Artes

Catarina Furtado: "Ao fim destes 28 anos em Televisão, ainda choro como se fosse a primeira vez"

Apresentadora, atriz e documentarista, abençoada por uma beleza natural e por uma graciosidade genuína, Catarina Furtado é um dos rostos do trigésimo aniversário da Máxima.
Por Rita Silva Avelar, 29.11.2018
Antes da apresentadora ou da atriz, há uma Catarina Furtado humanitária. Conhecemo-la como um dos rostos mais carinhosos e acarinhados da televisão portuguesa em programas de entretenimento como Chuva de Estrelas, mas também como atriz em filmes como Animal (2005), de  Rose Bosch. O glamour anda lado a lado com a luta que Catarina tem travado pela igualdade de género, por melhores condições de saúde pública, pelo término das violações a crianças e a mulheres, e pelo afincado combate à erradicação da fome como embaixadora da Boa Vontade do UNFPA. Apresentadora na RTP e fundadora da associação Corações com Coroa, que promove a cultura de solidariedade, igualdade de oportunidades e inclusão de pessoas em situações de vulnerabilidade, risco ou pobreza, Catarina Furtado é mais do que uma comunicadora completa: com ou sem megafone, é porta-voz da Paz, de Portugal para o mundo.

Apresentadora, atriz e documentarista, abençoada por uma beleza natural e por uma graciosidade genuína, Catarina Furtado entra no estúdio fotográfico onde se desenrola a produção para este número, ao meio-dia de uma sexta-feira. E fá-lo com um sorriso infungível que nos transmite, desde logo, tranquilidade. Assim que entra no estúdio, o seu telemóvel não para de tocar: as responsabilidades da associação Corações com Coroa, da qual é fundadora, desde 2012, não esperam, nem têm dias de folga. Nascida em Lisboa, Catarina Furtado iniciou o seu percurso profissional na RTP, onde está hoje, e no começo da sua carreira os portugueses chamavam-na, com carinho, "A namoradinha de Portugal". Hoje, rotulá-la assim seria reduzi-la a apenas mais um rosto na televisão nacional. A consciência que Catarina tem do Mundo e das suas necessidades espelha-se no cargo (um convite) que detém, desde 2000, no Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), como Embaixadora da Boa Vontade. Emitida há mais de uma década, a série documental Príncipes do Nada, dedicada ao trabalho na área do desenvolvimento humano nos países em vias de desenvolvimento e em Portugal, é um dos seus projetos preferidos. É também autora de quatro documentários Dar Vida sem Morrer, na Guiné-Bissau. Mas Catarina também tem dado cartas na representação: entre filmes, telenovelas e séries, participou em mais de trinta projetos. Atrás ou à frente da câmara, ali está sempre Catarina.

Catarina, nenhum percurso na Televisão é igual. A comunicação aprende-se ou tem de ser inata?
Há comunicadores e comunicadores. Há aqueles que aprenderam a ser, fazem disso a sua profissão e têm o seu sucesso, ainda que eu acredite, convictamente, que os verdadeiros comunicadores não são aqueles que trabalham muito, mas são aqueles que nasceram com uma vontade imensa de falar para os outros, de contar histórias, de quererem ser ouvidos e de estar perante um público, seja ele qual for.

Em pequena, a ver Televisão, já se imaginava do outro lado do ecrã?
Eu era muito tímida e, só mais tarde, depois de frequentar uma escola de artes – neste caso, o Conservatório [Nacional de Lisboa] – e de ter começado com a dança, é que eu percebi que o corpo era um instrumento de comunicação para mim. Inevitavelmente, eu queria "falar" com o corpo e, só mais tarde, lhe juntei a voz. Foi um trabalho que exigiu que eu lutasse contra a minha timidez, o que não significa que tenha sido feito em contradição com a espontaneidade. A espontaneidade é algo que o espectador, passados alguns anos, sabe ver se é falsa ou não.

Esse colocar da voz, depois do "corpo", foi algo crucial para construir a apresentadora que é hoje?
Foi muito natural… Hoje, há muitos cursos dentro da área e no meu tempo não havia. Eu comecei com o programa Top+ para a RTP. Não existia a TVI ou a SIC. Quando fui convidada para a SIC, havia umas aulas sobre postura em frente à câmara e como eu provinha da dança tinha, e ainda tenho, este "vício" de gesticular com os braços. É uma coisa muito minha. Na altura, o professor que nos deu aulas dizia-me que eu tinha de ser muito mais contida nos meus gestos… E eu ouvi, mas verdadeiramente percebi que não poderia ir contra a minha forma natural de comunicar… É claro que haveria sempre pessoas a gostar ou a não gostar. Eu tinha de ser eu mesma e ao fim destes 28 anos ainda choro [com os programas] como se fosse a primeira vez.

