Comportamento

E viveram felizes e divorciados para sempre

Colocar um ponto final num casamento não é fácil. Mas insistir numa relação falhada pode ser muito pior. Famílias modernas mostram como uma separação pode trazer finais felizes e como esta felicidade se encontra apenas à distância de um bom entendimento e de muita cooperação. Para os mais corajosos, até implica amizade e férias em conjunto.
Por Pureza Fleming, 26.11.2019

É pouco provável que haja frase tão comprometedora, assustadora até, proferida entre pares, como "temos de falar". É igualmente pouco provável que após esta não se siga um gélido e lancinante: "Eu quero o divórcio." A opinião entre algumas das pessoas com quem comentei esta verdade é unânime: "precisamos de falar" e "eu quero o divórcio" são frases que convivem desde sempre. A facada no coração, a falta de ar, aquela tontura que sente quem recebe esta sequência de mensagens é indiscutível. E depois de largada a bomba, o drama, o horror e as chatices que, por norma, se escondem por detrás de um processo de divórcio. Ou então não. Há casos e casos e o final feliz também pode ser uma realidade quando o assunto é pôr um ponto final num casamento. Senão vejamos. No próximo dia 14 de agosto, Sérgio Penedo, de 42 anos, divorciado há 13 de Joana Lobo (também com 42 anos), prepara-se para rumar a terras algarvias e de sair de lá com cinco crianças que irão passar consigo a segunda quinzena daquele mês de férias. Matilde e João são seus filhos. Bernardo, Pureza e Benjamim, não. Mas vamos por partes porque a ciência por detrás das famílias modernas tem muito que se lhe diga. Chamemos-lhe os novos "contos de fadas". O Sérgio e a Joana casaram, tiveram dois filhos  a Matilde e o João  e 13 anos depois divorciaram-se. Três anos após o divórcio, Joana conhece Bernardo que, por sua vez, também já tem um filho de outro casamento: o Bernardo. Entretanto, do romance entre Joana e Bernardo nasceram a Pureza, hoje com seis anos, e o pequeno Benjamim. Retomando o início desta história e esclarecidos todos os parentescos que a mesma envolve, a questão que se coloca é esta: se o Sérgio é apenas o pai da Matilde e do João, por que razão é que irá levar para passar férias consigo não duas crianças  os seus filhos  mas cinco: os seus (fruto da união entre si e Joana), os deles (fruto da união entre Joana e Bernardo) e o dele (fruto da união entre Bernardo e a ex-mulher)  Parecendo complicado, não é. Na verdade, a palavra que se pode aplicar a esta família muito moderna é ‘descomplicação’  termo que o dicionário insiste em rejeitar, sublinhando-o a vermelho, mas que passo a ignorar, pois não há palavra que defina tão bem a dinâmica deste conjunto de pessoas.

"Eu e o Sérgio éramos muito amigos antes sequer de namorarmos. Quando a decisão do divórcio foi colocada em cima da mesa  e fui eu que a coloquei  a primeira reação do Sérgio não foi a melhor. Podia ter dado para o torto, exatamente por haver uma amizade pré-relação amorosa, mas a poeira rapidamente assentou. O bem-estar dos nossos filhos esteve em primeiro lugar. Foi muito por causa deles que decidimos fazer as coisas a bem. Mas não só. Não houve tribunal e fizemos apenas um acordo entre os dois que, francamente, hoje nem me lembro de como figurava. Não há rigidez. Apenas flexibilidade absoluta", conta-nos esta mãe de quatro filhos, nascidos de duas uniões diferentes, num tom de voz que enfatiza a felicidade de quem não teme tabus nem rótulos sociais. Entre dentes, murmura: "O típico português não é assim. As pessoas ainda ficam muito espantadas quando percebem a dinâmica da minha família." E ri-se com uma descontração incensurável. De facto, confirma a psicóloga Paula Trigo da Roza que "Portugal ainda é um país conservador no que respeita à questão do divórcio". E mantém: "Continua a haver pessoas de 30 e tal anos a sentir a perda de um certo estatuto social e de ‘adultês’ com o divórcio. Como se se passasse para um estatuto inferior." Tal foi o que não aconteceu com Miguel Silva, de 44 anos, e com Ana Luandina, da mesma idade, quando, aos 18 anos de idade, foram pais, crendo piamente que iriam viver o sonho do ‘amor e uma cabana’. "Nós estávamos muito apaixonados e ter um filho naquela idade foi como se tivéssemos tido um irmão mais novo. É evidente que cerca de cinco a seis anos depois, a imaturidade de sermos pais tão novos foi-se revelando. Sabíamos que ainda tínhamos muito para viver e, de certa forma, queríamos recuperar aquela juventude perdida algures entre os primeiros anos do nascimento do nosso filho Ruben. Seguiu-se o divórcio. Um divórcio que aconteceu aos 24 anos de idade." Explica, como é uma constante em todos os discursos que abarcam a palavra ‘divórcio’, que no início foi muito complicado. Porém, tal como também acontece em muitos dos argumentos que abrangem as palavras ‘divórcio’ e ‘feliz’, conta que pelo filho fizeram as pazes e que delinearam um caminho onde tudo deveria acontecer de forma pacífica e, acima de tudo, cooperante e amistosa. Como sucedeu no caso de Joana e de Sérgio, também entre Miguel e Ana não houve romarias a tribunais, advogados ou acordos de espécie alguma. Apenas uma convivência serena em prol do crescimento de um filho feliz. E, obviamente, do bem-estar de dois pais que, não tendo de viver a tremenda guerra que tantas vezes implica um divórcio, foram vivendo igualmente em paz. Ou, nas palavras de Miguel, num pequeno "piece of heaven".

