Comportamento

Ho, ho, ho! Outra vez o Natal

O dia 25 de dezembro está quase a chegar. Enquanto o Pai Natal enche o trenó, as lojas enchem as prateleiras, a época de maior consumo do ano instala-se, feliz e luminosa, apoiando-se nas tradições e desafiando os valores da quadra numa sociedade que, apesar de frenética, procura manter a magia. Quais as tradições que se mantém, as que mudaram e as que chegaram para ficar?
Por Carolina Carvalho, 24.12.2019

À data de fecho deste texto (em meados de novembro), o rádio tocou, pela manhã, a canção All I Want For Christmas is You que Mariah Carey interpreta e que compôs em parceria com Walter Afanasieff, em 1994. Pela primeira vez este ano, um dos clássicos da quadra natalícia toca alto e bom som e com ele foi dado o "tiro de partida" para mais um Natal. É o culminar de muito tempo de preparação por parte de várias instituições, em particular, e é o início de uma saga para o público, em geral. Durante dois meses é impossível escapar ao tema Natal e as campanhas publicitárias, as ofertas das lojas, as festas e o ambiente contagiante de música, de luz e de boa disposição que vence até os mais céticos (mesmo que seja pelo cansaço) relembram-nos a mistura de afazeres a que a época obriga. E todas as boas ações parecem fazer-se acompanhar de consumo à medida. Mas se todos os anos pomos em causa o consumismo da época, cabe-nos também a responsabilidade de não deixar que se perca a magia e os valores desta quadra.

O olhar desiludido que, por vezes, se deita à azáfama dessa altura do ano pode ser exagerado e o segredo para a viver com consciência tranquila parece estar no equilíbrio. "A ideia de que o presente é pior ou mesmo muito pior do que o passado é uma falácia de raciocínio antiga e culturalmente instituída... Os ‘novos e terríveis valores de 2019’ serão os ‘bons e antigos valores daqui a uns anos’. Temos tendência para criticar os novos valores, comportamentos, hábitos e atitudes do presente", explica-nos Conceição Nobre, psicóloga da Ph+ Desenvolvimento de Potencial Humano. E prossegue: "Para muitos de nós, o consumismo é um conceito com uma forte conotação negativa, associado ao descontrolo, ao egoísmo, à competição, à manipulação... Já o conceito de Natal aparece associado à generosidade, à partilha, à reunião, à família." E refere que apesar destas associações, as famílias portuguesas não deixarão de fazer todas as compras a que a tradição obriga para este Natal. Os presentes são, de facto, um dos temas que dominam a época natalícia. Listas, hierarquia, orçamento, criatividade, pesquisa de mercado… A estratégia exige muita precisão e organização, senão pode ser necessário recorrer ao último recurso, o cartão de oferta, e nem chegámos a referir a parte dos embrulhos! Os presentes ainda são, principalmente, para as crianças, mas foi criada uma nova categoria de presentes, a lembrança, para todos os adultos a quem se quer, se tem ou se deve dar algo para simbolizar a quadra. Contudo, Conceição Nobre explica que "a oferta refletida e controlada de presentes, centrada nas necessidades e nos interesses do outro e vivida com emoção, pode promover a autoestima e sentimentos de satisfação e de gratificação em quem oferece" e contribuir para reforçar as relações familiares e profissionais ou rituais de união de grupo. A psicóloga expõe que, segundo literatura científica, o consumismo está relacionado com níveis mais baixos de bem-estar, enquanto as vivências familiares gratificantes estão associadas a níveis superiores de bem-estar.

A celebração da família continua a ser o epicentro destas festividades. As tradições em que cada um nasce tornam-se parte da identidade individual e dão origem a memórias, às quais se regressa durante a vida toda. Ao longo do tempo, essas tradições vão sendo continuadas e enriquecidas, mesmo com trocas e acrescentos próprios da união de famílias. Segundo Conceição Nobre, existem no funcionamento familiar rotinas e rituais, sendo as primeiras "rotinas que cumprem objetivos do quotidiano" e os segundos "são rotinas com forte significado emocional que, muitas vezes, são passados de geração em geração". E comenta: "O Natal é um dos rituais das famílias. Se um ou vários membros não estiverem presentes, a família poderá sentir-se incompleta. A vivência dos rituais parece aumentar a sua identidade e a coesão familiares, bem como promover a relação entre os seus membros. Os rituais familiares também têm efeitos na relação entre os membros do casal: estão associados a uma maior satisfação conjugal. Os rituais familiares têm efeitos ao nível individual, porque geram sentimentos identitários e de afiliação que são fundamentais no desenvolvimento de crianças e de jovens; estão associados a sensações de bem-estar." E quem não tem a família perto de si nessa altura do ano? Nesse caso existem vários tipos de "famílias", bem como as tecnologias que hoje dão uma preciosa ajuda a diminuir distâncias entre as pessoas. Mesmo que na simbólica noite de 24 de dezembro não seja possível estar com todas as pessoas que se desejaria, a emoção crescente das semanas que levam ao Natal convida a boas ações e a gestos de amor.

