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Brasil: o que vai acontecer nos próximos anos, com Bolsonaro no poder

Conversámos com algumas mulheres sobre o desfecho desta eleição; aquilo que o Brasil está a sentir; e o futuro, que se adivinha difícil, mas esperançoso.
Por Rita Silva Avelar, 05.11.2018

Gritos eufóricos de vitória anunciados com foguetes e balões, lágrimas de derrota e medo, secadas com abraços e palavras de amor. Assim ficaram registadas as reações ao desfecho das eleições brasileiras de 28 de outubro, na Avenida Paulista, na cidade brasileira de São Paulo. "Nos últimos dias tenho visto muitas pessoas com medo e angustiadas (…) Não tenham medo. Nós estaremos aqui, de mãos dadas. Estaremos juntos. Contem connosco. Coragem, a vida é feita de coragem. Viva o Brasil!" Foram as palavras que Fernando Haddad disse após a derrota contra Jair Bolsonaro. Já este, por sua vez, afirmou: "Não podíamos mais continuar flirtando com o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo da esquerda. Vamos juntos mudar o destino do Brasil. Sabíamos para onde estávamos a ir, agora sabemos para onde queremos ir." Ex-militar e deputado federal por sete mandatos entre 1991 e 2018, o político Jair Bolsonaro ganhou a presidência do Brasil pelo Partido Social Liberal (PSL) num frente a frente com Fernando Haddad pelo Partido dos Trabalhadores (PT), vencendo com 55,1% dos votos (o que se traduz em 57 797 456 votos) contra os 44,9% de Haddad. Quem acompanhou de perto a evolução destas eleições sabe que Haddad não era a escolha mais consensual (até ao fim, enfrentou resistência dentro do próprio partido), consolidando-se como substituto "acidental" de (Luiz Inácio) Lula da Silva, que está atualmente preso em Curitiba. Lula da Silva, que foi o 35.º presidente do Brasil entre 2003 e 2011, era, assim, o eleito inicial pelo PT nesta campanha, até ser formalmente impedido de concorrer.

O perfil de Bolsonaro e as afirmações que atacam as minorias

Mas voltemos ao vencedor, ao eleito, ao escolhido pelo Brasil. Em menos de uma semana têm sido partilhadas milhares de reações à vitória de Bolsonaro, que lidera o mandato nos próximos quatro anos. Quem é, afinal, Jair Bolsonaro e porque é que parte do Brasil e do Mundo "chora" a sua vitória se a maior parte da população votou nele? Jair Messias Bolsonaro nasceu em Campinas, São Paulo, a 21 de março de 1955, e em 1977 formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, tornando-se capitão. Após ter sido eleito para vereador no Rio de Janeiro, entrou para a reserva em 1988. Ao longo de 27 anos na vida parlamentar esteve em oito partidos e foi protagonista de várias polémicas, sempre marcadas por comentários controversos. Por exemplo, em 2015 foi condenado (em primeira instância) a pagar uma indemnização de 10 mil reais à deputada federal do PT Maria do Rosário pelos crimes de incitação à violação e injúria. O comentário do próprio foi que não violava a deputada porque esta "não merecia". Outras declarações que espelham a personalidade misógina, machista, racista, sexista e homofóbica de Bolsonaro incluem: "O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro e aí ele muda o comportamento dele. Tá certo? Já ouvi de alguns aqui, olha, ainda bem que levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem" (no programa de televisão Câmara, em novembro de 2010). Ou ainda: "Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso" (durante um programa televisivo, em 1999) e "o erro da ditadura foi torturar e não matar" (numa entrevista de rádio, em 2016). E são apenas alguns exemplos dos comentários públicos de Bolsonaro que atacam claramente mulheres, negros e homossexuais.

Com um discurso que não se alinha com os valores de liberdade, democracia e, em primeira instância, respeito pelo ser humano, pergunta-se como é possível que Bolsonaro tenha sido eleito. "Não é possível falar em apenas uma razão para a vitória do Bolsonaro. Há muitas questões subjacentes, que vão desde o caos na segurança pública, um dos pontos mais fortes do seu discurso, até ao anti-petismo, que ganhou força desde o escândalo do Lava Jato", começa por explicar à Máxima a jornalista brasileira Giuliana Miranda, que vive em Portugal e é, desde 2015, correspondente da Folha de São Paulo (e comentadora no programa Mundo sem Muros, exibido pela RTP 3 e RTP Internacional). "Vale lembrar que esta foi uma eleição atípica em todos os sentidos. O candidato que liderava as sondagens, o ex-presidente Lula da Silva, foi preso e impedido de participar do pleito. Houve um atentado ao próprio Bolsonaro. Enfim, uma conjunção de fatores que explicam este resultado", continua. "A sensação que fica é a de que o brasileiro votou impelido por um desejo de mudança e que Jair Bolsonaro foi o único que conseguiu de alguma maneira incorporar esse sentimento em sua campanha."

