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As mulheres e o sono

A privação de sono é um dos problemas do século XXI e as mulheres têm uma relação especial com ela. Dormir é essencial e até está na moda. Por isso, se este artigo lhe der sono, tanto melhor.
Por Carolina Carvalho, 10.06.2019

Se der um jantar em casa e estiver sem tema de conversa, esqueça a cusquice sobre as celebridades, o cinema, o futebol, a política e, até, o festival da canção. Se quer um tema que motive um grupo de pessoas a falar de experiências pessoais fale de sono, por muito paradoxal que possa parecer. Haverá sempre quem boceje imediatamente, mas a maioria dos seus interlocutores saltará da cadeira com vontade de partilhar as experiências pessoais: das insónias às noites dedicadas a bebés, passando por sprays milagrosos, tamanhos de almofadas e qualidade dos colchões… E haverá sempre alguém disponível para lembrar os mandamentos do Feng Shui. O problema é que depois de uma animada conversa fica tudo na mesma. Cada pessoa mantém os seus hábitos, o cansaço (que tentamos aliviar com a ilusão de compensar as horas de sono em falta no fim de semana) e a ignorância em relação ao autoflagelo de não dormir o suficiente. Com o Dia Mundial do Sono assinalado a 15 de março, aproveitamos para relembrar a importância de dormir e explicamos como é que mulheres e homens diferem nesta área.

Começar pela base

Uma vez que a data acima referida é uma sexta-feira pode aproveitar para celebrar com uma longa noite de sono ou mergulhar no livro Porque Dormimos? O que nos diz a ciência sobre o sono e os sonhos (editora Desassossego) que chegou a Portugal, neste mês de fevereiro. O autor, Matthew Walker, dedica-se ao estudo do sono há muito tempo, é professor de neurociência e psicologia e diretor do Laboratório de Sono e Neuroimagiologia na Universidade de Berkley. Na primeira página do primeiro capítulo saltam à vista uma série de doenças e de problemas de saúde provocados pela falta de sono e acompanhados de uma recomendação da Organização Mundial da Saúde e, por momentos, podemos pensar que se trata de um thriller com um enredo de ação em que uma catástrofe ameaça a humanidade. Mas calma. Este livro é um encontro de ciência, de comportamento e de atualidade e, na verdade, as oito horas de sono recomendadas pela OMS até podem não ser o antídoto que vai salvar o mundo, mas podem certamente ajudar a resolver muitos problemas e a prevenir outros tantos. Walker explica que há três instintos básicos, cujas funções conseguimos perceber: comer, beber e reproduzir. Contudo, em relação a um quarto instinto, dormir, continua a haver uma grande curiosidade. Segundo o autor, todas as espécies estudadas dormem. Porém, os humanos são a única espécie que escolhe privar-se do sono. Mas esta espécie é tão original em relação às outras que as diferenças não ficam por aqui.

As diferenças entre mulheres e homens não acabam no silêncio da noite quando estão todos a dormir. Segundo Teresa Paiva, professora e médica neurologista especialista em medicina de sono e encarregada do Centro do Sono (CENC), esta diferença é marcada pela biologia e pela cultura. Quanto à genética, esclarece-nos: "As mulheres têm dois cromossomas X e os homens têm um X e um Y, o que faz uma diferença considerável. Isso vai fazer com que as mulheres tenham uma configuração somática diferente e necessidades somáticas diferentes dos homens. Não se pode querer que funcionem da mesma maneira. Funcionam de formas parecidas, mas não exatamente iguais." A complexidade hormonal é muito diferente, como explica a professora: enquanto os homens passam pela puberdade e depois pela senescência e não têm ciclicidades periódicas de modificações hormonais, nas mulheres é bem diferente. Depois da puberdade começam os ciclos menstruais que trazem a menstruação e a ovulação, há a gravidez, o parto, o pós-nascimento da criança e ainda a menopausa. E prossegue: "Grande parte das alterações do sono nas mulheres estão relacionadas com estes períodos porque algumas têm insónias com a menstruação, outras têm hipersónia ou insónia na gravidez e muitas mulheres começam as suas insónias a seguir ao nascimento de um filho (muitas vezes, o primeiro). Depois, quando chegam à menopausa, voltam a ter insónias relacionadas com as perturbações hormonais por deixarem de produzir estrogénios. Tudo isto torna, em termos hormonais, as mulheres mais suscetíveis de terem mais alterações do sono do que os homens." Quanto à cultura, a balança parece também pesar mais para o lado das mulheres e sobre elas "recaem sempre duas coisas. Uma é a culpa e a outra é a responsabilidade", diz Teresa Paiva.

