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A youtuber que conta tudo sobre a vida na prisão

Natural da Flórida, Christina Randall decidiu mudar de vida depois de sair da prisão. Hoje partilha as suas histórias e truques de sobrevivência com mais de 400 mil pessoas através de um canal de YouTube.
Por Vitória Amaral, 07.11.2019

Quando foi libertada em maio de 2008 após ter sido condenada, aos 21 anos, a uma pena de quase três anos por várias acusações de agressão, roubo e fuga, Christina Randall não tinha mais de 30 dólares no bolso. Depois de se instalar num abrigo para mulheres no sul da Flórida, a ex-prisioneira tinha um plano para dar a volta por cima. Começou por arranjar emprego na cozinha da cadeia de fast food Wendy’s em condições duras, onde se veio a aperceber de que não ganhava quase dinheiro nenhum. Mais tarde, enquanto trabalhava como contínua num escritório, Christina conseguiu tirar um curso superior em Serviço Social. "Sempre quis ajudar as pessoas" revelou numa entrevista ao jornal The New York Times.

No entanto, quando acabou o curso, Randall não conseguia arranjar emprego, sendo que o seu historial na prisão acabava sempre por interferir. Uma vez, conta, conseguiu um trabalho com crianças, mas a organização empregadora retirou a oferta pouco depois quando soube do seu passado. Durante muito tempo, Christina pensou que nunca voltaria a trabalhar, até começar o seu canal no YouTube, cujo conteúdo é um pouco diferente dos típicos canais na categoria de lifestyle. Além de partilhar dicas de beleza e vídeos de unboxing, Christina foca-se em contar, da forma mais crua possível, como é realmente a vida atrás das grades e o processo se reinserção. Em tom de reflexão, a ex-presidiária identifica todas as suas escolhas e comportamentos quotidianos que resultaram em prisão, contrariando a desumanização de quem passa pela experiência. Agora com três anos de existência, o canal homónimo já reúne mais de 400 mil subscritores. "My lovelies, my beauties, my friends" (meus queridos, meus lindos, meus amigos", em português) é como Christina alegremente começa cada vídeo.

Christina é apenas uma entre muitos antigos prisioneiros com uma audiência significativa no YouTube. Explica as regras e rotinas da prisão, mostra os truques de beleza das prisioneiras (como transformar grãos de café e água em rímel) e até entrevistou um antigo guarda prisional sobre a corrupção entre guardas. Mais importante que tudo, oferece em primeira mão uma perspetiva humana do encarceramento, além de conselhos sobre como evitar este tipo de situações. "Há muitos filhos, mães, filhas, tias, tios e avós de pessoas na prisão que vêem os meus vídeos para perceber melhor o que a pessoa poderá estar a passar", garante.

De acordo com o YouTube, 92% da sua audiência é norte-americana, com idade entre os 18 e os 34 anos. No início deste ano, Christina recebeu uma carta de uma mulher que viu a sua história como um aviso. "Eu estava a começar a ir por um mau caminho, a dar-me com as pessoas erradas," escreveu, "mas ver os seus vídeos e ouvir a sua história ajudou-me a encontrar o caminho certo e melhores amigos". Dr. Aaron Balick, psicoterapeuta, disse ao The New York Times que há "prós e contras" em haver pessoas como Christina Randall a partilhar as suas histórias online com uma audiência a caminhar para os milhões: "Isto pode aumentar o sentido de inclusão e pertença de um indivíduo, diminuindo o isolamento". O lado negativo é que "não se pode ter a certeza quanto às narrativas que estão a ser produzidas. Serão honestas?".

Hoje, Christina ganha dinheiro através de anúncios nos seus vídeos, além dos espetadores que pagam pelo menos 5 euros por mês para ter acesso a conteúdo extra, tendo a possibilidade de falar por Skype ou mensagem privada com a youtuber (no caso de pagarem mais). Emily Salisbury, professora de justiça criminal na Universidade do Nevada, garante no mesmo artigo do The New York Times que não vê "nada de errado" com a recompensa financeira de Christina, além de que a sua comunidade online poderá vir a ter um valor inestimável para antigos prisioneiros. Os seus vídeos são agora a principal forma de rendimento, mas ela não acredita que afete a integridade do seu canal, sendo que a youtuber mantém uma mensagem de motivação, sem julgamentos. 

Tags: christina randal youtuber lifestyle prisão canal internet
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