Lifestyle

A vida é bElla

Chama-se As Delícias de Ella e apresenta-se como o livro vegetariano com as vendas mais rápidas de sempre. Conversámos com a autora, Ella Mills, uma jovem inglesa que faz da vida saudável o segredo do seu sucesso e da sua felicidade.
Por Rita Lúcio Martins, 05.11.2019

Os últimos anos foram uma montanha-russa de emoções e de transformações para Ella Mills, mas, apesar de alguns sustos familiares e dos reveses normais da vida profissional, o balanço dificilmente poderia ser mais positivo. À audiência de milhares de pessoas (espalhadas por diferentes plataformas, incluindo o blogue Deliciously Ella), soma-se a publicação do quinto livro, As Delícias de Ella – O Livro Cem Por Cento Vegetariano (Lua de Papel), o lançamento de novos produtos alimentares e vários eventos no café-restaurante inaugurado em Londres. Falámos com a autora, que acaba de ter o primeiro filho. O tempo é mesmo de celebração.

A Ella é o derradeiro exemplo de que, às vezes, é nas piores alturas da vida que o renascimento começa. Podemos dizer que o dia em que lhe foi diagnosticada a sua doença foi o primeiro dia do resto da sua vida?

Sim e foi-o de várias formas. Em 2011, numa altura em que eu ainda frequentava a universidade, fiquei muito doente e foi-me diagnosticada a Síndrome da Taquicardia Postural. A doença afetou o funcionamento do meu sistema nervoso e tive de lutar bastante para controlar o batimento cardíaco e a tensão arterial, e passei a ter problemas digestivos, bem como uma série de infeções, entre outros sintomas. Passei alguns meses com internamentos hospitalares, seguidos de muitos outros meses de cama e, apesar de estar fortemente medicada, infelizmente não tive melhoras. Sinto que bati no fundo, tanto fisicamente como mentalmente. Passado um ano, decidi explorar novos caminhos. Interessei-me muito pelo poder da dieta alimentar, bem como pelo próprio lifestyle e comecei a fazer experiências numa cozinha baseada em plantas. Na verdade, apaixonei-me pelos vegetais. À medida que este interesse foi crescendo e que fui fazendo as minhas experiências culinárias, comecei a partilhar as minhas criações num blogue, o deliciouslyella.com. De alguma forma, o sucesso desse blogue disparou muito rapidamente, crescendo de uma forma orgânica, e depressa atingiu os 100 milhões de visitas nos primeiros anos. Mais tarde, fiz a transição para as redes sociais, onde agora temos uma audiência de 2,5 milhões, espalhada pelas diferentes plataformas, depois veio a app, cinco livros, um deli [um café-restaurante], em Londres, e agora quatro linhas de produtos alimentares espalhados por seis mil lojas em todo o Reino Unido. Tem sido uma azáfama. Todos os dias eu me apaixono um bocadinho mais pelo que fazemos e por poder espalhar este amor numa forma de vida baseada nas plantas.

Além da doença, o que foi que a motivou mais quando abraçou essa mudança de estilo de vida?

Na verdade eu queria mudar a minha trajetória de vida. Eu sentia-me muito frustrada por não poder fazer nada para alterar aquelas circunstâncias e esforcei-me muito para encontrar um resultado mais positivo. Em suma, eu sabia que não podia continuar a viver da mesma forma e que precisava de fazer alguma coisa em concreto para mudar.

Como era a sua relação com a comida, até então?

Eu não era uma grande entusiasta… Sabia apreciar uma boa refeição, mas não gostava de cozinhar e não sabia nada sobre comida saudável. Foi tudo uma grande aprendizagem para mim. Senti que estava no final da estrada no que diz respeito à medicina convencional e comecei a investigar. Depois senti-me inspirada pelas histórias e testemunhos de outras pessoas que haviam usado a dieta e o próprio estilo de vida como uma forma de mudança e achei que valia a pena tentar.

Cozinhar tornou-se terapêutico, em todos os sentidos…

Completamente! Eu senti-me empoderada pela decisão que tinha tomado, pelo poder de me ajudar a mim própria e de tomar nas minhas mãos o cuidado da minha saúde. Percebi que podia procurar um foco, ao invés de deixar que fosse a doença a definir-me. Cozinhar, escrever as receitas e depois fotografar a comida tornou-se uma saída importante para mim. Aliás, continuo a considerar toda essa atividade muito relaxante e é mesmo um dos meus passatempos favoritos.

Como já referiu, o blogue tornou-se um imenso sucesso, conseguindo uma grande audiência. Como é que tomou a decisão de se dedicar a ele de uma forma mais permanente e profissional?

A verdade é que fiquei surpreendida com a rapidez com que tudo se passou. Alcançou um milhão de visitas, em apenas doze meses, depois de ter começado. Foi quando percebi que poderia haver ali uma carreira para mim e que podia dedicar a minha vida a partilhar a minha paixão com o mundo.

Sentiu-se um exemplo, uma inspiração?

Nunca foi essa a minha intenção. Eu só quis criar um recurso para as pessoas. Quis mudar a minha dieta, passar a comer mais vegetais e não encontrei, na altura, muitas pistas sobre como tornar a comida vegetariana mais interessante e por isso decidi fazer eu própria esse trabalho. Quis mostrar que podíamos pegar em ingredientes simples, como as lentilhas, e cozinhá-los de uma forma deliciosa, adicionando ingredientes como cebola salteada, alho e cenoura com paprica, sementes de mostarda e caril, cozinhando depois toda a mistura em leite de coco, com alperces secos e couve-flor assada, conseguindo um molho espesso e cremoso.

