Tendências

Ensaio sobre a elegância

Há um perfume de sobriedade no ar. Longe do ruído estridente da logomania e da apatia cool do streetwear, a nova estação apela a uma estética mais depurada e feminina. Mais do que uma tendência fugaz, esta é uma pequena revolução de estilo que pode muito bem significar o regresso a tempos de sonho e de beleza pura.
Por Maria Wallis, 16.05.2019

"Chic… didn’t end in 1999" ("O chique… não acabou em 1999"). É assim que reza a biografia da página de Instagram @carolynbessette que, diariamente, publica imagens de Carolyn Bessette Kennedy, a mulher que em 1996 casou com John Kennedy Jr. num slip dress em crepe de seda cor de pérola desenhado por Narciso Rodriguez e que a partir de então se tornou um ícone de estilo à escala mundial. Nesse feed de memórias, que recupera alguns dos melhores looks da mulher que foi, efemeramente, a nova "noiva da América", saltam à vista as camisas brancas (que usava com a mesma autoridade que Carolina Herrera), as calças de ganga ou de bombazina (sempre de corte impecável), as bandoletes (uma das suas imagens de marca), as saias travadas (de cores neutras), as camisolas de caxemira (pretas), os casacos compridos de lã (camel ou vermelho), o cabelo louro e brilhante (invariavelmente apanhado), o sorriso perdido numa nuvem de flashes. A história de Carolyn Bessette não teve um final feliz, aos 33 anos de idade, como se sabe. A 16 de julho de 1999, a avioneta em que seguia com o marido e com a irmã, Lauren G. Bessette, despenhou-se ao largo de Martha’s Vineyard, no Massachusetts, e dos destroços desse voo fatal restou apenas a lenda. A rapariga que conquistou o "Príncipe da América", como era conhecido John-John, ganhou proporções de mito. E o seu estilo, uma espécie de minimal chic que resume o melhor dos anos 90, conquistou uma legião de seguidoras e está, quando se cumprem 20 anos do seu desaparecimento, mais vivo do que nunca. Mesmo que grande parte da geração millennial não tenha acompanhado as desventuras de Carolyn pelas ruas de Nova Iorque, onde era abusivamente perseguida por paparazzi, a (aparente) simplicidade do seu guarda-roupa continua tão cobiçada como antes. Existem mais de cinco mil hashtags com o seu nome e dezenas de contas-tributo à sua sobriedade descontraída. Como é que uma mulher que passou pouco mais de três anos na esfera pública consegue semelhante impacto? Porque Carolyn era e é, acima de tudo, sinónimo de elegância intemporal.

 

As lojas até podem estar cheias de logos, estampados tie-dye e blusões de nylon flúor, mas, para a primavera/verão 2019, a tendência streetwear parece estar a ser ultrapassada por uma nova atitude. Pela mão de Miuccia Prada (quem mais?), uma vaga cada vez maior de criadores reconhece a necessidade de recuar a uma nova elegância, uma aceitação de antigos cânones de beleza, que preconizavam um aspeto mais cuidado e polido. Foi a própria quem o admitiu, no final do seu mais recente desfile na Fondazione Prada. "Estou à procura de uma nova elegância. Sinto isso nos jovens. Eles estão cansados do street style, dos logótipos e do skateboard. Foram os pais deles que começaram essa tendência!" De facto, as raparigas que subiram à passerelle de Prada, numa silhueta aparentemente descontraída, eram o símbolo máximo da "libertação e fantasia" que a designer italiana tentou construir. As túnicas de cetim, os vestidos baby-doll e os cycling shorts foram uma piscadela de olho à juventude que devora moda, é certo, mas estiveram sempre coordenados com casaquinhos de malha ladylike, sapatos kitten heels e acessórios de cabelo dignos de um filme de Hitchcock. "Odeio a forma como os millennials são reduzidos a uma categoria comercial. São os nossos jovens, a nossa nova geração cool. É errado pensar neles como uma proposta comercial." A solução foi criar uma série de hits que subvertem a ideia de elegância clássica. Tal qual um retrato da sociedade em que vivemos. "Eu quis quebrar as regras do clássico", sublinhou Miuccia para evidenciar o "desejo de libertação e extremo conservadorismo que está a chegar ? a dualidade lá fora". O seu desejo é partilhado por nomes como Victoria Beckham, The Row, Joseph, Marni, Magda Butrym, Altuzarra ou Roksanda. São eles que criam a visão de uma nova mulher atenta às tendências, mas que rejeita o seu cunho ditatorial. Nos principais sites de e-commerce, as peças mais procuradas têm em comum uma certa nonchalance, alheia ao ritmo das modas e das estações. Os vestidos femininos de Simone Rocha e de Cecilie Bahnsen, esta última a dinamarquesa que, em menos de nada, conquistou as principais editoras de moda, estão permanentemente esgotados. Os blazers azul-celeste masculinos da Theory voam das prateleiras virtuais, tal como as calças de corte reto Dries van Noten, as saias assimétricas de Stella McCartney, os tops de cetim Bottega Veneta ou as mules de pele da Tibi. As carteiras ganham novas proporções, mais adultas, e as novas it bags parecem feitas a pensar num dia a dia que se estende após o horário laboral ? depois do furor dos triângulos coloridos da Balenciaga, as novas propostas da Prada e da Celine privilegiam cortes e materiais com maior prazo de validade.

