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Francisca Van Zeller: “um vinho excelente é o que me faz viajar para outro lado”

Fluída no discurso, carismática por natureza e curiosa na sua profissão, Francisca van Zeller é o rosto da comunicação numa família com uma herança especial no que toca aos vinhos do Douro. Conversámos com a brand manager, a propósito de um lançamento exclusivo.
Por Rita Silva Avelar, 30.10.2019

Apaixonada pelo storytelling e uma empreendedora nata, Francisca Van Zeller (1988) é a 15ª geração a escrever história na herança ancestral que a sua família tem vindo erguer no mundo dos vinhos portugueses de excelência. Licenciada em História pela Royal Holloway College, em Londres, fez, mais tarde, um mestrado em Jornalismo pela Universidade de San Pablo, CEU, em Madrid. Só depois se formou em Enologia e, depois de uma breve experiência num site online de turismo chamado Strawberry World, assumiu o cargo de relações públicas na Bacalhôa Vinhos de Portugal. Em 2013 começou a dedicar-se ao projeto familiar, assumindo a função de brand manager e gestora de mercados da Quinta Vale D. Maria e Van Zellers & Co, cargo que hoje mantém. Com uma forte veia criativa e disruptiva, Francisca também é membro do coletivo de produtoras Portugal Wine Girls, composto por si (em representação da Quinta Vale D. Maria, Douro), Luísa Amorim, (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Douro), Maria Manuel Poças Maia (Poças Júnior, Douro), Mafalda Guedes (Herdade do Peso, Alentejo) Rita Cardoso Pinto (Quinta do Pinto, Lisboa) Rita Fino Magalhães (Monte da Penha, Alentejo) e Rita Nabeiro (Adega Mayor, Alentejo). É uma das fundadoras da United Wine Woman (composta por 23 mulheres no sector do vinho) cujo slogan é "blended for a cause", e que serve para angariar fundos para instituições. Casada com o ator Albano Jerónimo, cinema e teatro são duas das suas paixões, nos tempos livres.

Num jantar que reuniu amigos, clientes, jornalistas e todos aqueles que se ligam à marca, no Verride Palácio de Santa Catarina, Francisca e o pai, Cristiano van Zeller, apresentaram as novidades do ano como o rebranding da Quinta Vale D. Maria. Entre elas, em destaque esteve o lançamento do exclusivo Vale D. Maria Very Old Tawny Colheita Porto 1969 (que entretanto foi cotado com 95 pontos na Wine Advocate – Robert Parker). Trata-se de uma série limitada de vinho do Porto envelhecido em barricas, com uma produção de apenas 600 litros (cerca de 800 garrafas) e um packaging assinado pela Rivotti Design. À Máxima, revela as suas memórias de infância, os seus desafios diários, e fala sobre a comunicação atual do vinho português.

Francisca, quais são as suas primeiras memórias ligadas ao vinho? E as recordações mais fortes de uma infância passada no Douro?

Estão ligadas à época das vindimas, que é entre setembro e outubro, que era a altura em que passávamos a maior parte da temporada no Douro, e em que a casa estava sempre cheia de clientes, amigos, família e era sempre muito movimentada. E depois o cheiro da própria adega, e da zona dos lagares, onde as uvas estavam a fermentar, a pisar pé, a música que se associava a isso, do acordeão e dos rufos. Todo esse espírito de festa e de união. É isso que hoje em dia ainda me relaciona com o vinho, além do produto em si, obviamente. Cresci no Porto e tenho outras memórias, mas as memórias do Douro são as que provavelmente me trazem mais alegrias. Foi-me dada a oportunidade ao longo da vida trabalhar no mundo dos vinhos, por isso estas são provavelmente as memórias que eu vou revivendo.

Sei que se formou em História e fez um mestrado em Jornalismo. Como se deu a viragem ao tornar-se enóloga?

