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Os anos 80 (também) foram assim

Memórias de como vivíamos e nos divertíamos, há 30 anos, todos teremos. Dependem é de como se viveram. Esta é a síntese (im)possível e as recordações da capital de 1988, ano de publicação da Máxima, até ao final dos “fabulosos anos 80” numa visão pessoal e não intimista.
Por Manuel Dias Coelho, 10.12.2019

"Se te lembras dos anos 80 é porque não os viveste." Esta é, ainda, uma frase muito cara aos notívagos que, nos finais da década de 1980, viveram a vida noturna de Lisboa com a intensidade plena que foi herdada da era "sexo, drogas e disco sound". Em termos de costumes, pode-se afirmar que a noite foi o epicentro da nossa "movida"*, em paralelo com as artes e com a moda. Quase tudo acontecia ou convergia na capital. Quando a Máxima chegou às bancas, em 1988, já a noite lisboeta tinha retomado o glamour que havia sido devastado pelos anos convulsivos do pós-25 de Abril. Tinham passado 14 anos sobre a Revolução e dois sobre a entrada na então CEE e todo esse fulgor contribuiu para que a juventude que vivia os anos 80 acreditasse que tinha o futuro nas mãos, que tudo era possível e que todos seríamos felizes para sempre. Nem as graves crises políticas e económicas abalaram esse sentimento.

Numa piscadela de olho à "movida" espanhola, sobretudo em Madrid, e à convulsão artística em Londres, a nossa capital fervilhava assim que o sol se deitava. O Bairro Alto era o centro de tudo e expurgava os tempos da decadência com novos restaurantes e bares impulsionados pelos exemplos visionários de Fernando Fernandes e de José Miranda, mentores do restaurante Pap’Açorda, e de Manuel Reis, criador do bar Frágil, espaços, esses, que deram um novo cosmopolitismo à cidade. Quando o Bairro terminava rumava-se ao Cais do Sodré, para o mundo alternativo dos bares, para o Príncipe Real, para as discotecas do meio gay e lésbico, ou para S. Bento, para o ambiente musical multicultural. Uma noite bem vivida terminava às três horas da madrugada e uma noite de loucura às seis, hora a que hoje se entra numa discoteca, quando ainda não existiam "seguranças" agressivos às portas, ainda que a admissão não fosse fácil em certos lugares. Que se diga o que se sofria para se entrar no Frágil, sobretudo na era dominada por Margarida Martins (fundadora da Abraço e hoje presidente da Junta de Freguesia de Arroios) que era altamente seletiva.

Os adolescentes não saíam livremente à noite com os amigos, como agora sucede, e havia horas marcadas para se regressar a casa. Até se acreditava que a estratégia para entrar em casa de madrugada era fazê-lo de costas, pois se os pais estivessem acordados podia-se sempre dizer que se estava a sair. Fumava-se muito, bebia-se ainda mais e não havia pudores com o sexo ou com os estupefacientes, até que a SIDA mudou dramaticamente o panorama. Esse era o lado insurreto da noite, pois o lado supostamente correto, com discotecas como o Banana Power ou o Stones, em Lisboa, ou o Frolic, no Estoril, e restaurantes como o deslumbrante Alcântara-Terra, com a discoteca Alcântara-Mar anexada, reunia as burguesias da capital e da linha do Estoril e aqueles que as queriam imitar. Foi a partir da construção desses personagens plagiantes, que já remontavam aos anos 60, que se popularizaram as alcunhas de "tias" e de "tios" nessa época, termos que ainda se usam para depreciar novos-ricos e pequeno-burgueses com vozes e modos afetados que pretendem copiar, de modo provinciano, os posh ingleses.

O ponto de partida para a noite era A Brasileira, em pleno Chiado, onde se encontrava quem era ou quem queria ser gente. Não se marcavam encontros porque o estimulante era sair de casa e encontrar novas pessoas ao acaso, o mesmo sucedendo com o sexo. Ainda assim, havia quem não desistisse de combinar jantares e saídas com uma semana de antecedência e quase todos cumpriam. Não havia a imposição de reservar mesas em restaurantes, como hoje acontece, hábito que surgiu com o Pap’Açorda. Também não existiam telemóveis e, por isso, não se tiravam constantemente selfies e fotografias aos pratos com comida, não se falava ao telefone à mesa e as pessoas convivam alegre e civilizadamente umas com as outras e não com aparelhos tecnológicos que exalam aparato social. Queria-se, isso sim, brilhar mais do que as amigas ou os amigos e, sendo assim, saía-se vestida, calçada, penteada, perfumada e maquilhada como se não houvesse amanhã. Os homens também tinham os seus ditames glamorosos. A roupa para a noite (algo que está no desuso) era arrojada, à nossa maneira, para as investidas ou para as festas inesquecíveis no Frágil, no Rock Rendez-Vous ou no Trump’s, e os que pretendiam dar a impressão de ter saído do Le Palace, em Paris, ou do Studio 54, em Nova Iorque, iam às lojas de roupas em segunda mão ou aos guarda-roupas para cinema ou teatro, vestindo-se do modo mais imaginativo, à falta de moda masculina audaciosa.

