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Elsa Punset: “Deveria ser-nos ensinado que temos um cérebro criativo capaz de mudar e melhorar qualquer aspeto da nossa vida”

Há pelo menos 250 passos simples que podemos pôr em prática para mudar, segundo a especialista em inteligência emocional Elsa Punset. Conversámos com a autora espanhola de O Livro das Pequenas Revoluções, que esteve em Lisboa a apresentar a obra.
Por Rita Silva Avelar, 19.02.2018

Autora de livros como Bússola para Navegadores Emocionais (2008), Inocência Radical (2009), Uma Mochila para o Universo (2012) e O Mundo nas Suas Mãos (2014), a especialista em inteligência emocional, escritora e jornalista Elsa Punset achou que faltava escrever um livro sobre uma das coisas que considera ser primordiais na vida do ser humano: aprender a mudar. Em O Livro das Pequenas Revoluções (editado pela Planeta) compilou 250 pequenos passos que ensinam a mudança pensada de forma lenta mas eficaz. O livro, que é acompanhado de frases inspiradoras, imagens e exercícios, pode ser visto como um diário ou como um guia prático para mudar. Conversámos com a autora no Hotel Flórida, em Lisboa, antes da sua apresentação do livro em Portugal.

De que forma surgiu a ideia de escrever este livro?

A ideia do livro surgiu há dois ou três anos quando estava num aeroporto e peguei num livro grande de saúde, e ao abri-lo descobri que mostrava rotinas de cinco minutos para ter uma barriga lisa, por exemplo, sendo que todas eram de leitura fácil e estavam acompanhadas de imagens. Isso fez-me pensar que ao longo do século XX aprendemos a cuidar muito bem do corpo humano, mas o mesmo não se passa com a mente. Por isso quis fazer um livro que fosse igual àquele, mas com pequenas rotinas que ajudassem as pessoas a mudar. Com temas como a forma como nos relacionamos com os outros, de que forma tomamos uma posição, como questionamos as decisões mais difíceis, como lidamos com a ira ou com a tristeza, de que forma potenciamos a criatividade… o que acabou por dar origem a 250 formas de mudar.

Porque é que quando se pensa em mudança há uma associação imediata à passagem do ano? Afinal, todos os dias são bons para mudar. Certo?

No livro não menciono tempo… Em janeiro, geralmente as pessoas fazem planos de mudança, como mudar de trabalho ou mudar de companheiro, mas isso é tudo demasiado grande. É preciso aprender a pôr em prática a mudança através de pequenos passos. Há um capítulo no livro relacionado com a filosofia de produtividade e com o conceito de mudança dos japoneses que se chama Kaizen [a palavra significa "uma boa mudança"] e que exemplifica mudanças minúsculas e concretas, que podemos fazer todos os dias. É uma forma de não cansarmos o nosso cérebro e de pormos em prática estas pequenas revoluções.

Porque é que as pessoas são resistentes à mudança?

É natural que as pessoas tenham resistência quando se fala em mudança. Estas coisas não se ensinam nas escolas. Deveria ser-nos ensinado que temos um cérebro criativo que é capaz de mudar e melhorar qualquer aspeto da nossa vida. As escolas dão as capacidades cognitivas, linguísticas, matemáticas… mas não ensinam a modelar e questionar a nossa personalidade. É possível melhorar coisas como o otimismo, a criatividade ou a serenidade. O cérebro humano interpreta a mudança como uma perda e, consequentemente, invade-nos um sentimento de medo com essa possível perda. E, por outro lado, a mudança exige esforço, porque quando o cérebro humano se acostuma a fazer algo de uma forma não quer mudar. É mais económico para o cérebro aprender a fazer as coisas de uma maneira e repeti-las sempre e a mudança que mais custa é sempre a maior.

Qual é o primeiro passo para qualquer mudança?

Diria que conhecer-se. Por isso dediquei a primeira parte do livro a isso mesmo, a mostrar como é que podemos cuidar de nós mesmos, aprender a dar um nome às emoções (aquilo a que chamamos a alfabetização emocional). Aprender como somos é uma viagem bonita e o livro ajuda nessa parte da viagem porque também espaços para que as pessoas possam escrever, é quase um livro-caderno. E nele pretendo ensinar que todas as emoções podem ser ricas, não há más nem boas. Em pequenos ensinam-nos que há emoções positivas, as que nos dão prazer, e emoções negativas, que são as que nos magoam, mas não é assim. Porque a tristeza, o medo e a ira não são emoções más, podem ser úteis, depende é da forma como as utilizamos. Isso é que faz a diferença. No livro destaco estas emoções para mostrar que podemos questioná-las, dar-lhes um nome e utilizá-las de uma forma boa.

Quais são os passos de que as pessoas mais precisam, hoje em dia?

Todos os que se relacionam com a superação de problemas. A vida não é fácil, por isso é importante reforçarmos as emoções positivas com as pessoas à nossa volta, isso é fundamental para nos ajudar com tudo o resto. Equilibrar a mania do cérebro focar mais a negatividade do que a positividade também é uma das grandes necessidades da sociedade – porque é que à noite, antes de dormirmos, nos recordamos mais de situações negativas?

Quais são os argumentos mais usados para resistir à mudança?

A maior parte das pessoas nem diz que não quer mudar mas sim que não sabe ou que não pode. "Falta-me dinheiro", "não tenho o apoio dos meus amigos" ou "eu sou assim" são expressões comummente usadas. Foram feitos vários estudos com pessoas bem-sucedidas (a que muitas vezes chamamos de "pessoas com sorte") e basicamente descobriu-se que essas pessoas o que têm é uma grande capacidade de reconhecer e gerar mudanças, atrevem-se a parar alguém na rua que tenham reconhecido e pedir-lhe algo ou que vão a uma festa e decidem que vão falar com todas as pessoas que estejam a usar uma peça vermelha, por exemplo. São pessoas que, de uma forma sistemática, procuram encontrar coisas novas e integrá-las na sua vida.

É essencial pôr por escrito as nossas motivações?

É útil escrever. Em geral, recordamo-nos mais do que escrevemos à mão, mais do que a teclar no computador. E como humanos, somos muito sociais, por isso o que mais nos ajuda é falar. Mas há coisas que não nos atrevemos a falar com a outra pessoa, por isso escrever num livro como este é uma forma de escrever com segurança, se o guardarmos só para nós. Todos os estudos dizem que escrever é bom e terapêutico.

Qual é a sua frase motivacional preferida?

"Sorrir. Respirar. Ir devagar" do mestre zen budista Thich Nhat Hanh é uma das que destaco no livro e uma das mais simples e mais bonitas.

O Livro das Pequenas Revoluções, de Elsa Punset, já está à venda nas livrarias portuguesas por €19,95 (Planeta).

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