Acima de tudo tive uma sorte muito grande em poder explorar um lado muito livre do pensamento e da forma de se olhar para as coisas. O que mais desenvolvi no curso de História foi o pensamento crítico sobre uma ideia, sobre um acontecimento. Eu gostei dessa multiplicação de pontos de vistas, e desenvolveu-me um pensamento crítico que mais tarde, no Jornalismo, seria algo que eu sentia que poderia por em prática. Depois, obviamente que ajudou na parte da comunicação, em expressar uma ideia. Isso para mim é muito inato. Depois, conseguir aplicar isso nos vinhos, passa por olhar para algo concreto – que é um vinho – mas que tem uma multiplicidade de formas de se olhar, de explicar, de contar a história e de comunicar.

Qual é o maior desafio de comunicar o mundo vinícola?

Na nossa área profissional é importante inovarmos o nosso pensamento crítico, porque isso nos leva a uma melhoria no nosso dia. Quando falamos de algo que se herda, as ideias as formas de estar no negócio são importantíssimas. É questionarmos, de uma forma saudável, se "isto" se continua a aplicar ao mundo de hoje, porque o consumidor está sempre a mudar e é importante estarmos atuais. Embora olhar para trás seja quase um contra-senso, é sobre a análise que está esta predisposição em irmos de encontro ao mundo moderno.

O que é que mudou mais neste negócio, nos últimos 10 anos?

O negócio em si está muito mais virado para o mundo. E o mundo tem várias formas de consumir e receber os produtos. Portugal, em termos de produtor de vinhos portugueses em geral (à excepção do vinho do Porto, que sempre foi uma excepção e sempre esteve virado para o mundo) aumentou muito a sua qualidade. Deu para perceber que fazemos vinhos para serem consumidos mas também para serem envelhecidos e guardados. Já não é "o beber do garrafão" – por assim dizer. A comunicação á volta do vinho está a modernizar-se, mas ainda há um caminho a fazer. Há outras áreas de negócio como a moda ou o cinema que podemos perfeitamente aprender a comunicar o vinho. O vinho também está a começar a comunicar através de influencers digitais, por exemplo.

Isso, antes, era impensável?

Sim, seria um público em que provavelmente os produtores não se iriam dirigir naturalmente porque existe um certo conhecimento que é preciso ter à volta do vinho para o classificar, mas o vinho não é só para classificar mas sim para beber, e para se inserir no dia a dia das pessoas nas refeições. Os influencers digitais podem não ser especialistas em vinho mas comunicam uma certa forma de estar na vida e o vinho tem de pertencer a isso. Especialmente quando falamos de vinhos portugueses. Está também mais divertido, na forma de comunicar. As quintas estão a abrir portas, a desenvolver enoturismo, da pisa a pé às provas. Isso tudo se está a desenvolver em Portugal, com um certo nível de exigência equiparada às outras grandes regiões vinícolas no mundo. Já não somos só enologia e viticultura, e vendas. O marketing e a comunicação são cada vez mais importantes (…) a nossa responsabilidade é cada vez mais produzir vinhos com identidade, qualidade e depois conseguirmos comunicar o que é que isso significa.

Como é um dia normal na sua vida? E qual é o lado que a mais entusiasma no seu trabalho?

Todas as áreas que exigem uma especialização, desde a medicina à arquitetura, da engenharia à enologia, todas elas têm que ser muito evidentes na linguagem, seja quando há comunicação entre pares ou para fora. O primeiro ponto é saber para quem vamos falar, e há uma panóplia de públicos. Eu tanto faço palestras para quem sabe muito mais sobre vinho que eu, ou seja masters of wine, pessoas que detetam o vinho às cegas (sabem de que ano é, de onde veio, quem produziu…) ao consumidor que por acaso está num jantar, cruzei-me com ele e debato algumas ideias. O meu dia a dia envolve muitas coisas. Trabalho três marcas: Quinta Vale D. Maria, em que produzimos vinhos no Douro de nicho, outra marca é a marca institucional da empresa Aveleda, onde a Quinta Vale D. Maria se insere, e a Quinta da Aguieira, que é uma quinta na Bairrada, que vai desenvolver vinhos de nicho e é um projeto a desenvolver em 2020 ou 2021. O meu dia divide-se entre reuniões que possam envolver qualquer um destes trabalhos, muitas formações, gestão de redes sociais, formações de equipas… neste momento, por exemplo, estamos a passar uma fase de rebranding da Quinta Vale D. Maria. Além disso, obviamente o desenvolvimento de novos produtos, como agora o caso do Colheita 1969, um vinho do Porto muito velho. A ideia passa muito por olhar para os vinhos que temos e ver que oportunidades ir buscar ao mercado.

