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Dior, I love you

O Museu Victoria & Albert recebe, entre 2 de fevereiro e 14 de julho, a maior exposição de sempre dedicada à maison Christian Dior, com um capítulo especial dedicado à relação do fundador com o Reino Unido e fazendo do vestido que Dior criou para o 21º aniversário da princesa Margarida uma das peças-estrela. A propósito da abertura de 'Dior: Designer of Dreams', republicamos um texto da edição de fevereiro de 2017, mês em que a marca completou 70 anos.
Por Carolina Carvalho, 01.02.2019

Quando Christian Dior escreveu a sua autobiografia estavam vividos dez intensos anos sobre o seu primeiro desfile em 1947, mas ele não poderia imaginar o que os próximos 60 reservariam. A história da marca dava o argumento perfeito não de um filme mas de uma série (não só porque estas até estão na moda mas também porque atravessar sete décadas de história exige muita contextualização e personagens) com algumas pinceladas de contos de fadas, ou não fosse o objetivo do protagonista tornar as mulheres bonitas e felizes. Afinal, há princesas e rainhas que se cruzam em salões perfumados com divas do cinema. Há um protagonista que passa de anti-herói a conquistador e dá início a uma espécie de dinastia em que os sucessores não são definidos por laços de sangue, mas por um escrutínio tão rigoroso que quase parece um chamamento divino. Há um cenário que por acaso até se assemelha mais a um palácio do que a um quartel-general, bem no coração de Paris. Há a curiosidade da imprensa e uma legião de fãs (nem todas as mulheres podem comprar Dior, mas todas podem admirar as suas criações nas montras ou nas páginas das revistas). Há drama, morte e genialidade, casamentos e funerais. E há a base da trama que é um negócio de milhões que se tornou um sucesso mundial. O New Look não foi apenas um desfile ou uma tendência que "pegou", foi uma revolução e o início da moda como a conhecemos hoje. Prestamos homenagem ao desfile que redefiniu a moda e descodificamos porque é que, afinal, ele se tornou tão especial.

Esta história começa em Paris, mais precisamente na Avenue Montaigne, uma transversal ao fundo dos Champs Elysées que acaba junto ao Sena. Dior tinha uma morada de sonho: o edifício número 30 desta rua, que já tinha admirado ainda anos antes de se aventurar pela moda e que ficou disponível na precisa altura em que procurava um espaço para o seu ateliê. Tem sido desde então a morada icónica da marca. Na manhã do dia 12 de fevereiro de 1947 o frio da rua contrastava com a azáfama que se vivia dentro de portas para mostrar a coleção primavera/verão desse ano. Conta o próprio, na autobiografia Dior by Dior (1957), que às 10:30 a primeira modelo apresentou o primeiro vestido e no final ele próprio tapou os ouvidos do som dos aplausos com medo de se sentir confiante demasiado cedo, mas estes confirmavam o sucesso da coleção. O salão estava cheio para assistir ao primeiro desfile de moda da sua marca recém-nascida que incluiu também o pré-lançamento de Miss Dior, o perfume.

Christian Dior era, nesta altura, um homem de 41 anos que, embora conhecesse o meio artístico por já ter sido coproprietário de uma galeria de arte, já tinha feito figurinos para oito filmes de Hollywood e na moda tinha trabalhado durante dez anos com o criador Lucien Lelong, para quem fazia vestidos. No ano anterior tinha conhecido o empresário da indústria do algodão Marcel Boussac e juntos abriram, em dezembro desse mesmo ano, uma casa de moda sob o nome de Christian Dior. Conta o criador que se refugiou na casa de uns amigos, rodeado por uma floresta de Fontainebleau coberta de neve, para criar a sua primeira coleção. Nesta altura moda era sinónimo de alta-costura e ele queria que as suas roupas fossem construídas como edifícios – expressão de um apaixonado por arquitetura – no que toca à precisão das técnicas, porque quanto às formas o objetivo era que as roupas se moldassem ao corpo feminino enfatizando a sua silhueta, que Dior chamou de 8, mas que hoje conhecemos melhor por Ampulheta ou X. O resultado foram conjuntos e vestidos em que as cinturas eram apertadas, as saias eram amplas com bainhas descidas e os bustos pronunciados davam destaque às linhas do peito e dos ombros. As propostas desta primeira coleção ficaram conhecidas na história sob a expressão New Look e já explicaremos porquê.

