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Tem a certeza que quer desligar?

Num universo veloz, onde as cabeças vivem mergulhadas em dispositivos electrónicos e o mundo real começa a perder relevância, a urgência de parar e viver ganha proporções clínicas. O momento é de desconectar, seja através de um detox digital, seja por via de um mero shut down. Isso e voltar a ser humano.
Por Pureza Fleming, 20.03.2018

Tenho uma amiga que, sempre que o tema das redes sociais vem a propósito, proclama a peito cheio e com um certo tom de superioridade: "Eu não tenho nada disso". "Disso" entenda-se Facebook e Instagram. A discussão, invariavelmente, instala-se com o contra (a postura brilhante da minha amiga) a vencer por 10 a zero. Outro dos meus poucos amigos que se intitula de info-excluído, já que não possui conta em alguma destas digital lands, confessava-me que havia mulheres que achavam sexy a ausência dele nessas redes. Talvez, ponderávamos, por criar uma certa aura de mistério em torno da pessoa. Afinal, nos dias que correm, não há caminho mais fácil do que o Facebook ou o Instagram para se saber mais acerca de alguém, esteja esse alguém na mesa do lado no café ou no outro lado do mundo. Mas estes meus amigos são a excepção à regra. De acordo com números publicados no Dinheiro Vivo, só em Portugal existem cerca de 800 mil pessoas a aceder, diariamente, ao Instagram,  (via smartphone) que, até à data, continua a perder para o Facebook, líder das redes sociais. Relativamente à comunidade dos excluídos — como os meus dois amigos —, as opiniões dividem-se: há quem considere ridícula esta posição dos que dizem, à boca cheia, que estão out das redes — no fundo, comenta-se, há naquela atitude um certo "género", um querer ser-se diferente da forma mais cool que é possível, na actualidade; os que acham pré-histórico estar-se assumidamente offline; ou, ainda, quem julgue apenas desnecessária essa ausência. É que usadas com moderação, ou seja, com pés e cabeça, as redes sociais podem muito bem ser uma mais-valia na vida das pessoas: "Tanto nos meios profissionais como pessoais, se utilizada com limites, a internet é uma ferramenta útil à vida. Bom senso e noção de filtroo, porém, essenciais".  As palavras são do psicólogo António Tomás que me confirmou, logo no romper da conversa, que apesar das muitas benesses do mundo digital, nem tudo é um mar de rosas. Tal como na vida em geral, o equilíbrio é fundamental.

A obsessão pelas selfies

O mundo virtual pode ser muito aliciante, na medida em que se pode ser quem se quiser e mostrar apenas o que se quer. O problema é que neste mundo fantástico do on-line, muitas vezes perde-se a noção dos limites entre o privado e o público. E é,  então, que as muitas complicações começam a surgir. "O abatimento, cada vez maior, fruto da comparação entre vidas é uma constante, por exemplo", explica aquele psicólogo. "Na ausência de uma linha que separa a vida privada da pública, há quem não entenda que grande parte do que acontece on-line não passa de uma encenação criada pelo utilizador. É comum haver aquele tipo de pessoa que documenta ‘tudo e mais um par de botas’ do que se passa na sua, por norma idílica, vida. É, então, que neste contexto começam a surgir as comparações do género a vida dela é muito melhor que a minha’ que, rapidamente, desencadeia renhidas competições". No fundo, cria-se uma maratona entre quem tem a vida mais, digamos instagramável. O pior é que na escalada de abatimento - porque não se consegue competir com a vida (tantas vezes ilusória) de X ou Y - , o mais comum é terminar tudo em depressões. Estas que, por sua vez, vão sendo preenchidas com o dia-a-dia alheio, dão início a um círculo vicioso que pode durar horas e horas e em que o voyeurismo dá lugar à tristeza e vice-versa. Num Portugal que se encontra entre os cinco países da Europa que mais anti-depressivos consome, a existência de um mundo paralelo virtual acessível a todos, leva a outro problema de dimensões preocupantes: a solidão. De acordo com António Tomás, as maleitas que os pacientes viciados no mundo digital apresentam prendem-se, essencialmente, com "o isolamento sócio-afectivo, resultado do mundo paralelo criado a partir das pequenas janelas dos dispositivos." "Isto - elucida -  para não falar nas sérias dificuldades em conseguirem substituir os relacionamentos que estabelecem no mundo virtual pelas relações na vida real".