Qual é a história de família que reflecte mais o espírito da vossa herança vinícola?

Há uma história que acho particularmente engraçada. Um tio nosso foi ao médico e nesse dia ele disse-lhe que tinha que parar de beber. Ele bebia duas garrafas de vinho do Porto por dia. E ele perguntou: mas o que é que eu posso beber? E o médico disse-lhe que ele tinha que reduzir para um copo. Então ele comprou um copo de litro, e bebia esse litro de vinho. O que é que eu acho que isso significa? Não podemos olhar pelo prisma da saúde, porque não tem nada a ver com isso. Perante uma adversidade, houve uma ação criativa. E eu acho que a história da minha família no vinho está cheia destas histórias. Já tivemos a Quinta do Noval, já vendemos, os meus pais construíram a Quinta Vale D. Maria, já vendemos (faz parte da Aveleda), ou seja nós temos um percurso de muitas novas realidades, sempre ligadas ao vinho, e sempre com a perspetiva de comunicarmos e levarmos o vinho mais longe. E independentemente das circunstâncias, nós fazemo-lo. Eu acho que isso é o que mais me define, também: aquilo que eu quero fazer é estar no vinho e levá-lo mais longe, e com isso levar uma identidade de um país, de uma cultura.

O que é faz um bom vinho?

O que é que faz um bom vinho… é um trabalho tão sensível. O que é que faz um bom quadro? Claro que alguém pode explicar isto de uma forma mais técnica, mas depois existe a parte estética que diz que isso é subjectivo mas ao mesmo tempo não é, porque tem que transmitir uma sensação positiva. Um bom vinho tem que despertar em nós muitas coisas, temos que nos esquecer que estamos a olhar para um copo de vinho. Tem que nos trazer outros universos e isso sempre foi o que me definiu, provavelmente porque as minhas memórias estão ligadas ao Douro, felizes e positivas, quando eu ponho o meu nariz ao copo, eu posso ir atrás dos aromas em concreto ou então eu posso ir atrás de uma sensação. Claro que um vinho tem que ser harmonioso para poder despertar isso (…) tem que ter aromas múltiplos agradáveis e isso tudo tem que estar em harmonia. Um vinho excelente é o que me faz viajar para outro lado.

Faz parte das Portugal Wine Girls. Que mensagem maior passa esta iniciativa?

A era em que vivemos virou o foco para as mulheres nas suas diferentes áreas, e aproveitamos este momento para falarmos sobre a nossa posição nesta área. Não é que eu algum dia tivesse sentido que sou uma mulher no negócio dos vinhos num mundo de homens. Tem a ver mais com o facto de ter estudado História, e saber que a História é escrita por homens, para homens, sobre homens. E de repente haver a oportunidade de a história ser escrita sobre mulheres, por mulheres, não necessariamente para mulheres, mas até para mulheres futuras. É um certo empowerment do que é a nossa posição hoje em dia, porque ela já existe está solidificada, não estamos a inventar nada de novo. Mulheres enólogas existem imensas, eu vi-as como exemplos, à medida que fui crescendo.

O que é que mais gosta de fazer quando não está a trabalhar?

Adoro acompanhar o meu marido a todas as coisas que ele faz, que é espectacular. Tive a sorte de o poder acompanhar ao Festival de Veneza, a propósito do filme A Herdade. Ir ver espectáculos de teatro… e hoje em dia é muito engraçado pensar na perspetiva que se tem da vida. Eu experienciava as coisas através do vinho, ia visitar determinado país através de restaurantes e tudo. Agora também é através do teatro, isso envolve mais as cidades à noite. No fim de um espectáculo vamos sempre beber um copo, enquanto no fim de um jantar vinícola eu já não vou beber um copo (risos). Adoro ir ao cinema, ler, surfar, quando consigo só estar um pouco em silêncio, no Douro. E estar com os meus amigos e a minha família, isso é fundamental.

Tags: francisca van zeller quinta vale d. maria vinhos viticultura enologia d. maria very old tawny colheita porto quinta do pinto jornalismo
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