Comportamento

"O papel educador dos pais nos hábitos alimentares dos filhos é fundamental"

Falámos com o nutricionista Nuno Palas a propósito da obesidade em Portugal. Há boas e más notícias.
Por Pureza Fleming, 25.05.2018

É celebrado no penúltimo sábado do mês de maio e visa sensibilizar a população para o problema da obesidade e das doenças associadas, assim como das suas implicações na saúde humana. Referimo-nos ao Dia Nacional da Obesidade, que aconteceu no passado 19 de maio. Acerca do tema da obesidade, as notícias são boas e más: por um lado, assistiu-se, ainda na década de 90, a uma mudança do estilo – para pior – da alimentação portuguesa, que acabou por colocar o País nos primeiros lugares da lista de países com maior taxa de obesidade, principalmente infantil; por outro, e estas são as boas notícias, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), entre os anos de 2008 e 2016, tanto a percentagem do excesso de peso nas crianças como a obesidade diminuíram. E isto, confidencia à Máxima Nuno Palas, nutricionista formado em Ciências da Nutrição pela Universidade do Porto, diretor do Instituto Médico Privado, no Porto, e vogal da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, "são ótimas notícias". Quisemos saber mais.

Quando é que Portugal deixou de ser um dos países com a melhor alimentação (a mediterrânica) para se tornar um dos países com maior percentagem de obesidade? E quais as causas?

Não se pode afirmar uma data concreta para o abandono da dieta mediterrânica já que foi acontecendo no tempo. É o resultado dos dias de hoje com mais stress, menos tempo para a família e para cozinhar e, claro, com recurso mais frequente a restaurantes e a uma alimentação mais globalizada, com inclusão de mais fast-food de má opção. Desta forma, fomos abandonando algumas características da dieta mediterrânica.

No entanto, há um ano marcante: o de 1997. Por esta altura, a Organização Mundial de Saúde vira os seus holofotes para o problema da obesidade quando a considera a epidemia do século XXI e, a partir deste momento, ganha o relevo que antes não tinha e o seu combate passa a estar na ordem do dia. Este problema de saúde, nos adultos, tem vindo sempre a aumentar, mesmo que ligeiramente. As causas prendem-se com mudanças nos estilos de vida, com um poder económico maior neste século do que no anterior, com a abertura de Portugal a uma maior globalização e, com isso, a perda de uma alimentação sazonal, menos tempo para exercício e um estilo de vida mais sedentário, famílias mais pequenas e individualizadas, etc.

Entre 2008 e 2016, porém, os dados voltaram a baixar: o excesso de peso nas crianças decresceu 7,2% e a obesidade 3,6%. Quais as causas deste decréscimo?

Não existe nenhum dado nem estudo de cariz científico que possa responder a esta questão. Não obstante, consigo apontar as seguintes razões:

  1. Maior e melhor eficiência do Estado e dos cuidados de saúde primários seja pela sinalização de novos casos, seja pela forma cada vez mais multidisciplinar de tratar a obesidade. Vejamos o caso açoriano onde o Governo Regional gastou recursos financeiros e humanos (nutricionistas e equipas multidisciplinares) num programa que visava retirar os Açores como a pior região europeia na prevalência da obesidade e, oito anos depois, foi a região da Europa onde se assinalou a maior descida da obesidade.
  2. Haverá, porventura, uma maior consciencialização das famílias para esta problemática e até das próprias crianças pelo facto de ouvirem falar mais destes temas nas escolas;
  3. Outro fator pode também ser a atividade física. Apesar do sedentarismo elevado junto dos mais novos, segundo o Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI), a atividade física também melhorou, as crianças fazem mais e mais tempo.

Pais mais preocupados com a sua alimentação geraram filhos igualmente mais saudáveis?

Sim. O papel educador dos pais nos hábitos alimentares dos filhos é fundamental. Mas este papel tem de ser ativo, ou seja, não bastará aos pais ‘mandarem’ fazer qualquer tipo de comportamento, deverão ter esse comportamento. Desta forma, os filhos assimilarão mais facilmente os hábitos saudáveis.

Com o histerismo do veganismo, das dietas glúten free, lactose free, entre outras tendências, é possível que problemas como a obesidade deem origem a outro tipo de problemas, como por exemplo a ortorexia?

Sim e não. Esse histerismo associado à pressão das redes sociais, como o Facebook e o Instagram, pode e contribuir para um aumento da ortorexia, apesar da sua prevalência ser desconhecida. Não se sabe com exatidão se estamos perante um problema, uma moda ou até um caso de saúde pública.

Contudo, a ortorexia atinge, na sua maioria, pessoas não obesas. As pessoas com obesidade têm, na minha opinião, uma outra preocupação que não a obsessão doentia por alimentação saudável. Vivem focados na procura por novos planos alimentares, por métodos de perda de peso mais eficazes, mas não pelo vício no que é saudável.

Quando uma criança de três anos já é obesa a culpa é obrigatoriamente dos pais?

Caso não haja nenhuma patologia de fundo associada que o possa originar, sim. Estamos por isso a falar da esmagadora maioria dos casos. Apesar de ser uma questão delicada, e que confronta inúmeros pais, a verdade é que a culpa, na maioria das vezes, é deles. Dos pais e de outros cuidadores com quem passam muito tempo, como avós, amas ou qualquer outro, mas será sempre de um adulto.

