Moda

“Eu sou feliz porque estou sempre a criar”

É um exemplo de trabalho e de sucesso: um quarto de século a fazer da moda made in Portugal um elogio ao empoderamento e ao corpo femininos, à diversidade de género e de raça, e à vontade de fazer acontecer. Fátima Lopes parece não ter medo de nada.
Por Patrícia Barnabé, 30.04.2018

É a única designer de moda portuguesa a desfilar, há 19 anos, no calendário oficial de Paris. E não é difícil perceber porquê: fez escassas concessões e avançou, sempre, com um sentido de timing e uma admirável temeridade. Tudo isso, curiosamente, atributos da Moda. Pelo caminho, Fátima Lopes (Funchal, 1965) abriu das primeiras lojas multimarca e lojas-bar, uma fábrica de produção e uma agência de modelos próprias, virou cabeças com um biquíni em ouro e em diamantes, o primeiro no género, no valor de um milhão de dólares, e foi das primeiras a desfilar na Torre Eiffel, numa das vezes que abriu a semana de moda francesa. Criou Alta-Joalharia, um perfume, eyewear, sapatos, louças, azulejos, cutelaria, têxteis para casa, canetas, o equipamento para a Seleção Nacional de Futebol, a imagem do Benfica, fardas para hotéis e os polos dos trabalhadores da Repsol. Em 2006, o Presidente Jorge Sampaio honrou-a com o título de Comendadora da Ordem do Infante Dom Henrique por levar o nome de Portugal ao mundo. Brinca com as críticas que sempre rodeiam os protagonistas e continua a sorrir muito, com o entusiasmo de quem acaba de começar. Recebeu a Máxima no seu atelier, no centro de Lisboa, dois dias antes do desfile, em Paris, rodeada de chariots. E com uma chávena gigante de chá verde.

Nasceu na Madeira. Fale-nos da sua terra, da sua família, da sua infância…  

Sou uma madeirense com orgulho na sua terra. Cresci numa família muito unida e entre cinco irmãos [três raparigas e dois rapazes]. Ao domingo era obrigatório toda a família jantar em casa e ninguém se atrevia a faltar. Os meus pais foram casados a vida inteira e os meus três irmãos mais velhos são casados com as mesmas pessoas. Portanto, fui a primeira a fazer um divórcio [risos] e, não satisfeita, fiz o segundo [risos]. Somos uma família muito estruturada, tipo "galinha", muito unida. O meu pai faleceu há 19 anos e adorava o Natal e de, nessa altura festiva, ter a família reunida. Uma vez, passei um Natal no Brasil e arrependi-me imenso. Para mim, foi como se não tivesse havido Natal.

E os amigos?

Tive a sorte de nascer num meio pequeno, onde toda a gente é amiga. O ponto de encontro era o Clube Naval [do Funchal] e comecei a frequentá-lo quando tinha dez anos. Por isso, quando cheguei [a Lisboa] tive um baque porque o mundo não era como eu o conhecia ? eu vivia numa redoma. Vinha de fora e, em Lisboa, ninguém me conhecia, além de que estava habituada a estar rodeada de amigos. No início foi complicado… Mas aprendi logo. Cresci.

O que a fez vir para Lisboa?

Estudei Turismo e trabalhei, quase quatro anos, numa agência de viagens. Depois fui trabalhar para outra agência e quando decidi vir para Lisboa, a primeira propôs-me sociedade. Mas, aí, o sonho da moda já estava comigo [sorriso]. Mas as viagens, para quem tinha 20 anos, como eu, eram um sonho… Eu planeava tudo! Nesse tempo não havia Internet ou telemóvel e eu era responsável por grupos de 50 pessoas! Fui sempre guia, no estrangeiro, e era o que me dava gozo. Foi a minha escola de vida, sem dúvida alguma.