Nem a roupa interior escapa. As marcas de lingerie mais conhecidas apostam, cada vez mais, numa elegância que se estende para lá do boudoir. Há casacos e camisolas "para estar em casa" tão apetecíveis como os que usamos em dias de chuva, pijamas de seda que substituem fatos sem personalidade, négligés que tomam o lugar de túnicas sem graça. A Intimissimi tem-nos em formato- desejo, em montras que apelam a uma sensualidade sem rastos de luxúria entre nós. Lá fora, Francesca Ruffini com a For Restless Sleepers e Olivia von Halle alargam o conceito de luxo ao homewear. Já ninguém quer estar "mal vestido" só porque sim. Durante anos esse foi o pecado maior da Moda que se apaixonou pela ideia de que a coisa mais avant-garde era descurar a aparência. Como dizem os ingleses, not anymore. Agora já não é preciso renunciar a um pouco de hedonismo no momento de encarar o armário. Mas a que se deve esta súbita atração pelo lado demure das coisas? Há quem a atribua ao atual contexto cultural e político que obrigou as mulheres a reavaliar os próprios códigos de feminilidade. Muito além do simples aspeto prático da roupa, há que considerar o que protege, o que provoca, o que seduz, o que traz força. Não é por acaso que o conceito de empowerment é cada vez mais usado para caracterizar coleções e tendências. Esta tendência surge de mãos dadas com o aumento da chamada Modest Fashion, cujo potencial é de tal forma grande que os analistas estimam que, até ao final deste ano, alcance os 484 milhões de dólares (cerca de 451 milhões de euros) de volume de negócios. Numa tradução literal, modest fashion significa isso mesmo ? moda modesta. Encontramo-la nas silhuetas longas, nos lenços, nas golas subidas, nos tecidos opacos e nos decotes cobertos, e associamo-la à maneira de vestir das mulheres muçulmanas. É um erro de interpretação normal. A moda modesta pode estar historicamente ligada à religião, mas é atualmente um estilo adotado por milhões de mulheres de diferentes crenças, um pouco por todo o mundo ? muitas fazem-no pela razão mais básica de todas: ela funciona com o seu gosto pessoal. O website The Modist, lançado a 8 de março de 2017 pela empreendedora Ghizlan Guenez, começa discretamente a roubar clientes ao site de luxo Net-a-Porter e aos outros portais que vendem marcas de luxo. As saias compridas e as blusas de laçada com mangas exageradas já não são "aborrecidas". Agora, o truque é adequar o nosso armário à nossa personalidade e não vice-versa. As roupas deixam de nos vestir (de nos "engolir"?) e voltamos a ganhar controlo sobre a nossa sensualidade. Como explicava Natalie Kingham, buying director do site matchesfashion.com, em entrevista ao Financial Times, "o que é interessante é que, embora tenha havido uma mudança para uma forma de vestir mais modesta, o que adoramos, ela pode ser ao mesmo tempo sexy e recatada". É como se depois de anos submergidos por uma esquizofrenia de moodboards tivéssemos reaprendido a vestirmo-nos como seres humanos e não como avatares.

 

E se é certo que jamais voltaremos ao tempo em que para sair à rua as senhoras dependiam de lenços, de luvas e de chapéus, recebemos de braços abertos certos aspetos da nossa condição feminina reacendendo um affair há muito apagado com certos acessórios que respiram glamour: os collants, os colares de pérolas e os tecidos ricos. É um sintoma que extravasa para o mais alto patamar da Moda, a Haute Couture. No passado mês de janeiro, Paris vestiu-se de gala para a Semana de Moda de Alta-Costura. Depois de sete dias de apresentações, onde o mote foi a exuberância e a opulência, a sensação que recebemos dos relatos de quem esteve na Cidade Luz é que há um regresso a uma elegância de outros tempos. De Chanel, com inspirações no século XVIII, a Valentino, com os maravilhosos vestidos voluptuosos em seda florida de Pierpaolo Piccioli, as grandes maisons ofereceram notáveis lições de estilo e de modernidade, sem descurar o gosto maior pela beleza das coisas. Como se a capital francesa tivesse sido tomada por uma tempestade de refinamento e de sofisticação. Um dos melhores exemplos foi o desfile de Givenchy, onde Clare Waight Keller manifestou a sua versão atualizada da quinta-essência da elegância. "Sem teatro, sem encenações, apenas peças puras. É disso que se trata", concluiu a designer britânica, seguindo os passos que celebrizaram o fundador daquela marca, Hubert de Givenchy, e a qual recebeu uma ovação do público que encheu a ala sudeste do Palais de Tokyo. Para a ocasião, esse edifício da década de 1930 foi transformado num espaço de pureza total, onde os pisos estavam cobertos com látex, o tecido que Waight Keller escolheu como protagonista da coleção, pela "sensação de segunda pele que traz uma incrível modernidade". Não é nada de novo, até porque existirão poucas coisas realmente novas ao nível da expressão artística. Mas é algo de refrescante e, ao mesmo tempo, de subversivo. Numa altura em que podemos vestir tudo ou nada, parece quase transgressor apostar em peças que sejam, pura e simplesmente, belas. A elegância, que é sempre mais um dom pessoal do que um sintoma geral, será mais ou menos isso.

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