Música

O rock no feminino

Paridade? Nem pensar. Agora que se celebram as seis décadas do rock’n’roll, este continua a ser um feudo masculino, dando pouca voz às mulheres e muitos instrumentos aos homens.
Por João Gobern, 11.06.2018

Em outubro de 1985, já o rock ia alto, foi lançado um single que, com um sentido unívoco e inequívoco, juntava o melhor de dois mundos: chamava-se Sisters Are Doin’ It For Themselves e fazia congregar as vozes de Annie Lennox e de Aretha Franklin. Vencia-se o conflito de gerações (a norte-americana e a escocesa estão separadas por uma dúzia de anos de idade), esbatia-se a amplitude geográfica (a mais velha nasceu em Memphis, no Tennessee, e a mais nova em Aberdeen, na Escócia), aproximavam-se fraternalmente duas escolas musicais até então com poucos pontos de contacto – de um lado a soul vibrante dos metais, do outro a pop que, originalmente, parecia nascer quase sempre dos sintetizadores. A canção já tinha sido incluída em dois álbuns, primeiro Be Yourself Tonight, dos Eurythmics, depois Who’s Zoomin’ Who, de Aretha. Mas a ideia de a lançar de forma autónoma reforçou a ideia de um manifesto que, ao longo dos tempos, serviria de plataforma à exaltação da condição feminina. Basta referir que depois da gravação original se multiplicaram as versões, de palco ou de estúdio, entregues às Spice Girls, às Pointer Sisters, às irmãs Minogue (Kylie e Danii) e até a um quarteto formado por Christina Aguilera, Martina McBride, Florence Welch e Jennifer Hudson. Proclamava-se, na cantiga, o fim dos tempos em que houvera cabimento à frase "Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher". As "irmãs" anunciavam o abandono da cozinha, a celebração da consciência, a libertação. Mais: defendiam-se com a crescente presença das mulheres na Política, na Justiça, na Medicina – e, no videoclip, além da presença das duas cantoras perante uma plateia "do sexo fraco", lá apareciam Golda Meir, Indira Gandhi, as sufragistas, as mulheres nas mais diversas profissões, as mudanças de costumes que protagonizavam e lideravam. A canção é, ainda hoje, poderosa e empolgante. Só que, com todas as mudanças até aos nossos dias, não conseguiu fazer milagres em casa. Ou seja, o universo rock continuou a estar demasiado próximo do "clube do Bolinha" onde, já se sabe, "menina não entra".

Para suportar esta ideia, basta tentarmos um pouco além do "simbolismo" de duas eleições muito significativas da insuspeita revista Rolling Stone, durante décadas uma espécie de bíblia da cultura rock. Recorrendo aos seus especialistas e a alguns "praticantes", escolheu os 100 melhores escritores (e compositores) de canções – da idade e do âmbito alargado do rock, pressupõe-se. Que Bob Dylan tenha triunfado, não constitui surpresa para ninguém, tal como não espantam os lugares de pódio entregues a dois ex-Beatles, Paul McCartney e John Lennon. Mas e as damas que aqui nos trazem? A primeira a aparecer é (pasme-se) Carole King, em sétimo lugar, mesmo assim sujeita a um "protetorado masculino" representado pelo parceiro (e marido, a certa altura) Gerry Goffin. A gracinha repete-se com Ellie Greenwich (19.º), encostada a Jeff Barry, com Valerie Simpson (83.º) ligada a Nicholas Ashford, com Cynthia Weill (88.º) dependente de Barry Mann e com Missy Elliott (96.º) amarrada a Timbaland. Onde ficam então as "mulheres emancipadas"? Os dedos das duas mãos chegam para enumerar aquelas que ganham direito a ombrear com os pares masculinos. O destaque vai, naturalmente, para Joni Mitchell, uma verdadeira "intrometida" no reino dos machos, ao conseguir colocar-se entre os "dez mais" (9.º), provavelmente por causa das paixões transversais que sempre suscitou, com admiradores em múltiplos quintais da música – de Herbie Hancock a Prince, de Seal aos Counting Crows. Até atingirmos a metade da tabela, só há mais uma personalidade feminina – Dolly Parton (31.º). Todas as outras – e não são muitas, como se verá – ficam remetidas para a "zona baixa". Ou seja, acabam confinadas à famosa ideia "de sorriso amarelo" que determina que o importante é mesmo participar. Ei-las, por classificação decrescente: Stevie Nicks, Madonna, Chrissie Hynde (Pretenders), Patti Smith (em 74.º lugar, valha-nos Deus!), Loretta Lynn, Lucinda Williams, Björk e Taylor Swift. No total, são dez em cem. Não se venha, portanto, falar de paridade, que é coisa que não existe por estas bandas, conclusão que se torna mais categórica quando, sem esforço, se descobre, pelo menos, mais uma dúzia de nomes que merecia entrar na discussão e, muito provavelmente, nesta tabela de valores. Por favor, sigam as hipóteses apresentadas por ordem alfabética e não por hierarquia de méritos, desligadas também de qualquer filiação estética de exclusão: Alanis Morissette, Annie Lennox, Carly Simon, Emmylou Harris, Joan Armatrading, Kate Bush, K.D. Lang, PJ Harvey, Rickie Lee Jones, Sandy Denny, Suzanne Vega ou Tori Amos. Isto para não nos estendermos a zonas mais radicais e "inóspitas", como as que podem ser representadas por Laurie Anderson ou Meshell Ndegeocello.

