30 anos

Não, isto não são os novos 20

“Um dia és uma pessoa jovem e no dia seguinte tens uma mercearia preferida.” Foi assim que um utilizador do Twitter resumiu o sentimento, por vezes avassalador, de completar 30 anos. Ou melhor: de completar 30 anos no século XXI porque, sejamos francos, antigamente as coisas eram muito diferentes. É também por isso, mas não só, que o testemunho que vai ler pode ter tudo ou nada a ver com a sua experiência pessoal.
Por Maria Wallis, 09.07.2019

Nova Iorque, Setembro de 2018. Ela levanta-se, lentamente, ainda cega com a luz do sol que entra pelas janelas majestosas do seu loft virado para o Central Park. Spot, o gato, está a fazer das suas. "Preciso de um café", pensa. Lá em baixo, a cidade já mexe. Cai uma chuva miudinha que anuncia os primeiros dias de Outono, as folhas douradas enfeitam o pavimento. Dali a nada vai estar a caminho do Xpto, onde passa as manhãs a escrever. Depois são duas horas de boxe, um almoço demorado e casa, logo a seguir, para uma sesta mais que merecida. "A meio da tarde…" Interrompemos a descrição deste idílio para voltar ao mundo real onde está a ser redigido este texto. E não, o lugar não é Nova Iorque, mas Lisboa. "Ela" não tem um loft virado para o Central Park, tem antes um T1 em frente a seis faixas de rodagem e altas doses de poluição. O gato não existe. A chuva miudinha e as folhas douradas são produto da imaginação que luta contra o calor infernal que se faz sentir - em casa, na rua, no carro, em todo o lado. O inferno é isto, só pode ser isto, ter 30 anos também é queixarmo-nos destas coisas a toda a hora porque sim e porque não. O Xpto, supõe-se, será uma alusão ao sofá da sala. Não há almoços demorados. Na maior parte dos dias, aliás, não há almoços. O boxe… Bom, se contarmos com uma aula há dois anos, até existiu boxe (riso sarcástico). A sesta, ah, isso sim! Há muita sesta, sobretudo quando uma dor nas costas ataca inesperadamente o fulgor dos não tão maravilhosos 30’s e obriga a repouso absoluto.

Túnel do tempo
Aos sete anos, a coisa que mais me preocupava era ser capaz de passar cheques. Via a minha mãe preencher aqueles espacinhos (montante, data, destinatário, local) e achava impossível não me enganar. Não sei onde fui buscar a ideia de que este tipo de rotina poderia ser vital na minha vida, mas a verdade é que me tirou umas boas noites de sono. As minhas mãos sempre foram um poço de inseguranças (transpiração excessiva, tremores, dedos gordinhos e sapudos) e para o meu Eu de sete anos o futuro era um túnel negro forrado com dezenas de papelinhos do Banco de Portugal. Hoje, posso garantir que sobrevivi a essa tormenta da maioridade. Até agora, e se não me falha a memória, passei apenas um cheque. É desta forma prosaica que pretendo dizer que nada neste mundo acontece da forma como estamos à espera. Principalmente se o nada estiver relacionado com ser-se humano. Há 30 anos, os cheques eram condição sine qua non para qualquer transação comercial de vulto - hoje são os Velhos do Restelo da economia. Há 30 anos, toda a gente vivia mais ou menos da mesma forma os seus 30 anos. Hoje, ter 30 anos é fazer parte de uma geração em constante mutação.

"Quando for grande…"
Nunca tive sonhos plasticamente visíveis, nunca fui de fazer pedidos às fadas, nem planeei o meu vestido de noiva. Ainda assim, estava claro para mim que, aos 30 anos, eu iria estar a fazer "aquelas coisas que toda a gente faz". Nota: aqui é importante sublinhar que nascemos com um chip que nos impõe, desde cedo, um termo de comparação impossível com o outro. O que é isso de "aquelas coisas que toda a gente faz"? Não sabemos ao certo. Mas queremos igual. Porque é que isso é bom? Também não fazemos ideia, mas o instinto básico sugere-nos seguir o rebanho. Posto isto, aos 30 anos eu ia, obviamente, estar casada (básico), com filhos (não é o normal?), mesmo se nem uma coisa nem outra me tivessem passado pela cabeça. Ia viajar duas vezes por ano. Ia escrever três livros e lançar revistas ? sim, no plural. Era muito ambiciosa. Ou inocente. Ia comprar um loft em Nova Iorque. Ia ser dona de uma fábrica de chocolates. Ia criar uma Fundação com o meu nome - deixar um legado. Bah, aos 30 anos eu ia mudar o mundo. Em vez disso, vivi a última década  na mesma casa, dia após noite, à excepção de uma temporada no estrangeiro. Um T1 que, às vezes, se confunde comigo própria, tais são as semelhanças entre as minhas mudanças de humor e a ocupação do espaço, que se foi tornando crítica. Não casei, não tive filhos, nem passei a viajar duas vezes por ano. Não escrevi três livros, nem lancei nenhuma revista. E já se imagina que não há fábricas de chocolate, nem instituições de caridade. Em compensação, fui a cerca de 22 casamentos desde que completei 18 anos, um número razoável para qualquer realizador de Hollywood pegar em mim e perguntar: "O que há de errado com esta mulher para continuar solteira?"

