Comportamento

Sorria! O otimismo prolonga a vida

Com um novo ano pela frente, os desejos, as ambições e os projetos para 2020 requerem uma boa dose de otimismo. Mais do que um traço de personalidade, esta é uma atitude que deve ser estimulada. Como praticar o otimismo e tirar dele o melhor partido?
Por Carolina Carvalho, 27.01.2020

Sabia que as pessoas otimistas têm mais probabilidades de viver mais tempo e atingir uma longevidade excecional que ultrapassa os 85 anos de idade? É esta a conclusão de um estudo da Boston University’s School of Medicine em parceria com a Harvard Unversity’s T.H. Chan School of Public Health e publicado, em agosto deste ano, na Proceedings of the National Academy of Sciences, a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América. Segundo o estudo, o otimismo refere-se a uma expectativa geral de que boas coisas irão acontecer ou a uma crença de que o futuro será favorável porque há a ideia de se poder controlar o que está para suceder. O estudo desencadeou uma série de notícias que apontam o otimismo como uma fórmula para a longevidade e como uma espécie de prática ou "alimento" que se recomenda que seja incluído na rotina diária. Mais do que a vontade de ver o "copo meio cheio" ou o "copo meio vazio", ditada por um estado de alma ou por uma postura mais ou menos positiva perante a vida, o otimismo é objeto de estudo científico e, como se revela no estudo referido, com efeitos práticos na vida das pessoas.

Numa entrevista concedida à Máxima e realizada em 2015, Tali Sharot, neurocientista cognitiva e docente, explicou que 80 por cento da população é naturalmente otimista (muitas vezes sem se reconhecer como tal), que a geografia não tem a ver com essa característica, mas que a idade tem, já que as pessoas mais jovens e mais velhas são muito mais otimistas do que as pessoas de meia-idade. Esta verdadeira especialista do otimismo trabalha no Departamento de Psicologia Experimental da University College London, onde também é diretora do Affective Brain Lab, um laboratório onde se investiga o impacto das emoções em tudo o que fazemos e aclarou: "O otimismo é um elemento importante por duas razões. A primeira porque esperar que aconteçam coisas boas no futuro faz-nos felizes, quer aconteçam ou não. A segunda porque o otimismo faz-nos experimentar coisas novas e trabalhar mais afincadamente." Sharot lançou o seu primeiro livro sobre o tema, The Optimism Bias: A Tour of the Irrationally Positive Brain, em 2011, e nesse ano foi autora do tema de capa de uma edição da Time dedicada à ciência do otimismo, The Optimism Bias. Se o tema já era do interesse público e passou a ganhar interesse científico, é seguro afirmar que passou também a despertar curiosidade. De tal forma que, este ano, aquela revista americana voltou a dedicar um número especial ao otimismo, The Art of Optimism, editado por Ava DuVernay (Califórnia, 1972), personalidade influente no universo do cinema com experiência em variadas áreas, entre elas na realização, na produção e na escrita. A abordagem ao tema contou com o contributo de artistas de diferentes áreas e focou-se na importância das Artes como inspiração e catalisador de otimismo no mundo atual.

Numa altura em que impera a velocidade do dia a dia e que se destacam nas notícias as catástrofes do mundo e da humanidade, o otimismo, mais do que um luxo, é um dever. Poderá o otimismo ser então uma chave para a felicidade? Tudo indica que pode, pelo menos, dar uma preciosa ajuda. Por isso pedimos a cinco mulheres, cujo trabalho inspira e influencia a forma de estar de outras pessoas, que nos ajudassem a perceber como se estimula o otimismo. Uma instrutora de ioga e de meditação, uma médica oncológica, uma mãe de família que passou por uma doença grave, uma pedagoga e uma life coach explicam-nos a importância do otimismo como ferramenta da vida.

"A mulher que é positiva é uma lutadora"

Emília Vieira, cirurgiã oncológica e especialista em cancro da mama

"A doença oncológica, seja ela qual for, é traumática física e psicologicamente. Se se trata de cancro da mama, sendo este órgão símbolo da identidade feminina, maior é o impacto emocional. Sendo uma doente de fundo depressivo há uma passividade, um abandono, com consequente diminuição da imunidade e maior probabilidade de poderem surgir tumores. Perante o diagnóstico surge o medo da morte, dos tratamentos dolorosos e da cirurgia mutilante, e a depressão, o medo, a raiva, a revolta, a insegurança, as perdas e o desespero das possíveis perdas familiares e laborais. Há uma negatividade que ‘atrai’ as complicações. A mulher que é positiva é uma lutadora. Perante um diagnóstico de cancro, embora o medo da morte não deixe de aparecer, surge a curto prazo o instinto de sobrevivência e de querer rapidamente iniciar tratamentos e vencer a doença. Em primeiro lugar, há o objetivo de ser vencedora. A cada complicação que possa surgir vem uma positividade de não desistir nunca e informar-se mais para saber como pode ajudar os médicos na luta em que todos estão empenhados. A esperança está sempre no seu horizonte.

