Comportamento

Como sair de relações tóxicas?

Parecem extratos de romance ou resumos de filmes. Mas os exemplos aqui partilhados saíram da vida real. Histórias destas podem acontecer a toda a gente. Atenção ao veneno nas amizades, nas relações amorosas, nos laços familiares destrutivos e nos ambientes profissionais arrasadores. Ligações tóxicas podem custar a alegria, o equilíbrio e a saúde de quem as tolera mais do que é devido.
Por Manuela Gonzaga, 07.08.2019

Toda a gente as considerava as melhores amigas do mundo. Andavam sempre juntas. Acontecimentos sociais, jantares de amigos, algumas viagens – uma não ia sem a outra. Chamemos-lhe Lúcia e Dora porque pretendem manter o anonimato. A primeira, Lúcia, de 37 anos, é morena, divorciada e vive em Lisboa. Atravessou durante dois anos um deserto amoroso e relacional do qual começava a sair agora. Dora, de 43 anos, é casada, tem o cabelo alourado, apresenta-se sempre irrepreensivelmente vestida e penteada e vive numa periferia de luxo, onde, segundo as suas próprias e bem-humoradas palavras, "nada de interessante acontece". A amizade (improvável) entre as duas começou nos bastidores de um programa de televisão que Lúcia produzia, sendo Dora convidada num painel sobre economia e novos rumos para pequenas e micro-empresas. Uniu-as um sentido de humor muito particular e o fascínio que Dora sentiu, imediatamente, por Lúcia e pela sua vida sempre recheada de acontecimentos: bons, maus, imprevisíveis.

Aliás, um ano depois de se conhecerem, o programa não foi renovado e Lúcia ficou sem trabalho. Dora, com uma carteira de clientes com interesses no audiovisual, um marido bem colocado e melhor relacionado, uma casa de cidade, uma casa de campo e outras mordomias, prometeu mundos e fundos. "Mas nunca me levava, quando ia apresentar aos possíveis investidores os projetos que eu desenvolvia a seu pedido." Continuavam muito próximas. Dora, carregada de "coisas boas, como vinho do melhor e queijos de produtor", tirava um ou outro fim-de-semana e instalava-se na casa de Lúcia, na zona da Baixa, onde dizia que era como ir de férias "para o estrangeiro". Não fazia segredo de que, para si, era uma festa acompanhar a amiga às antestreias de teatro, de cinema e aos acontecimentos "nos lugares que mexem", tais como passagens de moda, vernissages, exposições… saídas com mais amigos. "Tudo convites e contactos meus." Um dia, Lúcia percebeu que dois dos seus projetos, que tanto trabalho lhe tinham dado a estruturar, estavam no mercado, levemente "maquilhados" e atribuídos a outras entidades a que, curiosamente, Dora estava ligada. Foi um choque, mas, interpelando a amiga, ela jurou-lhe que tinham sido pirateados e que não tinha nada a ver com o assunto. "Infelizmente, acontece muito nestes meios, pelo que lhe dei crédito."

E assim ficaram as coisas, até ao dia em que o namorado a avisou: "A tua amiga agarrou-se a mim, aos beijinhos no pescoço, quando foste ao quarto buscar qualquer coisa." Foi um choque. Nessa altura, Lúcia relacionou tudo. Dora mantinha-a num horizonte de esperança, sem nunca partilhar a sua agenda de contactos. Era óbvio que usara as suas ideias e, agora, até assaltava o seu namorado. E, com o ar mais sonso deste mundo, aproveitava todas as circunstâncias para a desvalorizar. "Chegou a dizer a pessoas a quem supostamente me queria apresentar, por razões profissionais, que eu era inteligente, tinha um currículo fabuloso e que era linda, mas que estava sem trabalho decente há quase um ano!" O corte aconteceu sem discussões. Lúcia estava "curada". Como diz Filipa Jardim da Silva, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, este exemplo ilustra "uma relação disfuncional e destrutiva, em que não existe o respeito necessário pela individualidade do outro, predominando a crítica, o julgamento, a manipulação, o ciúme e/ou o poder".