Os "pecados" da Rolling Stonenão ficam por aqui: se há algum instrumento que serve de porta-bandeira ou porta-estandarte ao rock, esse instrumento é mesmo a guitarra, nervosa, inquieta, capaz de embalar ou de mobilizar para uma qualquer luta. Pois na escolha dos 100 melhores guitarristas de sempre, onde dominam os Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page desta vida, temos tempo até de "passar pelas brasas" até surgir a primeira mulher (surge em 75.º lugar…), outra vez a canadiana Joni Mitchell, muito mais autora de génio do que virtuosa da técnica. Para não deixar sozinha a criadora de Court and Spark, os jurados são generosíssimos e juntam mais uma dama, Bonnie Raitt, em posto ainda mais modesto (89.º). E é tudo. E em 2 por cento de vergonha, não é nada.

A culpa foi da Yoko

Vale a pena voltar a viajar no tempo e convocar, de novo e sempre, John Lennon. Em 1972, o recente ex-Beatle lançava o álbum Some Time In New York City, provavelmente um dos seus discos mais interventivos de sempre. Apontava aos abusos policiais (nas canções Attica Statee Born In Prison), à situação colonial exercida sobre os irlandeses (em The Luck Of The Irish e Sunday Bloody Sunday, muitos anos antes do tema que ajudou à glória dos U2), ao perigo dos vícios estupefacientes (Cold Turkey). Mas, com Yoko Ono bem presente, também erguia a bandeira do Feminismo, tanto em Sisters, O Sisters, como, e sobretudo, na polémica Woman Is The Nigger Of The World, título corrosivo que parece dispensar tradução ao comparar a situação da mulher ao que a raça negra vivia, em especial nos Estados Unidos. Não custa, nem resvala para o exagero, fazer a transposição para a dimensão musical: ainda hoje, a mulher serve para ocupar a posição "negra" (passe a expressão e fique a ideia) no universo rock. Basta olhar para a própria Yoko que, sendo uma artista de méritos próprios, experimental, vanguardista e multidisciplinar, continua a correr o risco de passar à história como… a responsável pela separação (prematura ou inevitável?) dos The Beatles. A frase "a culpa foi da Yoko", sem autor reconhecido e sem uma verdade efetiva a sustentá-la, faz parte de todos os compêndios do rock ou, ao menos, da respetiva mitologia.

Saltemos para o caso de Chrissie Hynde, a dama "leather and lace" que veio inundar de perfume e de assertividade a época da new wave, no princípio da década de 1980, liderando os Pretenders e colecionando canções como Brass In Pocket, Precious, Kid, The Adultress, Talk Of The Town, Back In The Chain Gang ou Don’t Get Me Wrong. Apesar da mudança erradamente pressagiada, até uma autora desta estirpe carregou durante anos o fardo de ser mais apontada pelos seus amores e pelas suas relações – teve uma filha com Ray Davies, dos Kinks, e outra com Jim Kerr, dos Simple Minds –, até pelos seus hábitos vegetarianos, pela sua crença hinduísta, pelo seu costume de bem vestir, do que pelo seu desempenho como criadora. Noutro quadrante é fácil verificar outra diferença de tratamentos, consoante o género – basta puxar do arquivo o caso gritante de Britney Spears e da sua fase de desorientação e depressão. Rapou o cabelo, descuidou-se com a linha, entrou e saiu de instituições de reabilitação, transgrediu aquilo que se convencionou considerar o comportamento "normal". Não sendo o planeta rock virgem – longe disso – nestas matérias, o estigma atirado para as costas da cantora de Womanizer (um tema de denúncia do permitido abuso masculino) foi literalmente esmagador. Ao ponto de, ainda hoje, passada mais de uma década, as caricaturas teimarem em recuperar esse período. O que a um homem se perdoa, não se desculpa a uma mulher.

