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Truques para dar festas bem-sucedidas

Dos grandiosos tempos dos Rothschild e dos Vanderbilt às after parties dos Óscares e até às nossas casas. Depende das bolsas… e da ambição. Se pensa replicar o Black and White Ball dado por Truman Capote, em 1966, siga estas pistas.
Por Maria Wallis, 02.08.2018
"Just a party for the people I like." Foi assim que o autor de A Sangue Frio anunciou a festa que iria dar em honra de Katharine Graham, editora e proprietária do jornal The Washington Post. Como a História fez questão de provar, o Black and White Ball  foi muito mais do que uma simples celebração - foi um acontecimento. Além dos fait-divers próprios a qualquer baile do género (com verdadeiros famosos e socialites, entenda-se, e cujo dress code obrigava o uso de máscaras e exigia uma de duas cores, o preto ou o branco), as semanas que o antecederam foram de verdadeiro apocalipse na Big Apple: todos queriam fazer parte da guest list que Capote comandava de forma quase ditatorial e as histórias de quem não conseguiu entrar no Plaza são quase tão interessantes como as de quem teve o privilégio de dançar com os rich and famous…

Muitos anos depois, continuamos a recuperar os relatos e as fotografias publicados em dezenas de artigos na Vanity Fair e no The New York Times em busca daquele l’air du temps. Será possível igualar semelhante soirée? Provavelmente, não. Mas há certos pormenores que podem transformar qualquer festa a uma segunda-feira à noite num evento inesquecível: a iluminação, o local, o tema, o menu, a música e o dress code têm de estar no ponto. A lista de convidados, essa, tem de ser perfeita.

Mix and match. Na verdade, nem precisamos de recuar até à extravaganza de Capote para encontrar comemorações maiores-que-a-vida. O Baile Surrealista dado por Marie-Hélène de Rothschild, em dezembro de 1972, foi um dos momentos mais grandiosos da década e os convites, pintados um a um por Salvador Dalí, foram impressos de trás para a frente num cartão azul-celeste e só podiam ser lidos através de um espelho. Foi pedido aos convidados, entre os quais se encontravam os duques Jaime e Claudine de Cadaval, que usassem máscaras surrealistas.

Já os 30 anos de Bianca Jagger no Studio 54, organizados por Halston, em 1977, foram a combinação perfeita de decadência e de glamour, com a ex-mulher de Mick Jagger a irromper pela memorável discoteca nova-iorquina montada num cavalo branco, qual Lady Godiva do século XX, restando o nu para o homem pintado de dourado que guiava o equídeo pela sala. Os jantares intimistas em casa do designer de moda Azzedine Alaïa, que juntavam o seu núcleo duro de amigos, tornaram-se um dos pontos altos da Semana de Moda de Paris.

Mais recentemente, em 2010, o 90.º aniversário da Vogue Paris foi uma das noites mais inesquecíveis do século XXI - um Masquerade Ball inspirado no filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. Em Portugal, lembramos as inesquecíveis festas dadas, em 1969, por Antenor Patiño, por Pierre e Maria da Conceição Schlumberger e pela família Vinhas, que atraíram celebridades como Audrey Hepburn, Gina Lollobrigida ou Zsa Zsa Gabor. Nunca se tinha visto nada igual e nunca mais se viu tamanho deslumbramento entre nós. Digno de citação é o oitavo aniversário da discoteca Lux-Frágil, em 2006, quando centenas de pessoas seguiram à risca o tema da noite, Fellini & Almodóvar.

O que é que todos estes eventos têm em comum? Uma mistura irrepreensível de convidados que atravessa géneros, idades e profissões. "Uma mistura de arte, arquitetura, moda, design, etc. Em última análise, a chave para uma grande festa é quando os bons amigos se reúnem. Os meus convidados de sonho seriam: Coco Chanel, Diana Vreeland e Jack Nicholson. Eu acho que seria uma combinação explosiva!", explicava, em tempos, Alexandra Carello, PR manager na Jimmy Choo, à edição online da Vogue UK. Além de juntar pessoas de diferentes backgrounds, é importante ter em conta as suas personalidades - extrovertidos e tímidos, grandes conversadores e excelentes ouvintes, dançarinos exímios e fumadores solitários. A exclusividade é o detalhe final: deve existir a sensação de que, apesar de o ambiente ser o mais relaxado possível, se faz parte de um clube muito restrito. Como sublinha Daniel Matos Fernandes, relações-públicas com uma larga experiência no mercado do luxo: "A guest list certa é tudo. A partir daí, qualquer festa pode, e deve, ser um sucesso." 

Está tudo nos detalhes. Qualquer que seja o motivo da celebração - aniversário, casamento, formatura, divórcio, um simples jantar de amigos -, existem pormenores que nunca falham. "Considero ser muito importante fazer com que os convidados se sintam especiais e honrados, mas também confortáveis", explica Eaddy Kiernan, diretor de Eventos Especiais da revista Vogue (como o Met Gala). "Nos seus jantares, a minha mãe serve sempre M&M’s nuns maravilhosos copos de cristal. As pessoas ficam surpresas ao ver algo mais casual e familiar numa peça tão elegante, mas acho que isso as deixa mais à vontade." Se os doces não fazem o seu género, pense em coisas práticas que podem tornar o ambiente mais acolhedor: velas, luz diminuta, flores frescas (pontos extra se forem colocadas nas casas de banho), um cocktail de boas-vindas (principalmente se for um evento de grandes dimensões).

