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É uma pessoa otimista?

Pense bem antes de responder. Diz Tali Sharot, uma verdadeira doutora do otimismo, que 80% das pessoas o são, embora muitas vezes não se reconheçam como tal. Falámos com a neurocientista para tentar descodificar a ciência do otimismo.
Por Carolina Carvalho, 15.01.2020

Se pensa que o otimismo é algo intuitivo, engana-se. Na verdade até é um assunto que interessa bastante à ciência. Que o diga Tali Sharot, a neurocientista que acabou a estudar o otimismo por acaso e tem dedicado grande parte da sua carreira à investigação deste tema, bem como o trabalho do laboratório que comanda na University College London, o Affective Brain Lab. Contudo foi de Nova Iorque, e logo pela manhã, que ajudou a Máxima a descodificar a ciência do otimismo. A sua conferência TED em fevereiro de 2012 já foi visualizada mais de um milhão e 600 mil vezes e o seu livro The Optimism Bias: A Tour of the Irrationally Positive Brain acendeu o interesse do público pelo tema e até deu o mote a uma edição da revista Time. Os seus estudos testam grupos de pessoas e analisam a reação das mesmas como também a do cérebro. Ficámos a saber que 80% da população é tendencialmente otimista, principalmente os mais jovens e os mais velhos, mas a zona do planeta não parece ser relevante. A próxima vez que lhe disserem para ser otimista lembre-se que somos tendencialmente pessimistas em relação ao país e ao mundo, mas somos otimistas em relação à nossa vida e à nossa família. Podemos ler livros e tentar descodificar esta ciência, mas o segredo parece estar na ideia de controlo que temos ou não sobre os diferentes contextos e num jogo de colagens de memórias que nos ajuda a projetar o futuro. E será que o otimismo é também um caminho para a felicidade? Tali Sharot explica.

O que é a tendência do otimismo (Optimism Bias)?

É esperar que o futuro seja melhor do que realmente acaba por ser.

O otimismo está relacionado com idade, religião ou geografia?

Está relacionado com a idade: descobrimos que os indivíduos jovens e os indivíduos mais velhos são mais otimistas e têm mais tendência para o otimismo do que os de meia-idade. As pessoas têm uma tendência otimista em todo o lado do mundo, cerca de 80% da população. É pouco claro se há países específicos onde as pessoas são mais otimistas. Alguns estudos mostram que talvez as pessoas no Brasil sejam um pouco mais do que as pessoas do Reino Unido, por exemplo.

O que é o Affective Brain Lab?

O meu laboratório na University College London chama-se Affective Brain Lab. Affect com "a" significa emocional, portanto significa que estudamos como a emoção muda tudo o resto. E a palavra Affect, que significa emoção, é muito generalista. Significa que tudo o que está relacionado contigo te desperta, por isso sabemos que qualquer tipo de decisão ou de memória são afetados pela emoção e motivação, que te desperta.

Porque é que decidiu estudar o otimismo?

Foi uma coincidência. Eu estava a fazer o meu PhD sobre como a emoção muda a memória, especificamente como acontecimentos dramáticos negativos afetam a memória. Depois do doutoramento fui para Harvard durante alguns meses e lá havia outros estudos sobre como as pessoas imaginam o futuro e o que descobriram foi que o sistema que é importante para a memória também é importante para imaginar eventos futuros. Isso faz sentido porque para imaginar algo no futuro pense por exemplo nas férias de verão: é preciso ir buscar imagens ao passado e combiná-las para criar algo novo. Eu achei que seria interessante estudar como imaginamos acontecimentos dramáticos negativos para fundamentar o que descobri sobre como se lembram os eventos traumáticos. Então comecei o primeiro estudo e descobri que as pessoas tornavam os acontecimentos em algo positivo. Por exemplo, eu dizia a alguém para imaginar o fim da sua relação romântica e respondiam-me: "Eu acabei com a minha namorada e encontrei uma melhor." Continuavam a transformar estes acontecimentos negativos em positivos, o que não era de todo o que eu queria estudar e durante dois meses tentei configurar como é que imaginavam esses acontecimentos negativos, mas depois achei que era bastante interessante e questionei-me porque é que o fariam. Foi aí que comecei a fazer pesquisa e descobri que havia muito trabalho em otimismo. O que não sabia era como é que é criado. E o que se passa no cérebro? Foi aí que comecei a estudar o otimismo e foi mesmo uma coincidência.

Pode dizer-se que o otimismo é a chave para a felicidade e para o sucesso?

