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“Sempre trabalhei com homens feministas; e se eles não o eram, eu tornava-os”

A famosa editora italiana dos filmes de Bernardo Bertolucci, Gabriella Cristiani, conversou com a Máxima num rooftop, em Lisboa.
Por Rita Silva Avelar, 07.08.2018
É numa tarde quente de junho que nos sentamos no Hotel do Chiado, em pleno coração da Baixa lisboeta, para conversar com Gabriella Cristiani, editora de vários filmes de Bernardo Bertolucci, e uma das mulheres pioneiras na arte da edição cinematográfica. A viver em Lisboa, e com mais de 30 anos de carreira, Cristiani é considerada uma das pioneiras no uso de técnicas digitais em edição, nunca tendo parado de inovar e experimentar, o que em 1988 lhe valeu um Óscar de Melhor Edição pelo filme O Último Imperador (Bernardo Bertolucci, 1987). Foi das primeiras mulheres a conquistar o destaque neste universo ainda dominado por homens que é a indústria cinematográfica, e a sua carreira conta com mais de 30 filmes editados, duas participações como atriz e três filmes realizados em nome próprio. À Máxima fala sobre como entrou no meio, sobre as inovações do mundo da Edição e sempre, e acima de tudo, num tom onde a consciência da igualdade de género está sempre latente.

A Gabriella nasceu em Itália [Foggia, Puglia]. Como recorda a sua infância?
Eu nasci no sul de Itália por acidente. A minha infância e a minha educação foram em Bolonha e depois vivi em Roma. Íamos muitas vezes a Londres. Costumo dizer que tenho as raízes do mundo.

Começou por cantar e por ser atriz. Como recorda esses primeiros tempos?
Tudo veio até mim: eu não queria ser cantora nem atriz. Convenceram-me a fazê-lo e eu acabei por aceitar porque tinha uma vocação natural e porque me ensinaram a fazê-lo. Depois, apaixonei-me por um homem, um editor (um grande editor), e estar com ele levou-me a aprender edição. Caí sem querer na representação, caí sem querer na carreira de cantora e esta última, que foi editar, foi algo a que me agarrei por mais tempo.

Mas o mundo do Cinema não era algo que a inspirava?
Não. A minha única aspiração, e inspiração, era dançar. Mas um acidente de carro mudou a minha vida. Não me tornei uma estrela da Dança, o que eu acho que era o meu destino. A vida tirou-me o meu único sonho, mas deu-me essas oportunidades e eu agarrei-as. Explorei-as, estava interessada e comecei a trabalhar em Edição.

Recorda-se do primeiro trabalho que fez em edição de vídeo?
Trabalhei como assistente de edição de vídeo durante sete anos. Conheci o Kim Arcalli [na verdade, Franco era o seu primeiro nome] num café em Roma, começamos a falar e cedo percebi que estavam, ele e o realizador Giulio Questi, a escrever a história do filme La morte ha fatto l'uovo [A morte fez um ovo, 1968]. Uma das personagens era uma rapariga jovem, o nome dela era Gabriella. Foi como um sinal. Começámos a sair juntos e logo fiquei fascinada pelo seu trabalho. A primeira coisa que fiz foi numerar esse mesmo filme. Quando as pessoas me perguntam como se entra na indústria do cinema, é esta a minha resposta: eu sei como sair, não como entrar.

E depois começou a trabalhar com o realizador Bernardo Bertolucci e acabou por editar vários filmes do realizador. Como tudo aconteceu?
Arcalli escreveu o Último Tango em Paris [Ultimo tango a Parigi, 1972] com Bertolucci. Como era assistente de Kim, fiz também o filme 1900 [1976]. Ambos estavam a escrever o Luna [1979] e iam realizá-lo juntos, mas infelizmente o Kim morreu. Nessa altura, Bertolucci achou que eu deveria tentar fazê-lo sozinha: editar. Ele decidiu que eu estava pronta e acabámos por fazer sete filmes.

Como recorda trabalhar com Bertolucci?
Claro que foi interessante e desafiante, num bom sentido. Não era tortura. Ele podia ser difícil algumas vezes, mas tínhamos sempre o mesmo objetivo – embora com perspetivas diferentes, corríamos na mesma direção, que era fazer o melhor. Foi intrigante e empolgante trabalhar com Bertolucci porque ele é, de facto, um homem muito inteligente.

