Comportamento

Pessoas felizes também traem

Esqueça a velha história de que só os mal-casados são infiéis. Há gente feliz que trai para escapar à monotonia ou devido a uma crise de identidade. Por vezes, até une casais. No seu livro, a terapeuta Esther Perel explica tudo.
Por Dulce Garcia, 26.07.2019

Antes traíamos porque não nos casávamos por amor e um dia... apaixonávamo-nos. Agora, casamos por amor e traímos, na mesma. Porque nos desapaixonamos? Porque somos infelizes? Ou simplesmente por tédio? No seu mais recente livro, The State of Affairs: Rethinking Infidelity (Harper Collins, Outubro de 2017), a psicóloga e terapeuta Esther Perel (Antuérpia, 1958), best-seller norte-americana com direito e discurso nas TED Talks, diz que é redutor pensar que só os infelizes traem. A especialista, que conduz um programa áudio inovador de aconselhamento para casais – Were Should We Begin –, avança com vários factores para explicar a infidelidade e defende que, quando um casal quer mesmo ficar junto, uma relação extraconjugal pode até ser benéfica. Num extenso artigo publicado pela revista Atlantic, Perel explica que, tal como o conceito de casamento se alterou, substancialmente, nas últimas décadas, também a questão da infidelidade tem, hoje, nuances bem diferentes. Já não se trata, simplesmente, de procurar fora aquilo que a relação não está a dar, mas de exigir que o casamento forneça tudo: segurança, companheirismo, confiança e amor, mas também paixão, aventura e risco. E, como bem nota a especialista, há aqui conceitos impossíveis de conciliar.

Maria João e Rui, ambos com 54 anos de idade, estavam casados há quase 30 quando a filha mais nova saiu de casa para ir viver com o namorado. Já antes o primogénito deixara a moradia da família, em Carcavelos, para estudar nos Estados Unidos. Bem-disposta e extrovertida, Maria João, que é farmacêutica, diz que esse período de mudança coincidiu com os primeiros sintomas da menopausa e apressou-se a atribuir à tal conjugação a sua falta de energia e, até, alguma tristeza. Por conselho do marido, decidiu retomar uma velha paixão, a fotografia, e inscreveu-se num curso. Aí conheceu Mário, "um professor de 50 e muitos anos, riso fácil, cheio de charme e com uma enorme paixão por cinema". Mário passou a dar-lhe conselhos sobre filmes e, um dia, pediu-lhe que visse um em especial: As Pontes de Madison County, com Meryl Streep e Clint Eastwood, em que um fotógrafo da National Geographic se apaixona por uma dona-de-casa de meia-idade... casada. "Vi o filme na sexta-feira e não dormi durante todo o fim-de-semana. Acho que só então me apercebi de que se passava algo entre o Mário e eu. Senti-me de tal maneira atordoada que parecia que me faltava o equilíbrio." Na aula a seguir, quando ele entrou, ela corou até à raiz dos cabelos. À saída, o professor travou-a. Trocaram poucas palavras, ele segurou-lhe com força no braço e não a largou. Nessa noite, junto ao carro dela, beijaram-se. "De repente, tinha outra vez 18 anos e a vida era maravilhosa. Ouvia pássaros a cantar, as pessoas pareciam todas sorridentes, os meus olhos brilhavam tanto que as minhas amigas perguntavam-me o que andava a tomar." A sensação de euforia, que ia e vinha, durou um mês. Depois, Mário começou a ligar mais, a pressionar para se encontrarem, a falar em futuro. Maria João não queria pensar em nada, só desfrutar daquela segunda juventude que, na altura certa, lhe escapara entre os dedos. "Tive filhos cedo, aproveitei pouco a vida conjugal, mas sempre adorei o meu marido, é a melhor pessoa que conheço." À medida que o amante a cercava, a culpa também tecia a sua teia. "Comecei a sentir medo de ser descoberta e de perder o Rui, medo do que diriam os meus filhos e o resto da família. E a perceber que nunca ia gostar tanto de outro homem como gosto do meu marido."

Depois de uma crise de choro, com Rui a implorar-lhe que lhe contasse o que se passava, Maria João confessou tudo. Explicou-lhe que o caso não era uma questão de sexo, que nem sequer tinham passado de beijos e de carícias, e admitiu que andava fascinada com o desejo que ela ainda suscitava. Nessa noite, Rui saiu de casa com uma mala e esteve três semanas a dormir em casa do irmão mais novo. Entretanto, aceitou conversar e há seis meses que ele e Maria João fazem terapia de casal. Ela sabe que não vai ser fácil reconquistar a confiança dele, mas diz que fará de tudo para salvar o casamento.