O oposto do que uma relação saudável implica, já que o pressuposto de qualquer relação afetiva é, entre outras coisas, "constituir uma fonte de segurança e apoio". Assim, a amizade de Dora por Lúcia ilustra exatamente o oposto quando "em vez de nos sentirmos apoiados e confiantes, vamo-nos sentindo progressivamente mais tensos, inseguros, com uma autoestima mais frágil". Uma relação tóxica no seu esplendor, "a qual pode ser de natureza amorosa, familiar, social ou profissional", acrescenta a psicóloga.

Margarida viveu um "amor" assim. Apaixonadíssima por um homem catorze anos mais velho, viveu um romance de conto de fadas. A família estava eufórica. E ela numa nuvem cor-de-rosa. Houve sinais? Seguramente, mas foram todos desvalorizados. Só que, depois de casar, o homem que a rodeava de mimos e a cobria de elogios revelou-se um carcereiro. "Ciúmes constantes, maus modos, ataques de fúria, seguidos de demonstrações de arrependimento, eventualmente com um presente a acompanhar a reconciliação." Aos olhos de todos, era um casal perfeito com uma vida de sonho.

A realidade, porém, começou a revelar toda uma outra face do homem que ela não conhecia. Procurou ajuda. Desabafou com a mãe. Chorou. "Mas a minha mãe desvalorizou as queixas. Era natural ele ter mau feitio, devia estar muito cansado e tenso com as responsabilidades profissionais, tudo para me dar uma bela vida. Quase me acusou de ser a culpada destas reações dele." Pressionada, Margarida, que é jornalista, deixou de trabalhar em redação, passando a colaboradora eventual de algumas publicações. A seguir, afastou-se de amigos e de amigas de longa data. Evitava visitar a família sem ele, pois o marido levava-lhe a mal. "Obrigou-me a interromper uma gravidez no início, porque não suportava dividir-me com ninguém." Aos 30 anos, completamente só, desligada do seu mundo profissional, afastada dos amigos, sem coragem para desabafar com a família que o adorava, Margarida teve uma depressão profunda que ele usou para a desvalorizar ainda mais. "Quem era eu sem ele? Homem nenhum conseguiria aturar o que ele aturava." E Magarida acabou por interiorizar esta desvalorização a tal ponto que dava por si a pensar que ele é que estava certo. E que, se lhe fizesse todas as vontades, voltariam a ser felizes.

Dez anos de pesadelo que acabaram porque o marido se envolveu com outra mulher que essa, sim, "levou a gravidez bem calculada até ao fim". Ele chorou, suplicou, gritou, quis voltar (não casou com a mãe da criança, com quem entretanto fora viver), mas Margarida já tinha começado a libertar-se deste "vampiro" a poder de muita terapia, de muitas lágrimas e de um imenso alívio. Tinha engordado muito e sentia-se "um lixo". Para piorar o quadro, a separação, num primeiro momento, custou-lhe mesmo o apoio familiar ("A minha mãe chegou a acusar-me de nunca levar nada até ao fim e de ser uma falhada! E o meu pai disse-me que quase tinha vergonha de uma filha assim.") Mas Margarida estava irredutível. Retomou a atividade profissional e juntou-se a um grupo de voluntárias de apoio às vítimas de violência doméstica (física e psicológica). Percebeu que o seu caso não era único. "Tomar consciência de que, inconscientemente, me tornara cúmplice dos maus tratos que o meu marido me infligia foi das revelações mais dolorosas e, ao mesmo tempo, mais libertadoras. Emancipei-me aos 35 anos!" A vida deu-lhe um bónus precioso. Um dos voluntários do grupo de trabalho nessa área, um psicólogo clínico cinco anos mais novo do que ela, veio mostrar-lhe que há relações onde o amor de verdade é sempre a multiplicar e nunca a cobrar ou a dividir.

Como diz Filipa Jardim da Silva, "uma relação tóxica é uma fonte de intranquilidade, de tensão, de medo". Ou, por outras palavras, um jogo de poder onde se verifica "uma forte dependência emocional, um desrespeito psicológico e, por vezes, físico e uma manifesta manipulação". Alertas que nunca devem ser ignorados, sob pena "de se normalizar algo que não é saudável e que pode revelar-se bastante destrutivo". O marido de Margarida nunca a agrediu, segundo ela conta, mas a violência verbal, a prepotência com que dispunha dela e os ataques de fúria eram "tareias psicológicas brutais".