Eis uma tendência que ganha consequências até na projeção possível para uma mulher na sua perseguição ao estrelato – Tina Turner, Madonna, Patti Smith, Stevie Nicks, Cher, Sinéad O’Connor, Aimée Mann e Lady Gaga partilham a fama de feitios difíceis. Nalguns casos porque se atrevem, sem fintas nem hesitações, a comandar. Noutros porque aprenderam – com enormes custos – o quão difícil é aplicar, neste domínio das artes industriais, a velha máxima "A trabalho igual, salário igual". Ora, se este não é um problema exclusivo da Música e do rock (olhe-se, hoje, para Hollywood e perceba-se até que ponto as "assimetrias" estão enraizadas), acaba por valorizar, ainda mais, o papel pioneiro de mulheres como Janis Joplin ou Grace Slick (na fase Jefferson Airplane), em paralelo com algumas cantoras negras como Gladys Knight, Diana Ross e, sobretudo, Aretha Franklin, capazes de romper barreiras de preconceito e de se impor no "man’s man’s man’s world" cantado de forma categórica por James Brown. Mais uma vez, há uma canção para simbolizar essa era, ainda em progressão, e, mais uma vez, ficamos a devê-la a Lady Aretha Franklin: chama-se simplesmente Respect. Curioso é constatar que a versão original foi escrita e cantada por um homem, Otis Redding, em 1965. Mas, dois anos depois (há mais de meio século), Aretha deu "a volta ao texto" criando um hino de combate que salta, sem problemas, da relação doméstica para o convívio nos palcos, sob os projetores de luz. Um "movimento" que voltaria a sentir-se na sequência do punk com mulheres a assumirem a imagem predominante de bandas maioritariamente formadas por homens. Já se falou de Chrissie Hynde e dos Pretenders e convém não esquecer a sedutora Debbie Harry, nos Blondie, Poly Styrene, nos X-Ray Spex, Annie Lennox, nos Eurythmics, Siouxsie Sioux com os The Banshees, Annabella Lwin, nos Bow Wow Wow, Wendy James, nos Transvision Vamp, Tracy Tracy, nos The Primitives, Aimée Mann, nos ‘Til Tuesday, Marje Fredriksson, nos Roxette, Natalie Merchant, nos 10,000 Maniacs, Shirley Manson, nos Garbage, a malograda Dolores O’Riordan, nos The Cranberries, Gwen Stefani, nos No Doubt, e, mais recentemente, Brittany Howard, nos Alabama Shakes, Karen O, nos Yeah Yeah Yeahs, Alice Glass, nos Crystal Castles, ou Amy Lee, nos Evanescence. Cada uma ganhou destaque à sua maneira, seja ou fosse pelo papel de pin-up ou pela efetiva condução dos destinos coletivos. Mas marcando e somando, quase sempre, a imagem à essência.

Se eu fosse um rapaz…

Recupere-se o nome de Amy Lee, dos Evanescence, a menina que nos dá tonturas e suores frios em Bring Me To Life. Merece o destaque por ser uma das primeiras mulheres a dar cartas numa "área reservada" (ou "mais reservada" ainda…) em que as mulheres foram quase sempre elementos decorativos e sem abertura para deixarem uma válida impressão digital. Falamos do rock duro ou, se preferirem, daquilo que merece a designação genérica de metal. À semelhança do que sucedeu na época dourada do rock progressivo (prog rock), torna-se uma tarefa ciclópica descobrir um contributo mais sólido das mulheres nestas escolas. O que pode ter uma explicação quase trivial: se o metal se apresenta quase sempre com uma dose abundante (ou excessiva) de testosterona, o rock progressivo passa muito do seu tempo em alardes de virtuosismo técnico e em abordagens "filosóficas" do sexo… dos anjos.