Outro dos tópicos que muitas vezes negligenciamos é o próprio local da festa. É certo que hoje em dia quase toda a gente se transporta de táxi e outros meios de transporte semelhantes, mas será que ao organizar o seu casamento no meio de uma pradaria não deverá avisar os convidados das condições do terreno? Ou que o armazém incrível onde vai celebrar os seus 45 anos fica a 600 metros, a subir, longe da estrada mais próxima? Tudo isto são questões logísticas a ter em conta e que se podem transformar num pesadelo. 

Só nós 20 é que sabemos. Pequeno parêntesis para a época estival em que nos encontramos e que, muitas vezes, induz em erro o cidadão comum, confrontado com o tipo de celebrações majestosas que se publicam nas revistas e nas redes sociais: as melhores festas nem sempre são as mais "badaladas". Normalmente, não são. Há uma série de pessoas interessantíssimas que vivem completamente alheadas da exposição pública, resguardando as suas vidas fascinantes dos olhares de terceiros. Se não se deixam fotografar no supermercado, muito menos nos jantares que dão, em casa, onde tudo acontece "como nos filmes", do serviço de valet parking ao músico que toca piano. É nessas noites infinitas de que não há memória futura (pelo menos para a posteridade) que se juntam as roupas que dispensam hashtag e os famosos por direito próprio. Porque as coisas francamente boas não precisam de exposição. O mais normal é nunca ouvirmos falar de nenhuma destas festas… a não ser que sejamos um dos convidados.

Anfitrião à beira de um ataque de nervos. Entre as coisas que podem dar cabo da cabeça de quem organiza uma festa estão: a) o dress code; b) a comida; e c) a música. Quanto ao primeiro, tornou-se uma espécie de mito urbano que assombra os convites mais bem-intencionados. A menção do hábitual "casual chic" pode significar jeans e T-shirt para os mais descontraídos e vestido sem costas para as mais arrojadas. Há sempre quem acabe em pontas opostas da sala, de costas voltadas para quem está over ou under dressed. Por uma questão de respeito, é sempre elegante seguir o dress code - na dúvida, pergunte ao seu anfitrião o que significa "bohemian batgirl".  Não se esqueça que a roupa tem um poder transformativo e se estiver de acordo com o tema, sentir-se-á muito melhor. No que diz respeito ao menu, ligue o descomplicómetro. Ninguém está à espera de um cardápio digo de estrelas Michelin. Como referem os especialistas neste tipo de eventos, "a comida dever ser simples, mas simplesmente deliciosa".

Numa festa, as pessoas querem coisas simples - ninguém quer ser intimidado por uma carta gigantesca e com pratos "pesados". O objetivo é que todos se divirtam e isso significa estar "em condições" de dançar no fim da refeição. Por isso, nada melhor do que ingredientes sazonais e de fácil digestão. Se, por acaso, não tiver ajuda extra na cozinha, tente fazer o máximo de coisas na véspera. Pior do que não ter tudo pronto a tempo é ter um anfitrião stressado a receber os amigos!

Por último, a música. O segredo de uma playlist bem-sucedida vê-se na reação do público: se ouvir aqui e ali exclamações como "Oh, meu Deus,  o que eu costumava dançar esta música!" é porque fez um bom trabalho. Isto normalmente significa uma aposta em hits transversais a várias gerações. Se a tudo o que mencionámos juntar o infalível save the date (enviado, no mínimo, com três semanas de antecedência), garantimos-lhe que tem tudo para fazer o próximo Black and White Ball.

Luísa Jeremias, diretora da FLASH!
Planeta Cor-de-Rosa ‒ Confissões de Uma Diretora de Revistas de Sociedade (Casa das Letras, 2018)
Luísa Jeremias, diretora da FLASH!
Planeta Cor-de-Rosa ‒ Confissões de Uma Diretora de Revistas de Sociedade (Casa das Letras, 2018)
Luísa Jeremias, diretora da FLASH!
A propósito de festas (quase) perfeitas…
 
A propósito de festas (quase) perfeitas…
No mundo dos ricos e famosos, que apreciamos nas páginas das revistas e nos sites da especialidade, o glamour parece ser a palavra de ordem. Será que é mesmo assim? "Festa boa tem de ter boa música, muita bebida, drogas e putas. Sem isso, não é festa!" As palavras são de Ricardo Amaral, um dos gurus da noite do Rio de Janeiro, nos anos 70, citado por Luísa Jeremias, diretora da FLASH! (integrante do grupo de media a que a Máxima pertence), no seu livro Planeta Cor-de-Rosa - Confissões de Uma Diretora de Revistas de Sociedade (Casa das Letras, 2018). 

Ao longo de pouco mais de 200 páginas, a jornalista relata uma série de pormenores que destroem o mito do mundo perfeito e imaculado dos VIP: dos milhares de euros gastos em garrafas no Cavalli Club, no Dubai, e da orgia de sentidos no baile de carnaval do Copacabana Palace à vida social ultraelitista na Praia do Pego (Comporta), passando pelos almoços infinitos no restaurante Gigi e nas noites no T-Clube, onde ainda é possível dançar como nos velhos tempos.

Destaque para o capítulo três, onde Luísa se serve da sua imensa experiência para explicar o fenómeno dos "papa-festas" e do "social-croquete": "Há de haver uma razão qualquer, um trauma de infância, um castigo na escola, um biberão que foi arrancado antes de tempo ao bebé, que explique, no divã de Freud, o que fez tanta gente querer ser fotografada, aparecer, querer ser convidada para festas (tantas vezes), enfim, ser famosa ? à sua maneira." Está encontrado um dos livros para descontrair à beira-mar. E com festas por perto…
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