Detox de guarda-roupa

Tralha? Qual tralha?

Até há pouco tempo era uma espécie de purga anual. Ou bianual, se levássemos a coisa a sério. Mas nos últimos anos fazer um detox de guarda-roupa tornou-se uma cena trendy, a meio caminho entre o cool e o zen. Sim, arrumar o armário é (mais ou menos) o novo preto.
Por Maria Wallis, 25.06.2019

teasers para todos os gostos. "Como ter um guarda-roupa de sonho em dez passos", propõe uma publicação feminina. "Cinco coisas que tem de tirar do armário nos próximos minutos", alerta a edição online de uma conhecida revista de lifestyle. "Como fazer um detox no guarda-roupa", sugere um blogue. "Aprenda a montar um armário-cápsula", alicia um jornal diário. Em qualquer dos casos, as palavras-chave são iguais e repetem-se até à exaustão: armário, guarda-roupa, detox, sonho. Em 2019, o mundo virtual (e, por arrasto, a sociedade) tornou-se especialista daquele ato tão simples e primitivo que passava de geração em geração: a limpeza do roupeiro. No momento  em que escrevemos estas linhas, "limpeza do roupeiro" é coisa do passado. Mandar coisas fora, escolher entre o que serve e o que não fica bem, dizer adeus a quilos e quilos de tralha é uma nova etapa na evolução humana. Como tal, tem um nome adequado: closet detox. E fazer um closet detox é um ato de emancipação. É saber distinguir entre bens de primeira e de segunda necessidade. É assumir erros, manias e más escolhas. É não ter medo de enfrentar o nosso eu, que tem por hábito acumular, e procurar a cura para as nossas fraquezas. Organizar o nosso santuário fashionista é muito mais profundo do que remexer em gavetas e engolir pó. Já ninguém faz isso assim do nada sem consultar três livros e ver dois tutoriais no YouTube. Já ninguém ousa modificar o Yin e o Yang de uma das principais zonas da casa (pelo menos para uma mulher) de uma forma assim tão simples e prosaica. Em 2019 há uma nova geração de especialistas que nos ensina o bê-á-bá da arrumação. Chamam-se personal organizers e vieram revolucionar (perdão, organizar) a nossa vida. 

Marie Kondo, o fenómeno.
Experimente escrever "wardrobe detox" no Google e vai ver como, em 0,49 segundos, surgem mais de 17 milhões de resultados. Aquilo que as nossas mães e as nossas avós faziam a cada mudança de temporada, principalmente por razões práticas, é agora uma espécie de legião. Um clube semiprivado, se quisermos, fundado por Marie Kondo, a japonesa de aspeto frágil e inocente que é, na verdade, o maior guru da organização pessoal e sobre a qual escrevemos no nosso número de abril passado. O seu primeiro livro, The Life-Changing Magic of Tidying Up: The Japanese Art of Decluttering and Organizing, foi publicado em 2011 e já vendeu mais de dois milhões de cópias em todo o mundo. A versão portuguesa Arrume a sua Casa, Arrume a sua Vida (Pergaminho) esteve por várias vezes nos lugares cimeiros das tabelas de bestsellers. O impacto do método KonMari é tanto que a Netflix decidiu criar a série Marie Kondo: A Magia da Arrumação. Os espectadores responderam afirmativamente e o programa é um sucesso. Já em 2015 a Time a tinha considerado uma das 50 pessoas mais influentes do mundo. Mas qual é, afinal, o objetivo de tanta sabedoria? Transformar "casas desarrumadas em locais de serenidade e de inspiração". Sim, Marie Kondo quer "arrumar" o mundo. No primeiro episódio da sua aventura televisiva apresenta-se da seguinte forma: "Olá, o meu nome é Marie Kondo e a minha missão é trazer alegria no mundo através da arrumação." Contudo, nem todos os seus conselhos são fáceis de seguir. Ter apenas 30 livros, querida Marie, é humanamente impossível. 

