Comportamento

Como era ter 30 anos há 30 anos?

Dos sonhos todos, quantos ficaram pelo caminho? Pergunta-se Manuela Gonzaga, otimista encartada, escritora e historiadora que diz contabilizá-los melhor quando pensa em todos os que se concretizaram. E sem ceder às armadilhas da saudade, mostra-nos como é delicioso recordar os queridos anos 80.
Por Manuela Gonzaga, 11.06.2019

O homem entrou, dirigiu-se ao rececionista sentado na secretária junto da porta da entrada que dava para a rua e disse: "Quero falar com um jornalista. Matei a minha namorada." O rececionista olhou para ele e disse: "‘Tá bem, filho, mas tens de esperar. Estamos em fecho e os jornalistas estão muito ocupados." O presumível criminoso obedeceu e afundou-se no sofá velho encostado à parede em frente. E ali ficou, manso como um cordeirinho, a observar o movimento do entra e sai dos jornalistas, fotógrafos, paquetes e outra gente da casa. O jornal, o Correio da Manhã, com sede numa cave à rua Ruben A. Leitão, em Lisboa, tornara-se um sucesso brutal em menos de um ano. Era um tabloide. O primeiro, em Portugal. Direção editorial segura e inteligente de um grande jornalista, Vítor Direito, linha gráfica e direção artística do pintor José Ralha, e uma equipa de gente entusiástica, alguns com muito talento que se viria a concretizar nos anos vindouros. Nesses tempos vivíamos a paixão dos jornais e acreditávamos que íamos mudar o mundo. Havia um suplemento semanal de formato magazine, onde alguns espraiavam a sua veia mais literária, e, mais tarde, um suplemento musical que eu coordenava e que escrevia, em parte, onde divulgávamos o melhor da emergente música popular portuguesa, uma parceria feliz com a excelente revista TOP Música & Som (de Duarte Ramos, o Chefe, como todos lhe chamávamos). O Correio da Manhã apostava também muito na reportagem, na notícia, na cultura, no desporto e no futebol (nas páginas finais) e… nas redes locais. Tinha correspondentes por todo o lado que, ao telefone, ditavam efemérides que, reduzidas a uma, a duas, a quatro linhas, traziam o nome da aldeia ou da vila às páginas do recente fenómeno da imprensa nacional. Acima de tudo, noticiava, embora ainda com algum pudor, os crimes que assombravam a espuma dos dias.
Tanto assim era que, em vez de se ir entregar às autoridades, esse presumível criminoso dirigira-se ao jornal onde estava a secar há mais de uma hora quando um jornalista quis saber os quês e os porquês da sua presença. E, de repente, ali estava ele a ser freneticamente fotografado e entrevistado com um sorriso de beatitude na cara de parvo, numa salinha à parte (não fosse querer fugir!), até à chegada da polícia que num aparato de cinema o recolheu, salvo erro com algemas e tudo, e o enfiou na Ramona, sob o disparo incessante das câmaras fotográficas dos nossos repórteres de imagem. A notícia foi primeira página e seguintes e fez-nos rir a bom rir, quando, nesse fim de noite, fomos como de costume acabar o ‘dia’ no Finalmente Club, numa outra cave, ali a dois passos, para conversar, tomar um copo e ver a Dança das Bruxas com o fabuloso José Manuel Rosado. "Hoje, assistimos a uma mudança brutal", disse o Zé Ralha, na sua implacável lucidez de afogado, como ele próprio a definia. "A partir de agora, as pessoas vão sentir-se legitimadas a praticar crimes para serem capa de jornal. Criámos um monstro e nem nos apercebemos quanto." Uma nota feliz - a namorada não tinha morrido e a sua ferida era pouco mais do que um dói-dói.
Para mim, quando regresso 30 anos atrás e aterro nos anos 80, este episódio é um dos marcos. Há outras histórias, muitas delas cintilantes como anúncios da Broadway. Da música emergiam sons, imagens, batidas e vozes que marcaram a década e, ainda hoje, tanto tempo depois, continuam a marcar os tempos. António Variações, costumava ir ao Finalmente Club e… dançava sozinho. "Era uma aparição", contou-me, muitos anos mais tarde, o António Duarte que também passou pelo Música & Som e pelo Correio da Manhã. O facto é que nos sentíamos a contribuir para os ‘amanhãs que dançam’, uma vez que os ‘amanhãs que cantam’ já estavam, desde 1974, a ser concretizados. Toda a gente tinha voz. Falava-se muito, discutia-se muito, bebia-se muito, fumava-se muito, pintavam-se paredes, desfilava-se pelas ruas, pediam-se mudanças e ainda estava tudo mais ou menos de pernas para o ar. Respirava-se. Faltava realmente a música que, juntamente com a cor, tomou de assalto os palcos da rua e os nossos quotidianos. A música nossa, a portuguesa, "a gostar de si própria", para utilizar o slogan de Tiago Pereira (incansável a recuperar a memória dos sons de antanho pelas vozes dos mais velhos, sobretudo das mais velhas), começou a ganhar asas de ouro e de platina.
Não éramos convencionais. Pensávamos fora da caixa. E como as fronteiras eram ainda bastante esbatidas, não nos antagonizávamos para a vida por causa de partidos políticos, jogos de bola ou religiões, até porque grande parte de nós estava fora dessas arenas e o nosso pequeno mundo era um vasto círculo sem fronteiras, onde o limite era o sonho de cada um. Naturalmente, éramos, muitas vezes, arrogantes, logo, intolerantes. Estávamos contentes com o nosso descontentamento e descontentes com o contentamento geral. Éramos, pensávamos nós, livres. Há 30 anos, tínhamos 20 anos, 30 e alguns 40, mas diante de nós o futuro desenrolava-se numa estrada da glória que nada nem ninguém poderiam travar. Trabalhávamos intensamente para isso. Sem horários, nem limites, mas também sem relógio de ponto. Numa palavra, "dávamos o litro".