Paralelamente à questão do isolamento, e não menos crítico, está a obsessão com a imagem. Para exemplificar a "vaidade" nacional, aquele psicólogo evoca o facto de Portugal deter um dos parques automóveis mais actualizados da Europa. E explica que num País que vive da imagem, "as redes sociais voltam a vestir o papel de ‘papão’, desta vez provocando um aumento substancial nos casos de doenças de cariz psíquico ligadas à imagem". Refere-se a problemas como a anorexia nervosa ou à ortorexia, assumindo-se, esta última, como o mais recente transtorno que resulta da actual obsessão alimentar que vem ganhando forma nas redes sociais, através de imagens de pratos exemplares ou de hashtags célebres no meio, tais como #eatclean (46 015 173 publicações), ou #mybody (348 594 publicações). Outro dos termos que já fez correr muita tinta em torno das doenças mentais, causa ou consequência das redes sociais, é a controversa selfie. "Há - como elucida António Tomás - uma linha muito ténue que separa o acto de tirarmos uma fotografia a nós próprios porque estamos, por exemplo, no Machu Picchu e queremos registar um momento para a vida, da ideia de todos os dias — às vezes, a todas as horas — estarmos de telemóvel em punho a fotografar-mos-nos para o mundo". E insiste: "Criar uma narrativa ininterrupta via selfie pode, muito bem. tornar-se numa patologia".

Telemóveis e iPads: os novos babysitters

É um cenário comum o que passo a descrever: famílias ou grupos de amigos chegam a restaurantes ou às casas uns dos outros para um agradável serão. As crianças, derivado da sua naturalmente irrequieta natureza, começam a fazer das suas. O mesmo implica birras ou correrias desenfreadas e barulhentas e o caos instala-se devido à falta de paciência e de atenção dos progenitores. Imediatamente e de forma mecânica, recorre-se às carteiras de mão, retiram-se delas os telemóveis (quando não é o iPad que já lá estava com esse intuito) e sossegam-se as crianças entregando-as à prostração das imagens que saltam dos ecrãs à velocidade da luz, repletas de cores que cegam e viciam. Paralisadas as crianças, o sossego instala-se, finalmente. Atire a primeira pedra o progenitor que nunca recorreu a esta técnica. O psicólogo António Tomás considera todos esses dispositivos  como sendo "os babysitters da actualidade". "Não se pode passar a vida a repreender os filhos por quererem passar horas agarrados às máquinas  - sublinha -  , quando são os pais os primeiros a empurrá-los para as mesmas, nas alturas em que lhes dá jeito. É importante, sim, que se criem relacionamentos mais genuínos. Tal como os pais mostrarem-se interessados naquilo que os filhos vão dizer. Ou fazerem-se programas entre pais e filhos que deixem a tecnologia longe deles. As regras são fundamentais e estas passam por proibir a existência de dispositivos à hora das refeições (que devem ser feitas à mesa, em família), assim como impor limites de horas".  Nick Bilton, colunista do The New York Times, conta numa peça publicada, em 2014, que certo dia, em conversa com Steve Jobs a propósito do lançamento do primeiro iPad, lhe perguntou: "Os seus filhos devem adorar o iPad, certo?". A resposta do então co-fundador, presidente e director executivo da Apple provocou silêncio. Primeiro ao jornalista, depois aos demais leitores: "Eles não o têm utilizado", disse. "Em nossa casa, o uso de tecnologia é limitado ao máximo". Além de Jobs, aquele  jornalista falou com uma mão-cheia de outros chefes executivos de empresas ligadas às tecnologias, tais como Chris Anderson, ex-editor do Wired e chefe executivo da 3D Robotics, marca que cria drones; Alex Constantinople, chefe-executivo da OutCast Agency, empresa de marketing e comunicação focada em tecnologia; ou, ainda, Evan Williams, fundador do Blogger, Twitter e Medium, e a sua mulher, Sara Williams. A resposta foi unânime: impõem regras muito restritas na hora da utilização e por regras muito restritas  entenda-se a quase ausência de aparelhos, em casa. Parece ser contraditório, mas não é: " Os meus filhos acusam-me e à minha mulher de sermos fascistas e excessivamente preocupados com a tecnologia e dizem, ainda, que nenhum dos seus amigos vive com as mesmas regras", contou Chris Anderson, acerca dos seus cinco filhos, com idades compreendidas entre os seis e os 17 anos. "Mas só fazemos isto porque vimos os perigos da tecnologia em primeira mão. Vi isso em mim e não quero assistir ao mesmo com meus filhos ". De resto, na entrevista a Melinda Gates, publicada no anterior número da Máxima, a mulher de Bill Gates e uma das mulheres mais ricas e poderosas, confidenciou, a determinada altura: "A hora do jantar é de importância vital: sentamo-nos todos à mesa, sem telemóveis."