Se excluirmos o verão e todos os festivais de música que se espalham pelo país, o Natal e as semanas que o antecedem constituem, certamente, a época culturalmente mais rica do ano. É a altura, por excelência, dos bailados, dos concertos, de coros e de teatros para os mais pequenos. No Natal, ir ao teatro ou a um concerto não é um luxo, mas sim uma tradição. O cinema também faz parte dela com uma série de estreias guardadas especialmente para essa altura do ano porque têm a quadra, o inverno ou os valores da época como inspiração. E não será por acaso que a Disney guarda uma estreia para acompanhar a chegada do inverno (a deste ano chama-se Frozen 2 e promete agitar fãs de todas as idades). Paula Fonseca, diretora de Artes Performativas do Centro Cultural de Belém, diz-nos: "As manifestações culturais, tais como a música, a dança e o teatro, estão ligadas ao Natal desde os primeiros tempos. Apesar de ser uma celebração cristã, o Natal é também culturalmente comemorado por muitos não cristãos. É uma época em que as pessoas tiram alguns dias de férias para fazer o que mais gostam com a família e com os amigos, e é igualmente um período de reflexão sobre o ano que está quase a terminar e de seleção de projetos para o próximo. A ida ao teatro, a um concerto ou a um espetáculo de dança é, assim, uma expressão da vida social e coletiva que reforça a tradição." No CCB, o Natal proporciona, entre muitas outras opções, um concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida pelo maestro Enrico Onoffri, e o Coro Voces Caelestes interpretará o programa Bach, Pai e Filho: Magnificat X 2 (no dia 22 de dezembro); o filme da quadra será My Fair Lady, de George Cukor (no dia 29 de dezembro); e o tradicional concerto de Ano Novo com polcas e valsas da família Strauss interpretadas pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, desta vez dirigida pelo maestro Sebastian Perlowski. E à questão se para o público português os clássicos da época, como os bailados e os concertos de Natal, ainda dominam o interesse do público ou se cresce o interesse por espetáculos alternativos, a resposta de Paula Fonseca é simples: "Eu creio que há espaço para ambos, desde os espetáculos mais tradicionais nesta época a espetáculos alternativos que também despertam o interesse do público. O importante é proporcionar bons momentos."

Para quem não gosta de sair de casa ou não chegou a tempo de comprar bilhetes, vale a pena referir que a televisão também proporciona uma variada oferta de programas, da saga Sozinho em Casa aos documentários sobre a vida de Cristo, passando por concertos de Natal. E, claro, o filme Música no Coração que se deve ver, pelo menos uma vez na vida, no dia de Natal. Porque a época também convida a desfrutar, simplesmente, do aconchego de casa, mais ou menos decorada, de acordo com a quadra. A tradicional paleta de vermelho, verde e dourado deu lugar a todas as cores do arco-íris e até as próprias árvores de Natal tentam fugir ao verde natural. As luzes usam-se tanto no interior como na rua, a quantidade de pais natais e mantos com a imagem do Menino Jesus dependurados nas janelas parece crescer de ano para ano e a oferta de decorações para toda a casa é infinita. Gracinha Viterbo, decoradora e mãe de quatro filhos, conta-nos quais as suas tradições preferidas no que respeita à decoração: "Eu gosto muito de pinheiros naturais e gosto da poesia dos pinheiros imperfeitos, de luzes pequenas em tom quente, de velas acesas e das grinaldas, mas prefiro-as selvagens e naturais misturadas com penas de faisão, com musgo, com romãs e com algumas ‘ervas de pampas’, assim como eucalipto selvagem, pinhas e alguns toques rebeldes, como um ou dois tubos de néon de cores fortes, aqui e ali." Contudo, como profissional e criativa, a sua abordagem ao tema é muito pessoal pelo que confessa: "Eu sou uma menina rebelde no que toca a tradições... Por mais que sempre tenha ficado emocionada com decorações natalícias tradicionais, dignas de uma descrição completa de um livro de crianças de Sophia de Mello Breyner, eu sempre recorri à criatividade em minha casa no que se refere a decorações natalícias e tentei inventar as nossas próprias tradições. Como faço sempre, ou seja, ‘intemporal e artesanal, mas com um twist atual’." E acrescenta: "Em minha casa, as tradições nunca se seguem à risca. A minha árvore de Natal não tem uma decoração tradicional e fica, desde há 15 anos, cheia de fotografias, crescendo em cada ano com as melhores memórias desse mesmo ano, desde que o meu primeiro filho nasceu." As imagens características dos filmes sobre o Natal que nos mostram neve, lareiras acesas e decorações natalícias a condizer com as casas não se integram na vida da maioria das pessoas, pelo que o ideal será criar tradições à medida de cada família. Os pinheiros naturais começaram a dar lugar às árvores artificiais, as lareiras foram substituídas por aquecedores e o musgo nos presépios passou a ser à prova da curiosidade dos animais de estimação. Mas, por outro lado, existem muitas mais possibilidades de decorações, tanto nas lojas, como do it yourself para os adeptos de trabalhos manuais e de peças exclusivas.

