Comportamento

Sabe mesmo o que é a perturbação bipolar?

A cantora Mariah Carey confessou conviver com a doença desde 2001 e levantou um debate sobre o assunto que ainda envolve muito preconceito e desconhecimento.
Por Aline Fernandez, 07.05.2018

Uma das cantoras mais bem-sucedidas da sua geração, com uma estimativa de mais de 213 milhões de discos vendidos em todo mundo, Mariah Carey resolveu partilhar com a imprensa e falar pela primeira vez ao público sobre o seu diagnóstico de perturbação bipolar. Numa entrevista à revista People, Mariah disse conviver com a doença desde 2001, quando sofreu um colapso físico e foi internada.

A cantora confessou que teve receio de tornar a questão pública com medo da repercussão e exposição excessiva. "Até há pouco tempo eu vivia isolada e em negação. Tinha medo de ser exposta por alguém. Foi um fardo tão grande de ser carregado. Eu simplesmente não conseguia prosseguir sozinha e decidi rodear-me de pessoas boas e concentrar-me em coisas que eu adoro, como fazer música", declarou à publicação.

Mariah Carey confessou também estar a fazer terapia e a tomar medicamentos para controlar os efeitos do transtorno.

O que é a perturbação bipolar

"Do ponto de vista médico não há um estatuto de doença, por rigor fala-se perturbação bipolar", explica Rui Durval, médico do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, contudo o mesmo considera-a uma doença crónica e enfatiza que o tratamento pode ser muito eficaz.

De foro psiquiátrico, a perturbação caracteriza-se pelas oscilações acentuadas de humor não previsíveis e mais intensas do que o habitual. A pessoa apresenta períodos intercalados de depressão e de mania, que em linguagem médica denomina a euforia, momentos em que a pessoa está extremamente feliz. A irritabilidade também pode aparecer, contudo não é um dos sintomas principais.

"Essas pessoas tendem a falar muito e muito rapidamente. As ideias andam mais depressa na mente e, para nós, parecem não ter sentido. Alguns têm fases que dormem muito pouco, são diversos os sintomas", esclarece o médico.

Tanto a homens como a mulheres, o transtorno pode afetar todos e pode começar na infância ou na terceira idade, contudo, habitualmente desperta na idade adulta. "Nas mulheres até um bocadinho mais tarde", atenta Rui Durval.

Ainda vista com preconceito por uma parcela considerável da sociedade, a perturbação bipolar é uma das doenças mentais mais tratáveis com eficácia. A combinação de medicação com psicoterapia ajuda as pessoas a ter uma vida dentro da normalidade. "Aceitar a doença e controlá-la é possível, e na maior parte dos casos é controlada. A base para este tratamento, que hoje é altamente eficaz, é o estabilizador de humor, sendo o mais conhecido o lítio. A medicação atual não só trata as crises mas previne-as, o que é o mais importante, já que cada uma é mais difícil de se tratar e as manifestações clínicas agravam-se a cada episódio", explica o médico.

Joana Anahory, de 37 anos, foi diagnosticada com perturbação bipolar e já encontrou o seu equilíbrio na medicação. "Tive uma sensação de alívio. Já sabia que o que sentia tinha um nome e eu não era apenas uma desequilibrada", confessa abertamente. "As pessoas mais próximas de mim não têm preconceito porque veem as minhas capacidades. Há pessoas que não fazem ideia do que é, acham que é um bicho-papão", conta Joana. E completa: "Acho que falta a muita gente equilíbrio psicológico."

A primeira crise que teve foi em 2009, quando ainda não sabia que sofria da doença, ao tentar tirar a própria vida na Ponte 25 de Abril, em Lisboa. "Quando tinha 18 anos, a minha mãe morreu, os meus pais eram separados e eu era muito próxima dela. Passados muitos anos um luto muito forte persistiu e resolvi procurar psicanálise." A psicóloga recomendou psiquiatria e foi só quando Joana abandonou a medicação que ocorreu o primeiro surto.

Felizmente o desfecho não foi como ela previa graças ao destino que decidiu cruzar três amigos seus no mesmo dia na ponte, que lhe salvaram a vida. Durante o internamento compulsivo e depois de diversos acompanhamentos médicos o diagnóstico foi concluído.

"Há um lado bastante sedutor da doença, que me deixa muito sensível às coisas boas da vida. Sinto a beleza e as maravilhas, uma sensação de amor intensa, que obviamente no início eu não sabia que ia descambar", confessa Joana. Desde o ano passado foi-lhe receitada uma medicação mais baixa e diz sentir-se muito melhor.

"As pessoas gostam de estar alegres e ninguém gosta de ter uma doença. Enquanto não compreender que sofre dessa patologia, a adesão ao tratamento pode não ser a ideal. É preciso aprender não só com a cabeça mas com o coração", afirma Rui Durval.

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