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Mulheres solteiras depois dos 30: continua a ser tabu?

O documentário Singled Out conta a história de cinco mulheres solteiras, de quatro países diferentes, que estão à procura do seu lugar num mundo onde permanecer solteira ainda é um tabu.
Por Andreia Rodrigues, 16.02.2018
A história de duas realizadoras espanholas que pensaram num documentário para que "as mulheres solteiras parem de se perguntar onde falharam" começa em 2013. Mariona Guiu, uma das realizadoras, estava sozinha sem entender o motivo e a obsessão em arranjar alguém na sua vida amorosa estava a impedi-la de viver uma vida completa como mulher independente. Na altura, sentia que algumas amigas viviam com a mesma inquietação. Assim, Guiu decidiu parar a sua busca por um homem e foi, ao invés, à procura de respostas. Começou por falar com a melhor amiga e colega realizadora, Ariadna Relea. Juntas foram viajar pelo mundo para falar com outras mulheres solteiras e entrevistaram vários especialistas. Nas suas viagens, descobriram que as suas preocupações também assolam muitas outras mulheres.

À conversa com os especialistas, descobriram que as relações modernas estão numa encruzilhada, pois as mulheres estão mais independentes do que nunca a nível económico, têm mais opções de vida e o número de mulheres solteiras com nível alto de educação está a subir. Um dos entrevistados para o documentário, que se chama Singled Out, o demógrafo espanhol Albert Esteve, explica que, com a entrada da mulher no mercado de trabalho, esta já não sente a mesma necessidade de se casar. "O acesso das mulheres ao mercado de trabalho muda tudo. Escolher estar com alguém é uma opção e não tanto uma necessidade e isso modifica os parâmetros nos quais as relações heterossexuais se basearam até agora."

Singled Out conta assim a história de cinco mulheres solteiras, de quatro países (Austrália, China, Turquia e Espanha), que estão à procura do seu lugar num mundo onde permanecer solteira ainda é um tabu. Uma das histórias é a de Jules, de 30 anos, que vive uma vida independente em Melbourne, na Austrália, e procura o Mr. Right online. Depois de namorar com vários homens que se revelaram errados, Jules usa agora as histórias e frustrações dos seus relacionamentos e começou uma carreira como comediante de stand-up.
Já Melek nasceu numa pequena cidade perto da fronteira com a Grécia e mudou-se para Istambul, onde vive sozinha. É filha de um imã progressista que faleceu recentemente e, apesar do estigma à volta das mulheres solteiras, o pai sempre a encorajou a ter uma educação e a sair da cidade onde nascera. Agora, aos 28 anos, Melek sente a pressão para que volte para casa e renuncie à sua vida urbana e independente, pois a família e os amigos acreditam que deve viver sob a proteção de um homem.

É também documentado o caso de Yang, uma advogada bem-sucedida com o seu próprio escritório de advocacia. Aos 35 anos, e depois de sempre ter priorizado o trabalho, recusa-se a baixar as suas expectativas só para encontrar um marido. Mas na China, mulheres que não são casadas com mais de 30 anos são rotuladas de shengnu, que em português pode ser interpretado como "sobras". Apesar de ser bem-sucedida a nível financeiro, a família não aceita as suas escolhas de vida, em especial a mãe. "A minha mãe disse-me que se não me casar este ano, não sou bem-vinda para ficar em casa."
Shu é uma empreendedora, com a sua própria marca de cosméticos. Depois de viver em Paris durante vários anos, agora, de volta a Xangai, tem dificuldade em relacionar-se com homens chineses. Aos 34 anos, vive com a ansiedade de ter de se justificar sobre a sua vida como solteira em frente à família.
E, por fim, a história de Manu, que tem 40 anos, é professora no ensino secundário, DJ e designer de moda. Solteira há já vários anos e a sentir o peso da idade, opta por tentar engravidar através de métodos artificiais, mas não desistiu de ter um relacionamento.

Uma das entrevistadas foi a socióloga australiana Eva Cox, que refere que existem "mitos muito enraizados que as mulheres assumem, como o de que se não queremos ter um companheiro é porque algo está mal, que se não conseguimos encontrar uma pessoa é porque erramos em alguma coisa". As realizadoras lamentam que a "cultura do apego" continue "muito enraizada" e defendem que é necessário "romper de uma vez por todas com este estigma".

Em última instância, o documentário - que foi produzido com o apoio de uma campanha de crowfunding lançada na plataforma Kickstarter em 2017 - explora o que significa ser mulher solteira numa altura em que a independência e a escolha estão a aumentar. Para já, sabe-se que pode chegar aos cinemas em meados de 2018.
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