Comportamento

Os tabus da maternidade que ainda é preciso derrubar

Para além das preocupações naturais de ter uma criança, ainda há temas como a sexualidade pós-parto e disparidade de papéis entre os pais, que muitas mulheres consideram negligenciados.
Por Vitória Amaral, 02.10.2019

O estudo ‘Preocupações, Mitos e Tabus da Gravidez e do Pós-parto’, levado a cabo pelas investigadoras da Universidade Católica Portuguesa, Patrícia Dias e Inês Teixeira-Botelho, procurou saber mais sobre as questões de 663 grávidas e puérperas portuguesas com uma idade média de 34 anos. O objectivo foi conhecer os mitos, preocupações e tabus que estas enfrentam no contexto do atual ambiente digital que, com falta de curadoria profissional, proporciona uma sobrecarga de informação e algumas notícias falsas.

Apesar de ser considerada uma altura de felicidade, com a confirmação a gravidez chegam também dúvidas relacionas com os cuidados a ter com a mãe e o bebé, mas também da relação conjugal ou as capacidades maternais.

O inquérito revelou que 82% das grávidas e puérperas confiam mais nos profissionais de saúde, apesar de a opinião de farmacêuticos ser também considerada importante ou muito importante por 83%. Restam assim os fóruns digitais, que apenas 29% considera importantes. Quanto aos maiores motivos de ansiedade e preocupação, têm maior peso a saúde do bebé (84%), a recuperação pós-parto (54%), parto (51%) e a amamentação (48%).

No entanto, o mesmo estudo conclui que mais de metade se preocupa com outros aspectos como o facto de não ter tempo para cuidar do corpo e da imagem (63%), sentir-se triste com as alterações no corpo (51%), ter momentos de desespero ao achar que não será capaz de tratar do bebé (60%), alterações de humor (82%), dificuldade em descansar e dormir as horas necessárias (81%), pressão social, por exemplo, para amamentar (51%), ou sentir que os familiares e amigos querem ajudar, mas ainda complicam mais (60%). Cerca de 71% afirma que, por mais que tenha lido e procurado sobre a experiência do parto, não estavam preparadas para uma experiência tão intensa, apesar de 60% a considerar positiva, com 82% que destacou o apoio dos profissionais de saúde.

O estudo foi complementado por uma dinâmica de World Café (discussão de um tópico entre grupos) com 18 grávidas e puérperas da região de Lisboa, de modo a aprofundar as temáticas dos inquéritos previamente realizados online.

Igualmente abordada foi a necessidade de apoio psicológico no pós-parto, defendendo a existência de equipas multidisciplinares nos hospitais. Face ao estudo, o psicólogo Eduardo Sá comentou ao jornal Público que a "tristeza é o melhor antidepressivo" - ou seja, é importante deixar a mãe sentir-se triste e chorar à vontade, deixando de lado o mito de uma maternidade perfeita. Outro foco de ansiedade é o regresso ao trabalho, que implica uma rutura dramática acompanhada de alguma pressão por parte das entidades empregadoras. Também é mencionado algum melhoramento a fazer na legislação e sociedade quanto ao apoio às necessidades das famílias. Quanto ao relacionamento com o bebé, as participantes do World Café destacam que a relação mãe/bebé é algo que se constrói, não é instantânea.

Destacou-se ainda a vontade de acesso a informação neutra e esclarecedora durante a gravidez por profissionais multidisciplinares. Além do apoio psicológico necessário, ainda há a questão de a pressão recair muito sobre as mulheres. Em vez de assumir o papel igualitário dos casais, a obrigação de cuidar do bebé é imposta sobre a mãe, enquanto o contributo do pai é muito visto como uma ajuda. O pai acaba por ter dificuldade em desempenhar a paternidade, pois acaba com tantas ou mais dúvidas do que a mãe.

Tanto as abordagens quantitativa (inquéritos) e qualitativa (dinâmica dos grupos do World Café) completam o estudo realizado pela Universidade Católica Portuguesa, a pedido da marca Barral no âmbito do lançamento de novos produtos destinados às grávidas (Mother Protect).

 

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