Organizava, geria pessoas e ia ganhando mundo…

Sobretudo, ganhei mundo. E aprendi a ser responsável. Se bem que, desde criança, eu só aceitava brincar se fosse a chefe [risos]. Sempre tive esta coisa de liderar e de organizar, e nem sei como é que as pessoas iam na minha conversa [risos]. Mas era uma coisa natural, em mim. Depois, eu falava corretamente Inglês, Francês e Alemão, o que nos abre horizontes… Estava sempre a viajar em trabalho, pois de outra forma não teria sido possível. Lembro-me de ir, em criança, a Porto Santo ou às Canárias, o que era o normal para os madeirenses.

Nascer rodeada de mar deu-lhe um olhar diferente?

A sensação que para sair da ilha é preciso ser de avião, dá uma vontade louca de sair! Mas isto sou eu porque a maioria dos madeirenses adora lá estar. Nunca fui uma criança que se contentasse com pouco… Mas nunca fui de exigir, como os miúdos, agora, o que me irrita profundamente. Eu não tinha coragem de pedir, mas sonhava conhecer o mundo. Hoje, temos acesso a tudo, mas, naquela altura, se nascer em Portugal era difícil, nascer numa ilha ainda era mais. Não havia nada.

Diz que começou a desenhar roupa também porque não gostava da que encontrava na Madeira…

Eu sonhava com moda. A minha mãe conta que nunca passou uma vergonha tão grande como quando a minha irmã casou, tinha eu seis anos. Toda a gente ia de vestido comprido e de chapéu e a minha mãe quis fazer-me um vestido de rendinhas… As meninas iam todas [vestidas] de princesa. Chorei durante não sei quantos dias porque não queria usar aquilo! E obriguei a minha mãe a fazer um "macaco" de calções para eu vestir no casamento! Ela ainda conta agora que não sabe como é que se deixou ir na conversa de uma criança! Mas eu era assim. Não gostava de ir às compras, não gostava de nada. E andava sempre à procura daquelas revistas espetaculares, como a Vogue Paris... e, depois, não havia nada do que se via nelas. A partir dos meus 13 ou 14 anos, comecei a tirar moldes da Burda… Hoje nem sei costurar, mas, naquele tempo, inventava e a minha mãe achava-me graça e tinha paciência para tudo o que eu fazia. Lembro-me de fazer uma saia com 33 centímetros [simula o tamanho e ri-se]. Passava a vida nas lojinhas a comprar tecidos e as primeiras coisas que eu fazia era para usar nas festinhas de sábado à tarde. Festas em garagens transformadas em "discotecas" [risos]. Mas nunca me passou pela cabeça que viria a trabalhar em moda… Nem sabia o que era um criador! Mas, em criança, se me punham uma boneca na mão eu cortava-lhe logo a roupa e o cabelo [risos]. Gostava de desenhar e tinha jeito. Há coisas que não se explicam… Nascem connosco.

Então não herdou o gosto pela moda…

Bem, o meu pai foi alfaiate a vida inteira. Mas nunca foi um criativo. Era um homem que se vestia com um fato e uma gravata, todos os dias… Nunca gostei daquilo. Mas herdei, sim, o gosto de vestir bem. A minha mãe, às vezes, andava de sapatos de salto alto em casa e, agora, que tem quase 90 anos, tem um desgosto por não os poder usar. Tenho uma irmã mais velha que tirou o curso de Estilismo, em Londres, mas quem acabou por trabalhar em moda fui eu [risos]. Foi um sonho meu. Um dia, do nada, conheci um rapaz que tinha ido cumprir a tropa à Madeira e que me falou nas Manobras de Maio*. E, na minha cabeça, decidi: "Vou-me embora!" Ele ficou por lá e eu parti sozinha! [Risos.] [O telemóvel de Fátima Lopes recebe uma mensagem e ela comenta: "Que giro, é uma senhora, que está em Bruxelas, a pedir-me convites para o meu desfile de Paris."]

Veio, então, para as Manobras de Maio?

