Culturas

Ser ou não ser da classe média

Qual é o verdadeiro poder das classes médias portuguesas? Como evoluíram as mulheres destas classes ao longo das últimas décadas? Quão complexo e debatível continua a ser este conceito? De uma perspetiva feminina, conversámos espontaneamente sobre o tema com Lígia Ferro, uma das autoras do recente livro As Classes Médias em Portugal: Quem são e como vivem.
Por Rita Silva Avelar, 30.03.2020

No segundo livro da célebre tetralogia Duas Amigas da escritora italiana Elena Ferrante, História do Novo Nome, Raffaella Cerullo (ou Lila) e Nino Sarratore, duas das mais importantes personagens da narrativa que se desenrola nos empobrecidos subúrbios de Nápoles, nas décadas de 1940 e 50, entram num diálogo que alude, de um modo ligeiramente contestatório, ainda que inocente, àquilo que era a ausência de uma classe sólida e equilibrada que se situasse, "mais ou menos", entre os ricos e os pobres. "Os que estão em baixo querem ir para cima, os que estão lá em cima querem ficar lá em cima e de uma forma ou de outra acabam sempre por se pegar", diz Lila, acabando por questionar Nino se a solução seria "levar todos para cima ou todos para baixo", ao que aquele lhe responde: "Encontrando um ponto de equilíbrio entre as classes." Lila riposta: "As classes não jogam à bisca. Fazem a luta."

A verdade é que só após a II Guerra Mundial e depois dos Trinta Gloriosos do século passado (de 1945 a 1975) é que as classes médias conheceram o seu apogeu, mas não sem antes passarem por um período de declínio e de empobrecimento, como explicam os autores Lígia Ferro, João Teixeira Lopes e Francisco Louçã no livro As classes médias em Portugal: quem são e como vivem (Bertrand Editora). A recente publicação fecha a trilogia iniciada por Os Burgueses (de 2014) e seguida de As Classes Populares (de 2017), da Bertrand Editora. "Desemaranhar" a teia de confusões sobre a génese das "classes médias" foi um dos propósitos do primeiro capítulo que evoca pensadores e filósofos, alternando as suas conclusões com factos específicos que ajudam a esclarecer o conceito que continua a ser complexo e, acima de tudo, mutante.

Impossível não citar uma das frases eleitas pelos autores e pertencente ao aristocrata francês do século XIX Alexis de Tocqueville (Paris, 1805 – Cannes, 1859), que sumariza a ideia que traduz a corriqueira troca de palavras acima mencionada na novela italiana que, ainda que literária e ficcionada, assenta na realidade daqueles anos em certos bairros napolitanos. Tocqueville descrevia assim as classes médias: "Sem dúvida que não vivem satisfeitos, mas mantêm com ardor inigualável o desejo de enriquecer, embora esse desejo tenda a permanecer dentro dos limites necessários porque o facto de viverem numa situação de relativo conforto, que é tão afastada da opulência como da miséria, leva-os a atribuir aos seus bens um preço imenso (…). Como ainda estão muito próximos da pobreza, veem de perto os seus rigores e temem-nos; entre ela e estes não mais há do que um pequeno património sobre o qual fixam imediatamente os seus temores e as suas esperanças."

É uma definição que perdura no tempo. Mas houve, naturalmente, outros pensadores (dissertou-se com abundância sobre o tema e com mais afinco ao longo do século XIX) a referir-se a estes setores sociais, como Thomas Gisborne, Karl Marx, Friedrich Engels ou Jean Jaurès e, ainda mais tarde, George Bernard Shaw e H. G. Wells, mencionados por aqueles autores no livro recém-publicado. Em Portugal, a reflexão sobre as classes médias atrasou-se comparativamente a outros países e é também em torno dessa ideia que os autores se debatem num primeiro capítulo. Mas deixemos essa descoberta de referências, por sinal incríveis e plenas de conhecimento, para o leitor.

À luz da atualidade e do contexto da sociedade portuguesa e em entrevista com Lígia Ferro, professora auxiliar do Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e atualmente vice-presidente da Associação Europeia de Sociologia (ESA), fomos à procura de factos concretos: como se definem as classes médias portuguesas, quem se inclui nelas e que padrões de comportamento a ela se associam. E, sobretudo, como evoluíram sociológica e profissionalmente as mulheres desta classe.

Como é que se deu a ascensão das mulheres na evolução das classes médias portuguesas?
Antes do 25 de Abril de 1974, o lugar das mulheres era em casa, onde tratavam dos filhos e faziam a lida doméstica. A ascensão das mulheres enquanto elementos ativos da vida pública só se dá, verdadeiramente, depois da Revolução dos Cravos e aqui sempre remetendo para o contexto português. Só a partir dessa altura é que as mulheres entram no mercado de trabalho de forma massificada. O que aconteceu foi que as mulheres acumularam o trabalho fora de casa com o trabalho dentro de casa e a verdadeira partilha do trabalho doméstico é algo que só muito recentemente veio ao centro da discussão pública.

Essas assimetrias continuam a refletir-se de forma brutal nos salários?

