Bem Estar

Físico-química do amor

Sabe o que acontece ao seu corpo quando está apaixonada? Descortinamos as reações fisiológicas do amor no organismo, informações essenciais que a ajudam a perceber se encontrou (ou não) a cara-metade.
Por Máxima, 11.02.2016
Da literatura à música, passando pelo cinema, pelas artes plásticas e pelos media, foi-se estabelecendo a ideia romântica de que, no que respeita a relacionamentos, devemos ouvir sempre o coração, deixando-nos levar pelo amor e por tudo o que este implica. "Querido Coração, eu avisei-te. Mas tu não quiseste ouvir. Com amor, Cérebro." Recorrendo a uma certa dose de ironia, a frase, de autor desconhecido, circula pelos mais diversos meios para nos mostrar que essa, afinal, pode não ser a melhor decisão, embora não seja propriamente fácil controlá-la.
Tudo começa com um olhar – dizem que demora um quinto de segundo para nos apaixonarmos. Além da vontade de estar perto da pessoa, sintomas como o frio na barriga, coração acelerado, tremores e a sensação de borboletas no estômago são frequentes. Contudo, ao contrário do que se possa pensar, o coração não é o órgão principal neste processo. A ciência tem vindo a desvendar as alterações que ocorrem no corpo de quem se encontra neste estado e a verdade é que encontrou explicações nada poéticas para o sentimento amoroso. Afinal, este não é mais do que o resultado de uma complexa cadeia de reações químicas do cérebro, que envolvem hormonas e neurotransmissores, responsáveis pelas sensações que o estar apaixonado provoca. Estas substâncias têm várias finalidades, mas o seu objetivo primordial é a continuação da nossa espécie. Em suma, amamos porque somos o resultado de um eficaz processo evolutivo que, ao colocar-nos numa relação estável, aumenta as hipóteses de criarmos com sucesso os nossos descendentes. Isso explica por que, às vezes, nos sentimos atraídos por pessoas que não eram o nosso ideal de parceiro. É o nosso organismo quem ajuda a escolher por quem nos apaixonamos e as razões diferem consoante se trate de homem ou mulher.
ouça os seus olhos

Diz-se, de forma popular e corriqueira, que o amor é cego. Afinal, a expressão pode mesmo ser interpretada de forma literal. Vários estudos (incluindo um da University College London publicado na revista científica NeuroImage) mostraram que o amor tem realmente o poder de nos tornar cegos ou, pelo menos, de alterar a nossa visão e enganar o cérebro. A partir do momento em que criamos uma forte ligação com alguém, a capacidade do cérebro em avaliar o seu caráter e personalidade fica reduzida. Diversas investigações concluíram que os apaixonados suprimem a atividade neural associada à avaliação crítica sobre outras pessoas e emoções negativas. Isso pode levar a envolver-nos com a pessoa errada, pois somos incapazes de a ver como ela realmente é (ou não é) e começamos a arranjar desculpas para maus comportamentos. É certo que analisar em demasia um caso amoroso pode destruir todo o romance, mas há que saber quantificar adequadamente o seu valor ou a cegueira do amor pode provocar ainda maiores dissabores.

