Comportamento

Até que a lua de mel nos separe (e nos junte de novo)

Sabia que há recém-casados a passar a lua de mel em destinos diferentes, separados? A fim de saber mais sobre o (possível) fenómeno, que é emergente e cada vez mais discutido, conversámos com uma sexóloga e uma socióloga.
Por Rita Silva Avelar, 24.04.2019

Nos últimos anos viajar sozinho tornou-se uma tendência cada vez maior, apesar de haver quem o faça há anos e quem inclusive nunca tire férias em conjunto com o parceiro/a. Mas há um novo fenómeno (que acaba por se relacionar com este) recentemente abordado no jornal americano The New York Times. Falamos das luas de mel passadas em separado (o artigo refere-se à tendência como solomoons ou unimoons) que consiste nisso mesmo: uma lua de mel em que cada um dos elementos do casal segue um destino de sonho diferente, por razões diferentes. Não há camas partilhadas. Nem pôres do sol de mãos dadas. Muito menos jantares românticos.

O jornal exemplifica com o caso de Irene O’Brien e Mel Maclaine – depois de casarem, ela foi para as cascatas do Niágara, ele para França com amigos. Segundo as declarações de Helen Fisher (investigadora em relacionamentos amorosos do Instituto Kinsey) a este jornal, "quando os casais passam férias juntos, eles ativam três sistemas cerebrais: amor romântico (que estimula o sistema de dopamina), sentimentos de apego profundo (o orgasmo aumenta os níveis de ocitocina que estão ligados ao apego) e impulso sexual" que segundo a mesma são parte da chave para um relacionamento saudável e duradouro. "Neste caso em específico, não foi claro o estilo de relacionamento que as pessoas tinham, percebi que eram muito ocupadas, e que era uma forma de aproveitar o tempo para fazer o que mais gostavam… Como não alinhavam quanto ao que queriam fazer, decidiram as coisas de forma diferente, mas não o vi como se estivessem a aderir a um novo conceito", começa por explicar Marta Crawford, sexóloga e psicóloga clínica, acrescentando que "o que aconteceu com este casal especificamente é que ele queria ir ver futebol, ela não… E parecem ter um modo de vida muito independente, logo a lua de mel em sítios diferentes é só mais um reflexo daquilo que é a relação que já têm".

Para a socióloga Maria José Núncio, professora e investigadora no ISCSP, "o fenómeno das luas de mel ‘em separado’ é um sinal extremo do individualismo que domina as sociedades atuais, com o que isso implica de incapacidade de cedência nas vontades próprias. A união conjugal entre duas pessoas implica um compromisso de construção de um projecto comum que, naturalmente, pressupõe uma harmonização de vontades, de gostos e de estilos de vida. E essa harmonização só é possível quando ambas as partes se predispõem a ela, ou seja, nunca é unilateral, porque isso significaria a anulação de um dos elementos do casal relativamente ao outro, algo que, só por si, nega aquela que é a essência do projecto conjugal e familiar e que assenta, justamente, na dimensão de partilha".

Para Marta Crawford, tudo se relaciona com registo de cada relação. "Há vários ângulos e depende de cada tipo de casal. Para um casal que vai viver a primeira experiência de vida em comum, o facto de esta ser mais idílica (porque é passada em férias), e sem ritmos, pode levar um ambiente de cumplicidade, intimidade e bem-estar que vai ajudar tudo o resto no sentido que pode ser um mote para que tudo corra bem a partir dai (…). Pode ser um aperitivo para o que vem a seguir, que é naturalmente mais cansativo, com as rotinas, os horários e os deveres – mas não é decisivo. Há situações em consultório que começam na lua de mel…".

Para Maria José, neste caso em que cada um escolhe o seu destino após o casamento,"perde-se muito mais do que se ganha, na medida em que se constrói uma imagem de desapego (que não pode ser confundida com o ideal de liberdade, que em nada choca com os fundamentos da conjugalidade) que, em última instância, conduzirá a sociedades em que os indivíduos estão mais sós, com todas as consequências negativas que a solidão acarreta, quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista colectivo", acrescentando ainda que "caminhamos, progressivamente para sociedades da solidão, o que é paradoxal com a quantidade, incomparável com qualquer outra época precedente, de recursos de comunicação e de encurtamento das distâncias, sendo que, na verdade, estes recursos são muito mais utilizados de modo superficial e como forma de passar "uma imagem ideal de si mesmo", do que exactamente para nos ligarmos aos outros, no sentido do estabelecimento e manutenção de vínculos seguros e significativos".

Sobre a vivência da lua de mel propriamente dita, Crawford explica que "há casais que apontam também o facto de a lua de mel não ter corrido bem e de isso ter sido o motor para a dificuldade na intimidade e na relação em geral, é algo que oiço muita frequência. Casais que tiveram a sua primeira experiência na lua de mel – isto molda quase a relação toda, porque nem na lua de mel (que era a imagem da fantasia e do paraíso) funcionou, então como é que será depois?" Acrescentando: "não existe muito a tradição em Portugal de as pessoas viverem a lua de mel em separado, mas já assisti a situações em que um tinha de ir trabalhar, outro tinha férias, e este aproveita e vai na mesma – mas isto é por condicionamentos da vida profissional de um dos membros do casal. A tendência é existir alguma culpabilidade, mas quando as pessoas são pragmáticas vão na mesma. A ideia de ser mais interessante passarem a lua de mel afastados para contarem as histórias… sim e não."

Para a socióloga Maria José Núncio, e analisando o caso da perspectiva da sociedade num contexto atual, "as mudanças estruturais no emprego, nas economias e na organização social, fazem com que estas sejam as gerações do precário, ou seja, que tiveram de se habituar a dimensões de precariedade, instabilidade e curta durabilidade de que se revestem as suas vidas. Necessariamente, isto reflecte-se na tal erosão dos vínculos afectivos e na maior solidão que, ao invés de criarem uma percepção de realização pessoal, acabam por gerar profundas insatisfações e vazios, além de "desabituar" os indivíduos da relação profunda com o outro, que sempre tem de estar subjacente à relação conjugal, porque é ela que permite a tal construção conjunta de um projecto de vida", explica, salientando o subjacente conceito da solidão, terminando a dizer que "se as pessoas não são capazes de harmonizar e ceder em algo tão primário como uma lua de mel dificilmente conseguirão harmonizar e aproximar-se noutros desafios, mais sérios e mais profundas, que compõem a vida de um casal".

Os tempos mudam, as vontades também, é o que conclui, por sua vez, a sexóloga Marta Crawford. "Tudo tem a ver com a linguagem do casal e cada vez mais os casamentos acontecem depois de uma vivência em conjunto, portanto quando o casamento é uma formalidade, toda a situação é mais fria e mais pragmática que romântica, e não pensado como uma nova vertente ou uma nova moda. Cada vez há mais a prática de as férias serem em separado, também é uma forma de trazer novidade à relação. Agora, desde que os casais entendam que isso é igual para os dois, e isso não é uma desfeita para um ou criar sentimentos de culpa para outro. Hoje em dia há mais casais do Skype também – porque é que também não podem existir luas de mel no Skype?"  

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