Qual foi o projeto mais desafiante na Televisão, até hoje?
É engraçado que a ideia que as pessoas têm de mim varia conforme a faixa etária. As pessoas mais velhas param-me na rua para falar do Caça ao Tesouro e do Chuva de Estrelas e os mais novos referem-se mais ao The Voice ou sobre os meus documentários. No entanto, eu tenho a sensação de que as pessoas acham que estou sempre ligada aos programas com glamour e com sofisticação. As pessoas que seguem o meu outro lado… Se tiver de fazer essa difícil e injusta escolha de um projeto, selecionaria sempre os primeiros porque são esses que nos formatam.

E um projeto do "coração"?
Se eu tivesse de destacar um formato, ao longo destes anos, teria de dizer que são os documentários Príncipes do Nada que eu faço nos países em desenvolvimento e que são da minha co-autoria. São escritos e feitos por mim e nada têm a ver com esse glamour e essa suposta inacessibilidade. O derradeiro objetivo desses documentários foi sempre relatar a vida, a realidade destes países, nas áreas da saúde, da igualdade de oportunidades, da igualdade de género, da educação, das violações com base no género e da discriminação.

Como é que se seguram as lágrimas a fazer documentários como esses?
Esta oportunidade agitou-me muito porque me pôs a pensar se eu estaria à altura. Ao mesmo tempo, obrigou-me a estudar muito o mundo em geral e o mundo em desenvolvimento em particular. Das primeiras vezes que eu fui ao terreno, foram autênticos "murros no estômago". Eu durmo nas tabancas (aldeias) desses países com as pessoas que lá vivem, das quais, muitas delas, me despeço por mortes evitáveis. É uma enorme luta interior entre a indignação, a constatação de que as coisas poderiam estar muito melhor se nós, humanos, quiséssemos. E depois voltar para o meu mundo fantástico, onde eu faço exatamente o que quero e onde tenho exatamente a vida que queria. Esse confronto é difícil. O que eu entendi é que essa equação tem de ser feita de forma permanente porque é por ter este privilégio de vida e por trabalhar muito num meio em que gosto que eu posso depois dar o outro lado.

Essa equação fá-la feliz?
Há uma recompensa no sentido em que há uma harmonia. Eu percebo que de uma outra forma eu não teria tanta possibilidade de apoiar, de "mover montanhas" e de levantar projetos. E mesmo a [associação] Corações com Coroa não teria tantos cúmplices, amigos e patrocinadores. Essa equação traz-me alguma paz e continua a fazer-me mexer.

Ao longo destas últimas décadas, o que mudou na televisão portuguesa? O que se perdeu e o que se ganhou?
Essa pergunta é muito difícil. Eu não sou muito nostálgica ou de dizer que no meu tempo é que era. Ganhou-se imenso com as estações privadas… Ganhou-se mais criatividade, mais profissionais, mais trabalho, mais estímulos criativos e competitividade. A Televisão é indissociável do mundo e da sua evolução, e [por isso] também tem sofrido muito com todas as plataformas paralelas à própria Televisão, tais como as redes sociais.

E algo menos bom?
Perdeu-se disponibilidade para se ouvir. O tempo em televisão é outro. Antes, havia tempo em televisão para se estar a conversar e, agora, uma conversa de dez minutos já é uma grande entrevista.

No que respeita à Televisão, há ainda um desequilíbrio no reconhecimento do prestígio das mulheres nesta área?
Sim, há ainda uma enorme discrepância e disparidade salarial. Tem estado a melhorar, mas é um trabalho que está longe de estar concluído. Para que isso seja possível tem de haver uma noção muito clara, da parte das mulheres e dos homens, de que existe este trajeto a ser feito. É inevitável que isso tenha como conclusão uma maior igualdade de oportunidades e um acrescento na economia. Está mais que provado com equações que têm sido feitas.

Qual o melhor conselho que daria a uma mulher?
É que não deixem, nunca, perpetuar uma frase batida que diz que as mulheres não gostam umas das outras.
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