Reza a história e os romances de cordel que as mulheres estão habituadas a ser traídas, ao contrário dos homens, que têm uma espécie de bênção cultural para manter as suas aventuras, mas pouco estômago para perdoar a infidelidade. Alto! Nada disso, pois os tempos mudaram. "Antigamente, as mulheres casavam e só então iniciavam a sua vida sexual. Agora, põem termo a uma série de relações quando se casam", explica Esther Perel, para quem este nomadismo sexual feminino alterou – e muito – as regras do jogo.

Marta, de 35 anos, teve vários namorados até casar com Eduardo, de 33. E admite que uma das coisas de que mais lhe custou abdicar foi da liberdade. Fez tudo o que pôde para manter algumas rotinas de solteira e as coisas correram bem, durante muitos meses. Até que conheceu Pedro. "Há coisas inevitáveis e desde a primeira vez que o vi que me senti atraída por ele. Posso dizer que experimentei uma espécie de choque eléctrico quando me foi apresentado por uma amiga: ‘Este é o Pedro, namorado da Cláudia.’ A Cláudia vinha atrás, uma mulher pouco efusiva, mas interessante, bonita, mas sem ser de se cair para o lado. Reparei que trazia a tiracolo uma carteira igual à minha, mas de outra cor. Mal sabia ela – e eu – que, a partir daí, passaríamos a partilhar mais do que o gosto por carteiras. Tornámo-nos amigos e começámos a jantar com frequência: ela, eu, o namorado dela, o meu marido, a amiga que nos apresentou e outra, ainda. De início, o meu marido achou o Pedro um tanto ou quanto piegas – escusado será dizer que eu gostei dessa doçura que não era nada efeminada –, depois passou a admirá-lo. Nunca desconfiou de nada.

Os meses passaram e, sempre que combinávamos programas juntos, eu sentia que ia para um encontro especial. Arranjava-me mais, pensava nas frases que lhe diria, como se estivesse à procura de um espaço só meu e dele. Depois, voltava para casa e, nessa noite, sonhava com ele." Um dia, numa troca de mensagens no chat do Facebook, com toda a gente a dar sugestões sobre o que oferecer de presente de aniversário a uma amiga, acabaram os dois a conversar. E isso tornou-se rotina. "Começámos a flirtar com um certo cuidado, tentando perceber até onde podíamos ir sem provocar grandes estragos, mas já cientes de que havia entre nós desejo, mas também admiração e cumplicidade." Por motivos profissionais, Pedro foi trabalhar para fora e estiveram meses sem se cruzar. Isso coincidiu com um período de crise, em que Marta e o marido decidiram afastar-se para perceber o que realmente sentiam.

"Confesso que a ideia de dar um tempo [à nossa relação] foi minha. Queria recuperar a minha individualidade, estava farta do ‘Nós vamos’ ou do ‘Que pena, mas não podemos ir’. Além disso, fantasiava permanentemente com o Pedro e perguntava-me se devia, mesmo, ter casado e se o Eduardo era o homem certo para mim, etc., etc." Durante esse tempo, saiu várias vezes com amigos e uma noite, já tarde, "tropeçou" em Eduardo. "Há coisas tão estranhas… Apesar de ter desejado aquele homem mal o vi, dessa vez estava longe de imaginar que acabaríamos a noite juntos, aos beijos num miradouro de Lisboa e, mais tarde, num quarto. Mas bastou ele puxar-me para si, numa esquina, a caminho de um táxi, que respondi de imediato com um beijo que ‘durou horas’." Marta conta que o que se passou entre eles ultrapassou as suas fantasias, mas, de alguma forma, também a fez cair na realidade. "Tinha feito amor com o meu marido, tantas vezes a pensar no Pedro e quando ele já tinha deixado os meus braços não era nele que eu pensava, embora, ainda hoje, a recordação do seu cheiro e do seu toque me excitem."

Logo ali percebeu que o que existia entre eles era forte, mas não tinha futuro. "Tanto que não estranhei a ausência de um telefonema seu, nem me apeteceu ligar-lhe. Aos poucos compreendi que tinha saudades do meu marido, que era das suas piadas que sentia falta e que a relação de companheirismo que estabeleci com ele não se repetiria com mais alguém." Voltaram a viver juntos. Pedro também regressou a Lisboa, mas com Cláudia. "Já nos reencontrámos todos e, sinceramente, continuo a sentir um friozinho na barriga quando ele se aproxima de mim. Julgo que esta sensação nunca vai passar. E pelo sim, pelo não, rezo para não ficarmos sozinhos porque podia cair de novo em tentação." Eduardo nunca soube de nada. "E se um dia descobrir, sei que vamos ter problemas. Escudo-me na ideia de que estávamos temporariamente separados e que este assunto só a mim me diz respeito. No fundo, talvez precisasse de passar por isto para definir bem o meu amor pelo Eduardo e o valor do casamento."