Entretanto, conheceu o Matt, que hoje é o seu marido. E tudo mudou…

Nós começámos a trabalhar juntos alguns meses depois de nos termos conhecido. Eu adoro o lado mais criativo do Deliciously Ella. O Matt tem um background financeiro e conhecimentos de desenvolvimento de negócio, o que resultou num encaixe perfeito. Adoro trabalhar neste registo de equipa de marido e mulher. Bem sei que não é para toda a gente, mas posso dizer que é muito especial e gratificante ver alguém que amamos a ter sucesso e a crescer, ao mesmo tempo que nos apoiamos mutuamente ao longo de todo o processo. Juntos fizemos crescer o negócio e as nossas receitas são dezoito vezes superiores do que eram há três anos quando começámos a trabalhar juntos. Hoje supervisionamos uma equipa de quarenta pessoas.

Em que momento tomou a decisão de ir um pouco mais longe, vendendo as criações nascidas das suas receitas?

A partir do momento em que começámos a trabalhar juntos. Era muito evidente para nós que havia essa falha de oferta no mercado. Por isso acabou por ser uma decisão natural passar a fazer comida deliciosa e natural que estaria disponível para o grande público, facilitando a vida de toda a gente.

Além dos produtos disponíveis em supermercados, também decidiram abrir um café, em Londres. Era importante ter esse contacto direto com o público?

Esse café é a casa da nossa marca. É onde a Deliciously Ella cresce e respira. É onde testamos ideias e receitas, onde organizamos eventos e onde podemos conhecer pessoalmente os nossos leitores.

Continua a responder pessoalmente a cada e-mail, a cada mensagem?

Tento! Esse foi um juramento que eu fiz no início do meu percurso e tento sempre manter-me fiel a ele. Acho que nunca irei contratar alguém tendo por referência apenas o contacto que se tem através das redes sociais. Tentei fazê-lo uma vez e só durou algumas semanas… Gosto de ter um contacto direto com os leitores. E aprendo bastante com as questões que me colocam e com os comentários que fazem. Ajuda-me a definir a direção que o negócio deve seguir. Temos esse sentido de comunidade em tudo o que fazemos.

Novos projetos, novos desafios, novos livros, novos produtos, entrevistas, parcerias. Nunca se sente assoberbada pelo muito que acontece à sua volta?

Às vezes… Mas eu acho que faz parte do processo. Gerir um negócio é difícil, é incrível e também é muito divertido. Mas é verdade que a pressão, às vezes, se sobrepõe ao resto. Encontrar formas de desacelerar e libertar a pressão é muito importante para mim. O yoga ajudou-me bastante nesse sentido. Pratico todos os dias, pelas sete da manhã, antes de ir para o trabalho e adoro! É uma hora dedicada à respiração, ao movimento, ao alongamento e à abertura. Faz maravilhas pela minha saúde física e mental. Além disso, há outros pequenos gestos que fazem toda a diferença: preparar comida deliciosa, tomar um banho antes de me deitar, passear os nossos cães entre reuniões, ouvir um bom podcast enquanto ando de Metro...

Ainda é uma daquelas pessoas que se preocupa com facilidade?

Sim. O Matt não é nada assim, mas eu sou. Eu sou daquelas pessoas que pensa demasiado nas coisas, o que não é propriamente uma vantagem quando se está a lançar uma start-up. Em última análise, a determinada altura, alguma coisa vai correr mal, irão cometer-se erros, mas é também desses erros que vem a aprendizagem. Mas quanto mais avançamos nesta viagem, menos me preocupo. Apercebi-me que há sempre uma solução e um caminho, mesmo quando a crise parece intransponível.

Não tem pequenos vícios, um ou outro mau hábito que seja confessável, um guilty pleasure, eventualmente?

Para ser sincera, detesto esse conceito de guilty pleasure – se alguma coisa é um verdadeiro prazer deverá trazer alegria, sem um lado de culpa associado. Acho, aliás, que esta é uma questão essencial em relação à forma como comemos nos dias de hoje. Há sempre muitas emoções em conflito, sentimentos de negatividade e de privação associados aos momentos das refeições. Eu adoro viajar, experimentar novas comidas, novos restaurantes, partilhar uma refeição em família e com amigos, com direito a uma sobremesa extra, se for caso disso. É alimento para a alma!

Quais são então os conselhos que dá a alguém que quer fazer essas mudanças, mas que ainda não encontrou a motivação?

Cada pessoa tem de fazer aquilo que sente que resulta com ela própria e lembrar-se que não há uma receita universal, nem uma única forma perfeita de fazer determinada coisa. Tem tudo a ver com encontrar ferramentas sustentáveis, mas também prazerosas, que encaixem na nossa vida. Mas fazer grandes quantidades de guisados e de caris que depois possam ser congelados já fará uma grande diferença na vida de todos os dias…

Qual é o próximo passo, o próximo nível?

Vamos expandir as nossas gamas de produtos e esperamos poder espalhá-los pela Europa. Temos estado à espera dos desenvolvimentos do Brexit! Vamos continuar a partilhar ideias e inspirações e teremos um novo livro, em 2020, e um bebé no próximo verão.

A propósito, o que é que mudou no seu comportamento desde que engravidou?

Estou a tentar abrandar um pouco, a ouvir o meu corpo e a cuidar de mim… Mas de resto continua tudo mais ou menos na mesma. Continuo a adorar trabalhar e a fazer yoga e agora que os enjoos matinais [devido à gravidez] passaram, adoro poder voltar a cozinhar.

Como é que se imagina daqui a cinco anos?

Quem sabe?! Há cinco anos eu estava a escrever um pequeno blogue, a partir da cozinha dos meus pais. Tento manter-me aberta ao que a vida tem para me oferecer, sabendo que ela pode ser bastante imprevisível.

 

 

 

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
0 Comentários
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!