O método, à risca.
Outras sugestões são mais exequíveis, como as que se relacionam com o elefante na sala, leia-se, o estado do nosso guarda-roupa, esse lugar inviolável onde ninguém, nem mesmo nós próprias, conhecemos o princípio e o fim. De acordo com as regras de Kondo, o melhor a fazer é tirar tudo (mas mesmo tudo) do armário, colocar em cima da cama e proceder a uma organização segundo categorias e subcategorias: casacos de lã, calças, vestidos, peças de verão, roupas de inverno, etc. É daí que passamos para a segunda fase, uma espécie de teste da alegria. Será que a saia X ainda nos faz felizes? Será que ainda amamos perdidamente os calções Y? Se a resposta for negativa é para sair, definitivamente. Há por esta altura um momento em que é suposto agradecer o tempo que passámos com o artigo em questão (esta fase é crítica para céticos, mas não virá grande mal ao mundo em dizer a uma camisola de angorá que apesar de a nossa relação acabar gostámos muito de tudo o que vivemos juntas) que, por sua vez, dará origem à decisão prática e segura de que a nostalgia não entra nesta tarefa ? aqui o que está em causa é perceber o que acumulamos ao longo do tempo (está a ver aqueles cabides carregados de etiquetas que evita ver? É disso que falamos) e que não usamos, e se for caso disso dar uma nova vida a parte da tralha que já não faz sentido para nós. Se conseguiu chegar aqui, parabéns, está a meio caminho de se tornar uma discípula de Kondo. Os últimos passos implicam algum malabarismo: arrumar a roupa na vertical para que possamos ter uma visão total de tudo o que enche o espaço e colocar as peças mais pesadas/compridas, e as mais escuras e grossas do lado esquerdo do armário, de forma a proporcionar um aspeto sóbrio e apetecível (e, segundo Kondo, para "acalmar a mente"). Funciona? Os antes e os depois partilhados nas redes sociais, bem como os testemunhos de milhares de convertidos, dizem que sim. Mentes mais aflitas poderão, no entanto, querer fazer esta temida limpeza de closet à sua maneira, seguindo aquele maravilhoso método ancestral que defende a ausência de método.


Eu arrumo, tu arrumas, nós arrumamos.
Muito antes de Marie Kondo espalhar a sua religião já todas nós nos tínhamos aventurado, mais do que uma vez, nesse trabalho ingrato de arrumar o armário. A minha mãe, que nunca ouviu falar nesta japonesa fofa (qualquer semelhança com um unicórnio cor-de-rosa não é coincidência), adotou um método muito próprio: mandou construir um novo guarda-vestidos (era assim que nos referíamos a eles, antigamente). O elegante móvel de madeira escura, que durante toda a minha existência foi o ponto central do seu quarto, deu lugar a um novo objeto de proporções maiores que esconde um sem-fim de gavetas, gavetinhas e espaços mágicos onde tanto cabem lenços de seda como óculos de sol. "É mais feio", atiro, a medo. "É mais prático", responde-me, assertiva. "E mais moderno." Ali cabe, agora, quase toda a sua roupa, até os casacões de inverno. "Dei muita coisa, não te esqueças", garante a minha mãe. Não me esqueço. Eu própria decido fazer a minha limpeza semestral poucos dias depois. Procedi de acordo com um regulamento meu velho conhecido, o impulso, e aproveitei uma insónia para meter mãos à obra. Como (quase) sempre acontece nestas coisas, a grande intervenção ficou a meio, porque três horas depois estavam seis sacos para colocar no contentor da Humana (associação sem fins lucrativos que, desde 1998, trabalha a favor da proteção do meio ambiente através da reutilização têxtil) que tenho no quarteirão. E eu estava de rastos. O que saiu, e saiu muita coisa, foram principalmente peças que estavam há duas temporadas, ou mais, no mesmo sítio. Depois escolhi livrar-me de coisas que já não me servem ou das quais já não gosto. Cheguei à vergonhosa conclusão de que são demasiados os itens que nunca tiveram um lugar no meu coração. Por fim e mais difícil, deparei-me com "os impossíveis". As sandálias que eu comprei para usar numa ocasião tão especial que ainda não existiu, os vestidos estampados que me recordam relações falhadas (são quase sempre vestidos, percebo agora), o casaco de lantejoulas para vestir na minha despedida de solteira em Las Vegas (continuo solteira e não me vejo a subir ao altar), os jeans caríssimos que apesar de serem super trendy não ligam com a minha fisionomia. E por aí fora. As minhas purgas, já se vê, não são perfeitas. Por vasculhar ficou o armário da sala (é um T1, seria impossível ter tudo num só local), que é uma espécie de gruta do Ali Babá onde coexistem relíquias descobertas em incursões à loja A Outra Face da Lua e coisas tão banais como os panos da praia. Tudo o que estiver no sótão é considerado um peso morto, ou seja, não existe. Mas, lá está, só custa começar.