Os sinais eram todos a nosso favor.
Faltava a moda. Havia desfiles, sim. Assisti a uns quantos e aí pelos finais dos anos 70 – no jornal A Tarde, creio – cobri a notícia de um deles, descrevendo conscienciosamente a farda do jovem empregado que circulava com a bandeja dos croquetes. Ainda falámos e rimos um bocado. Era uma farda branca com botões amarelos, mal-amanhada e mal-ajeitada. O resto foi um bocejo. Acho espantoso, agora à distância, o querido Carlos Plantier, à época chefe de redação, ter publicado o meu texto. Dois ou três anos depois disto, já estava eu noutro jornal, O País, quando a minha querida Lumena Martins, jornalista do Correio da Manhã, onde nos tínhamos reencontrado depois de Luanda, me telefonou: "Tens de conhecer esta ‘gaja’. Não faz desfiles, produz acontecimentos de moda. Vens comigo ao Coliseu dos Recreios?" "Esta ‘gaja’" chamava-se Ana Salazar e, pela mão dela, a moda em Portugal ganhara direito a caixa alta e espaço num templo. Sentada nas privilegiadas cadeiras da imprensa, eu não sabia o que pensar daquela roupa, nem sequer sabia se gostava ou não para mim do que eu estava a ver, mas o sentimento de espanto e de admiração era desmesurado. As modelos eram figuras hieráticas, a pisar com uma incrível segurança, vestidas com roupas geométricas, numa conjugação de formas e de cores que, mais do que moda, ilustravam uma mulher que não tinha aparecido nunca nas passerelles portuguesas. Era uma mulher seguríssima que gostava, acima de tudo, de si própria. "Gostaste?", perguntou-me a Lumena. "Adorei. Mas não seria capaz de vestir nada do que vi", respondi-lhe. Nessa altura, ela apresentou-me a Ana Salazar, que tinha vindo cumprimentar a imprensa e que estava muito grata à Lumena porque, mesmo sem nunca ter usado nada "daquilo", divulgava e defendia o trabalho da criadora. Nessa altura, ela convidou-nos a visitar a sua fábrica. E depois fez-nos experimentar algumas das suas peças. "Vou ficar horrível", pensei. E depois olhei para o espelho e… amei. E tornei-me cliente assídua e fiel. A verdade é que foi nos anos 80 que a moda se erigiu, nos seus exageros e extravagâncias, como uma muito poderosa bandeira da liberdade individual, a única que parecia possível. A par dela, a febre da dança começava também a contagiar o planeta inteiro ao som do disco sound, por exemplo, e só para abrir o baile. No fundo, "a cultura" – entendida como a cultura "cultivada", com as absorções da "cultura de massas" que a evolução da sociedade foi fazendo – torna-se um fenómeno, governada por pequenos ciclos de "modas". E nós vivíamos, respirávamos e testemunhávamos o ar do tempo breve.
