ModaLisboa

Alexandra Moura: “Fazer coleções envolve um investimento não só do nosso tempo, como do nosso amor”

Conversámos com Alexandra Moura antes de apresentar a sua coleção primavera/verão no segundo dia da 51ª edição da ModaLisboa. A designer abriu-nos as portas do seu atelier no Príncipe Real, que é como quem diz do seu mundo, um lugar “cósmico” de ideias e inspirações.
Por Rita Silva Avelar, 13.10.2018

Vem do complexo mundo das Ciências para um mundo não menos complexo nem menos sonhador ou ambicioso: o da Moda. Alexandra Moura é uma das designers portuguesas mais supreemdentes e criativas. Formou-se no IADE, especializando-se em Projetos de Design de Moda. Desfilou a sua primeira coleção em 2002, abrindo o seu atelier no início do milénio, mas só em 2005 deixou entrar quem queria vestir Alexandra Moura. Hoje, a marca Alexandra Moura está internacionalizada, Alexandra está feliz, e as possibilidades são infinitas. É no seu atelier no espaço Embaixada, no Príncipe Real, que a magia acontece. Foi também lá que conversámos com a designer sobre como é trabalhar em moda, a sua capacidade voyeur da indústria, e o mundo incrível que é a seu processo criativo.

Cresceu em Lisboa, enveredou pela área das Ciências. Pode falar-nos um pouco desse período?

Todo o meu percurso de escola e todas as ideias que tinha fazia com que me dissessem que a minha vocação estava inclinada para as Ciências, para a Biologia Animal, e para me especializar em cetáceos! E para a Astronomia. São duas vertentes da Ciência que juntam dois mundos, e eu acho que não saberia viver sem eles: os animais, o mar e o universo (Cosmos).

Como é que a vida a levou até à moda?

Eu tive a sorte de poder viajar muito cedo, e numa viagem a Londres tudo começou a despertar. A par de tudo isto, eu já tinha uma paixão pelas Artes, pelo lado estético, pela forma de vestir. A maneira de eu comunicar com o mundo era, aliás, através da roupa (eu era uma pessoa das Ciências esquisita!). Londres, como cidade multicultural, de tribos urbanas e de grandes correntes de estilos e artes, despoletou em mim a noção de que havia lugar para outras coisas. Ir a Londres naquela altura era absorver a rua, ir a livrarias e discografias. Numa dessas idas a uma livraria encontrei um livro que falava da moda japonesa, e descubro o trabalho da Comme des Garçons, e a Rei Kawakubo. Aquilo fez tudo sentido.

Essa inspiração na estética japonesa continua a marcar muito as colecções da Alexandra Moura. É um universo que a fascina?

Marcou e reforçou a forma como eu via a moda, o corpo, o que é ser-se feminino, os cânones de beleza. Até então achava-se que para se ser muito feminina tinha que se usar certo tipo de roupa, e a moda japonesa veio reforçar que a maneira como eu via as coisas não era assim tão errada e que não estava sozinha. As silhuetas mais largas, a desconstrução, brincar com as volumetrias do próprio corpo… tudo fez muito sentido para mim.

De que maneira nasce e de que forma pensa cada coleção?

Há uma vontade de desenvolver um conceito ou um tema, de falar sobre qualquer coisa. E isso surge muito espontaneamente, nunca consegui ter uma metodologia ou uma regra. Acontece muitas vezes quando estou a desenhar uma coleção pensar na próxima; ou vou na rua e algo me que vejo me faz lembrar de alguma coisa… Já me aconteceu olhar para uma sombra e pensar numa coleção inteira sobre sombras. A partir do momento em que há esse clique e esse clique começa a fazer sentido no meu peito (enquanto é só na minha cabeça ainda fico com dúvidas) e que vem de dentro, aí todo o meu corpo desperta e vejo coisas que me levam ao conceito em si.

E qual o passo seguinte nesse processo?