Poder-se-á dizer que uma relação passa por várias fases. Os sentimentos iniciais podem advir ou não do desejo, mas a progressão natural será a paixão que, quando entra em cena, nos faz perder a capacidade de pensar racionalmente, pelo menos no que diz respeito à pessoa em causa. Seguem-se as habituais manifestações físicas associadas ao amor. Investigadores garantem que a culpa é do aumento da libertação de certas hormonas, como a dopamina ou a noradrenalina, que levam à alegria excessiva, suores, falta de sono, etc. Já a obsessão pelo parceiro, perda de controlo das emoções e diminuição do sentido crítico são causadas por baixos níveis de serotonina, os mesmos encontrados em pessoas com transtornos obsessivo-compulsivos. Mais: cientistas também descobriram que o amor ativa as mesmas zonas cerebrais que as drogas (ligadas à recompensa), ou seja, o mesmo processo químico que ocorre nas pessoas com dependências pode ocorrer quando nos apaixonamos por alguém. A sensação é a de querer sempre e mais a pessoa amada, ansiando loucamente pelo contacto e chegando por vezes a extremos humilhantes e até perigosos para alcançar a sua adição. Um "nunca contentar-se de contente", como dizia Luís Vaz de Camões no século XVI. É por esta razão que o final de uma relação pode causar muita dor e ressentimento. Mas tudo tem um fim: estudos afirmam que o estado alterado típico da paixão dura entre 18 meses e três anos – é durante este período de aproximação que o casal cria as conexões neurais que podem dar origem a uma forte ligação emocional; o tempo suficiente, sob o ponto de vista biológico, para os indivíduos gerarem e criarem um filho. Passado esse momento de loucura orgânica, o corpo começa a voltar ao estado normal, até porque o nosso organismo não aguentaria por muito tempo as consequências da paixão.
ouça o seu estômago

Quando estamos apaixonados, o batimento cardíaco acelera, fazendo com que o sangue seja desviado para longe dos órgãos não vitais, como o estômago. É por isso que sentimos as famosas borboletas. Estas não são mais do que o resultado dos agentes químicos libertados pelo cérebro, tais como a dopamina. É na zona central do corpo que sentimos as emoções de uma forma mais condensada e isolada, por isso se algo não está a funcionar normalmente deverá questionar-se: passa-se algo de errado ou são apenas borboletas? Não será difícil identificá-las: é um solavanco no estômago que ocorre apenas quando nos sentimos muito atraídos por alguém, um nervoso miudinho causado pela presença ou pensamento do indivíduo em questão. Será que ele é mesmo "o tal" se não deixa o seu estômago às voltas todos os dias, independentemente da duração da relação? O verdadeiro amor provocará borboletas para sempre, fazendo-nos sentir um pouco nervosos e tontos, mas nunca doentes ou com repulsa.

Mas voltemos ao princípio. É fácil perdermo-nos em emoções quando estamos apaixonados; muitos deixam de ouvir amigos e família, outros guiam-se mais por instintos sexuais (embora o sexo seja importante, não deve ser ele a ditar uma escolha). Apesar de saber bem "andar nas nuvens", é aconselhável descer um pouco à terra se quiser construir algo saudável e genuíno. Por isso, oiça estas quatro partes do corpo antes de decidir se a pessoa que tem à frente é mesmo "a tal".Com o passar dos meses, o organismo vai-se tornando resistente aos efeitos de tantas hormonas e os sintomas iniciais dão origem a outros sentimentos, como o companheirismo, a tolerância ou o carinho. Isto significa que a paixão é apenas uma das fases do amor e não a sua definição completa.


Let’s talk about…
Paixão, amor e sexo. A psicóloga e sexóloga Vânia Beliz responde a algumas das questões que mais curiosidade despertam quando se fala destes temas.
Ainda que correndo o risco de generalizar, podemos falar de um tipo de parceiro ideal?
As mulheres não são muito diferentes das restantes fêmeas do reino animal. Temos tendência para selecionar os parceiros que nos transmitem segurança, estabilidade, boa descendência. Quando dizem que temos preferência por homens bem-sucedidos, com aparentes sinais de maior riqueza e mais habilitações, podemos perceber, até de forma inconsciente, que esse parceiro terá maior capacidade de nos dar aquilo que procuramos. É uma questão de instinto de sobrevivência, que muitos estudos já referem.
Então porque se diz que as mulheres gostam mais dos bad boys?
ouça o seu nariz

Pessoas apaixonadas apontam facilmente o cheiro dos parceiros como um dos seus preferidos. E não se trata apenas do perfume ou dos produtos de higiene que usa mas sim do seu odor natural – casos de mulheres que gostam de cheirar as T-shirts usadas dos seus companheiros, por exemplo, não são invulgares. Investigadores acreditam que o cheiro é o fator-chave para explicar por que sentimos atração por uma determinada pessoa e não por outra. Esta escolha tem, afinal, profundas implicações biológicas. De acordo com um estudo suíço de 1995, temos tendência para preferir os cheiros de pessoas com um conjunto particular de genes do sistema imunitário – chamado complexo principal de histocompatibilidade (CPH) – o mais diferente possível do nosso. Acredita-se que, quanto mais distinto for o CPH, mais saudável será a descendência do casal e mais eficaz será a sua resistência às doenças. Ou seja, se o cheiro daquela pessoa nos atrai é porque provavelmente ela é geneticamente compatível connosco. Por isso, se está com alguém cujo aroma a repele, talvez ele não seja "o tal".

