Bem Estar

Solidariedade: um ponto de encontro

Pedimos a quatro pessoas que oferecem o seu tempo aos outros que deixassem o seu testemunho solidário.
Por Máxima, 12.01.2016
Tatiana Chehab
Consultora de comunicação
 
Qual a atividade solidária que desenvolve?
Presentemente colaboro com duas instituições de formas muito diferentes! Faço voluntariado na Refood (núcleo de Belém) uma vez por semana. A Refood consiste na recuperação de comida em boas condições para alimentar pessoas necessitadas, promovendo a missão de acabar com a fome e o desperdício alimentar. Paralelamente, colaboro com a Women Win Win, uma associação para o desenvolvimento do capital humano e da iniciativa empresarial feminina. No fundo, é uma comunidade online para mulheres empreendedoras de língua portuguesa.
Porque é que decidiu tomar esta iniciativa?
Não é necessariamente uma decisão, é uma forma de estar, de fazer parte de algo maior que só nós, de participar em algo maior e melhor. Procurei a Refood porque o projeto é admirável e porque acho profundamente triste haver pessoas que ainda são privadas de bens de primeira necessidade. Em relação à Women Win Win, conheci uma das fundadoras num almoço, identifiquei-me com o projeto e senti-me verdadeiramente honrada quando fui convidada a participar.
Em que é que consiste o seu "trabalho" nesta área?
Na Refood, é muito pouco glamoroso! Uma vez por semana, vou buscar a minha filha que tem 13 anos e vamos juntas ao núcleo para um turno de 2/3 horas em que fazemos a preparação das refeições das várias famílias beneficiárias. Separamos e colocamos a comida, fruta, pão e bolos nas caixas de refeições, família por família, sempre com o cuidado de proporcionar uma refeição equilibrada dentro daquilo que há disponível. Depois limpamos tudo, deixando tudo pronto para o próximo turno que entrega as refeições às famílias. Já fiz outros turnos, como, por exemplo, o das recolhas à noite, que consistia em ir aos diferentes parceiros (restaurantes, cafés, etc.) da Refood, recolher a comida e depois separá-la e organizá-la de acordo com as normas de cuidado alimentares. Na Women Win Win, neste momento estou a colaborar na minha área de trabalho, dando um apoio na organização e desenvolvimento estratégico de comunicação de um evento que estão a preparar.
O que tem aprendido/retirado desta experiência?
A vida, pelo menos a minha, é feita de ligações humanas. Não há nada mais importante que a partilha de momentos, de sensações, de sorrisos, lágrimas, tudo! O que mais retiro destas experiências (porque cada dia é uma experiência única) são os momentos partilhados. Em termos de lições de vida… O voluntariado deu-me a confirmação de que ninguém é melhor ou maior que o outro. Todos nós precisamos de estar interligados a outras pessoas. Viver de forma individualista não faz sentido e o maior erro da humanidade é a falta de compaixão que existe. Não só para com os outros, mas também para com nós próprios. 
 
Carla Ferraz
Coaching, Personal Trainer, Alta-Performance em Yoga
 
Qual a atividade solidária que desenvolve?
De momento, estou inscrita na PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados), mas estou mais envolvida com a UPPA (União Para a Proteção dos Animais). O albergue da UPPA acolhe atualmente cerca de 80 cães que sofreram maus-tratos ou foram abandonados pelos antigos donos e precisa de ajuda permanente para fazer face à qualidade de vida e bem-estar destes animais, que um dia tiveram casa e família.
Porque é que decidiu tomar esta iniciativa?
A certa altura na minha carreira senti que por vezes podemos ficar demasiado centrados no nosso crescimento profissional e, infelizmente, descurar o real papel do que fazemos em prol de uma mudança positiva no mundo. No período de verão, em que fico com mais tempo livre por ausência de muitos dos meus alunos, resolvi há uns anos dar aulas ao ar livre nos jardins de Lisboa, aulas essas que sempre foram grátis. Mas este ano, antes do verão, tive a sorte de começar a ter como aluno uma pessoa inspiradora que é voluntário permanente (ou seja, de alma, tempo e coração) na UPPA. Vi como se dedicava e pensei: porque não aliar a minha vontade de agregar os meus alunos de tantos lugares onde dou aulas e permitir que eles ajudem também o albergue a angariar fundos, vindo e contribuindo?
Ajude também!

