Tendências

Teste de ADN – os clássicos reinventados da moda

Em moda, gostamos de escrever sobre os clássicos, de os usar e de os reinventar. Mas nesta primavera/verão eles assumem um papel diferente. São agentes de mudança com a missão de anunciar um novo paradigma e de incentivar uma nova tendência: o individualismo.
Por Carolina Carvalho, 08.07.2019

Christian Dior decidiu um dia, já no auge da carreira como criador, escrever um pequeno dicionário de moda. Organizou todo o seu conhecimento nesta área de A a Z e na introdução explicou: "Muitas pessoas desvalorizam a Alta-Costura como sendo algo que é só para os muito ricos. Mas é possível para uma mulher ser elegante sem gastar muito dinheiro nas suas roupas se seguir as regras básicas da Moda e se for cuidadosa a escolher as roupas que assentam com a sua personalidade. Simplicidade, bom gosto e aprumo são os três fundamentos do bem vestir e estas não custam dinheiro" (em The Little Dictionary of Fashion, Christian Dior, 1954). Importa referir que, por esta altura, o prêt-à-porter ainda não estava banalizado, as cadeias de fast fashion eram uma realidade longínqua e não passaria sequer pelos pesadelos de Monsieur Dior que se viesse a usar Alta-Costura com calçado desportivo. Os princípios apontados por Dior mantêm-se intactos e é mesmo caso para dizer que são clássicos. Mas como é possível que tal aconteça, volvidos 65 anos, numa indústria criativa tão intensa e dramática que gosta tanto de destruir para voltar a construir e, ainda mais, de baralhar para voltar a dar?

Um dos muitos segredos do sucesso desta continuidade está nas peças clássicas que são ferramentas básicas na linguagem da moda. Os vestidos de cintura apertada e com a saia rodada que Dior lançou com o New Look, em 1947, os tailleurs de Gabrielle Chanel que foram a grande aposta da criadora francesa, em 1954, quando regressou a Paris depois do seu exílio da guerra, o smoking feminino que Yves Saint Laurent lançou, em 1966, ou os fatos que Giorgio Armani fez durante toda a carreira e que continua a fazer como ninguém, são referências que não só têm o seu lugar de honra na história da Moda, como são reconhecidos como ícones de qualidade e de bom gosto. Para Paula Moldes, diretora de loja da Stivali (a loja multimarca de luxo com morada em Lisboa), um clássico é uma peça intemporal em que a qualidade é o fator fundamental. "A qualidade de fabrico e a qualidade do material é o que torna a peça, efetivamente, intemporal. É a possibilidade de usar uma peça agora, mas daqui a cinco ou dez anos podermos continuar a usá-la e ela manter-se quase intocável. Perfeita." Na realidade, se procurarmos bem, em todas as estações encontramos designers de moda que nos apresentam fatos criados segundo as regras básicas da alfaiataria, vestidos bem cortados, saias pencil ou camisas brancas. Contudo, nesta primavera/verão os clássicos assumem-se como protagonistas e dão forma a uma das tendências da estação. Dizem os saudosistas que tudo foi feito e os criativos contrapõem com novas abordagens. Como sempre, a moda respira e transpira o seu tempo e este regresso aos clássicos reflete muito mais do que uma série de propostas para vestir durante o tempo quente, reflete a procura de referências e a redefinição de ideais que se faz sentir na sociedade. Maria A. Ruiva, a profissional que assina a produção de moda Reborn publicada na edição de abril da Máxima e que é dedicada aos clássicos reinventados desta estação, explica que as peças clássicas são pilares do guarda-roupa e que neste momento em que "a mulher procura um certo individualismo e uma forma de expressão muito própria" e em que a "questão de igualdade e de valorização feminina está em cima da mesa, ao mesmo tempo que a discussão das diferenças entre géneros se acentua, há uma procura interior do que nos define não só mas também para podermos lutar por nós próprias e pelo que acreditamos". E prossegue: "Isto acaba sempre por nos levar à procura da nossa essência e das nossas raízes. Na moda, este é um caminho que já vem sendo trilhado há algumas estações, sendo que a visão dos designers tem deixado cada vez mais espaço à própria consumidora para que ela possa vestir a sua interpretação, através da coordenação das diferentes peças." Paula Moldes vai ao encontro desta nova posição da moda trazendo ao tema elementos incontornáveis como as redes sociais e as suas personagens, que contribuíram para uma redefinição do panorama da comunicação de moda. "Há uma mudança de mentalidades tão boa, tão positiva e tão profunda em que nós vemos as pessoas na rua com um estilo próprio e valorizamos isso. As bloggers e as influencers, que são pessoas com vidas normais ? são mulheres, mães e trabalhadoras ?, estão a ter este sucesso porque nos inspiramos, cada vez mais, em situações reais da vida. Há uma evolução de consciência da mulher sobre si própria e a moda está a ir ao encontro disso."