Há três fatores muito importantes para a positividade e o otimismo das doentes: a retaguarda familiar, ou seja, um bom ambiente familiar, pois a presença da família favorece a boa recuperação das diferentes fases da doença. Há sempre momentos em que vai necessitar do apoio de terceiros e saber que tem o companheiro, os filhos, os pais e os amigos faz toda a diferença na melhoria da doença e da qualidade de vida. Confiança na equipa médica: tem de haver uma empatia positiva também com a equipa multidisciplinar. Assim como confiança na sua competência. Apesar de, por vezes, poderem surgir complicações, é importante saber que todos farão tudo para a ajudar a ultrapassar os eventuais reveses. Confiança na probabilidade de cura: é importante acreditar. Acreditar primeiro em si própria. Ter fé na cura. Ser persistente e resiliente. Nunca desistir de lutar. Da parte do médico, este nunca deve travar a esperança nem desencorajar a luta. A personalidade da doente e a sua atitude positiva têm muita importância. No entanto, o período de tratamento e a fase crítica da doença podem ir de um a dois anos. É um longo período de tempo com altos e baixos emocionais e físicos. Há, quase sempre, necessidade em algum momento de ter apoio psicológico, quer para a doente, quer para os familiares. Para quem é crente, seja qual for a sua religião, o apoio espiritual é muito importante na resiliência e esperança na superação da doença."

‘Nunca se desiste!’

Fernanda Serrano, atriz, mãe de quatro filhos

"Não existe, infelizmente, uma fórmula mágica ou fulminantemente eficaz [para enfrentar as adversidades da vida], mas a perspetiva do ‘copo meio cheio’ em vez do ‘copo meio vazio’ ajudou-me sempre muito. Importa dizer que estas expressões e a sua posterior constatação ‘nasceram’ de uma conversa com a minha insubstituível amiga Maria Henrique quando eu estava doente. Mudou por completo a minha perspetiva de tudo na vida! Existem sempre situações adversas bastante piores que as nossas, penso eu sempre. Portanto, eu tenho muita sorte por estar a enfrentar este ou aquele momento ou obstáculo com tanto amor ao meu redor. O otimismo impera sempre. [Nas situações difíceis, o otimismo] trabalha-se com calma, com harmonia e serenidade. Com derrotas e com conquistas pelo meio. Mas o amor vence e vencerá sempre! A minha máxima para os meus quatro maravilhosos filhos, que são tão diferentes entre si, mas que são tão unânimes no que respeita ao amor à família e aos amigos, ao carinho, à dedicação e ao respeito a todos, é sempre a frase ‘Nunca se desiste!’. Nunca. Em situação alguma que, atenção, seja realmente importante para o nosso percurso. Caso contrário, façam inversão de marcha e sigam por outro caminho. Há que saber tomar decisões. Para tudo na vida. Querer sempre alcançar o lado bom da vida. O sol nasce todos os dias para nós. ‘Aproveitem a vida!’ foi dito pelo meu extraordinário encenador, colega, ator e depois amigo, o grande António Feio."

"Existe uma diferença entre otimismo e atitude positiva"

Mikaela Oven, coach, formadora e fundadora da Academia de Parentalidade Consciente

"Existem estudos que indicam que nascemos com uma predisposição para o otimismo. E parece-me que funciona como uma estratégia de sobrevivência. O otimismo oferece motivação e direção. Existe uma diferença entre otimismo e atitude positiva. Otimismo está relacionado com o futuro e a atitude positiva com o momento atual. Sou otimista em relação ao que pode acontecer no futuro e vejo as coisas positivas neste momento presente. O papel da família é fundamental para ambas as coisas. Estas atitudes são fortalecidas, ou não, nas crianças através da comunicação dos pais. Comentários diários pessimistas e negativos vão contribuir para uma atitude pessimista e negativa. Se temos como intenção educar crianças que possam aceder a estas qualidades, nós temos de nos tornar muito conscientes da nossa comunicação.

Outra coisa que tem um grande peso é a forma como os adultos reagem perante os desafios da própria criança e a forma como comunicam diretamente com ela quando a querem corrigir e disciplinar ou quando lhe querem ensinar coisas. Se a criança tiver uma nota ‘má’, os pais têm basicamente duas opções; reagir de uma forma negativa, pessimista e punitiva ou de uma forma positiva, otimista e possibilitadora. Muitas vezes os pais não têm noção do impacto que a sua comunicação tem nas crianças. Mas é mesmo importante lembrarmo-nos que a forma como falamos com os nossos filhos torna-se na sua voz interior. E a nossa voz interior é a influência da nossa infância. Para quebrarmos um ciclo de pessimismo e de negatividade, temos de tomar consciência e, aos poucos, ativamente cultivar um discurso interior diferente. 