Começo toda uma pesquisa à volta desse conceito, desde imagens, palavras, artistas, autores, memórias… Consoante cada tema. É onde demoro mais tempo, porque enquanto estou a pesquisar estou a perceber concretamente que tipo de história é que irei contar. Depois, começo a desenhar, é a parte que menos tempo demora, isso sim já é uma metodologia. Não consigo levar semanas a arrastar o desenho. Estou é muitos dias, semanas e meses a alinhar o pensamento. Até à materialização,
à modelagem, aos panos crus onde afino a silhueta (nesta fase, por vezes, surge uma nova peça).

O mundo das artes cénicas está-lhe próximo, já que desenvolve com frequência o guarda-roupa de figurinos em bailado. Foi algo que surgiu naturalmente ou já se identificava com o género?

Foi sempre surgindo por convite e é algo que gosto de fazer porque, apesar de ter a condição de  uma temática, há na mesma uma liberdade nas coisas e um respeito muito grande entre todos os intervenientes. Saber respeitar quem vai vestir, se é teatro, se é bailado, se permite mobilidade e conforto, sem perder o lado estético. É um desafio engraçado de que gosto muito.

Desde 2002 que apresenta coleções em nome próprio. Recorda-se do primeiro desfile, na ModaLisboa?

Perfeitamente. Do dia e do momento do desfile, mas não me recordo dos dias antes.

Três anos depois, em 2005, abriu o Atelier Alexandra Moura. Como equilibra o trabalho de atelier com o lado comercial?

Nesses três anos houve necessidade de chegar ao público e haver venda. Foi essencial. Se não, eramos meros artistas. Obviamente que temos sempre que pensar no lado comercial, isso também é um desafio e isso também é engraçado. Eu tento sempre que o ADN Alexandra Moura esteja nas minhas peças todas. Num desfile, tudo é feito e montado de forma que seja tudo mais levado ao extremo, precisamente para contar uma história. Mas as peças comerciais existem e estão lá, ligadas a outras. Quando começamos a partir de uma marca que se está a querer estabelecer e ter metas a alcançar, obviamente tem que haver o lado do negócio. Fazer coleções envolve um investimento não só das nossas vidas, como do tempo, como do nosso amor - é uma área que requer muito de nós e tem muitas pessoas envolvidas.

Em 2016 apresentou pela primeira vez na semana de moda de Londres (LFW). O que significou para a marca Alexandra Moura este salto?

Portugal ainda não tem grande cultura de moda, mas no próprio ato de consumo há um nicho, e claro que as marcas não conseguem sobreviver de determinados nichos (e um nicho de mercado neste país é mesmo pequenino). A minha estética não é propriamente uma estética para um gosto massificado, nunca foi isso que pretendi. Mas obviamente que se quero atingir alguns objectivos e crescer enquanto marca eu tenho que saltar, abrir horizontes e passar fronteiras. Lá fora tenho já um mercado engraçado, nichos maiores, e são aquele público-alvo para quem eu sempre desejei desenhar.

Quem são essas pessoas?

São pessoas que gostam de arte, que gostam das coisas belas mas que também têm um lado sensível, que são preocupadas com o outro. Que gostam da sua individualidade e de contar histórias, que são especiais e vêm além das peças. Acima de tudo dão valor às peças, e percebem que determinada peça com uma quantidade de tecido ou detalhe, têm esses valores. Existem horas de trabalho, dedicação e abdicação, muito amor depositado nas peças. Por isso claro que é muito gratificante quando a pessoa entende.

Ainda há mais homens do que mulheres a apresentar nas semanas da moda, nacionais ou internacionais. Sente a desigualdade na indústria?

Nós somos um mundo ainda muito baseado no homem, a própria construção de frases anda à volta da figura masculina. Parece que de alguma forma ainda não há grande espaço para haver aceitação em relação às qualidades e competências da mulher. Ainda está tudo muito masculinizado. Eu lembro-me que tinha uma professora que dava notas mais altas aos rapazes porque eles não tinham obrigação de costurar e as meninas tinham. Eu achava aquilo a coisa mais absurda de toda a vida.