E o que é que, afinal, as Manobras tinham de interessante? Eram para amadores. Eu tinha consciência do meu sonho, mas não percebia nada de moda… Era uma aventura. Só com os meus 16 ou 17 anos é que ouvi falar na Ana Salazar e, aos 20, quando aquele meu amigo falou nas Manobras de Maio é que eu percebi que já existia um núcleo de pessoas [na moda]. Vim para Lisboa aos 23 anos, completamente inconsciente. Mas nunca tive medo e, por isso, fiz coisas que seriam impensáveis, pelo menos para algumas pessoas. Depois, tinha cá uma amiga que era dona de umas lojas de peles, mas a ideia não era vir para cá desenhar… Eu sabia lá o que era uma coleção! E abri com essa amiga uma loja e hoje tenho a consciência de que tive, talvez, uma das primeiras concept stores: a minha Versus [na Avenida de Roma, em Lisboa]. Ia a Paris, a Milão e a Londres buscar coisas que ninguém tinha… Trouxe [a marca] Jean Paul Gaultier para Portugal. A roupa [da loja] era francesa e os acessórios eram ingleses. Lembro-me de ir, certa vez, a Camden Town [em Londres] e passei por uma lojinha com uma vendedora extravagante que estava a vender anéis de prata com lápis-lazúli e ónix. "Quanto custam?", perguntei-lhe. Ela disse-me o preço de um anel. "E se eu comprar tudo?" [Sorriso.] Negociei os anéis e trouxe-os para cá. Quando cheguei a Lisboa, vendi-os numa semana. As pessoas tinham uma sede impressionante pela moda. E fui tirando cursos práticos: de materiais, de como se constrói uma coleção… Acabei por não entrar nas Manobras de Maio. Queria mais [risos]…

E qual foi o passo seguinte?

Numa viagem a Paris, resolvi comprar tecidos, em vez de roupa, e trazê-los para fazer uma coleção pequenina. Chamei-lhe Versus e não disse que era minha. Pus essa coleção na loja e, de repente, psssss! De um dia para o outro vendi tudo. E pensei: "Espera lá, se calhar está na altura…" [Simula um ar pensativo.] Comecei a planear a primeira coleção e o primeiro desfile, tudo em segredo, apenas com uma costureira e um modelista… E, em setembro de [19]92, fiz o meu primeiro desfile, no Convento do Beato – em outubro passado voltei lá para festejar os meus 25 anos de carreira –, e a loja passou a chamar-se Fátima Lopes. Foi quando senti que era capaz. Porque apesar de eu ser muito aventureira, sempre tive consciência da realidade. Aconteceu-me também que duas das marcas que eu vendia ? uma francesa e uma inglesa ? perguntaram-me se eu queria fazer uma coleção. Foi então que criei as primeiras peças e nunca mais usei uma peça que não fosse feita por mim [sorriso]. Isto, há 25 anos! [Olha para si própria.] A joalharia é minha e apenas o relógio e a lingerie são comprados. Até os sapatos, agora, são meus. Aquele dia foi o primeiro do resto da minha vida.

Depois passou a desfilar na ModaLisboa, que também está a comemorar os 25 anos de existência…

Comecei sozinha. Os meus primeiros desfiles foram repartidos, deste modo: dois no Convento do Beato, um terceiro na fábrica de armamento [Fábrica de Braço de Prata] ? foi um desfile "fora da caixa" ? e um quarto no Museu da Electricidade. Este último foi patrocinado pela Vidal Sassoon porque tinham ido assistir a um desfile e, no final, quiseram saber se podiam patrocinar o desfile seguinte. E foi espetacular! Foi a primeira vez que uma top model veio a Portugal, a Daniela Peštová, e nunca mais me irei esquecer disso. E veio também a academia [Vidal Sassoon] de cabelos e de maquilhagem que era uma coisa do outro mundo. Começou, entretanto, a ModaLisboa e desfilei lá durante anos. Depois veio o Portugal Fashion e, durante anos, participei nos dois. Mais tarde, achei que isso tudo era demais e fiquei só na ModaLisboa. Mas o Portugal Fashion fez-me uma proposta irrecusável: um contrato de exclusividade. Nunca foi nada premeditado.