Na verdade, esta conjugação de elementos não era uma novidade nem tão-pouco um exclusivo e, se olharmos um pouco para trás, até podemos pensar que as mulheres demoraram séculos a livrar-se tanto de espartilhos e de saias elaboradas como de uma condição de dependência muito refém de aparências, por isso como se explica o sucesso das criações Dior? É preciso primeiro perceber o contexto que se vivia em 1947. Dentro dos salões Dior, onde aconteciam os desfiles, segundo o criador, nas suas memórias, as cadeiras bem encostadinhas umas às outras iam sendo preenchidas por clientes, críticos e compradores, havia doces a circular, uma senhora que distribuía leques e entre acenos a quem está do outro lado do salão acendiam-se os cigarros. Não havia telemóveis nem a omnipresença das redes sociais, não havia pressa nem distrações. O momento era para ser desfrutado e nem havia música para embalar o olhar atento já que a "banda sonora" ficava a cargo da senhora que anunciava o número, as peças e os materiais do modelo que estava em passerelle. Os desfiles Dior aconteciam sempre no número 30 da Avenue Montaigne, onde a decoração estilo Luís XVI, em cinza e branco, assinada por Victor Jacques Rouët, recebia tantos convidados que são conhecidas as fotos onde os podemos ver acomodados escadaria acima. Importa também referir que nomes como Balenciaga, Balmain, Nina Ricci, Madeleine Vionnet e a icónica Chanel já tinham, por esta altura, o seu nome gravado na história da moda e no mapa de Paris. Já fora dos salões de desfiles vivia-se o pós-II Guerra Mundial e respetivas limitações a que os países que sofreram os flagelos da guerra entre 1939 e 1945 tiveram de se adaptar. "Temperamentalmente sou um reacionário, não confundir com retrógrado. Estávamos apenas a emergir de uma era de pobreza e parcimoniosa, obcecada com livros de racionamento e cupões para roupas: era apenas natural que as minhas criações deviam assumir a forma de uma reação a esta escassez de imaginação", conta Dior.

O look da década de 1940 ficou marcado por peças de cortes rigorosos criadas para utilizar o mínimo tecido possível e dar liberdade de movimentos à mulher, um olhar mais atento diria até que os fatos desta época tinham um ar de farda militar. Em oposição, o novo código de vestuário proposto por Dior exigia metros e metros de tecido para criar saias rodadas e uma silhueta que favorecia as linhas do corpo feminino. As reações divergiram. Em França, dizem os especialistas que a feminina exuberância do New Look relembrava a moda usada em tempos áureos da história francesa. Em Inglaterra, foi mais difícil. Havia um racionamento de roupas que só foi levantado em março de 1948 e foi preciso a princesa Margarida se tornar cliente (e fã) de Dior para lançar a tendência. O criador até fez, logo em 1947, um desfile privado para a princesa e sua mãe, a rainha Isabel, na embaixada francesa em Londres. Nos Estado Unidos, a imprensa de moda rendeu-se imediatamente.

As mais brilhantes estrelas de Hollywood não passavam sem as criações de Dior, fossem como figurinos de filmes ou para uso pessoal. E até foi uma americana que criou o nome New Look. Numa espécie de suspiro de satisfação no final do desfile, Carmel Snow exclamou para Dior: "It’s such a new look!" E assim ficou. Embora o seu nome não seja familiar ela era, na época, a editora-chefe da Harper’s Bazaar americana e ficou conhecida pela equipa de talentos que descobriu e reuniu à sua volta, entre eles a própria Diana Vreeland. Se houvesse um panteão da moda ambas estariam certamente lá.

O fato que simboliza o New Look consiste num conjunto de saia preta de pregas com um casaco branco tipo blazer, que desenha o busto perfeito com ombros arredondados, peito bem definido, cintura bem apertada e ancas acentuadas. A arquivista da maison Dior hoje diz que, no seu tempo, era considerado smart evening wear e o seu nome é Bar Suit. Sim, tem nome próprio como tantas outras peças, como por exemplo o vestido Soirée à Rio que Elizabeth Taylor usou para receber o Óscar de Melhor Atriz em 1961, o vestido Noël à Monte-Carlo que Maria Callas usou em 1962, o vestido Fête à Trianon, original da década de 1950, com que também Reese Witherspoon ganhou o seu prémio da Academia em 2006 ou o fato San Francisco com que a princesa Grace do Mónaco inaugurou a loja Baby Dior na Avenue Montaigne, em 1967. Se pinturas e esculturas assinadas por artistas têm nome próprio, porque é que as criações de alta-costura não haveriam de ter?