Aline Silva, terapeuta ocupacional, nasceu no Brasil, mas vive em Portugal há mais anos do que os que viveu na sua terra de berço. Acompanhou todos os momentos das eleições brasileiras, ao falar com amigos que viveram de perto a campanha, e conhece bem o contexto político do Brasil. "O panorama nacional não é de festa, é de medo (…) o candidato à Presidência da República de um dos países mais violentos do mundo enaltece em público a tortura, diz que o seu maior ídolo foi um protagonista da ditadura militar e o maior torturador da história brasileira, humilha homossexuais, mulheres, negros, indígenas, defende o armamento e não acha errado o seu discurso de ódio." E acrescenta: "Em tanto tempo de carreira política, Jair sempre votou contra os direitos dos trabalhadores e a favor dos seus interesses; em 27 anos de carreira política manteve um cargo fantasma na câmara e só teve dois projetos aprovados. Fala no respeito à democracia, mas tem no seu histórico inúmeros discursos que sugerem coragem para intervir contra ela, caso julgue necessário. Gostaria de perguntar ao Bolsonaro quais serão os critérios para selecionar um cidadão de bem e também gostaria de ter a oportunidade de questioná-lo se realmente considera que armar a população é o meio mais eficaz de combate à violência."

Um projeto de esperança não pode ser alicerçado no ódio, claro, como reforça o escritor português Valter Hugo Mãe, que tem partilhado a sua visão sobre esta campanha, mais precisamente na sua conta de Instagram: "Nenhum regime de exclusão seria alguma vez o meu regime, um projeto de esperança não pode ser alicerçado no ódio, eu também sou contra o ódio, eu sou pela democracia no Brasil", disse Hugo Mãe num vídeo publicado nesta rede social.

O futuro: as medidas prometidas

No recém-publicado artigo O que se pode esperar de Jair Bolsonaro em 10 áreas, publicado n’O Globo, o jornal brasileiro ouviu especialistas e integrantes da campanha do presidente eleito para delinear as principais expectativas de mudança. Entre as conclusões mais alarmantes estão o facto da Política Externa de Bolsonorao partilhar ideais e métodos norte-americanos (delineados pelo controverso Donald Trump); na área da Saúde traçam-se medidas genéricas e não se alinham grandes promessas. A Cultura é ignorada, excluindo-a do programa, e no Meio Ambiente as medidas são incógnitas, noticia o mesmo meio de comunicação brasileiro. Todo o destaque da campanha de Bolsonaro foi, afinal, para a Segurança Pública, eixo do seu discurso: promete combater o crime organizado (numa das fases da campanha assumiu que poderia vir a "metralhar" a favela Rocinha se após a distribuição de milhares de panfletos pela favela, por helicóptero, e dentro de seis horas os traficantes não se entregassem), dando mais poder e enfase às Forças Armadas. Promete também resgatar a Economia: segundo escreve o Jornal de Negócios, as primeiras prioridades são "executar um programa de privatizações, concessões e venda de ativos imobiliários para reduzir em 20% a dívida pública"; "assegurar, em 2019, um saldo primário neutro; e definir "uma meta de 4,5% para a inflação". Na educação, pretende priorizar o ensino de "matemática, ciências e português, sem doutrinação e sexualização precoce".

As mais alarmantes declarações de Bolsonaro são sobre natalidade e pobreza. Em 1993 disse: "Defendo a pena de morte e o rígido controlo da natalidade" e em 2008 reforçou a ideia: "Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos." Defendeu, em discursos ao longo da campanha, a esterilização dos mais pobres como forma de conter a criminalidade e a miséria.

Perante este cenário, perguntamos: e o futuro? "Como jornalista e como mulher, certamente há alguma apreensão quanto a um governo Bolsonaro. Resta saber se o presidente eleito vai manter o discurso radicalizado ou vai adotar uma proposta conciliatória", conclui Giuliana Miranda. Aline Silva acrescenta que apesar de não acreditar nas palavras e promessas do atual presidente brasileiro, há uma réstia de esperança. "No Brasil, a grande parte da reclamação política é sempre a mesma: nunca cumprem o que dizem. Com o Bolsonaro, será a primeira vez na história que iremos torcer para que um presidente não cumpra o que prometeu. Vejo um país cada vez mais pobre, vejo um país que está a colher o fruto da ignorância e da falta de empatia, vejo um país afundar-se na lama do falso moralismo religioso. Contudo, tenho esperança de que as previsões de Steven Levitsky, professor da Universidade de Harvard e um dos autores do livro Como as Democracias Morrem, não sejam tão precisas como foram para o Rodrigo Duterte [presidente das Filipinas], porque ele é um ótimo exemplo de alguém que fez exatamente o que disse que ia fazer."

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Anónimo Rodrigo Duterte é presidente das Filipinas...
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MARCOS LIMOLI LIMOLI EVENTOS CINEMATOGRÁFICOS.
Social & Empresarial.
Marcos Limoli { Linkedin }
Porta-Voz.
Brazil /South America.
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