É um elemento importante, por duas razões. Primeiro, porque o esperar que aconteçam coisas boas no futuro faz-nos felizes, quer aconteçam ou não. Há expectativas positivas que fazem as pessoas felizes. Por exemplo, se olhar para as pessoas que vão de férias e se vir a felicidade dessas pessoas uns dias antes de irem, durante e depois de voltarem, a altura em que são mais felizes é o dia antes das férias, antes de entrarem sequer no avião. E a razão para isso acontecer é porque estão a imaginar as suas férias, têm expectativas positivas. Durante as férias podem não estar assim tão bem, pode não ser aquilo que sempre se imaginou, mas na sua mente tudo pode ser muito bom. Por isso a felicidade, de certa forma, está à espera na sala de espera para a felicidade. Este é um dos motivos porque o otimismo é tão importante para o nosso bem-estar e felicidade. A segunda razão é que o otimismo faz-nos experimentar coisas novas e trabalhar mais afincadamente. Se pensar que vai ser bem-sucedida, que vai ter uma promoção, isso vai fazê-la tentar trabalhar mais afincadamente para alcançar esses objetivos. Está provado que uma razão pela qual os otimistas são mais bem-sucedidos é porque trabalham de facto mais horas e estão mais motivados. Também são mais saudáveis porque motivam-se para almoçar de forma mais light e para fazer exercício, logo vão ficar mais fortes e saudáveis.

De acordo consigo, o otimismo é algo muito científico. O que é que o cérebro nos diz sobre o otimismo?

Aquilo em que estávamos especificamente interessados era como alcançar este otimismo. Se for muito otimista e achar que tudo vai correr bem, mas por vezes as coisas não correrem bem assim, como é que se mantém o otimismo? E o que descobrimos foi que o cérebro codifica informação positiva inesperada melhor do que informação negativa inesperada. Por isso se alguém lhe disser que as coisas vão piorar, até pode pensar que vão, mas não reage de forma muito forte a isso. Mas se alguém diz que as coisas vão ficar melhor reage de forma mais forte. Se alguém lhe disser que é provável que consiga uma promoção, o cérebro codifica isso muito mais fortemente do que se disserem que é pouco provável que consiga a promoção.

Podemos dizer que o otimismo tem um lado mau?

Um dos aspetos negativos do otimismo é o facto de tornar menos prováveis as ações de precaução. Por exemplo, pode não ir ao médico ver se está tudo bem, não usar capacete ou cinto de segurança. Tem de haver um tipo de equilíbrio. Devemos ser otimistas, mas não extremamente otimistas. O que o otimismo moderado faz é dar a ideia de que tudo vai estar bem desde que se tomem as opções certas.

Os portugueses têm fama de serem pessimistas. Podemos aprender a ser otimistas?

As pessoas não são boas a medir o seu otimismo. Por exemplo, os ingleses vêm ao meu laboratório e dizem que não são otimistas, mas quando são testados, na verdade até o são e as suas expectativas são melhores do que a realidade sugere. Há uma diferença entre o que as pessoas acham que são e o que realmente são, por isso não sei se os portugueses são de facto pessimistas ou gostam de se retratar dessa maneira. Os americanos gostam de se retratar como otimistas, mas não significa que sejam mais otimistas, como os ingleses e os portugueses. Em relação ao que podem fazer, eu acho que o controlo é importante para o otimismo. Este está muito relacionado com uma sensação de que podemos controlar o nosso destino: as pessoas querem acreditar que têm mais controlo do que o que têm de facto. Não importa se as pessoas são pessimistas em relação à economia ou ao seu país. Quando se dá a um indivíduo a sensação de que pode ter mais controlo sobre estas coisas, então ele vai tornar-se mais otimista.

De tudo o que já estudou quais foram as conclusões mais surpreendentes ou curiosas a que chegou?

Acho que o exemplo do casamento é o mais óbvio e divertido. Toda a gente sabe que a taxa de divórcios é muito alta, talvez 40 %, e ainda assim a maioria das pessoas acha que é extremamente improvável vir a divorciar-se quando se casa. Com o amor pelos filhos também é assim. As pessoas são muito otimistas em relação aos seus filhos e acham que eles são fantásticos.

Entre crises económicas, fenómenos naturais e guerras, o que é que acha que hoje motiva o otimismo nas pessoas?

O otimismo que as pessoas têm é muito sobre elas próprias. Podemos ser muito pessimistas em relação ao mundo e otimistas em relação a nós próprios. Chama-se "otimismo privado versus desespero público", por isso em muitos casos, e isto pode mudar consoante certos status, quando as pessoas dizem "o mundo vai desmoronar-se" ao mesmo tempo dizem "eu vou ficar bem" e "a minha família vai ficar bem". Podermos sentir que controlamos a nossa vida, mas não controlamos o mundo ou o país. E isso é uma razão pela qual não somos tão otimistas em relação ao que está fora de nós.
Tags: otimismo felicidade tali sharot university college london nova iorque affective brain lab
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