Depois de Ana Salazar, a Fátima Lopes foi pioneira a diversificar a própria marca…

Muitas vezes não está dependente dos criadores fazer coisas, pois também, muitas vezes, a indústria não é recetiva. E, no meu caso, apesar de eu ter as ideias e de as procurar, tive apoios. A primeira vez que fiz porcelanas e louças foi a convite da Spal. Fiz tapeçarias a convite das Tapeçarias Ferreira de Sá. Fiz azulejos a convite da Aleluia Cerâmicas. A seguir ao biquíni de diamantes ? que foi feito na Bélgica e por uma multinacional belga ?, fiz uma coleção de joias a pedido dessa empresa, que acabou por ser patrocinadora dos meus desfiles, em Paris, durante anos. Nessa altura, eu andava sempre à procura de patrocinadores. Anos mais tarde, a Pedro Rosas propôs-me fazer joias, em Portugal, e eu não pensei duas vezes! Confesso que tive sorte, se bem que a sorte dá imenso trabalho. Também recusei muita coisa porque nunca quis banalizar.

E lançou um perfume, em 2013…

Fiz um perfume [feminino] com a maior multinacional de perfumaria francesa, a Givaudan, e com o Aurélien Guichard que tinha ganhado com Ricci Ricci, da Nina Ricci, o melhor perfume do ano, no ano anterior. O meu perfume está feito, mas entretanto começou a crise em Portugal e eu tive de parar. A essência é maravilhosa, chama-se Be Mine, e saiu em toda a imprensa francesa. É espetacular! Mas era um projeto de milhões… É daquelas coisas a que eu irei voltar. O frasco é inspirado nos meus anéis de diamantes. O nome é um convite: sê meu.

O que pediu a Aurélien Guichard?

Queria uma coisa que tivesse a ver comigo. Sei o que gosto, mas não sei explicar bem o quê. Tive três anos de idas a Paris para fazer experiências e nunca era aquilo que eu queria... Um dia, recebi um telefonema do Aurélien: "Fátima, viens ici. J’ai une surprise pour toi!" Meti-me num avião e quando cheguei ele pôs vários aromas à minha frente e disse: "Cheira!" Eu cheirei-o, no meio dos outros: "O que é isto?!", disse de um. Ele respondeu: "És tu!" Descobri-o logo. Não se explica. Os homens adoravam-no. É um perfume, dizia-me um amigo, que enfeitiça [risos]. Eu queria um perfume para o mundo e assim será, um dia.

Fale-me da fábrica e da agência de modelos, a Face...

A Face tem 19 anos e nasceu de uma brincadeira porque os modelos eram todos meus amigos. Em [19]98, eu tinha um prédio, no Bairro Alto, de dois mil metros quadrados, onde fiz a primeira loja-bar na Europa (depois fê-lo o Armani e outros italianos). As pessoas dançavam e tomavam copos nessa loja e a inauguração foi um acontecimento. O prédio tinha a Face, a loja, o bar e a parte de cima era a fábrica, com quase 400 metros quadrados, contendo a área de modelagem, de corte e de confeção. Eu fazia tudo lá. Quando comecei, a minha primeira fábrica foi instalada na Avenida de Roma e a loja era pequenina, com 40 metros quadrados. A minha secretária estava colada às mesas das costureiras. E fui crescendo. Nunca tive feitio para ser a patroa, nem para ser "general". Nasci para ser criadora, mas fui obrigada a ser empresária. Eu fiz sempre tudo e de tudo.

O que gosta mais de fazer?

De desenhar e de ver nascer… A fase em que as peças estão a ficar prontas e vêm as modelos prová-las. Depois, vem o desfile e eu já estou a pensar no próximo porque o que eu gosto é de criar.

A Fátima vende para o mundo inteiro…

Ainda há muitos sítios onde não vendo [risos]! Mas sim. Há mercados onde estou a entrar agora, como os Estados Unidos e o Canadá, e a China e a Índia, que fazem todo o sentido. Já estou no Japão, na Europa, nos países árabes.