Depois de uma História com vários episódios e práticas de violência sobre as mulheres (muitos extintos e outros a caminho da extinção), o século XXI prometia a libertação, mas afinal trouxe novas imposições. "A mulher tem de ser boa mãe, esposa exemplar, profissional de primeira água e tem de estar bonita e ter bom aspeto. E ninguém pode ser perfeito em tudo. Portanto, esta ideia de que se tem de fazer tudo não é possível, não é sequer desejável e é uma tortura que se faz sobre as pessoas." Assim como as regras dos padrões de beleza atuais, como "a necessidade de se ser magra, de se estar sempre bonita, de não se poder envelhecer e de se engordar, de se ter de usar uns saltos com os pés na vertical que é uma coisa de uma violência extrema. Continua a haver uma incongruência enorme no papel da mulher". E acrescenta: "Atualmente, em relação à maternidade e à amamentação, faz-se um peso sobre as mulheres que é completamente inadequado. É evidente que isso leva a um esgotamento das mulheres e é uma violência cultural que se faz sobre as mesmas em pleno século XXI. Depois dizem que as mulheres são neuróticas quando, no fundo, são sujeitas a uma violência grande. É uma culpa terrível que se põe sobre as mulheres. Eu sou convictamente contrária a isso." Apesar de referir que a modificação do papel dos homens no último século foi fantástica, Teresa Paiva conclui que continua a ser sobre as mulheres que recai o maior peso e o Lisbon Sleep Summit, que organizou entre 16 e 19 de maio de 2018, sob o tema Sleep in Women, é a prova de que a complexa relação das mulheres com o sono merece atenção. O estudo As mulheres em Portugal, hoje, apresentado neste mês de fevereiro pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (disponível em ffms.pt) reforça o desequilíbrio que se mantém em relação às exigências que a sociedade impõe às mulheres e assinala que "a grande maioria das mulheres declara que se sente ‘demasiado cansada’, sempre ou quase sempre, facto compreensível se tivermos em conta o escasso tempo de que muitas mulheres dispõem para si próprias nos dias úteis". E acrescenta o facto de uma em cada dez mulheres declarar tomar medicamentos para a ansiedade e para os distúrbios do sono ou antidepressivos.

Dormir é trendy?

A moda encarregou-se de levar os pijamas para a rua e deu à roupa de dormir uma renovada imagem de glamour com tudo a que se tem direito para dormir com elegância (o cetim, a renda e os padrões). Por seu lado, algumas figuras que temos como exemplos de sucesso profissional do século XXI pregam sobre a importância do sono como se de um novo ritual religioso se tratasse. Arianna Huffington, cofundadora do Huffington Post, contou numa TED Talk para mulheres, em 2010, que o momento em que desmaiou por exaustão no trabalho lhe mudou a vida. "A forma de ser mais produtiva, de ser mais inspirada e de ter uma vida mais agradável é dormir o suficiente", disse a oradora e seguiram-se muitos aplausos. Enquanto era diretora daquele jornal online, Arianna chegou a mandar instalar duas salas para sestas. Já Jeff Bezos levava um saco-cama para o trabalho quando ainda era apenas programador informático. Hoje, o fundador da Amazon e o homem mais rico do mundo garante que não dispensa as suas oito horas de sono diárias. Apesar de tudo, o sono continua a ser desvalorizado. Talvez analisá-lo do ponto de vista económico ajude a valorizá-lo. O estudo Why Sleep Matters: The Macroeconomic Costs of Insufficient Sleep, publicado na revista Sleep da Oxford Academy, em abril de 2017, parte da ideia de que a falta de sono é um problema de saúde pública e do facto de mais de um terço dos americanos adultos não dormirem o suficiente, bem como outros países industrializados (como o Reino Unido, o Japão, a Alemanha e o Canadá), para provar que este é também um problema que afeta a economia. Os cálculos foram feitos segundo o PIB de cada país e, como conclusão, os custos macroeconómicos anuais relativos a sono insuficiente nos cinco países da OCDE antes referidos são brutais: entre 457 a 680 mil milhões de dólares no total.