Penso que isso poderá ser um mito, mas observo que as mulheres estão mais "caçadoras", preferindo alvos menos fáceis e óbvios. Elas procuram mais desafio e isso pode fazer com que não selecionem o que está à mão.
As mulheres amam mais do que os homens?
Somos diferentes na forma como nos ligamos ao parceiro, o que não significa que amemos mais. Isso seria desvalorizar os sentimentos dos homens, que não devemos perpetuar. As mulheres têm tendência para romantizar, idealizar mais a relação, para se apaixonar mais, para se envolver de forma mais intensa. Também há homens assim, mas tendencialmente as mulheres são mais emotivas e sensíveis.
A paixão acaba?
Como fenómeno químico, sim. As hormonas que fazem com que nos apaixonemos e nos liguemos ao outro surgem em diferentes concentrações à medida que a relação evolui, mas isso não significa que depois deixemos de amar. A fase da paixão é importante, mas não poderíamos viver eternamente sob o efeito das hormonas que nos cegam e não nos deixam pensar em mais nada. Alguns arriscam dizer que depois da paixão vem o amor, algo mais sereno, apaziguador, longe daquele fogo que nos tira o sono.
Porque sentimos ciúmes?
Porque fomos educados para a monogamia; porque não queremos partilhar ou perder o nosso parceiro. Biologicamente, não somos monogâmicos, mas fomos educados para o ser e por isso acredito que sentimos ciúmes. Já em relação ao polémico tema da fidelidade, existem estudos que referem que a vasopressina, também chamada de hormona de fidelidade, atua na pressão sanguínea. Alguns estudos com roedores mostraram que a sua concentração pode fazer com que os ratos deixem o seu parceiro para procurar outros. Como seria com o ser humano? O poder das hormonas é impressionante...
ouça o cérebro e o coração ao mesmo tempo

Apesar de tudo, não queremos que deixe de ouvir o seu coração. Mas com alguma racionalidade. E se usa de forma equilibrada os dois hemisférios do cérebro (o esquerdo está ligado à razão e o direito à emoção), conseguirá, em princípio, gerir melhor as vicissitudes de uma relação. Aquilo que lhe vai no coração é apenas uma manifestação das suas funções cerebrais, logo os dois órgãos são indissociáveis. Já vimos que a paixão e o amor podem ser traiçoeiros e o coração nem sempre acerta, mas a intuição pode ser uma arma poderosa neste contexto. Concentre-se e tire um momento para sentir realmente aquilo que ele lhe diz acerca da pessoa em questão: as energias que dela emanarem chegarão até si, dizendo-lhe se é uma boa ou má escolha. Fique atenta à forma como o seu corpo reage a essa energia – ela está a fortalecê-la ou a fragilizá-la?

Podemos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo?
Porque temos de deixar o amor romântico ou sexual apenas para uma só pessoa? Os primatas mais próximos de nós não são monogâmicos, mas nós fomos socializados e educados para a monogamia. No entanto, existem já pessoas que assumem viver em poligamia consentida (poliamor), sentindo-se completos e felizes. O amor livre é praticado também em inúmeras comunidades. O número de pessoas que amamos e com quem partilhamos a vida devia ser algo livre para cada um.
Existe amor à primeira vista?
Existe uma série de fatores que nos chamam a atenção numa pessoa e não noutra, mas certamente que o nosso cérebro recebe uma série de estímulos que descodifica como sendo alguém atraente/interessante e é a sua resposta que nos faz ficar mais atentas.
 
Tags: amor relações comportamento
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