Montse Barderi, jornalista, professora de Filosofia e Estudos de Género, autora consagrada, no excelente livro Perder Para Ganhar (Pergaminho, 2016) aborda estas questões, nomeadamente o "amor vampírico" e as contradições entre amor verdadeiro e o "jogo viciante" que decorre "numa montanha-russa de sofrimento infindável", num turbilhão emocional constante e numa dependência geradora de grande ansiedade e frustração. É como se um, o que domina, se limite a "brincar ao amor" enquanto o outro, o dominado, se entrega cegamente ao "amor" na convicção de que semelhante entrega, tão incondicional, acabará por gerar bons frutos: "Há quem faça do amor uma forma de prazer físico ou quem seja mestre na arte da conquista e nas artes do desejo." Mas se o bom amor procura o bem do outro, no mau amor o outro tem um papel secundário e "serve, apenas, de ponte à própria pessoa". A esperança de que tudo acabará por se resolver conduzirá a um sofrimento maior. E Montse Barderi deixa um pressuposto que é um axioma: "Não é sensato supor-se que a pessoa que nos magoou e que abriu a ferida seja aquela que nos vai curar."

Relações desequilibradas que extravasam o âmbito da vida em casal encontramo-las no seio da família, com outros contornos, mas a raiz é a mesma. Carlota, atriz e designer gráfica, que durante anos tratou da mãe (separada do pai há muitos anos) quase a tempo inteiro, recorda como esta a fazia sentir-se mal, vitimizando-se para a prender cada vez mais em casa, para a ter sempre atenta aos seus menores desejos. "Fazia-me sentir culpada, até, de ir jantar fora com amigos. Fez-me sentir uma aberração, quando lhe contei que tinha um namorado: ‘O teu pai deixou-nos e nunca quis mais ninguém para tratar só de ti!’"

Quase com 40 anos, Carlota descobriu que tinha uma úlcera de estômago. Olhava para o espelho e achava-se velha e feia. Olhava para a mãe e pela mãe e sentia uma mistura de raiva, de pena e de medo, e culpa, até ao dia em que pediu abertamente ajuda. Foi a psicóloga que lhe falou, pela primeira vez, em "relações tóxicas". E foi graças a ela que aprendeu a criar distância, a colocar barreiras, a não se deixar intimidar pelos ataques e cobranças de uma mãe amargurada pela sua própria e irredutível solidão. Foi preciso percorrer um longo caminho, fazer um trabalho interior profundo, mas os frutos acabaram por dar o resultado esperado. Carlota passou a aceitar-se e, consequentemente, a aceitar muito melhor a mãe. Essa lucidez deu-lhe forças para a enfrentar e para colocar barreiras na relação de abuso que acabara por se impor.

No fundo, a mãe, mulher abandonada por um homem que amou para sempre, sempre invejou secretamente aquela filha que ousou fazer o que ela nunca teve coragem. Exprimir-se enquanto ser humano, ao ponto de ter sido atriz de teatro (independente) e designer gráfica com uma liberdade de movimentos que acabou por perder por não conseguir colocar barreiras às exigências de uma mãe doente e quase inválida, mas que usava a doença como desculpa para todo o tipo de agressões. Mas na esfera profissional ouve-se também, e cada vez mais, histórias sobre a pressão intolerável exercida sobre os trabalhadores. Montse Barderi relata, a propósito, a história de Maria, advogada num prestigiado escritório de advogados, que vivia aprisionada pelo trabalho: horários demenciais, exigências absurdas, condições laborais muito más e que ela aceitava porque estava convencida de que aquele era o emprego da sua vida.

Foi preciso adoecer gravemente para conseguir levantar a voz e fazer valer os seus direitos. "Com efeito, a sua vida só mudou quando se dispôs a abandonar esse ingrato posto de trabalho." E o mesmo é válido para os relacionamentos. O "vale tudo, menos que ele me deixe", nunca é solução. A libertação destes ciclos e destas relações tóxicas implica aceitar que podemos perder tudo, sabendo, bem no fundo, que afinal o que se tem e o que se defende nem sequer é tão valioso nem importante que valha o desgosto e o desgaste que causa.