Detox Digital: parar não é morrer

"Quem não é visto, não é lembrado". Este ditado popular com raíz em Out of sight, out of mind, proferido pela minha irmã, surgiu no seguimento de uma conversa em que eu lhe contei que tinha decidido ficar, por uns tempos, sem Facebook e sem Instagram. Encontrava-me numa daquelas fases de mudança de vida em que, na verdade, apetecia-me "desligar" , pelo menos digitalmente. Ouvi as palavras dela e até as entendi, mas não sucumbi. Estive cerca de três meses sem acesso a redes sociais e, muito sinceramente, não senti falta alguma. Acontece que nem sempre é assim, sobretudo se se tratar de alguém com um diagnóstico de vício. "Tal como as drogas e o álcool, o abuso das redes sociais provoca uma adição que é resultado da sensação de se estar a sentir coisas continuamente", alerta  António Tomás. "Quando se quebra com este hábito de gratificação que surge, por exemplo, através dos números de likes, ou com a tendência obsessiva de se estar em constante contacto com o mundo, há uma ruptura nos níveis de dopamina [uma das substâncias da felicidade libertada pelo cérebro]. Tal como a tóxico-dependência, sempre que recebemos uma nova mensagem ou qualquer alerta, o nosso cérebro recebe um golpe de dopamina. A novidade torna-se, assim, aditiva. Dar um tempo ao mundo digital — sobretudo em casos de dependência —, não só é positivo como absolutamente necessário. A Forbes americana apontou num artigo as 30 razões pelas quais se deve fazer um detox digital. Entre elas: para viver a vida no seu pleno sem as distracções constantes das notificações; para ler, caminhar, cantar, dançar e fazer aquilo que apetece fazer; ganhar mais tempo para si (quantas vezes, na hora de dormir, dá por si e está há uma hora a fazer scrolling no Instagram em vez de estar a descansar?); para respirar fundo; para se tornar mais produtiva (não à procrastinação provocada pelo Instagram); porque toda a gente está a fazê-lo (#digitaldetox); para criar uma nova e mais saudável relação com a tecnologia; para ver as coisas com mais clareza e fazer melhores (e mais ponderadas) decisões. Enfim, para se recordar que estar no momento presente é, mesmo, o mais importante. Para quem a força de vontade ainda não é suficiente e desconectar na azáfama do dia-a-dia ainda se assemelha a uma tarefa impossível de realizar, já existem espaços que dão uma ajuda. Em Portugal e noutros países, deparamos com lugares públicos que ostentam, nas suas respectivas línguas, a jocosa frase "Não temos wifi, convivam entre vocês". Em Aljezur, por exemplo, na guest house Offline Portugal, os hóspedes têm de abandonar os seus dispositivos no momento do check-in, só os recuperando na hora da saída. Sob o lema "Disconnect To Reconnect", a ideia dos proprietários daquela guest house é permitir que os seus frequentadores se conectem consigo próprios e com a natureza que rodeia aquele espaço. O mais provável é que, depois de se voltar a observar um pôr-do-sol sem a urgência de ter de o partilhar digitalmente, nunca mais se volte a ter dúvidas perante a questão "Tem a certeza que quer desligar-se?".

Tags: redes sociais comportamento detox digital instagram facebook
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