Esther Perel aborda a ideia de traição como ferramenta de autoconhecimento. Acredita que, muitas vezes, a infidelidade é mais uma busca de si próprio e de sentimentos há muito esquecidos do que de outro homem ou mulher. "A traição pode ser uma desilusão connosco, com aquilo em que nos tornámos depois da relação e pouco ter a ver com o parceiro. Quem sabe se não andamos atrás de uma nova versão de nós mesmos e não de outro amor?" É claro que existem momentos especialmente perigosos: "Há períodos na vida muito propícios a crises de dúvidas. E o ser humano é especialista em procurar aquilo que perdeu no sítio errado ou onde pensa ser mais fácil encontrar." Talvez por isso acredite que a traição "é mais sobre sentir-se sexy do que fazer sexo". Resta esperar que o outro, o legítimo, compreenda e aceite. A infidelidade pode ser um disfarce para problemas do passado e, até, sintoma de um vazio outrora preenchido por outrem (o marido agora ausente ou os filhos que saem de casa). Certo é que o estado de paixão (nem que seja hipotético) associado provoca tal efeito no ser humano que muitos psicólogos comparam os sintomas aos que procedem um episódio traumático: obsessão, hipervigilância, ausência de fome, instabilidade de humor, entre outros.

Citado pelo The Times, o jornalista Cosmo Landesman afirma que trair é "fazer bungee jumping com os genitais" ou "ganhar a lotaria da luxúria" e discorre sobre o poder das emoções na atenuação da culpa. Porque, muitas vezes, há culpa. E uma factura a pagar. Luís, de 39 anos, músico, voltou de Londres apaixonado por Camila, seis anos mais nova, bailarina. Combinaram que ele iria à frente para arranjar casa e ela juntar-se-lhe-ia no Verão seguinte, em Lisboa. Assim foi. Durante três meses, viveram uma autêntica lua-de-mel. "Sexo todos os dias, conversas até ao nascer do sol e intermináveis passeios pela cidade para lhe mostrar os meus sítios de eleição." Entretanto, ela teve de ir a Londres tratar de assuntos familiares. Em vez de 15 dias, demorou dois meses. Pelo caminho, ele conheceu Teresa, de 28 anos, "um pedaço de mau caminho", como a descreve, meio a sério, meio a brincar. Teresa era bela e atrevida. Era livre. E havia uma noite para passar. Luís não era livre, mas deixou-se ir. "Foi das coisas mais incríveis que me aconteceram. Fizemos sexo de todas as maneiras e feitios. Rimos, bebemos. Parecia que nos conhecíamos da vida toda." Na manhã seguinte, ela foi à sua vida. Ele pôs a roupa de cama a lavar e tentou apagar o episódio da mente. A cena repetiu-se dois dias depois. E ainda uma terceira vez. Durante essa semana, ele garante que rejuvenesceu dez anos. "Parecia que tinha tomado alguma droga. Sentia uma energia e uma excitação que me tiravam da cama às 6 da manhã… Eu que não me levanto antes do meio-dia." Camila acabou por voltar e não foi preciso muito para descobrir o que se passara na sua ausência. "Apanhou umas sms da Teresa. Não sei o que me deu para não as apagar logo do telefone… Acho que estava excitado demais com tudo aquilo para não guardar, pelo menos, uma recordação." A discussão com a namorada foi dura e terminou com ela de malas feitas, a caminho de Londres. Ele sofreu durante meses, até lhe compôs uma música. Nada a trouxe de volta. Quem voltou a aparecer foi Teresa. "Andámos ali uns meses a pegar e a largar, mas o sexo já não era assim tão louco e a minha tristeza começou a aborrecê-la, acho eu… Não nos encontrávamos há muito tempo e foi o que tinha de ser, ou seja, quase nada." Este caso é outro clássico sublinhado por Perel: da mesma forma que a traição nasce à sombra do casamento, quando este acaba, raramente a segunda tem pernas para continuar. Apesar de admitir que pensa todos os dias em Camila, Luís diz não estar arrependido do que se passou. "Vou gostar sempre dela, mas tenho de viver com isso. Porque é que a traí? Foi uma questão de grande excitação, para não recorrer a um outro nome. E, quanto a isso, não há nada a fazer. Não tive escolha."

"A ideia de ser plenamente feliz é uma armadilha"

Catarina Mexia, especialista em terapia com casais, acredita que uma traição pode ser a oportunidade de mudar um casamento para melhor. E diz que a obsessão do traído por conhecer todos os detalhes é igual para os dois sexos.

Esther Perel lançou um novo livro onde defende que as pessoas traem, mesmo sendo felizes no casamento. Concorda?