Sinais de alarmante toxicidade

A sua relação familiar, profissional ou amorosa é saudável? A psicóloga Filipa Jardim da Silva deixa uns avisos à navegação. Confira as vezes em que responde "Sim". E faça as contas…

- Quando, numa relação, alguém tem medo de se expressar livremente, medindo as palavras e o que diz por temer a reação do outro;

- Quando há alterações inesperadas de comportamento e a imprevisibilidade violenta marca o calendário da relação;

- Quando a comunicação tende a ser passivo-agressiva; 

- Quando existe uma competição e comparação permanentes;

- Quando a privacidade e os limites de educação e respeito não são respeitados;

- Quando há uma necessidade angustiante de se estar continuamente contactável e disponível;

- Quando as discussões são frequentes, acompanhadas de ofensas verbais, ameaças físicas e destruição de objetos.

- Quando o ciúme predomina, como se fôssemos propriedade da outra pessoa;

- Quando se sente uma tensão em crescendo, na iminência de estar com a pessoa em questão;

- Quando, de forma geral, existem manifestações somáticas de ansiedade, como alterações gastro-intestinais, aperto no peito, queda mais severa de cabelo, alterações no sono, no apetite ou no humor e diminuição de energia.

A resposta é SIM? Então a sua relação é perigosamente tóxica. Está na hora de tomar medidas e tratar da pessoa mais importante do mundo, com todo o cuidado que ela merece. Essa pessoa é VOCÊ.

Como sair deste ciclo infernal?

Se pedirmos ajuda à Medicina para tratarmos de uma perna partida, de uma cárie num dente, de uma dor de estômago, porque evitamos tanto procurar ajuda profissional quando estamos deprimidas? Ou desorientadas? Ou sem perspetiva para solucionar relações e situações aparentemente insolúveis?

O primeiro passo, em determinadas circunstâncias, pode mesmo ser um pedido de ajuda a quem sabe ajudar e nos ensina a descodificar. Às vezes, pode ser um livro fundamental, como o de Montse Barderi. Ou uma terapeuta reconhecida. Ou um ombro amigo. Seja como for, face a situações como estas que parecem de filme, mas que são da vida real, para sair do atoleiro é preciso vontade que tal aconteça.

É que a chave para nos libertarmos de uma relação tóxica assenta no autoconhecimento e no estabelecimento de barreiras de justa defesa entre nós e os agressores. Nesse sentido, é importante entender a paleta das nossas emoções primárias que podem levar-nos aos picos da alegria e aos subterrâneos do medo, da tristeza e da dor. Ou podem, também, fazer-nos sair de nós próprias, como acontece durante um acesso de cólera. E se pudermos traduzi-las, decifrando as nossas fragilidades e inseguranças, antecipando as reações e aprendendo a colocar limites e fronteiras? Por exemplo, um ataque de cólera denuncia a explosão longamente reprimida contra algo que sentimos como um ataque pessoal. E se começarmos a antecipar? Antes de uma previsível explosão de fúria, fruto de uma enorme frustração, começarmos a aprender a pôr entraves ao abuso.

Um afastamento provisório ou definitivo, uma conversa lúcida para colocar os pontos nos is podem ser desarmantes face a um abusador/a que nos desrespeita e vampiriza. Da mesma forma, o medo ou a tristeza são indicadores de que estamos sob ameaça. Termos essa lucidez permite-nos começar por entender as situações difíceis que ainda não conseguimos ultrapassar porque nos falha a energia e a fé nas nossas capacidades. E a força porque a depressão é sinónimo de prostração e não serve de nada culpabilizarmo-nos por algo que não é culpa nossa. Quando muito, é um "erro" de avaliação. Um outro aspeto, que todos os psicólogos enfatizam, remete para o medo do desconhecido.

Aturamos situações que nos drenam as forças e a alegria porque achamos que aquilo é o melhor que podemos conseguir. No momento em que decidimos abrir mão de um emprego, de uma relação amorosa, de uma amizade, já estamos a ganhar. Porque, em certos casos, as relações até têm "volta" que se possa dar. E, nos empregos, as regras podem ser mudadas a nosso favor. Frequentemente, é a nossa permissividade que, não colocando barreiras nem limites aos abusos, torna possível que estes sejam ultrapassados até ao intolerável.

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