I Now Pronounce You… Divorced
"As relações ou crescem ou morrem. E as relações adultas deverão ser relações cooperantes, para que haja espaço para crescimento individual e de casal." A psicóloga Paula Trigo da Roza desmascara, com simplicidade, o fantasma que tantas vezes assombra o termo divórcio. Calma. Não estamos a incentivar o divórcio. Estilo: "O casamento está a dar muito trabalho, portanto vamos lá acabar com isto." Até porque o divórcio, em si, continua a ser um veículo de sofrimento abismal. Esclarece aquela psicóloga: "Do ponto de vista pessoal, a situação pode ser muito dramática. Há uma perda muito profunda… Ninguém gosta de perder nem a feijões, muito menos relações." E fala acerca do investimento afetivo profundo que as pessoas fazem quando escolhem um par, bem como na questão-base: em última instância, todos precisamos de amar e de ser amados. Ter uma relação afetiva boa é maravilhoso. Perder uma é doloroso. No entanto, manter uma por aparência não é melhor: "Uma má relação entre os pares tem sempre um impacto negativo nos filhos. Se a separação melhora a qualidade de cada um individualmente e ainda a qualidade da relação enquanto pais, melhor. Os casais devem estar juntos não porque têm filhos, mas porque gostam da relação que têm. É claro que os filhos são um fator de união importante e, muitas vezes, é difícil decidir uma rutura quando se percebe que eles podem ficar desamparados… Acontece, por vezes, quando um [dos elementos do casal] tem mais dificuldade em cuidar do que o outro, ou pouca capacidade e disponibilidade de cuidar, a decisão do divórcio ser adiada até os filhos crescerem", assevera Paula Trigo da Roza. Por outro lado, explica: "Hoje as pessoas conseguem acreditar mais facilmente que é possível passarem por um divórcio e voltarem a ser felizes noutro casamento, numa união, numa relação ou apenas sozinhas. Há uns anos, as mulheres divorciadas estavam condenadas. Hoje crê-se mais numa segunda oportunidade e este fator ameniza o pânico da perda profunda."