O peso dos hábitos culturais nos rituais de sono é enorme e, segundo a professora Teresa Paiva, a influência destes é normalmente negativa. Em todo o mundo está-se a reduzir o tempo de sono e, embora tenha havido uma altura em que o sono era supletivo, agora a importância do sono começa a ganhar terreno e o Prémio Nobel da Medicina, em 2017, contemplou três cientistas americanos, nomeadamente Jeffrey C. Hall, Michael Rosbsh e Michael W. Young, pelas descobertas do mecanismo molecular que controla o ritmo circadiano, ou seja, o ritmo do corpo ao longo do dia e da noite.

Nem todos podemos ter um coach de sono como Nick Littlehales, que trabalha nesta área há 30 anos e anda há 16 a ensinar desportistas de alta competição a dormir, como é o caso de Cristiano Ronaldo. Também é autor do livro Sono (Arena) lançado em Portugal, em abril de 2017. Por outro lado, manda a intuição do mundo contemporâneo que se procure na tecnologia solução para todos os problemas e a verdade é que quando entramos no site do Google Play e fazemos uma busca por "sleep", para encontrar aplicações relacionadas com sono, aparecem 250 apps. Mas não era suposto os telemóveis ficarem fora do quarto? Sim. Aliás, segundo um estudo da Universidade da Califórnia, um minuto num smartphone ou num tablet antes de deitar aumenta em um minuto e meio o tempo que se demora a adormecer. A luz azul dá a ilusão de que é dia e provoca a inibição da produção de melatonina.

Os problemas relacionados com o sono são variados e há uma série de doenças nesta área que merecem por si um artigo, mas contudo vale a pena referir que não há doenças exclusivas de cada género, embora a insónia seja mais frequente nas mulheres e a apneia nos homens. No entanto, há cuidados que todos podemos ter na procura de uma vida saudável e de uma boa noite de sono descansado. Segundo Teresa Paiva, nós não nos devemos levantar antes das seis horas da manhã, muito menos para fazer exercício físico. E esclarece: "As pessoas têm de ter muito cuidado porque nas primeiras horas da manhã, entre as 5 e as 7 horas, é o período de maior risco para [se sofrer um] enfarte. Fazer exercício à noite, depois de jantar, também faz mal porque vamos aumentar a temperatura corporal e estar sujeitos a uma grande iluminação que nos bloqueia a melatonina. Quentes, cansados e com a melatonina bloqueada não vamos dormir, de certeza." Em Portugal, a professora aponta a vida sedentária, a irregularidade na hora de deitar e a atitude pessimista como os maiores erros que os portugueses cometem em relação ao sono. "Os portugueses estão sempre muito insatisfeitos com tudo – comenta – e em termos de felicidade estamos no 77.º lugar no mundo. Quase todos os outros países europeus estão nos 20 primeiros lugares. E temos um clima fantástico, sol e uma alimentação como não há outra." Mas acrescenta: "Também temos hábitos diruptivos em termos de trabalho e de responsabilidades. Portugal é o quarto país da OCDE que trabalha mais horas por semana, mas é dos que tem menos produtividade nessas horas." A conclusão parece ser fácil: precisamos de dormir mais e melhor.

O que fazer para dormir bem?

Não espere ler sobre produtos milagrosos ou regras rígidas. Segundo aconselha a professora Teresa Paiva, a expressão-chave é bom senso. Por isso devemos "ter horários de dormir e de acordar regulares, uma boa alimentação, fazer atividade física, não trabalhar nem demais nem de menos, não comer nem demais nem de menos, devemos ser felizes, devemos relativizar os problemas que temos, caminhar ao ar livre e apanhar o sol da manhã que é um antidepressivo fantástico. Quando se tem uma doença do sono é necessário tratá-la. A maior parte das doenças do sono, com grande felicidade nossa, são facilmente tratáveis, mas exigem um diagnóstico muito bem feito e correto. E, fundamentalmente, tente dormir com prazer."

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