O Natal implica semanas de preparação dos encontros de famílias e de amigos, dos presentes, do envio de postais, dos inevitáveis telefonemas e da organização da véspera e do dia de Natal. Tudo isto para que ao chegar a hora do jantar do dia 24 de dezembro tudo esteja a postos. As celebrações começam oficialmente quando toda a gente se senta à mesa: a avó que se recusa a comer outro alimento que não seja o bacalhau, inevitavelmente cozido, o avô que se recusa começar a comer sem ter pão à mesa, o tio que decidiu aparecer à última hora, mas que diz que o peru está seco, a prima que é vegan e a cunhada que é fit, a outra prima que tem um robô de cozinha que, esse sim, faz maravilhas, e o cunhado que anda a ver documentários sobre o fim dos recursos naturais e escolhe a noite errada para pregar o fim da carne e do peixe nos menus, a tia arrojada que leva um caril para o jantar, o namorado que defende que os patés são um prato, a mãe que está uma pilha de nervos até o silêncio à mesa confirmar que a comida está boa, o pai que dispensa escolher um vinho que sabe, à partida, que não vai agradar a toda a gente, o irmão que não come carne, a irmã que não come hidratos, o companheiro desta que é de uma religião que não celebra o Natal, mas que gosta de assistir ao frenesim, os mais pequenos que aproveitam a festa para se escaparem aos legumes e os cães e os gatos que aproveitam para tentar satisfazer a gula. E perante uma mesa bem recheada, mesmo sem alguém tocar no assunto, todos se lembram de guardar espaço para as sobremesas. Um dos elementos fundamentais do Natal é a comida e a tradição marca presença à mesa, mesmo que, por vezes, ligeiramente distorcida ou adaptada... A verdade é que, hoje, ao bolo-rei junta-se a casinha em biscoito de gengibre decorada com a ajuda dos mais pequenos, e às filhoses, cujo segredo é uma herança de família, juntam-se as rabanadas preparadas para agradar a quem não ingere glúten e lactose. Como nos refere o chef José Avillez: "[Na culinária] embora haja muitas receitas tradicionais de Natal comuns a todas as regiões do país, cada região tem muitos pratos e preparações singulares e, por isso, os produtos que não podem faltar são os que fazem parte da tradição de cada casa." E sublinha: "Os pratos tradicionais não se reinventam. O que se reinventa é a oferta de pratos no Natal. A inspiração surge da vontade de preservar a tradição e de, simultaneamente, surpreender. Mas o importante é que a mesa de Natal tenha significado para quem se reúne à sua volta. À minha mesa o que não pode faltar é o bacalhau, o peru, as rabanadas e as filhoses. Porém, eu também gosto de surpreender e de preparar rabanadas com coulis de framboesa."

Mesmo com sobremesas deliciosas e uma ajuda da companhia da televisão, esperar até à meia-noite pode ser um verdadeiro jogo de resistência. Mas a tradição assim manda e a única opção é esperar pela manhã seguinte porque, afinal, a meia-noite é a hora a que nasce Jesus Cristo e é também, coincidência ou não, a hora a que o Pai Natal faz todos os presentes aparecerem como que por magia. Mas qual a mensagem que acaba por passar para as crianças? Conceição Nobre elucida: "A vivência do Natal é cultural, mas também é familiar e idiossincrática. Para alguns, Jesus Cristo é a figura principal do Natal, para outros é o Pai Natal e para outros, ainda, nenhuma destas figuras..." A forma como cada um vive o seu Natal depende da herança religiosa que se tem ou não. Explicar a história do Natal e o porquê de haver um presépio junto à árvore de Natal não impede que seja o Pai Natal a trazer os presentes para os meninos que se portam bem e, normalmente, para os que se portam mal também se arranja sempre uma recompensa. A fantasia é necessária no crescimento, explica a psicóloga, acrescentando que as crianças referem, com alguma tristeza, o momento em que deixaram de acreditar no Pai Natal. Por muito inverosímil que a história desse senhor de longas barbas seja, afinal quão extraordinária é a ideia de haver uma figura que leva felicidade às crianças de todo o mundo e, ao mesmo tempo, numa só noite? Talvez a ideia se possa refletir nos adultos também. Não é por acaso que há escolas de pais natais. Pelo sim, pelo não, vale a pena fazer uma lista, não de presentes, mas de pedidos. Talvez a magia do Natal os concretize…

Tags: natal tradição portugal gastronomia decoração cultura espetáculos crianças consumo família
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