Sem dúvida! A traição não implica, necessariamente, um casamento disfuncional. Parece que andamos sempre atrás de algo novo, melhor e mais empolgante, e acabamos por não desfrutar do que temos. A ideia de que se tem de ser plenamente feliz a qualquer custo e o tempo todo acaba por ser uma armadilha. Há 40 anos, o pensamento entre muitas mulheres que podiam ser nossas mães era: "Sou infeliz, mas vou ficar neste casamento para sempre." Hoje, caímos no oposto. Como se não existisse a possibilidade de uma solução intermédia: "Vou trabalhar nesta relação porque acredito que vai melhorar e fazer-me feliz."

Se antes os casamentos eram uma espécie de contrato social, há algumas décadas que se firmam na ideia de amor romântico. Isto quer dizer que quando as relações falham é também o amor romântico que fracassa?

De alguma forma, sim. Porque vai ao ar a ideia-base do amor romântico que é a de que vivemos para o outro e para sempre. Quando isso acontece, a pessoa deixa de ser o Príncipe Encantado…

Não há muito tempo, as pessoas casavam-se e depois tinham sexo. Hoje, casam-se e põem fim a uma série de relações ou, como diz Perel, acabam com o seu "nomadismo sexual". Nesse sentido, a fidelidade é um fardo, já que implica extinguir uma liberdade que, pelo menos para as mulheres, é recente?

Não creio que o problema tenha a ver com a monogamia das mulheres. Julgo que tem mais a ver com a qualidade da relação que se espera ter, hoje.

Nesta nova dinâmica social, os homens sofrem mais com uma traição por ser um papel para o qual não estavam culturalmente preparados?

A infidelidade é sempre muito complicada para ambos. Culturalmente, os homens podem sofrer outras pressões... Tenho casais de todas as idades e o que posso dizer é que nos mais velhos (com 50 e 60 anos) a questão da imagem social é muito importante, enquanto para os mais jovens, a quebra do compromisso e do projecto a dois parece pesar mais.

Da sua experiência, diria que a traição acaba com a maioria dos casamentos? E se não acaba, elas perdoam com mais facilidade do que eles ou isso é um mito?

Tendencialmente, será mais fácil para as mulheres [perdoarem] devido à questão cultural.

Acredita que, em muitos casos, a infidelidade é mais uma busca por si próprio ou uma crise pessoal, digamos, do que propriamente a atracção por outro?

Sem dúvida, muitas vezes tem a ver com uma crise individual, com momentos de mudança, com períodos em que todos fazemos balanços. Não é por acaso que se fala na crise dos 40 [anos], nas mulheres, ou na dos 50, para os homens. Nessas alturas, tornamo-nos mais susceptíveis, pomo-nos a pensar no que temos e com quem estamos e o que esperamos do futuro... Também existem certos acontecimentos na vida, como a doença de familiares, a perda de amigos ou a morte de um filho que contribuem para essa maior vulnerabilidade. Já reparou que muitos casais que perdem um filho acabam por se afastar, em vez de se aproximar? Há casos em que a pessoa, de repente, já nem se conhece. Estou a trabalhar com um casal que está bem, agora, mas que passou por uma crise quando ele se apaixonou por uma rapariga, numas férias que fizeram ao estrangeiro. Estamos a falar de um homem de 46 anos, que está financeiramente bem na vida e que, de repente, se sentiu completamente apaixonado por alguém que viu uma vez. Foi de tal ordem que conseguiu o contacto dela e quando voltou para Portugal começaram a falar por WhatsApp e ele foi ter com ela a França! Claro que aquilo não deu nada e ele, hoje, olha para trás e diz que não percebe o que lhe deu e que não descansa enquanto não perceber como deixou que tal coisa acontecesse.

Um caso extraconjugal pode ser uma nova oportunidade para um casamento?

Se ambos quiserem, sim. É um processo que leva tempo e exige muita persistência. Com ajuda é mais simples, porque há muitas dúvidas e vícios que se devem desmontar para não se cair no padrão do passado. A necessidade corrosiva de conhecer os pormenores é igual nos dois e é necessária, mas pode ser abordada de outra maneira, tal como a urgência de assumir a responsabilidade pelo que se fez. Depois disso, é preciso perceber quais os problemas da relação e os dilemas de cada um e separá-los bem. Para que essas crises pessoais não voltem a afectar o casamento.

Artigo originalmente publicado na revista Máxima nº.350, de novembro de 2017.

Tags: traição infidelidade the state of affairs rethinking infidelity maria joão e rui ted talks harper collins were should we begin esther perel antuérpia atlantic
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2 Comentários
Rogerio Russo Turd. Psicologia da velhinha Corin Tellado e no fim são sempre muito felizes. Abóbora.
27.07.2019
Anónimo Está na moda, cada dia uma fO´,,LIA à pois atão como ha-de ser ???
27.07.2019
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