Na altura em que começou a editar, trabalhava rodeada de homens. Quão sentida era a desigualdade laboral nesta área, nessa altura?
Tive muita sorte porque sempre trabalhei com homens feministas. E se eles não o eram, eu tornava-os. Mas, falando de uma forma geral, e pelo menos na Europa, ou pelo menos em Itália, as mulheres eram mais que os homens, particularmente as assistentes. Falando da arte da Fotografia, por exemplo, foram as mulheres as pioneiras, foram elas que começaram a fotografar. Os homens aperceberam-se de que era algo que dava dinheiro e apoderaram-se dessa profissão. É cada vez mais nossa responsabilidade colocar os homens no seu lugar, fazer-lhes frente. E, para isso, precisamos de acreditar em nós e de agarrarmo-nos aos nossos direitos.

Mas nem sempre é fácil fazê-lo…
Sim, mas vejamos: se eu tenho uma ideia, e não falo, eu perco, mas toda a gente perde também. Não se pode culpar os outros, só a nós. Basta falar.

O seu trabalho no filme O Último Imperador valeu-lhe o Óscar de Melhor Edição. Sendo uma das poucas mulheres a trabalhar em Edição, como foi ver o seu trabalho premiado?
Eu era uma das poucas mulheres (e a mais nova) na História [da Academia] a ser nomeada e ganhei. Durante o meu trabalho, a posição que eu assumi acabou por "obrigá-los" [ao júri da Academia] a reconhecer o meu trabalho. Não poderiam ignorar o facto de eu ter, de facto, colocado uma inovação na forma como se editavam filmes, algo que não acontecia há mais de cem anos.

Do que mais se recorda, durante a produção deste filme?
Foi o filme mais fácil de sempre. Mas não deixou de ser desafiante, de ser o mais bonito… Todos os outros foram mais difíceis!

Em 1999, realizou o Mulheres Entre o Céu e o Inferno (Ladies Room). Como recorda a experiência?
Esse, sim. Foi um filme difícil porque eu tinha cinco homens teimosos ? e imbecis, sublinhe isso ? como produtores. Queriam dizer-me como escrever uma história sobre mulheres. E todos eles queriam ser o meu "Paladino", o meu defensor, e então acabaram a discutir entre eles. Isso arruinou o meu filme, que demorou um ano a fazer.

E o que acabou por acontecer?
Acabou por não ser a minha história, por não ser o meu filme. Foi um filme que me foi dado para dirigir e todos os produtores tinham o poder do lado deles. Não é um filme mau, mas com certeza haveria uma outra versão, a minha. Com este filme aconteceu algo curioso: os bons momentos foram passados a filmar porque tivemos sorte com o tempo e as atrizes eram excelentes; o mau momento acabou por ser durante a edição.

E hoje a voz das mulheres é mais ouvida que naquele tempo? Ou ainda estamos longe de chegar perto do equilíbrio também nesta indústria?
Temos de chegar a um momento em que dizemos, com toda a certeza: ou eu faço o filme por este valor ou eu não o faço. É preciso ter-se a coragem para o fazer. E se a pessoa, o ator ou atriz, tiver algum valor, neste planeta, para alguém, então esse valor vai acabar por ser reconhecido. Todas as pessoas têm de estabelecer o seu preço, tem de vir delas. No mínimo, tem de ser igual; depois, se eu quiser, posso pedir 50 mil dólares por semana e isso só me diz respeito a mim. É a minha escolha. E o céu é o limite. 

O caso Weinstein sucedeu-se à descoberta de outros predadores sexuais. Há ainda muito que combater no que respeita ao assédio e abuso sexual nesta indústria?
Eu sinto pena por estas mulheres. Alguns homens [da indústria cinematográfica] fazem-nos sentir medo, ao não nos escolherem [para determinado trabalho ou papel] e fazem-nos pensar que não temos direitos. Mas nós temos de nos defender mais, porque vai acontecer termos medo de não sermos escolhidas, termos medo de sermos despedidas, termos medo de respirar. Lamento que estas mulheres tenham tido o azar de se terem cruzado com estas pessoas [os homens que têm vindo a ser acusados de assédio em Hollywood]. Há ainda muito que fazer, o assédio ainda está por todo o lado.

Alguma vez passou por um episódio de assédio sexual?
Um dos maiores realizadores em Itália teve de levar três pontos porque eu lhe bati. Ele estava a tentar forçar-me a fazer o que eu não queria. Ele foi direto para o hospital e felizmente nunca mais o vi. E hoje faria tudo de novo. Não estou a querer dizer que é fácil fazê-lo ou que sou uma heroína. Chorei muito por todas aquelas mulheres porque só pensava: onde é que eu estava para ajudá-las? Onde é que estavam outras mulheres para ajudá-las? E eu sei, com toda a certeza, que é algo que continua a acontecer a todo o momento.
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