As mulheres portuguesas investem imenso nas suas qualificações e na sua especialização e constituem, hoje em dia, a grande maioria da população estudantil universitária [cerca de 32% das mulheres da população portuguesa estão no ensino universitário contra apenas 19% de homens]. Além desse dado, as mulheres também têm mais sucesso na escola [e há muitos estudos que o comprovam], apresentam taxas de abandono escolar muito inferiores às dos homens, contudo as mulheres auferem salários mais baixos do que os homens. Apresentam maior vulnerabilidade ao desemprego e menos possibilidades de progredir na carreira.

A este problema continuam a juntar-se outros que desfavorecem a posição laboral das mulheres destas classes?

Sim. Inclusivamente, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, através do Gabinete de Estratégia e Planeamento, publicou um estudo a propósito do Dia da Igualdade Salarial, a 8 de novembro [de 2019], indicando que as mulheres em Portugal continuam a ganhar menos 14,8% que os homens. Além disso, a diferença salarial entre homens e mulheres aumenta à medida que subimos e estreitamos a pirâmide de rendimentos e também é mais acentuada nos níveis de escolaridade mais elevados, diminuindo essa diferença salarial nos níveis de escolaridade mais baixos. Em 2018, existiam aproximadamente mais de 16 mil mulheres do que homens em situação de desemprego e no conjunto de trabalhadores que auferem o salário mínimo nacional, as mulheres têm maior peso que os homens. Isto quer dizer que quanto mais classificada é uma mulher, maior será a diferença entre o seu salário e o de um homem com a mesma condição. Estes são dados estatísticos objetivos, não são opiniões. As mulheres das classes médias enfrentam estas estatísticas, com a agravante de também acumularem trabalho doméstico não pago. A isto acrescentamos as tarefas relacionadas com a educação dos filhos que continuam a ser tradicionalmente vistas como da competência das mulheres. Se, em geral, a vida de alguém que pertence às classes médias não se encontra propriamente facilitada e se essa pessoa for uma mulher, então as dificuldades aumentam ainda mais.

Num âmbito geral, quão complexo continua a ser o conceito "classes médias" no contexto português? E o que se pretendia com este livro, de forma genérica?

O livro é, essencialmente, um retrato social da sociedade portuguesa que fomos adiando por causa da complexidade do termo classes médias que, no fundo, abrange uma grande diversidade social e económica. Sem descurar essa heterogeneidade e complexidade, nós conseguimos encontrar umas coordenadas que nos permitissem refletir sobre as classes médias em Portugal. Por outro lado, é um termo que é muito vago na disputa política. É um termo alvo de disputa da perspetiva ideológica. Mas algo que encontrámos e que eu julgo ser interessante, prende-se com o facto de um estudo recente realizado pela OCDE indicar que apenas um terço dos portugueses se posiciona como pertencendo às classes médias. Isto revela que há uma forte consciência individual dos constrangimentos, das próprias perdas e das vulnerabilidades que os cidadãos têm vindo a sentir nos últimos anos, desde a crise, mas que no fundo perduram. Indo além da disputa político-ideológica, a nossa intenção foi ir ver, através de estatísticas e de depoimentos, quem é que são estas pessoas que pertencem às classes médias e como vivem (…) para podermos falar com propriedade do tema.

Sem ser à luz do contexto português, quais foram as consequências da recessão iniciada em 2007 e posteriormente com a troika para estas classes?

No estudo percebemos que, de facto, as classes médias estão objetivamente comprimidas e que isso se deve, em grande parte, à crise económica. O relatório da OCDE, publicado ainda este ano, refere que demoraria aproximadamente 150 anos até que uma criança de famílias com menores rendimentos conseguisse chegar aos níveis médios de rendimento com condições parecidas com as atuais. Este dado revela que a crise implicou uma perda de proteção social, um enfraquecimento de vínculos laborais, a degradação dos serviços públicos que nós conhecemos e também uma grande quebra de rendimentos. Nos últimos 30 anos, as classes médias estagnaram e tudo acontece atualmente como se o elevador social estivesse avariado. A expectativa das classes médias é cada vez menor e a mobilidade social está a estagnar porque aumentaram os custos do estilo de vida, da educação superior, da saúde, da habitação e com os preços a crescer mais do que a inflação. Por outro lado, as classes médias perderam influência porque diminuiu, também, o peso dos rendimentos médios no rendimento global. E, claro, as oportunidades de alcançar a classe média decresceram para as gerações mais novas e aumentou o perfil de competências necessário para o fazer.

Como se traduz essa situação para a realidade dos jovens de hoje que veem os seus sonhos de vida, como a aquisição de propriedade, "congelados"?

Existe um aumento do risco de geração de sentimentos de incerteza, de vulnerabilidade, de ansiedade, em grande parte devido aos riscos efetivos de perda de postos de trabalho. E tudo isso contribui para essa incerteza. Por outro lado, os dados do Eurostat, de 2018, também apontam para uma clara tendência para o risco de mobilidade descendente ao nível dos rendimentos. No nosso estudo, nós verificámos que é evidente a dificuldade em lidar com despesas financeiras inesperadas e no que diz respeito aos jovens, e devido à precariedade, permanecem muito mais em casa dos pais e até muito mais tarde. Na casa dos 18 aos 24 anos, temos 88% dos nossos jovens a permanecer na casa dos pais contra 79% (aproximadamente) de média europeia, mas a diferença ainda é maior para os jovens que estão na casa dos 25 aos 34 anos: 45% deles permanecem em casa dos pais para apenas 28% da média europeia. É uma percentagem altíssima e não digam que isso se deve à nossa cultura familiar católica porque, obviamente, as pessoas preferem ter a sua independência.