Se corrermos as enciclopédias em busca de bandas exclusivamente femininas ? diante de uma lista de dúzia e meia que, em épocas, intensidades e geografias distintas nos passaram pelas mãos ?, é duro descobrir uma para juntar ao rol dos essenciais. A saber: Au Revoir Simone, Bangles, The Belle Stars, Coco Rosie, Dixie Chicks, First Aid Kit, Girlschool, The Go-Go’s, Indigo Girls, L7, Luscious Jackson, Marine Girls, The Raincoats, The Runaways, Shonen Knife, The Slits, Strawberry Switchblade e Two Nice Girls para concluir que se ficam pelo engraçado, pelo momento, pelo… quase. Tal não impede que os contributos femininos ganhem lugares no livro de ouro – olhe-se a energia desmedida de Tina Turner (o furacão que ensinou Mick Jagger a dançar), a única mulher da lista de estrelas internacionais que figura entre as que conquistaram estádios em Portugal. Anote-se o contributo poético e musical de uma Patti Smith ou de uma Joni Mitchell, bitolas de referência para tantas gerações, de tantos quadrantes, em tantas paragens. Registe-se o percurso, mais sinuoso mas cheio de pérolas, de Stevie Nicks ou de Bonnie Raitt. Aplaudam-se os esforços de coerência e de extrema acutilância de Courtney Love (outra viúva "maldita", como Yoko Ono) e de PJ Harvey ou de Pink. Sublinhem-se os combates de afirmação, com momentos notáveis, de Pat Benatar ou de Sheryl Crow. Recordem-se os índices de excelência de vozes que só foram efémeras no tempo de atividade, como as de Janis Joplin e de Amy Winehouse. Assinalem-se as investidas destemidas de Alanis Morissette, de Sarah McLachlan ou de Fiona Apple. Resgate-se o peso de uma voz única, só vergada pelos dramas pessoais, como a de Sinéad O’Connor. Exulte-se, enfim, com os roteiros iconográficos e mutantes de artistas que merecem ser levadas muito a sério, como Madonna, Kylie Minogue ou Lady Gaga. Quem não percebe ou não admite que há uma dimensão única, muito além da exposição do género, em muitas das canções de Kate Bush e de Suzanne Vega, carrega certamente alguma deficiência na sensibilidade.

Há que admitir que hoje a situação evoluiu, de alguma forma, ao ponto de – por exemplo – as mulheres terem conquistado um quinhão significativo no rap, durante anos dominado pelos machos, alfa ou nem tanto. Da mesma forma que parece muito significativo que duas das pontas de lança da atualidade sejam capazes de, tantas vezes e com tanta veemência, abordar as desigualdades entre sexos e as repetidas violências do "forte" sobre o "fraco" – é o que sucede com Beyoncé e Taylor Swift. Esta última sofreu um intenso processo de maturação, em tudo paralelo à criação de músculo que a afastou de uma fragilidade inicial, que agora (recorra-se ao disco Reputation, já deste ano) lhe permite figurar entre as comandantes de um exército que agita consciências e abala convenções práticas. Mais categórico será ainda o caso da líder negra que não dispensa apresentar-se insistentemente como objeto de desejo, mas nunca se fica pelas meias-palavras. Sem precisar de um garimpo muito intenso, a memória detém-se em Independent Women, Survivor (ambas da época com as Destiny’s Child), Irreplaceable, 6 Inch, Run The World (Girls), Pretty Heart, Sorry, Ring The Alarm, Single Ladies (Put A Ring On It) e, talvez acima de todos, If I Were A Boy, em que a mesma história de infidelidade e de pressão doméstica é contada nos dois sentidos, de uma forma brilhante. Sexo fraco? Estamos conversados… Duas notas finais: a primeira, para o caso único das russas Pussy Riot que fizeram do rock a arma de arremesso contra o regime de Vladimir Putin, dando uma lição de coragem aos seus parceiros masculinos. A história acabou mal, com prisões e condenações, mas o exemplo ficou para perdurar. A segunda, para não deixar esquecer que esta longa estrada, cheia de armadilhas e de sobressaltos, também passa por Portugal, de Lena d’Água a Capicua, com Midus, Xana (dentro e fora dos Rádio Macau), Áurea e a notável Rita Redshoes chamadas a terreiro. Se elas fossem rapazes…

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