Victoria's Secret Fashion Show

O que deveria mudar na Victoria’s Secret

O desfile anual da marca de lingerie é gravado esta quinta-feira, 8, mas como poderá a marca ir além da sua visão ultrapassada da feminilidade?
Por Aline Fernandez, 08.11.2018

Algo está a falhar no céu. Os Anjos da Victoria's Secret, que todos os anos garantem milhões à marca de lingerie, parecem não compreender os Millennials. No próximo desfile, gravado esta quinta-feira, 8, e transmitido a 2 de dezembro, veremos pela primeira vez Winnie Harlow, modelo com vitiligo. Mas o espectador e o consumidor exigem mudanças mais profundas.

"A Victoria's Secret ainda está a anunciar para as mulheres como se fosse 1999", declarou há alguns meses o site The Business of Fashion. O título do artigo aponta a raiz do problema, sublinhando que afeta o desempenho económico da marca. As vendas estão a cair desde 2016 e a participação no mercado norte-americano caiu 2% nos últimos cinco anos, segundo a Forbes. Ao mesmo tempo, vê-se o fortalecimento das marcas que apostam na diversidade, como a neozelandesa Lonely, que usa mulheres comuns, plus size ou com pelos nas axilas nas suas campanhas. Vemos cada vez mais Ashley Graham e Paloma Elsesser, mas também grávidas, como a modelo Slick Woods, que se tornou notícia quando entrou em trabalho de parto após o desfile da Savage x Fenty na Semana de Moda de Nova Iorque deste ano, a linha de lingerie de Rihanna. Linha essa que, tal como a cantora, tem feito questão de discutir a diversidade no mundo da Beleza.

O empowerment feminino, a força das redes sociais e movimentos como o #MeToo exigem passos mais largos, mas a empresa parece estar a demorar a entender as mudanças culturais mais recentes e a perceber que as mulheres de hoje têm uma visão diferente sobre o seu próprio corpo, que não se encaixa no mesmo dos Anjos de medidas perfeitas e rostos canónicos, especialmente entre as gerações mais jovens. A campanha para alertar à falta de diversidade e inspirar mulheres de todo o mundo a sentirem-se "empoderadas e bonitas" já começou, quando no ano passado um conjunto de modelos plus-size desfilaram "contra" a Victoria’s Secret.

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I have started an online petition -link in bio JOIN ME and lets help change the minds of Victoria’s Secret to be more diverse and inclusive of body shapes and sizes on their runways! Victoria Secret have dominated the space for almost 30 years by telling women there is only one kind of body beautiful. - you can read more in the link of my bio why it’s so important to encourage diversity for our future daughters sake. Until Victoria’s Secret commits to representing ALL women on stage, I am calling for a complete boycott of this year’s Victoria’s Secret Fashion Show. It’s time Victoria’s Secret recognized the buying power and influence of women of ALL ages, shapes, sizes, and ethnicities. The female gaze is powerful, and together, we can celebrate the beauty of our diversity. It’s about time Victoria’s Secret celebrated the customers that fuel its bottom line. Will you join me? 1 Sign the petition! 2 Encourage your friends not to tune in or attend the Victoria’s Secret Fashion Show share a photo of yourself on Instagram, as you are (not airbrushed and beautiful), use the hashtag #weareallangels to share what makes you uniquely beautiful, please tag me so I can see (@robynlawley) and @ThirdLove For every person who shares a post with #weareallangels hashtag, ThirdLove will donate one bra to @isupportthegirls (a national non-profit that collects and distributes bras to homeless women and girls around the country !!!)

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O último movimento do género foi liderado pela modelo Robyn Lawley, que pede o boicote de audiências do Victoria’s Secret Fashion Show na sua conta do Instagram: "É hora da Victoria’s Secret reconhecer o poder de compra e influência das mulheres de todas as idades, formas, tamanhos e etnias. O olhar feminino é poderoso e, juntas, nós podemos celebrar a beleza da diversidade", argumenta. Robyn criou uma petição online para que a marca passe a representar todos os tipos de mulheres nas passerelles. O abaixo-assinado já conta com mais de 8.700 assinaturas das 10 mil necessárias.

Os efeitos da mudança estão por todo o lado. Numa pesquisa publicada pela empresa de investimentos e gestão de ativos Piper Jaffray, vemos que a marca não consta na lista das 10 preferidas dos norte-americanos. O estudo bianual que mede a reputação no mercado adolescente daquele país também mostrou que a Nike, por exemplo, subiu no patamar, principalmente após a marca ter-se posicionado abertamente contra o racismo. No último verão, por exemplo, a marca desportiva contou com a ex-estrela de futebol americano Colin Kaepernick, um dos principais rostos do movimento antirracismo nos Estados Unidos, numa campanha publicitária. A Victoria's Secret ainda aparece entre as 10 lojas que não seriam compradas novamente pelos clientes.

O que a Victoria's Secret já faz

Desde os primeiros anos, vemos modelos negras nas passerelles e campanhas da marca de lingerie, de Naomi Campbell a Tyra Banks. E, em 2016, a empresa aventurou-se ao não retocar as estrias de Jasmine Tookes. Mas…

O que a Victoria's Secret pode mudar

Ampliar a inclusão racial. É bom ver modelos negras a desfilar? Com certeza. Mas não basta. No ano passado, com o desfile a ser realizado em Xangai, o número de modelos asiáticas saltou de quatro para oito. Contudo, entre as quase 50 mulheres, ainda foi baixo. E não deveria ser condicionado ao local do desfile. Acusações de apropriação cultural também já aconteceram e, em 2012, Karlie Kloss desculpou-se pelo Twitter, após ter desfilado com um colar de penas semelhante aos dos índios americanos, um símbolo de respeito e coragem para muitas tribos. O look não foi para o ar após todas as reclamações feitas nas redes sociais.

Ter mulheres de todas as idades e de todos os tamanhos a desfilar. A sensualidade não acaba a partir dos 30 anos e o desejo sexual não é determinado pelo peso da pessoa. As modelos precisam de refletir o que vemos no mundo real. O mesmo se aplica a modelos trangéneros, deficientes… A lista continua.

A sua abordagem. A empresa parece ainda vender a imagem da sensualidade feminina através de um ponto de vista sexista. Semanas antes do desfile, as modelos devem partilhar as suas rotinas de treino antes de enfrentar a passerelle. A mensagem é prejudicial: se não conseguir esforçar-se como elas – o que para quem trabalha oito horas por dia é impossível –, não terá o mesmo corpo "perfeito".

O efeito déjà vu. O desfile número 24 repete uma fórmula quase esgotada e, como consequência, a audiência cai ano após ano: dos 6,6 milhões de telespectadores em 2016 para os 4,98 milhões no ano passado, apenas nos Estados Unidos. A TV já não é o principal ecrã dos jovens (e não só) e a marca deveria propor um novo formato de apresentação da sua coleção. Afinal, o novo leitmotiv é ser plural.

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