Comportamento

Como não ficar refém da sua herança emocional?

“És igualzinha à tua mãe!” Quem nunca proferiu uma frase do género para comparar membros da família que atire a primeira pedra. Mas, afinal, o que é isso de ‘sairmos’ uns aos outros? Fomos medir o peso da herança emocional que todos carregamos.
Por Rita Silva Avelar, 14.06.2017
Há um mundo de parecenças, além das semelhanças físicas, evidenciadas pela genética. Quando comparamos elementos da mesma família, referimo-nos, na maior parte das vezes, à herança emocional e o seu significado ultrapassa em muito as expressões fáceis que proferimos quase sempre em tom de graça ou em jeito de desabafo. Afinal, todas as famílias têm uma história, valores e crenças que influenciam a forma como os seus elementos se comportam – e este é um ponto assente. Então e nós? Quem somos nós, enquanto fruto dessa influência? Para Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e formadora, não há dúvida que tudo começa até antes da infância: "Na vida intrauterina, a própria forma como se desenvolve a gravidez, as emoções mais predominantes da mãe, a forma como aquela gravidez é vivida – tudo isso já começa a influenciar e a moldar a vida psíquica de um bebé", explica. "Em pequeninos somos autênticas esponjas e tudo aquilo que não temos em termos de competências cognitivas, temos em recursos emocionais." Depois, a infância é um dos períodos mais importantes para a vivência das emoções e é durante este período que começamos a desenvolver aquilo a que a psicologia chama de esquemas. "Na primeira infância desenvolvemos este conceito de esquemas, que são uma espécie de fundições para construir a nossa estrutura de personalidade. Podemos ter esquemas iniciais mal adaptativos (privação emocional, abandono, insatisfação crónica…) que vão ficar a contaminar a forma como olhamos para os outros, como nos relacionamos com os outros e sobretudo como olhamos para nós." 

Não há forma de falar em herança emocional sem falar em psicogenealogia, aprofundada nos anos 80 pela psicóloga Anne Ancelin Schützenberger. Schützenberger defendia que somos menos livres do que pensamos, se considerarmos que somos marcados pela história do grupo familiar ao qual pertencemos. Mais recentemente, a psicóloga e psicoterapeuta francesa Marie-Geneviève Thomas abordou o tema em dois livros (Psychogénéalogie e Pratique de la psychogénéalogie) onde defende a importância das constelações familiares nas emoções através da construção da árvore genealógica aplicada à psicogenealogia. "Todos trazemos uma herança genética e um código genético à nascença, o que nos vai dizer que podemos ter mais ou menos probabilidade de desenvolver algumas problemáticas e características. No entanto, o ambiente vai ser decisivo", explica Filipa. "Esta área tem vindo a estudar estes fenómenos: como é que de geração para geração, de avós para pais, e de pais para filhos, vamos de alguma forma reproduzindo estas formas de pensar, sentir, atuar, e como é que podemos fazer para quebrar um pouco essa perpetuação. De facto, podemos. Em psicoterapia, um dos exercícios que faço, numa fase inicial, é uma cronologia de eventos significativos. Peço às pessoas que olhem para trás, que possam listar acontecimentos que para si foram mais impactantes quer numa vertente mais positiva ou mais negativa. Com esse mapa de partida, conseguimos olhar para esses eventos e perceber que esquemas foram desenvolvidos, que crenças foram alimentadas e reforçadas."

E, em termos práticos, como podemos aprender a mapear essas emoções e contextualizá-las no nosso dia a dia, mesmo aquelas que não entendemos? A psicoterapia parte, primeiro que tudo, da nossa história – para depois nos ajudar a refletir sobre o presente. "Em psicoterapia pensamos na pessoa como um todo e esse todo tem uma história. Não sendo essa história decisiva para a pessoa que somos, com certeza que tem impacto. Por exemplo, se há uma sensação de crítica permanente em relação a mim e não podendo atribuir-me concretamente essa crítica, isso leva-me a pensar que há uma crítica interiorizada, herdada, reforçada na infância, que provavelmente, quer a par de uma herança genética quer a par das experiências que fui tendo, foi sendo reforçada. Há muitas vezes uma voz que nos diz: ‘Não chega, não chega.’ Aí, é preciso fazer uma viagem no tempo para perceber quem dizia, quem expressava (verbalmente, ou não), quem estava alinhado com essa postura de insatisfação." E, se pensarmos de forma objetiva na nossa cronologia de acontecimentos, conseguirmos viajar no tempo e assinalar momentos decisivos.

Como é que na infância se lidava com a falha, como eram expressados os afetos, como se lidava com a frustração, como era vivida a alegria, como era experienciada a tristeza, como era gerida a angústia ou o medo? "É importante, em algum momento da nossa vida, darmos oportunidade a nós próprios de organizar a nossa história de vida, perceber o que contamos a nós próprios, que valores principais nos passaram, no que é que aprendemos a acreditar… Questionar o que para nós é inquestionável e, depois, pôr as peças todas do puzzle em cima da mesa", conclui Flipa. Será que temos o puzzle completo e com as peças certas? Pelo sim, pelo não, fazer uma viagem pela nossa história vai fazer-nos pensar da próxima vez que ouvirmos alguém entoar, em jeito de comparação: "És igual à tua mãe!" Seremos mesmo? 
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