 

100 regras… ou sem regras.
Tenho a sensação de que o meu método-sem-método até é bastante semelhante ao de Marie Kondo. A diferença é que ela fez disso uma multinacional que fatura milhões. Danijela Coha, também conhecida como the wardrobe fairy (à letra, fada do guarda-roupa), é uma especialista em organização sediada em Londres. Num artigo da revista do The Sunday Times (cujo título é, adivinhou, 9 Ways to Detox your Wardrobe), aconselha a nunca tirar tudo do armário de uma só vez. Porquê? Porque basicamente não sabemos o que estamos a fazer e acabaremos por desistir. "It’s overwhelming", avisa. E é. Em bom português, é ter mais olhos que barriga. Em vez disso propõe que ataquemos por zonas. Um dia os jeans, outro dia as T-shirts e por aí fora. Outro dos conselhos que a repórter Kate Finnegan, autora do texto, recolheu é igualmente útil: seja honesta consigo própria e com a sua roupa. Se há peças que precisam de ser arranjadas, procure uma modista; se não têm lugar no seu dia a dia, desista, e aceite que é dinheiro perdido. Muitas vezes escudamo-nos com a velha desculpa "Não posso mandar fora porque custou-me um dinheirão" e não vale a pena. Esses euros nunca voltarão à sua conta-corrente. Lembre-se que está a fazer uma desintoxicação ao seu armário. No final só deve ficar o que não é prejudicial à (sua) saúde. Uma boa forma de o conseguir é dividir claramente as estações do ano e guardar o que não está em rotação. Aqui é importante ter em conta que nem todas as peças são iguais. As lãs e as caxemiras devem estar protegidas de traças, os sapatos podem perfeitamente ir para caixas debaixo da cama, os calções e os tank tops podem passar o inverno nas prateleiras mais altas, longe da vista e do frio. É provável que depois tenha uma reação do género "Já nem me lembrava que tinha isto", seguida de "Ainda bem que decidi organizar este armário". É o detox a fazer efeito e mais uma prova de que, tal como indicam vários estudos, usamos apenas 20% da nossa roupa. Se não acredita, faça o teste: coloque todos os cabides no mesmo sentido e, de cada vez que vestir uma peça, rode-os na direção contrária. No final da temporada, deverá conseguir ver, a olho nu, quantas coisas usou, efetivamente.
Last but not least, tome nota de tudo o que lhe faz falta (talvez seja boa ideia livrar-se das blusas cujo algodão já é apenas um material referido na etiqueta), faça uma lista de essenciais e encare as futuras compras como a recompensa do seu esforço (isto não está em nenhum dos livros consultados, mas é senso comum). E pronto. Nesta última madrugada de arrumação percebi que mais do que roupa eu não tenho a ferramenta-mor de qualquer perita em arrumações: cabides decentes. Os melhores, diz quem sabe, são os de veludo porque além de não marcarem a roupa evitam que esta escorregue. Conto encomendar um pack de 24 muito em breve. Até lá vou tentando interiorizar partes do método KonMari que é, em si, uma filosofia de vida. Marie Kondo pretende demonstrar, em todo o processo, respeito intencional pelos objetos físicos. Exemplo? Quando chega a casa diz-lhe "Olá!" e coloca todas as coisas que levou na carteira no lugar onde pertencem. "Cada objeto tem um lugar. Devolvo-os aos seus lugares e, é claro, também comunico com eles", garante. Ámen, querida tralha.

Tags: youtube the life-changing magic of tidying up marie kondo the japanese art of netflix arrume casa detox roupa
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