É curiosa a sua relação com o Médio Oriente…

É muito interessante porque as pessoas perguntam: "Mas quem é que compra?" [Risos.] Compram, pois! O Médio Oriente tem um mercado especial de moda que vive de viagens e de festas privadas. A primeira vez que fui ao Dubai, fiquei espantada: no primeiro shopping onde entrei tinha uma loja Louis Vuitton ao lado de uma da Zara, esta ao lado de uma da La Perla e esta de uma loja de burkas. Isto convive tudo junto! E eles viajam muito e, quando saem, soltam-se. Mas tem de ser em privado. Fui fazer um desfile a Abu Dhabi, a convite de uma organização italiana, num hotel de super-luxo, e, a seguir, houve uma jantarada com álcool e tudo [risos]. Às vezes, nem tudo o que parece é.

A sensualidade sempre foi uma base do seu trabalho. É uma natureza, um ponto de partida?

Tem a ver com o facto de eu ter nascido com o calor. Para mim, isso é natural. Passava o ano inteiro de biquíni, no Clube Naval. Lembro-me de nadar em dezembro. Mas era um clube privado, de amigos… Quando cheguei cá, as pessoas olhavam-me de lado [risos]. Ainda hoje, se formos à Madeira, anda tudo de pernas à mostra. A sensualidade não se pode forçar. Claro que já não visto a maior parte das coisas que vestia e, quando vejo fotografias, penso: "Bem, eu era mesmo louca!" [Risos.] Mas, para mim, era tudo normal. Depois, as modelos dessa altura ainda exageravam mais. Lembro-me de fazer roupas que não eram para abrir e elas faziam-no, de propósito, porque sabiam que, assim, iriam aparecer nas revistas. Eu não queria aquilo! [Risos.] Quis as transparências e os decotes. Mas nunca tive pudores com o corpo. Não acho que seja para esconder. Hoje em dia, posso fazer uma ou outra transparência, mas um nu ninguém verá. Acho que sensualidade é outra coisa. O corpo é para ser valorizado… Não faço "sacos de batatas" [risos] porque não gosto de coisas a direito. Claro que é mais fácil fazer duas costuras, mas eu faço a roupa adaptada ao corpo de cada modelo que vai desfilar e fica perfeito.

E é corajoso fazê-lo num país cheio de pudor e apesar das críticas…

As críticas, às vezes, davam-me vontade de rir. Quando são construtivas, ouço-as, porque não acho que tenho sempre razão. Sei ouvir, sei pedir desculpa e sei reconhecer os erros. Mas, ao mesmo tempo, sei o que quero. E algumas vezes, se calhar, tinham razão nas críticas, mas a maior parte, quando são só destrutivas, passam-me ao lado. E quando comecei a desfilar em Paris, de repente, deu-me uma nova força e pensei: "Ok, afinal eu vivo num país pequenino."

Como foi começar a desfilar em Paris?

Ninguém me conhecia… Quer dizer, pensava eu que não me conheciam. O meu primeiro assessor de imprensa, que conheci na ModaLisboa, um francês que era uma figura muito diferente, chegou-se ao pé de mim e disse: "Vim cá para te ver. Vou ser o teu assessor de imprensa." Ficámos amigos para a vida e foi ele que me disse que eu já era conhecida pela minha loja, que estava na Rue de Grenelle [em Paris], a rua dos criadores, a qual tinha a loja do [Claude] Montana em frente e as de outros à volta e, também por isso, começou a ser notada. "Vamos começar a desfilar em Paris", disse-me. Eu achei que era uma loucura, mas quando começámos, desfilámos estrategicamente no dia anterior ao da abertura oficial do calendário. Estava em pânico! Na minha cabeça, não ia ter ninguém a assistir e, de repente, tinha centenas de pessoas e eu não queria acreditar. Na coleção a seguir, fui convidada para desfilar em calendário off e, na estação seguinte, em calendário in. Foram mesmo convites, não fui pedir nada.

Anos mais tarde desfilou na Torre Eiffel…

Muitos anos depois… Esse desfile aconteceu na abertura oficial da fashion week, que eu fiz três vezes, e de que eu não gostava nada por ser de manhã. A primeira vez foi num domingo… Às nove horas não tinha ninguém, mas às nove e trinta estava a abarrotar. Os meus amigos disseram: "Bem, isso em Portugal não iria ter uma única pessoa. Nem sequer os amigos." Mas Paris é diferente. É trabalho. Quem vai assistir aos desfiles são os jornalistas. Depois, chateei-me com a Federação [da Alta-Costura e da Moda] porque me puseram a desfilar às nove horas da manhã, antes da Chanel… Só fiz três desfiles e era um stress, com os jornalistas a olhar para o relógio. Tive aventuras de todo o tipo. Há dias, ri com a polémica do jantar no Panteão [Nacional]. Eu já desfilei, por duas vezes, no Musée de l’Armée, onde está sepultado o Napoleão!

