa da bebé e foi um caos. Eu vivi um inferno. Ele chegava do trabalho e usava-me. Cheguei ao ponto de não me vestir em casa e de não tomar banho. O meu filho foi para a escola e disse tudo o que ouvia o padrasto dizer em casa. A professora chamou-me à escola e contou-me o que se passava. Eu senti vergonha. Num dia em que o meu filho tinha psicóloga, fui lá e contei-lhe tudo o que se estava a passar. Ela disse-me: ‘Não pode estar nesta situação. Eu vou ajudá-la.’ Falou com uma doutora da proteção de menores que passou o caso a outra doutora e combinámos que me iria buscar no dia seguinte. Disse-me para eu fazer a minha vida normal, como se nada tivesse acontecido. Eu não podia fazer a mala, nem nada, e não dormi nessa noite. Fui para uma instituição onde estou bem, tenho o meu trabalho e tenho os meus três filhos comigo. Antes, eu não vestia saias, vestidos e tops e agora visto. Antes, eu talvez fosse uma pessoa triste, mas agora sinto-me uma pessoa alegre que olha em frente. As mulheres podem mudar. Basta quererem e darem o primeiro passo. Não se devem prender pelos filhos porque eles não são uma ‘prisão’, como se julga. Eu tenho os meus três filhos comigo e eles não me prendem nada. Pelo contrário, fortalecemo-nos uns aos outros."

"A ajuda existe e é possível"

Testemunho de Ângela, de 48 anos, proferido numa Casa Abrigo da UMAR.

"Eu fui vítima de violência doméstica continuada durante um período de dez anos, numa relação de união de facto. Vivi todo um conjunto de violência doméstica de privação de liberdade e de contactos familiares e não tinha ordem para decidir nada, nem para trabalhar. Eu não tinha escolhas. Era uma refém do meu companheiro, numa relação obsessiva de ciúmes e de possessão. Também era vítima de violência sexual e de abusos que o agressor filmava e utilizava para me chantagear. Ele tinha uma perversão e tudo para ele se resumia ao sexo. Na altura, nós vivíamos na casa do pai dele e eu tinha o meu filho mais velho a viver comigo. Temos um filho em comum, que tem agora oito anos, e que é um menino especial.

Se ele [o companheiro] queria tinha de acontecer. Ele trabalhava por turnos e não saía sem satisfazer os desejos [sexuais] e, se viesse do turno da tarde, era igual. Não se importava com nada que se passasse à vota dele. Tudo o que ele queria, assim como na vida sexual, ele conseguia porque podia e mandava. É muito importante que se divulgue, nos dias de hoje, a violência doméstica nestes contextos porque cárcere privado é crime e os abusos sexuais continuados são crime. Quando cheguei ao meu limite estava um ‘farrapo humano’… Já não era uma mulher. Negligenciava tudo, até a minha higiene pessoal e estive meses sem tomar banho. Quando me apercebi disso e olhei para o meu corpo imundo no espelho do quarto entrei em choque. Houve uma desistência de viver, mas sem pensar em suicídio. Eu cheguei a pensar que não aguentava e que as intenções dele eram que eu desse cabo da minha vida. Seria mais fácil para ele. Eu tinha um filho especial e menor de idade e era 12 anos mais velha do que ele.

Cheguei a um ponto em que uma rapariga com quem mantenho uma relação de afinidade, como se fosse uma irmã, não aguentou mais o meu sofrimento e fez uma denúncia à PSP acerca da minha situação. Eu sempre tive dificuldade para apresentar queixa porque ele privava-me de telemóvel, de telefone fixo e de ter dinheiro na carteira. Eu apresentei a queixa sem ter consciência de que era uma vítima de violência doméstica porque pensamos sempre esta violência como agressão física. A ajuda existe e é possível. Há sempre uma vida e temos de acreditar em nós. Existem casas de abrigo e bons equipamentos. Hoje em dia, infelizmente, ainda se deturpa o ambiente que se vive dentro do equipamento para vítimas de violência doméstica. Isto é errado. Eu estou há 18 meses neste equipamento, construí aqui a minha paz, percebi a força que eu tenho e deram-me todas as ferramentas para construir a minha escada [de salvação]. Nós que estamos nestes equipamentos temos de passar uma mensagem de otimismo. A minha mãe está a viver comigo, há um ano e meio, mas se ela não tivesse podido estar comigo eu ficava cá e aguentava. Agora estou a viver uma vida nova com o meu filho e a minha mãe, de 82 anos."

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