Quando Dior morreu (em outubro de 1957 com um ataque cardíaco enquanto estava em Itália) o New York Times escreveu que ele fez da moda um interesse de massas e objeto de notícias. Hoje, os criadores de moda, os CEO’s das marcas e os membros da imprensa veem reconhecidos os seus talentos e são alvo de curiosidade e fascínio que se reflete, por exemplo, em inúmeros documentários que exploram os bastidores da moda e os seus protagonistas, mas o facto de, em 1955, se terem juntado quatro mil assistentes para uma palestra que Christian Dior deu na Sorbonne, em Paris, parece surpreendente. A casa Dior esteve sempre à frente do seu tempo (e afinal não é essa a posição natural da moda?). Quando o fundador apresentou a sua primeira coleção em 1947 popularizou as linhas que viriam a definir a moda da década de 1950. Quando, em 1957, o jovem Yves Saint Laurent assumiu o seu lugar, apresentou uma coleção onde brilhava a silhueta trapézio, que viria a ser uma forma-chave para definir a moda da década seguinte, mas ao fim de apenas três anos o serviço militar afastou-o dos ateliês e seguiu-se Marc Bohan, um nome que pode não tilintar nos nossos ouvidos tanto como o do seu antecessor, ou mesmo do seu sucessor Gianfranco Ferré (que esteve ao leme da casa entre 1989/96), mas o seu tempo na Dior foi muito importante. Foi nesse período que nasceu o prêt-à-porter da marca, bem como as linhas de criança e masculina. Voou da Dior em Londres, onde esteve dois anos, para o quartel-general em Paris e as clientes adoravam as suas criações ? Elizabeth Taylor encomendou 12 vestidos da sua primeira coleção, assinou os vestidos de noiva da rainha Sílvia da Suécia e os vestidos da coroação de Farah Diba com o Xá do Irão. O legado de Christian Dior não só estava bem entregue como continuava a crescer. Por esta altura já se podia mesmo dizer que o New Look foi a fórmula mágica para o sucesso. Afinal, quando imaginamos um luxuoso vestido de princesa de contos de fadas, que silhueta lhe atribuímos?

John Galliano viria a responder a todas as fantasias possíveis durante os 15 anos em que comandou as operações. Depois de dois anos na Givenchy, o grupo LVMH (ao qual as duas marcas já pertenciam) fez um movimento estratégico e abriu as portas da maison a este inglês que tinha tanto de excêntrico como de génio. Os arquivos de Dior foram revisitados vezes sem conta e era impossível não reconhecer os ícones da casa e as homenagens ao fundador. A corseterie dos bustos, a arquitetura das saias e casacos e o domínio dos tecidos que parecia obra de uma varinha de condão enquadravam-se em qualquer coleção de alta-costura, mesmo quando as peças pareciam ter um aspeto inacabado e expunham a sua construção ou quando as coleções eram envolvidas numa estética egípcia, bélica, japonesa ou à la revolução francesa… Cada desfile era um espetáculo e era assim que Dior queria que fosse. Mas num trágico fim para o seu conto de fadas com a Dior, em apenas uma noite o castelo de Galliano desmoronou-se e, depois de meses de suspense, o belga Raf Simons foi apresentado, em 2012, como o criador que assumia o desafio de criar sob o nome da casa francesa, bem como o de fazer uma coleção de alta-costura em apenas oito semanas.

Houve saias amplas, inspiração artística, houve casacos arquitetónicos, houve sonho e houve, claro, a aclamação da crítica. A Vogue inglesa online noticiou no início do ano seguinte que esta primeira coleção aumentou em 24% as vendas, em comparação com os números de 2011. Em 2016, volta a haver dança das cadeiras (por pura coincidência, certamente, no ano em que as saias de pregas estiveram em alta) e com a maison Dior a cumprir 70 anos dedicados às mulheres, no dia 8 de julho chegou a confirmação de que Maria Grazia Chiuri seria a nova criadora da casa, a primeira mulher a ocupar o cargo. Christian Dior era supersticioso e o oito era o seu número da sorte, por isso talvez visse toda esta conjuntura como um bom presságio para o futuro da marca, da nova Lady Dior e a herança do New Look.

Christian Dior: Designer of Dreams. De 2 de fevererio a 14 de Julho no Victoria & Albert Museum, em Londres.

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