O facilitismo e o evitar birras não pode servir de desculpa para que os pais (ou cuidadores) deem tudo o que a criança pede. Chega de "ele estava a olhar para isto…"; "é só um bocadinho…"; "coitadinho, pediu muito…"; "ele nem está gordo…", etc.

O marketing pode ser também um dos principais culpados desta realidade? Na escala de um a cem, como caracteriza as prateleiras de um supermercado comum, em que 100 é muito saudável e zero é nada saudável?

50 com tendência a 40. Na minha opinião, a liberdade de escolha tem de ser um direito fundamental do consumidor. Esta é para mim uma premissa-chave enquanto consumidor e enquanto nutricionista. Onde o estado falha e, em parte, as famílias também é na literacia nutricional/alimentar. Não é ao acaso que a obesidade é maior em classes mais iletradas e desprotegidas.

Em quase todos os sectores alimentares do supermercado encontraremos bons e maus exemplos, alimentos de uso diário e alimentos de uso semanal ou mensal, alimentos mais ricos em gordura e açúcares e alimentos ricos em fibra e proteína magra, etc. O problema é quando o consumidor não tem ferramentas para fazer esta distinção. Aí sim, será normal a escolha ser mais pelo gosto, pelo prazer, pelo último anúncio comercial e pelo protagonista do anúncio (no caso das crianças). Não obstante, tenho plena consciência que a distribuição dos alimentos no supermercado, e o destaque de uns ao invés de outros, está pensada e orientada para o consumo e não para a estimulação de uma alimentação saudável. Além de que a publicidade agressiva e o uso de expressões nutricionais de cariz positivo que enganam os consumidores estão também muito presentes. Por essa razão, atribuo a pontuação 40. No entanto, consumidor esclarecido será sempre um consumidor mais exigente e racional. E, se todos nos tornarmos assim, os supermercados vão adaptar-se às nossas vontades. Basta relembrar o sucesso do iogurte skyr, que depois do seu grande boom foi introduzido em várias cadeias de hipermercados.

A alimentação mais correta para uma criança será a mesma do que a de um adulto?

Na sua essência, sim: alimentação saudável, com os devidos ajustes nas quantidades, pois as de criança devem ser menores. Existem ainda ligeiras diferenças sob o ponto de vista nutricional, por exemplo, a necessidade em vitamina D ou cálcio se analisarmos por quilograma.

Regras como fazer refeições em família podem ser um dos truques para uma criança mais saudável? Que outras regras deverão os pais adotar neste sentido?

Existem várias regras que os pais podem implementar em prol de uma família mais saudável, como por exemplo atividade física em família, apenas água às refeições, presença obrigatória de legumes e/ou saladas para todos, iniciar as refeições por sopa. É também importante que os pais eduquem o gosto dos filhos e que não preparem dois pratos, ao invés de um, para agradar, como acontece muitas vezes. Depois, claro, impor regras em relação aos doces e chocolates, preferir pão em vez de bolachas ou outros farináceos com açúcar ao lanche. Importante referir que os pais serão sempre o exemplo e por isso a boa alimentação deve começar por eles.

Falemos de atividade física: quão culpadas são as tecnologias? Os telemóveis, iPads, jogos de computador e Playstations puseram a bicicleta a um canto ou até isso está a voltar ao normal?

Segundo o estudo COSI 2016, vimos que este parâmetro melhorou e pode até ser considerado como um dos fatores para a diminuição da prevalência do excesso de peso e da obesidade. No entanto, também nesta matéria voltamos à responsabilidade dos pais e dos educadores por duas vias. Primeira, se os pais fizerem exercício também as crianças tenderão a ser mais ativas, assim como o contrário também se verifica. Segunda, e mais uma vez, o papel dos pais ou educadores na educação dos filhos ou crianças, porque o problema não são as novas tecnologias, são o enorme tempo de exposição a elas e, tal como na alimentação, não são os menores os melhores para decidirem isso, mas sim os pais. Deveriam ser os pais a determinar o tempo que os filhos passam com estes equipamentos tentando equilibrar estas atividades mais sedentárias com outras mais ativas.

Pode exemplificar como seria um dia de alimentação equilibrada para uma criança de dez anos?

Claro que sim. Deixo alguns exemplos para um dia de alimentação saudável:

- Pequeno-almoço: copo de leite meio-gordo + 1 pão pequeno de centeio (50 g) com fatia de queijo ou compota ou queijo de barrar ou manteiga magra ou de amendoim OU 1 panqueca de aveia + 1 copo de leite meio-gordo

- Meio da manhã: peça de fruta + iogurte

- Almoço: Sopa + 70 a 90g de peixe ou carnes brancas (assado ou grelhado ou estufado) + legumes ou salada + 3 a 5 colheres de sopa de arroz + fruta

- 1.º Lanche: 1 peça de fruta + 2 ou 3 bolachas de milho ou arroz sem sal

- 2.º Lanche: 1 pão de mistura com 1 fatia de queijo ou queijo de barrar magro + 1 iogurte líquido meio-gordo

- Jantar: Sopa + 70 a 90 g de peixe ou carne branca ou ovo cozido (cozido ou grelhado ou assado sem molho) + legumes ou salada + 3 a 4 colheres de massa cozida

Tags: dia nacional da obesidade nuno palas ciências da nutrição pela universidade instituto nacional de saúde ricardo jorge organização mundial de saúde
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