Numa primeira fase, a Fátima era mais apaixonada por Londres, era mais extravagante… Depois é que se apaixonou por Paris.

Sim, eu adorava Londres! Tudo o que era "fora da caixa" acontecia em Londres. Mas Paris era a capital da Moda e depois passou a ser a minha casa. Só fechei a loja porque, de repente, a Rue de Grenelle tornou-se a rua das sapatarias. O Montana foi o primeiro a fechar, depois o [Yves] Saint Laurent vendeu a dele e o [Yohji] Yamamoto também se foi embora. E eu vendi a minha, que foi a última loja de roupa nessa rua. Foi uma pena, mas, nessa altura, eu já estava no calendário, por isso a montra já era o próprio desfile. Toda a gente saiu de lá para [a Rue] Saint-Honoré, mas pediam dois milhões de euros pelos trespasses e 15 mil euros pelos arrendamentos mensais, na altura! Toda a vida lutei em Paris e sem as mesmas armas. Em termos de criação, eu não tenho medo de comparar a minha coleção… Se calhar, a Chanel gasta mais em maquilhagem do que eu no desfile inteiro, como é evidente. Mas, sim, hoje em dia sou mais por Paris… Tive um apartamento lá e também tenho lá muitos amigos.

Sempre foi uma orgulhosa portuguesa.

Sempre! Lembro-me do meu primeiro desfile, no Louvre [fiz três desfiles lá], e quando chegámos ao museu estava escrito Fátima Lopez, com z, e uma revista portuguesa "arrasou-me" e eu não tive culpa! Foi a Federação que mandou escrever o meu nome assim. Os artigos sobre mim sempre me citaram como sendo la créatice portugaise ou the portuguese fashion designer. Não há quem possa dizer o contrário. E ai de quem disser mal do meu país! [Risos.]

Em 25 anos de carreira, do que se orgulha mais?

De conseguir estar em 39 desfiles, durante quase 20 anos, sem parar e sem nunca deixar de fazer uma coleção, tudo contra ventos e marés. Nunca desisti. Acho que fiz umas coleções melhores que outras, como é evidente. Hoje tenho aquela sensação de missão cumprida. Eu já não sinto que preciso de provar nada a ninguém. O que faço é para meu prazer pessoal. É claro que é um negócio e é preciso que ele seja rentável. É nos momentos mais difíceis que sabemos do que somos capazes. E eu vou buscar forças não sei onde e descobri que sou mais forte do que alguma vez pensei poder ser. Acho sempre que consigo tudo. E preciso de sorrir… Não sou capaz de estar ao pé de pessoas antipáticas ou negativas. Eu preciso de chegar aqui [ao atelier], todos os dias, com um "Booom diaaa!!!". Não há gente "chata" cá dentro.

Essa atitude é uma imagem de marca sua.

Ah! E espero poder sorrir a vida toda porque a única coisa que faz sentido é divertirmo-nos, sermos felizes e gostarmos daquilo que fazemos. Ao longo destes anos, eu acho que consegui ser feliz em todos os momentos. Não acontece todos os dias e a toda a hora, como é evidente, mas consigo ter momentos de sorrisos que ninguém me tira e em que não consigo parar de rir. Também me rodeei de pessoas assim e preciso disso. Todos os dias almoçamos juntos [a equipa]. Aqui não há patrões! Somos uma equipa de trabalho e tudo o que conseguimos, conseguimos juntos. Tenho uma costureira comigo há 25 anos!

Vivemos numa fase de empowerment feminino e a Fátima é disso exemplo.