A ideia de aldeia global, o mercado com uma oferta de produto inesgotável e uma população cada vez mais à procura do individualismo são alguns dos fatores que fazem a moda repensar a sua forma de funcionar (o movimento See Now, Buy Now é um forte exemplo disto), ao mesmo tempo que condicionam as tendências. Depois dos loucos anos 80, em que primava o excesso, e dos anos 90, fortemente influenciados pelos japoneses que estabeleceram as suas marcas de moda no ocidente, a moda provou ser capaz de absorver todo o tipo de influências e continuar a recriar-se. A segunda década do século XXI trouxe a queda de todas as barreiras. Perante um infinito de possibilidades, as marcas decidiram olhar para dentro, focar-se primeiro nas suas próprias raízes e utilizar o seu ADN como ponto de partida e, para tal, os básicos afirmaram-se como uma ferramenta essencial.

Na bioquímica, o ADN refere-se às características hereditárias genéticas e é fácil fazer o paralelismo com a moda e aquilo a que se chama o ADN de uma marca. O clássico trench coat, por exemplo, separa-se em diferentes peças e podemos vê-lo transformado em vestido, na Burberry. A camisa clássica dá, literalmente, pano para mangas e enquanto Stella McCartney lhe acrescenta fechos-éclair, a Prada abre recortes inesperados e a Max Mara transforma blazers em camisas. A mais original de todas as alterações talvez seja mesmo a camisa clássica a fechar à volta do tronco criando um decote assimétrico, na Max Mara. A apropriação da estrutura dos paraquedas por Dries van Noten traz à memória os anos 90, mas com uma elegância descontraída muito própria. E a construção de looks em camadas da Louis Vuitton apresenta uma série de peças independentes que se completam como um jogo de formas e de texturas para ser jogado à vontade da utilizadora. O lado poético desta tendência está nos pormenores couture (como folhos, laços ou golas Claudette muito trabalhadas) que enriquecem uma peça de corte simples, assim como nos efeitos criados quando o chiffon e a organza substituem a renda. Para a citada produção Reborn, a produtora investigou os desfiles desta estação e mergulhou nas coleções para encontrar os tesouros deste verão. "Para mim, a grande novidade são os cortes ou recortes em peças que ganharam uma nova vida sem perderem o seu ADN. Exemplo disso é o tailleur Chanel que ficou curto ou com sobreposição de saias, o [clássico] Bar Suit [criado por] Dior, do qual o casaco ficou com as mangas curtas, assim como a saia circular que apareceu em rede de tule ou as camisas e as camisolas de caxemira da Prada com os cotovelos recortados. Talvez [a maior surpresa seja] o facto de estas peças continuarem com o seu estatuto de clássicas, mas terem uma abordagem muito mais jovem e moderna."

Perante um público tão variado e com diversas exigências, a moda não pode (nem consegue) continuar a impor tendências. Pelo contrário, ao mesmo tempo que as mulheres se libertam de estereótipos, a moda também o faz e os clássicos renovados desta estação são como um leque de possibilidades para cada pessoa escolher o que melhor lhe convém. Talvez a maior tendência seja o individualismo. Mas falta perceber se as propostas da passerelle se traduzem na rua e aqui a elevação do streetwear aos palcos maiores da moda, com estrondo e diversão, tem um papel fundamental. "Uma das marcas que é de streetwear mas que tem os pés assentes no clássico é a Off-White", refere Paula Moldes. Esclarece que a marca fundada por Virgil Abloh (que desde março de 2018 é também o criador das coleções masculinas da Louis Vuitton) é uma importante referência do momento. "Os blazers da Off-White são irrepreensíveis a nível de corte e são do mais clássico que existe. Ele complementa com um cinto amarelo e aquilo fica renovado e sofisticado, mas clássico. [Ele] é um dos futuros grandes [nomes], em termos de moda, porque conseguiu esta junção brilhante de dois mundos." Por outro lado, quando uma cliente procura na Stivali uma peça clássica, o casaco Chanel é uma referência incontornável e, segundo Paula Moldes, "esse casaco pode ser usado com calças de ganga ou com uma saia pencil em pele feita com fibras de ananás ou de coco, uma vez que a Chanel está a desenvolver o corte de fibras alternativas", conta a diretora da loja que se movimenta, há vários anos, nos corredores das marcas de moda mais exclusivas, direcionando o tema para a sustentabilidade, uma palavra de ordem e uma das tendências do momento que se pode ver, nomeadamente, através do investimento feito na procura de novos materiais. E explica que enquanto os tecidos que esgotam os recursos naturais estão em queda livre, as texturas alternativas como o Mackintosh fabric ganham protagonismo. Esta procura de novas soluções traz-nos criações em que o plástico é combinado com materiais tradicionais como o tweed e a pele, assim como as criações em ráfia da dupla Dolce & Gabbana e uma repentina paixão pelo neopreno que aparece atualizado, mas mantendo o estilo californiano, na coleção de Calvin Klein.

Quando cada geração arrisca quebrar as suas regras é imediatamente vaticinada pela anterior como o início do fim da civilização, quer se trate de subir as bainhas das saias acima do joelho ou de usar ténis com fato. Na era do individualismo, a liberdade de escolha é um luxo que se faz acompanhar da responsabilidade do conhecimento porque a moda é uma indústria criativa, mas também uma indústria de investimento. Como em outras situações da vida, a informação conduz no sentido das escolhas acertadas.

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