Hoje é o que se vê. A "farda" composta nos dias de hoje por calças de ganga, blusas ou T-shirts e sneakers não se havia imposto, ainda que fossem peças ubíquas misturadas com outras mais glamorosas, e os sneakers não tinham substituído os sapatos. O consumo de moda não estava ainda democratizado e massificado e os portugueses não tinham despertado para o culto das marcas. O pronto-a-vestir desenvolvia-se a olhos vistos. Na roupa feminina, os casacos tinham os ombros muito chumaçados, o fato de inspiração masculina reinava, o tweed e a malha eram virais, os plissados, as saias muito curtas e os casacões-maxi ressurgiam, as cores bordeaux, castanho-escuro, preto, cinzento e vermelho em roupas de design mais contido antecipavam o minimalismo que surgiria nos anos 90. Os sapatos eram rasos, abotinados ou com saltos não muito altos e usados com collants de cor viva ou de cor muito escura. Os acessórios brilhavam com os chapéus, as boinas, as luvas, as bandoletes, os cintos largos, as pulseiras com muitos charms e vários anéis numa mão eram imperdíveis.

Em 1988 surgiram as primeiras revistas femininas de qualidade que continham produções de moda: a Máxima, a Elle e a Marie Claire. Estas revistas contribuíram para a divulgação de novos talentos nos domínios da fotografia e das produções de moda, bem como de modelos e de outros profissionais ligados ao setor, designadamente produtores, maquilhadores e cabeleireiros. A Moda já ganhava estatuto, com Ana Salazar na linha da frente e também com os talentos de Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, Mário Matos Ribeiro e Eduarda Abbondanza, José António Tenente, Helena Redondo, Manuela Gonçalves, António Augustus, Karen Ritter, Helena Kendall, José Carlos, Zignio e Paulo Matos. Quem queria andar no último grito da moda comprava em lojas que eram referência na capital, tais como a Maçã, de Ana Salazar, a Loja Branca, de Manuela Gonçalves, a Battaglia, a Loja das Meias, a Rosa & Teixeira, a Charlot, a Ayer, a Cravo e Canela. Resistia a Porfírios Contraste que, desde os anos 60, dava um sopro da modernidade possível à juventude citadina. Ainda que os ateliês de modistas e os alfaiates estivessem em extinção, as lojas de venda a metro de tecidos resistiam, sobretudo na Baixa, no Chiado e na Avenida de Roma. Há 30 anos as agências de modelos eram embrionárias. O norte-americano Bryan fazia carreira com uma escola para a formação de modelos, onde ensinava a desfilar. Duas modelos faziam furor: Dalila Martins e Yolanda (Noivo). Os modelos Tó e Mi Romano ombreavam com os melhores no estrangeiro, tendo criado a primeira agência de modelos em Portugal, a Central Models. Na beleza, primavam as maquilhagens em tons claros e os cabelos ganhavam volume com as permanentes. Os perfumes exalavam composições fortes e, em 1988, havia uma paixão pelas fragrâncias femininas Giorgio Beverly Hills e Montana, de Claude Montana, e perdurava Anaïs Anaïs e Loulou, ambas de Cacharel, Azzaro 9, de Louis Azzaro, Poison, de Christian Dior, e persistiam Ô de Lancôme, de Lancôme, L’Air du Temps, de Nina Ricci, e Calèche, de Hermès. A decoração seguia os ditames dos clássicos ingleses e abundavam as camilhas, as casquinhas, as muitas molduras, os cortinados volumosos, as "japonesas", os bibelôs, as velharias compradas em adelos (para fingir serem heranças de família), os tapetes e carpetes com o ponto de Arraiolos e as porcelanas da Vista Alegre. A moda na culinária (no tempo em que os cozinheiros não eram todos chefs) eram as natas, quer no famoso prato de forno com bacalhau, quer na denominada comida das "tias", senhoras que eram, no geral, mães de família, com aspeto de voluntárias da Cruz Vermelha Portuguesa, que abriam, com sucesso, espaços decorados como as suas casas, nos quais serviam comida à mesa ou a peso, tal como confecionavam na vida privada. Viajava-se mais para o estrangeiro e os destinos preferidos por quem procurava uma maior "lufada de ar fresco" eram Londres e Madrid devido à contracultura, o que era também impulsionado pela abertura de créditos nas agências de viagens e pela democratização dos cartões de crédito. Viajava-se de avião vestidos quase a preceito (quem diria!) e na classe económica ainda havia espaço entre as cadeiras para se traçar as pernas. Há três décadas, só existiam dois canais televisivos e todos víamos os mesmos programas e falávamos das mesmas séries e telenovelas e assistíamos ao incremento da produção de séries e de novelas portuguesas, sendo a novela Passerelle, com Ana Zanatti, uma sensação, em 1988. Pela ausência das indústrias do cinema, do espetáculo, do desporto e da moda (o que persiste), vivíamos, como ainda vivemos, de apresentadoras de televisão que eram as celebridades lusas, às quais hoje se acrescentam as atrizes de telenovelas. Havia 37 cinemas, a maioria com as portas viradas para as ruas, e descobríamos os cinemas com salas múltiplas, como o Alfa Triplex (11 salas), o Fonte Nova e o Gemini que competiam com os "velhos" Apolo 70 e Quarteto. Na música, o feminino era díspar com cantoras como Teresa Salgueiro, Eugénia Melo e Castro, Lena d’Água, Xana (Rádio Macau), Pilar Homem de Melo, Né Ladeiras, Cândida Branca Flor, Ana ou Linda de Suza. Na época começa a despertar um cantor popular romântico, que não rivalizava ainda com Marco Paulo na conquista do fervor feminino, e que dava pelo nome de António Antunes, mais tarde Tony Carreira. A verdade é que a "música era outra" em 1988 e até ao final da década que é para muitos a mais prodigiosa. A história contemporânea está a provar que têm toda a razão.

*Movimento de contracultura espanhola que significava "ação" e que revolucionou Madrid e depois a restante Espanha, sobretudo nos finais da década de 1980.

 

Tags: anos 80 cinema música moda cultura lojas restaurantes discotecas lisboa porto portugal
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