Muitas vezes me têm perguntado se, alguma vez, fui discriminada por ser mulher: nunca fui porque nunca permiti! É claro que eu talvez tenha tido essa voz, essa possibilidade, e muitas mulheres não a tiveram e muitas ainda não a têm. Às vezes, é preciso surgirem movimentos e mulheres com visibilidade para que as outras [mulheres] tenham voz. Sempre exigi os meus direitos por inteiro, desde criança, e eu nasci num meio machista e numa ilha pequenina. Quem sou eu para julgar… Mas está em cada uma de nós dizer: "Eu exijo ter os mesmos direitos." E essa foi, talvez, a base da minha vida. Só não concordo quando as coisas passam para o nível do irracional: uma coisa é assédio [sexual], outra coisa é charme e sedução.

Sempre teve a coragem para tomar posições, mesmo as politicamente incorretas. Como quando lhe perguntavam por que razão não queria ter uma família nos moldes tradicionais, como se tivesse de a ter...

Como se fosse obrigada! Mas fui criticada por isso… Ui, muito criticada… E não era por falta de possibilidade. Eu não queria, mesmo, porque não tinha tempo e sabia que a profissão ficaria para trás. Eu, em criança, gostava de ser apaparicada e tive uma mãe muito presente e se eu tivesse um filho tinha a noção que tudo iria ser diferente… As mulheres que são isso tudo e que ainda são capazes de ser umas profissionais, são supermulheres! Eu acho que não seria capaz. E não se tem um filho para os outros o criarem.

A Moda nunca foi tão inclusiva como hoje. Todas as raças, todo o tipo de corpos...

Estou perfeitamente à vontade porque fui a primeira, em Portugal, a dar destaque a negros. No meu início de carreira, os meus modelos eram a Nayma e o Jamal, numa altura em que isso não acontecia. Nunca me ditei por tendências, nunca entrei nas "ondas" do grunge, do anorético, das maquilhagens como se as modelos estivessem doentes. Na altura em que as modelos eram esqueléticas, eu tinha a Marisa Cruz como imagem. A Face é multicultural há 19 anos… [Modelos] mais altas, mais baixas, mais gordinhas e mais magrinhas… As pessoas devem ser todas diferentes. Provavelmente, muitas vezes não fui compreendida porque estava um pouco à frente do tempo. Então, em Portugal, eu era uma extraterrestre. Hoje, não há dois criadores iguais. Somos todos diferentes e ainda bem.

Parece entusiasmada como no início?

Sim, porque eu nunca faço duas coisas iguais. Há uma frase do Yves Saint Laurent, que foi um homem muito infeliz, que dizia que só era feliz duas vezes por ano: quando apresentava a coleção de outono/inverno e a coleção de primavera/verão. Eu sou feliz o ano inteiro porque estou sempre a criar. Não fecho portas a nada! Se me apresentarem um projeto interessante, eu faço-o. Faço tudo! Os móveis da minha casa são todos desenhados por mim. Só não fiz notas de quinhentos euros… E até precisava! [Gargalhadas.]

*As Manobras de Maio foram constituídas por eventos de moda e de arte, independentes e não profissionais, realizados no Largo do Chafariz, à Rua de O Século, em Lisboa. O primeiro teve lugar a 17 de maio de 1986, um sábado, cinco meses após a adesão plena de Portugal à então CEE. O nome surgiu, em parte, por as inscrições livres se efetuarem na loja Manobra, na citada rua. A participação do público enchia toda aquela artéria, cortando o trânsito. Nunca mais se repetiram eventos como as MM, até por na altura as pessoas estarem sequiosas por moda, por não existirem compromissos comerciais ou lobbies e por as pessoas se poderem expressar livre e genuinamente em público. N.R.

© Pedro Ferreira
© Pedro Ferreira
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“Eu sou feliz porque estou sempre a criar”

 

Assistente de fotografia: João Taínha. Styling de Susana Marques Pinto. Maquilhagem: Patrick Van Der Berg/Skynlife. Cabelos: Pini para Tony & Guy. Agradecemos as presenças do gato persa Charmy Belle (Agência Crowd) e da sua dona, na sessão fotográfica.

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