Para mim, a principal ferramenta [para trabalhar uma vida positiva e mentalmente saudável] é o Mindfulness, os ensinamentos e o autoconhecimento que a prática de Mindfulness nos oferece. Com o Mindfulness conseguimos ser um observador compassivo de nós mesmos e da nossa vida. Não julgamos, somos curiosos e ganhamos uma grande capacidade de aceitação. Entendemos que os pensamentos são apenas pensamentos, as emoções são emoções e tudo tem o seu lugar. Conseguimos estar bem, mesmo em situações de grande desafio, pois entendemos a impermanência da vida e o que é realmente importante. Aprendemos isto tudo através da utilização das atitudes de Mindfulness (não julgamento, paciência, mente de principiante, confiança, não esforço, aceitação e deixar ir) e da meditação formal. Depois do Mindfulness temos a comunicação consciente. Uma forma de comunicar isenta de julgamentos e críticas duras que ajuda a exprimir as nossas emoções e necessidades de uma forma respeitadora e saudável para todos."

 

"Nem todos os dias somos supermulheres"

Carla Ferraz, Wellness Consultant, professora de ioga e autora do livro Treinar a Mudança

"Por vezes, quando os meus alunos me procuram, o seu ‘copo’ emocional e mental está meio vazio devido à crescente exigência diária de energia a que estão sujeitos. A vida moderna em que nos vemos diariamente, a acorrer a tudo e a todos e a estar disponíveis a toda a hora, acaba por ter uma fatura pesada no bem-estar e na saúde, em geral. As pessoas colocam-se, muitas vezes, em segundo plano para responder aos estímulos e quando chegam ao ioga é nessa procura de equilíbrio, de alguma resposta na sua gestão diária de tempo, mas, principalmente, na gestão emocional, equilibrando os níveis de stress. Começam a perceber que o ‘copo’ energético começa a ficar mais cheio com o avançar na prática. O ioga e principalmente a meditação, onde se treina a atenção plena e as técnicas de abstração dos sentidos externos (prathyahara), vão estimular o desenvolvimento pessoal. Cria-se uma pausa vital em que se permite olhar para dentro e redescobrir prioridades. Interioriza que o contentamento e uma atitude positiva vêm de dentro e é de nós que parte para o mundo, e não do mundo para nós. É essa tomada de consciência e responsabilização que, consequentemente, abre o emocional, fortalece a mente e trabalha na expansividade de corpo e mente em união e mais compreensão com o mundo exterior. (…) E como a mente está sempre ao comando, mente sã é sinónimo de corpo são. Trabalhar a mente da mesma forma que treinamos e damos atenção ao corpo, ao aspeto exterior, é a máxima de quem se entrega a este lifestyle. Só assim os nossos pensamentos são treinados a fluir de acordo com o que desejamos. O retorno é uma crescente sensação de bem-estar, aumento de autoestima e respeito pelo seu próprio ritmo. De saber quando avançar e quando é vital parar.

Afinal, nem todos os dias somos supermulheres ou estamos no pico de performance e de felicidade. O ioga ajuda-nos a perceber que tudo é transitório e que, tal como no Universo, também em nós vive um ciclo de constante renovação. Sabemos que não há mal que sempre dure nem tristezas que paguem dívidas. Sorrir, fechar os olhos e respirar fundo perante um novo dia e diante da imensidão de possibilidades ao nosso dispor é a maior gratificação que podemos ter num momento de dúvida ou hesitação. E se temos dúvidas, porque não experimentar?"

"O otimismo influencia a saúde física e mental"

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, coach e autora do livro Dar a Volta (Matéria-Prima edições)

"Mais do que aquilo que nos rodeia, é a maneira como encaramos e interpretamos a realidade à nossa volta que mais impacta no nosso bem-estar. Os ‘filtros’ com que olhamos para a vida determinam os nossos pensamentos que, por sua vez, geram emoções que tantas vezes originam ações. O otimismo influencia a saúde física e mental por potenciar maiores níveis de esperança e de criatividade. Independentemente da nossa tendência biológica para nos focarmos um pouco mais no negativo, é possível treinarmos a nossa flexibilidade mental escolhendo uma perspetiva mais otimista. De que forma? Com pequenos hábitos diários, tais como agradecer o que já somos e o que já temos diariamente; ao acordar, criar objetivos com impacto e fazer o respetivo balanço antes de deitar; autoelogiarmo-nos; e envolvermo-nos em atividades geradoras de prazer. Quando acreditamos que é possível dar a volta e sermos felizes, superamo-nos. Quando perdemos a fé em nós e na vida, desistimos. Eu escolho olhar para o ‘copo meio cheio’ todos os dias."

Tags: otimismo estudo crianças família mindfulness ioga bem-estar
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