Conheça as instituições aqui referidas e como chegar até elas.

A Refood é um projeto comunitário que recolhe comida em boas condições com a finalidade de alimentar pessoas necessitadas e que funciona à base de voluntários. Para mais informações consulte o blogue.

A Plataforma de Apoio aos Refugiados tem no seu site formulários de inscrição para variados tipos de ajuda, como voluntariado, acolhimento de famílias ou donativos.

União Para a Proteção dos Animais é uma associação que cuida de animais maltratados para serem adotados. Aqui o voluntariado assume as mais variadas formas consoante o que cada pessoa pode oferecer, seja tempo, comida ou donativos.  

Kutsaca significa "estar feliz" e é o nome de um projeto para crianças criado na aldeia de Mahungo, na província de Gaza, em Moçambique. Mais informação e contactos podem ser encontrados na página do Facebook.

No Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO Lisboa), o voluntariado faz-se através de diversas associações, nomeadamente a Liga Portuguesa Contra o Cancro e a Associação Acreditar. 

Em que é que consiste o seu "trabalho" nesta área?
Na realidade eu não faço nada: o voluntário João Sousa e os meus alunos, que trazem os donativos como bilhete de entrada na aula, é que são a força motriz desta ação. Eu apenas dou a aula e coloco a favor da UPPA o facto de conhecer muita gente de diferentes origens, lugares, credos e vivências, que por acaso são minhas alunas. O maravilhoso nisto tudo é que as pessoas querem sempre ajudar, só precisamos é de lhes dizer como.
O que tem aprendido/retirado desta experiência?
Em como é fantástica a aprendizagem e o facto de relativizarmos muito daquilo que achamos serem problemas. Sejam animais ou pessoas, o conjunto revela sempre o mesmo: em situações de vulnerabilidade, somos todos iguais. Mais recentemente, neste afluxo desmesurado de refugiados de guerra para a Europa, com a PAR percebo que a diferença entre estar em segurança e ser alvo de um bombardeamento é pura e simplesmente geográfica. A sorte ou o azar de nascermos em determinado local, a força que desenvolvemos como seres humanos e chegar à conclusão que tudo é cíclico, é resultado do que tenho ouvido e preparado para ouvir na primeira pessoa, quando o contacto com os refugiados acontecer. Sem solidariedade, o mundo continua a girar, é certo. Mas muito mais devagar e cinzento. O nosso papel é mantê-lo colorido, forte e unido para as gerações futuras. Posso ser idealista, mas sei que não estou sozinha. E se estivesse, continuaria a ter duas mãos para estender: uma para alguém que me quisesse acompanhar e a outra para alcançar os que sozinhos não conseguem.
 
António Sousa
Copy-desk da Máxima
 
Qual a atividade solidária que desenvolve?
Sou voluntário do grupo Pão da Vida, ligado à Paróquia de Carnaxide, que tem como missão fulcral apoiar os sem-abrigo de Lisboa com distribuição de comida e roupa doada. O nome do grupo tem uma ressonância dupla: é um pão físico e espiritual (radicado na fé).
Porque é que decidiu tomar esta iniciativa?
Nunca me conformei com a ideia de ser herói de sofá ou ser herói de mesa de café. A responsabilidade social também se pratica em nome próprio, a somar às instituições que estão no terreno. É fazer aquilo a que chamo uma PPP (ação prática, possível e pequena).
Em que é consiste o seu "trabalho" nesta área?
Vou feliz, duas vezes por mês, juntamente com oito pessoas (a lotação da carrinha), dar um pouco de conforto a quem dele necessita, sob a forma de uma sopa quente, uma sanduíche, um bolo, um sumo, uma peça de fruta, chá e café e roupa recolhida junto de familiares e amigos.
O que tem aprendido/retirado desta experiência?
É extraordinário verificar a generosidade das equipas de rua que vou encontrando e que são um suporte para os sem-abrigo. A receber o que a equipa leva há novos, menos novos, mulheres e até estrangeiros (cada vez mais). O que mais faz doer a alma é ver pessoas a comer uma, duas, três sopas, com fome evidente, dizendo sempre: "Está muito boa."
 