Anos mais tarde, noutro jornal ainda – caramba, quantas mudanças! –, o Semanário, só havia uma outra jornalista que usava o tipo de roupa que eu passara a usar. A lindíssima Paula Brito. Foi o nosso querido José Pedro Barreto que deu voz ao que, de forma geral, a falange masculina pensava. Com o seu cachimbo, a voz pausada, o olhar sereno, disse: "Porque é que vocês, miúdas tão giras, fazem gala de se vestirem para ficar feias? E esses sapatos parecem saídos de uma fábrica de calçado para freiras!" Ainda hoje me rio com essa imagem. Não adiantou nada dizer-lhe a ele e aos outros, como o nosso também muito querido Manuel Anta, que abanava a cabeça a concordar, que, e por acaso, até nos sentíamos muito giras nas nossas roupas vanguardistas. E que, reconhecidamente, nem éramos freiras. Eu já tinha quatro filhos, todos muito pequenos, e trabalhava desalmadamente. Tinha um pacto com o pintor José Ralha, pai dos dois mais novos, com quem vivia desde os tempos do Correio da Manhã, que foi quando ele me trouxe de volta ao país que eu julgara ter perdido de tão exilada me sentia. Portugal. O nosso era também um pacto de alma. Ele pintor que dois anos depois começou a expor com muito sucesso, eu escritora com muitos livros na cabeça, à espera de ter tempo para os escrever, íamos virar o mundo do avesso e não havia nada que nos pudesse travar.
Esse sonho ficou pelo caminho. Ficaram muitas coisas pelo caminho. E muita gente. Os anos 80, porém, aquela que foi considerada nos meios financeiros como a ‘década perdida’, tomando como epicentro a crise económica na América Latina e as ondas de choque que a queda do dólar provocou na economia mundial, foi para nós uma espécie de viagem pelo arco-íris da história. Da nossa história comum. Dez anos ao longo dos quais a esfarrapada bandeira do otimismo – drapejando aos ventos da História, desde o fim da II Guerra Mundial – foi definitivamente enterrada, sem pompa nem circunstância, porque a pobreza não ia acabar, nem a riqueza ia crescer progressivamente para o bem de todos, pondo ao alcance de cada um dos cidadãos do mundo as maravilhas da civilização. Até porque os recursos do planeta estavam a acabar e a fatura do seu esbanjamento encontra-se, há muito, a pagamento. E a paz entre as nações revelava-se, decididamente, outra utopia.
Mas por cá já ouvíamos o apito sedutor do comboio da CEE e o consumismo tinha começado a disparar e a erigir os seus templos. O pequenino (à escala atual) Centro Comercial das Amoreiras inaugurava-se sob o signo do escândalo e do atentado à arquitetura envolvente que, por acaso, nem existia e transformava-se num local de peregrinação familiar aos fins de semana. Eu gostava muito de lá ir. E achava francamente divertida aquela proposta urbana que cheirava a Disneylândia com toque europeu. E podia-se levar os filhos, deixando os mais velhos no cinema, e passear, fazer compras, encontrar amigos. Tínhamos tantas certezas. Tanta energia. E uma dose, aparentemente inextinguível, de otimismo.

Queridos anos 80.

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