Vida (não tão) adulta
Nada. Estou muito bem assim. Na verdade, para estar melhor só se o nosso país se transformasse num sítio onde os freelancers não precisam de contar tostões quando vão às suas mercearias preferidas. Mas isso é conversa para outra altura. Os 30 anos: para alguém que cresceu na década de 80, é um marco. Uma idade jurássica - aquela idade que, mais nova, considerava como a véspera do fim da linha. Tudo o que viesse depois era demasiado tarde. Tudo o que viesse depois significava que tínhamos falhado ? que tínhamos perdido. Lembro-me de pensar que só as pessoas sérias é que tinham 30 anos. O que ia ser de mim? Eis-me, agora, a trocar SMS de conteúdo duvidoso, recheadas de emojis patetas, coisa que a minha mãe (a minha avó!) nunca teria feito. Não há PIDE, não há censura, não há seriedade. Há um desprendimento que nos faz sentir livres e donos de nós próprios. Aceitar que há coisas para pagar e metas para cumprir é apenas parte do meu (do nosso) quotidiano. Porque ainda sobra tempo para vestir os jeans rasgados e dançar os hinos dos anos 90. Nisso, o século XXI resolveu ser condescendente. Qualquer pessoa pode ser adolescente de vez em quando. Os pais sérios que iam buscar os filhos à escola deram lugar aos miúdos bronzeados, de calções e havaianas, que esperam pelos "putos." Há uma camaraderie que não se via antes.

Vender a alma ao diabo?
Talvez seja obra do acaso, mas até a aparência de quem está hoje na casa dos 30 é escandalosamente diferente. Tenho várias amigas e amigos da minha idade (vamos abrir o jogo de uma vez por todas: não tenho 30 anos. Estou a semanas de completar 37). Mas, no fundo, é mais ou menos a mesma coisa. Já passei pelos 30 anos, certo? Já sei como é: que parecem cinco, sete anos mais novos. Pelo que posso perceber, o fenómeno repete-se noutros países. Não sei se nos foi dado um elixir de juventude, a verdade é que temos um ar francamente fresco. Isso normalmente é bom, contudo, também se pode virar contra nós ? há quem nos trate eternamente como "jovens inúteis" e "estagiários". E depois há situações francamente parvas. Em 2012, nos Estados Unidos, pediram-me o B.I. numa liquor store quando tentava comprar um maço de tabaco. Tinha 32 anos. Entreguei o meu passaporte ao senhor que estava atrás do balcão, paguei, revirei os olhos e fiquei com muita pena de não andar com uma equipa de televisão atrás porque momentos destes devem ser filmados. Somos (aparentemente) mais jovens e, em compensação, temos dez vezes menos condições financeiras do que os adultos de há 30 anos. Ou serão piores? Ou simplesmente diferentes? Alguma coisa está muito errada quando boa parte da população activa nesta faixa etária não tem como manter uma vida independente e estável. Isso é simples de ver. Centenas de pessoas regressam a casa dos pais, procuram empregos precários, esperam (e desesperam) para conseguir comprar um carro, alugar um quarto. Não, a geração que nos criou não viveu assim. 

Valentes e imortais
Temos smartphones, temos apps, temos viagens de avião a €50, temos Uber Eats, mas fomos perdendo o essencial. O tempo. A calma. A capacidade de observação. Os nossos filhos já não vão jogar à "apanhada" nem saltar à corda. E nós estamos tão ocupados a ser modernos que nos tornámos triplamente ansiosos, exigentes, desapegados. Consumimos informação ao minuto, sem filtro. Esquecemo-la ao segundo. Fazemos de "Forever Young" um lema comum sem saber que estamos, quase todos, cheios de toxinas, tal é a nossa devoção ao trabalho, ao stress, à junk food. Mas como nascemos numa outra era, em que os planetas e as estrelas ainda eram algo fascinante, não somos capazes de ignorar os nossos demónios e ficamos noite adentro a filosofar sobre a importância do niilismo e da poesia de E.E. Cummings. Ainda nos transtorna que não haja carros como os do Regresso ao Futuro e que não se tenham descoberto se os OVNIS realmente existem. Gostamos de ser mimados com o conforto da tecnologia, mas somos saudosistas com o papel das cartas e dos postais que já não chegam. Nós, os que agora temos 30 e tal anos, fomos deixados no meio de uma explosão [o mundo mudou]. Não pertencemos ao passado, nem ao futuro. Somos pretérito-mais-que-perfeito. Tentamos encontrar o nosso lugar a cada momento. É isso que faz de nós sobreviventes.   

Luz e sombra
Os 30, entenda-se, não são os (apenas) novos 20. São os novos 20, os novos 40 e, arrisco, os novos 50. São demasiado cedo e demasiado tarde para ser adulto a sério. São intensos, vorazes, predadores. O que trazem de calma e sabedoria roubam em ilusão e descrença. Os 30 são a última cartada da adolescência, o último sopro de indiferença, a derradeira coroação da nossa insignificância. Ainda queremos viver para sempre, mas já sabemos que não iremos andar por aqui eternamente. Ainda lutamos pelo direito à diferença, mas percebemos, cada vez mais, que somos basicamente todos iguais. E é exactamente isso que nos torna fascinantes - algo que só fará sentido quando ultrapassarmos a competição invisível que criámos com o nosso ego. Porque os 30, no fundo, são o prémio de consolação de quem passou a década anterior cheio de medo do "papão" da responsabilidade. Ainda há tempo para deitar tarde, ainda é tempo de chegar ao trabalho com cara de ressaca, ainda sobra tempo para experimentar uma droga nova. O problema nos 30 é que os danos colaterais não passam com meia noite de sono: duram três dias. O corpo ainda reluz, mas está cansado. A cabeça, claramente, não tem juízo. E não são os 30, muito menos os 30 que o século XXI inventou, que vão mudar isso de um momento para o outro. Os 30 não são o fim da linha que imaginávamos - são, isso sim, uma sensação agridoce de confusão e de pânico, de acalmia e de sossego. Podem ser tudo isto ou podem não ser nada disto, mas algures nesta amálgama de sensações estarão os 30 anos de (quase) todos nós. Parabéns. 

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