A ironia da situação é a seguinte: a atual época em que o divórcio já não é sinónimo de vergonha  principalmente para o sexo feminino, tal como referiu a psicóloga  é a mesma em que a taxa de divórcios diminui drasticamente. De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, os membros da geração nascida depois de 1980, os chamados millennials, divorciam-se menos do que os seus antecessores, mais conhecidos como os baby boomers. Neste estudo, Philip Cohen, professor de sociologia daquela Universidade, demonstrou que a taxa de divórcios nos Estados Unidos havia decaído em 18% entre os anos 2008 e 2016. Apesar de não confirmados, os motivos para este decréscimo podem ser vários e o facto de haver menos casamentos, logo menos divórcios, não é dominante. A psicóloga Paula Trigo da Roza enumera alguns: "Primeiro, esta é uma geração que sofreu bastante com a instabilidade afetiva dos pais que, na sua época, ainda evitavam o divórcio mantendo casamentos de ‘fachada’, para não ferir suscetibilidades, ou seja, a sociedade, os familiares e afins. Assim, estes millennials começam por evitar repetir os padrões dos pais. Depois surgem outros fatores lógicos: vivem-se tempos de maior liberdade e há mais experiências relacionais, logo as escolhas tornam-se mais acertadas. É uma geração em que homens e mulheres são pares, em que há complementaridade no lugar da competição. E, por fim, o simples facto de que as pessoas estão cada vez menos abertas a (sobre)viver em relações mortas." É claro que tudo acaba bem quando termina bem. Isto é, quando a decisão é mútua as coisas tornam-se mais simples para ambos. Mas como tornar feliz um divórcio em que uma das partes está insatisfeita e tudo o que não quer é viver separada e infeliz para sempre?

"É importante que a pessoa que não quer aceitar o divórcio perceba o porquê da relação não ter funcionado… Fazer entender a essa pessoa que isso não significa um ataque à sua autoestima. Ajudá-la a compreender que tipo de relação era aquela que mantinha, analisá-la e desenhar um novo caminho em que não se repitam certos comportamentos do passado. No fundo, auxiliar a pessoa a perceber que o facto de não ter funcionado com X, não significa que não possa funcionar com Y", deslinda Paula Trigo da Roza. Escusado será afirmar que o divórcio não deverá servir como uma espécie de "facilitador" da vida em casal: "Continua a fazer-se o esforço para que o casamento funcione, apesar das óbvias adversidades que este acarreta", assegura aquela psicóloga, rematando: "Apenas se vive com menor culpabilidade pelo facto de não ter funcionado." Verdade seja dita, caras leitoras, que quem nos tira de cima o peso da culpa não nos tira tudo, mas quase tudo.

Passos para um divórcio tranquilo 

1. Contrate um bom advogado
Mesmo quando tudo corre de forma tranquila, um processo de divórcio implica sempre desgaste, pelo que faz todo o sentido rodearmo-nos das pessoas certas. A escolha do profissional que se encarregará da resolução legal é determinante. Comece por valorizar a empatia e a confiança mas não menospreze um factor-chave: a inteligência emocional. Há quem defenda que as mulheres revelam uma maior sensibilidade no que toca a este assunto, tal como na questão da salvaguarda das crianças, quando há filhos menores envolvidos. 
2. Consulte uma terapeuta
Um divórcio é sempre uma espécie de luto, podendo ou não (consoante a forma como for gerido), ser um dos acontecimentos mais traumáticos na vida de alguém. Um bom aconselhamento psicológico pode ajudar a estabelecer limites e prioridades saudáveis, bem como apaziguar muitos dos sentimentos negativos. 
3. Considere a meditação
Meditar não será a mais fácil das tarefas, mais ainda em períodos marcados por uma tempestade de emoções, mas é por isso mesmo que a meditação é tão importante e faz tanto sentido. Caso tenha algumas reticências em relação à experiência, comece por instalar uma aplicação no seu telemóvel (Headspace, por exemplo), que lhe dará pistas para curtas meditações diárias e guiadas.
4. Esqueça o sonho amigável
As maiores batalhas prendem-se, na maioria das vezes, com os filhos e com questões de dinheiro, mas existem outros elementos que sabotam o cliché da amizade, sendo frequente que até a pessoa mais calma se revele alterada. Tente adaptar-se às circunstâncias da mudança, porque tudo muda, e confie na advogada escolhida, ainda que alguns dos seus conselhos ou recomendações possam ser difíceis de assimilar. 
5. Pense nas crianças
Escusado seria dizer que a principal preocupação deveria ser a felicidade e bem-estar das crianças, infelizmente isso nem sempre acontece, o que pode provocar danos irreparáveis. A terapia familiar é sempre uma das melhores formas de atravessar a tormenta, garantindo que todos na família chegam a bom porto.
Tags: divórcios filhos família joana lobo paula trigo da roza sexo psicologia casamento
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2 Comentários
Anónimo E viveram felizes e divorciados para sempre
CÁ HÁ QUEM FAÇA ISTO MAS É PARA PAGAR MENOS IMPOSTOS!
Há 1 semana
Anónimo é o que se chama promover o que é banal!
30.07.2019
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