Sempre se manteve um pouco afastada desse glamour, chamemos-lhe assim, "superficial" inerente a este mundo. Como é estar longe dos holofotes da moda?

Nunca gostei de ser o centro das atenções e acho que não tenho que ser eu. Acabo por "me transmitir" muito através do meu trabalho, as pessoas conhecem-me mais pelo meu trabalho do que se falarem comigo dois minutos. Nós somos seres humanos e todo o ser humano, até chegar a uma relação de intimidade e amizade tem muitas resistências, muitas formas de estar perante certo tipo de pessoa, ou local onde está. A minha essência está precisamente na roupa e é isso que eu quero que seja passado – é aquilo que eu sou através da roupa.

Este é um mundo muito "deslumbrado". Estar longe permite ver tudo com mais clareza?

Preciso muito do meu espaço, dos meus amigos e da minha família, de momentos para estar sozinha. Adoro estar em silêncio. Não me apetece estar a rir se não me apetece rir, ou de falar com pessoas com quem não quero falar. Não me apetece ver as hipocrisias que vejo, não me apetece ver nas costas dos outros as minhas, não me apetece uma série de coisas como futilidade ou falsidade. E estamos a viver um mundo muito fake. Porque as redes sociais trazem muito isso, olhamos para as pessoas que têm milhares de seguidores e vestem certas marcas, e as pessoas deslumbram-se com ela, mas depois, a pergunta: o que é que aquela pessoa tem a mais que os outros? [Afastar-me] dá-me paz, dá-me alguma serenidade para poder reflectir e pensar nas coisas e não estar constantemente no ciclo e embrulhada no barulho. No pouco tempo que temos na vida de hoje, isso dá-me espaço para reflectir, e perceber por que caminho devo ir, e o que reforçar ou tirar no meu trabalho. Para mim é essencial, em dias de muito stress, ir para casa para junto do meu filho e dos meus animais. Vivo o dia para aquele momento.

É a primeira designer nacional a apresentar em simultâneo na ModaLisboa e no Portugal Fashion. Como vê nascer, finalmente, esta sinergia?

Eu sinto-me muito honrada e feliz por poder ser um pontinho unificador entre as coisas. Sempre fui aquela pessoa que achava que isto era importante acontecer precisamente para não se desperdiçar esforços, equipas, dinheiro e foco. Num país tão pequeno, se todos remarmos no mesmo sentido, acho que chegamos mais longe do que se estivermos em atrito. Sinto que tenho o melhor dos dois mundos, porque estou muito feliz por voltar à ModaLisboa porque foi a casa onde comecei e cresci, a que fez com que pudesse pensar numa internacionalização. Por outro lado, estou muito feliz por ter o Portugal Fashion por que me deu a possibilidade de ir lá para fora, já que o meu mercado é lá fora. Sou grata a ambas.

Qual foi o maior desafio da coleção Heirloom, que apresentou na Semana da Moda de Londres?

Foi conseguir meter tantas memórias numa coleção. Recuei muito atrás. Já tinha homenageado os meus avós maternos numa coleção mais antiga, chamada O Milagre das Rosas, e nesta coleção quis fazê-lo com os meus avós paterno. Viviam numa aldeia [transmontana], eram pessoas do campo e eu, como criança da cidade, deslumbrava-me ir para um mundo tão diferente, onde os cheiros e os sabores eram diferentes. Fui buscar referências à casa dos meus avós, à sala, ao quarto, às roupas deles, à festa da aldeia, às procissões, ao som do sino da igreja (que é tão tradicional das aldeias portuguesas). Desde as memórias sensitivas como o sabor do leite ou o cheiro do café da minha avó, às imagens visuais como os brocados do sofá que não combinam com o tapete e as flores de plástico ou ao branco imaculado do quarto, o cetim, a renda e o folho da roupa de cama. Tudo era mágico, para mim. Tenho essas memórias ainda hoje.

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