Liliana Fonseca
Empresária
 
Qual a atividade solidária que desenvolve?
Kutsaca é o nome do projeto, criado de raiz na comunidade da aldeia de Mahungo, na região do Bilene, Província de Gaza, em Moçambique. Kutsaca significa "Estar Feliz" em Xangana, o dialeto local. Dentro deste projeto existem três vertentes: Escolinha (pré escola 3-5 anos) + ATL para crianças dos 6 aos 9; programa de aconselhamento e apoio a jovens; programa de empowerment de mulheres. É, acima de tudo, um projeto de educação ativa. O objetivo é sempre capacitar a comunidade, desenvolver recursos internos que permitam uma melhor qualidade de vida, mas numa lógica de envolvimento, proatividade e empreendedorismo. Não é caridade, porque a caridade não resolve problemas, a longo prazo gera dependência, enquanto o empreendedorismo dá autonomia.
Porque é que decidiu tomar esta iniciativa?
Decidi tomar esta iniciativa, pois a pessoa responsável, a Susana Cravo, foi minha colega de trabalho há muitos anos e apresentou-me o projeto que achei muito interessante e comecei a envolver-me.
Em que é que consiste o seu "trabalho" nesta área?
A Susana está a tentar angariar verbas para construir a Escolinha Kutsaca, pois neste momento funcionam numa palhota, apenas com meninos com idades compreendidas entre os 3 e os 5 anos. Para a construção da escola precisam de €4500, para comprar os materiais, já que o terreno lhe foi cedido e a mão-de-obra é assegurada por locais a custo zero. No meu caso, estou a vender lápis para ajudar esta causa.
O que tem aprendido/retirado desta experiência?
Sempre me interessei por causas sociais e vou participando em algumas que se vão cruzando no meu caminho. Eu sinto mesmo essa necessidade! Para além da Escolinha Kutsaca, tenho também uma afilhada no Quénia, contribuo com uma verba anual para financiar os seus estudos. Só assim a vida faz sentido, pelo menos para mim, acho mesmo que todos podemos tentar mudar o mundo e torná-lo um sítio melhor. Baixarmos os braços e acharmos que não podemos fazer a diferença, é algo que não me entra na cabeça. Fazemos a diferença, sim! 
 
Anabela Mota
Artista plástica
 
Qual a atividade solidária que desenvolve e em que instituição?
Estou há cerca dez anos no serviço de pediatria do IPO Lisboa, onde desenvolvo várias atividades ligadas à área das artes plásticas, com crianças, pais e profissionais de saúde. Levando a arte ao hospital.
O que é que a motivou a começar?
Amotivação para abraçar este projeto partiu da convicção de que através da arte se pode estabelecer uma relação, outra, com a vida, um espaço de alegria e esperança. Um partilhar de experiências através da arte (e na arte) enquanto espaço de vivências, afetos e sentimentos, que são o que verdadeiramente importa no coração de todos nós. A fragilidade humana é mais evidente em certos contextos, como é o caso dos hospitais e sobretudo na pediatria, e esse é o lugar onde a arte pode revelar a sua importância, nesses lugares íntimos onde residem os afetos e as vivências, onde a arte e a emoção se encontram.
Em que é que consiste o seu trabalho nesta área?
Desenvolvo atividades variadas. Algumas são enquadradas em projetos, como as Batas com Histórias (as batas, desde o médico aos auxiliares, contam histórias), as Histórias nas Paredes e as Histórias pelo Buraco da Agulha, entre outras, como por exemplo, cenografia para alguns eventos que acontecem no IPO Lisboa.
O que tem retirado desta experiência?
Esta experiência trouxe-me sobretudo um enorme enriquecimento pessoal e humano. O que sou hoje deve-se também a este trabalho. Aqui, acontecem laços que, frequentemente, ultrapassam as fronteiras do hospital. Como aconteceu com o pequeno Rafael, um menino que me pediu para dar continuidade, no seu quarto, às histórias na parede que fazíamos no hospital. A arte, inevitavelmente, propicia um sentimento de família alargada, um sentimento invisível que une crianças, famílias, profissionais (médicos, enfermeiros, educadores, psicólogos), voluntários e outros. O meu papel, e presumo que o de tantas outras pessoas no serviço de pediatria do IPO Lisboa, tem sido o de acompanhar as crianças e seus familiares através da partilha em algo difícil de exprimir. A arte no hospital talvez seja apenas um outro nome para afetos, autoestima, confiança, descoberta, bem-estar, distração e realização pessoal. Bem-hajam!
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