A instrução e a categoria profissional continuam a ser variáveis com muito peso nesta definição?

As classes médias em Portugal são as que estão nos 40% dos rendimentos mais baixos no conjunto dos países europeus, ou seja, têm recursos monetários muito modestos, têm acesso limitado aos lazeres e ao consumo, e a grande diferença é que são indivíduos muito mais escolarizados do que há 30 anos. E apostam na educação sempre numa lógica de constituição de recursos contra uma eventual desclassificação social e nós sabemos que a escola desempenha um importante papel na mudança de estatuto social. Mas vemos que em Portugal se continua a verificar uma grande correlação entre o estatuto socioeconómico e o desempenho escolar. O que é que isto quer dizer? Que apesar de todo o investimento feito, a escola não consegue contrariar a reprodução social de forma generalizada. Mesmo que a geração mais jovem tenha mais qualificações e mais especialização, isso não é garantia de uma posição mais estável e bem remunerada no mercado de trabalho e com segurança laboral. Isto é, apesar de esta nova geração ter investido nos seus estudos, esse investimento não tem uma correspondência na posição social que os indivíduos ocupam. Volto a reforçar: tudo funciona como se o elevador social estivesse avariado.

Como é que se poderia solucionar essa avaria, por assim dizer?

Sem dúvida que é preciso criar mecanismos de redistribuição de riqueza, através dos salários, mas também apostar na melhoria dos serviços públicos, principalmente ao nível da saúde. Temos assistido a uma degradação paulatina dos serviços de saúde, inclusivamente afetando diretamente as famílias. Veja-se o caso das urgências pediátricas que se encontram em risco. Há uma série de serviços públicos que se têm vindo a degradar, desde a crise, e que é preciso recuperar, manter e promover. É preciso investir um pouco ao nível da segurança laboral porque, de facto, a existência de contratos a termo ou de trabalhos com "falsos" recibos verdes, que ainda existem, e o facto de não se garantir uma progressão e uma estabilidade num contexto de trabalho gera muita incerteza e não permite às pessoas ter estabilidade emocional.

O que acontecerá a estas classes médias, frágeis e empobrecidas, caso nos depararmos com uma nova crise?

Sabemos que apesar de os nossos indicadores estarem positivos, para já, isso se deve muito a um fator volátil que é o Turismo. Mas, por outro lado, nós temos uma conjuntura internacional que não augura nada de bom, pelo menos os mercados internacionais não estão muito confiantes no desenvolvimento das economias. Poderá acontecer enfrentarmos uma nova crise económica generalizada. Nesse caso, seria preciso existir uma maior estrutura e um país que tivesse as suas camadas médias com mais qualidade de vida e com mais satisfação laboral, uma correspondência maior entre aquilo que é a sua formação e o seu esforço investido no percurso e aquilo que é a sua posição profissional. E, também, uma maior capacidade humana para enfrentar adversidades porque quando as pessoas estão satisfeitas e realizadas profissionalmente, e a ciência tem-nos mostrado isso, têm muito mais capacidade de pensar criativamente em situações adversas.

Sendo a classe média a classe com mais poder, qual é o seu verdadeiro poder?

Essa aceção de que a classe média tem realmente poder é algo que se constrói muito no discurso político dominante. E como é um termo que está no centro da discussão político-ideológica, muitas vezes esse discurso político dominante tende a conferir o poder às classes médias que elas, efetivamente, não têm. Primeiro porque se encontra extremamente "emagrecida" e, depois, porque apenas um terço dos portugueses também se posiciona como pertencendo as estas classes. Para que as classes médias tivessem mais poder e mais protagonismo na história do nosso país, teriam de ser reforçadas; seria preciso, por exemplo, dar às pessoas condições de trabalho e de residência, mas estamos também a assistir à crise da habitação em Lisboa e no Porto, especialmente, entre tantas outras.

Em síntese, o que é que divide, efetivamente, as classes médias?

Condições objetivas de vida, como o rendimento e a propriedade, mas também as credenciais escolares e o capital social e cultural. Existem também estratégias simbólicas de identificação e distinção social que dividem as pessoas que formam parte deste grande conjunto social. Algumas tendem a procurar pontos de contacto com estratos sociais mais elevados e outras há que, pertencendo às classes médias, se autoidentificam como membros das classes populares. De certo modo, este facto deve-se à incorporação dos efeitos negativos da crise económica que implicou a perda de apoios sociais, uma degradação da qualidade de vida das classes médias no nosso país e um efeito de descrença na melhoria das suas condições sociais e económicas.

O que é que contribuiu para uma nova classificação das classes médias que não integre apenas o rendimento, mas outros elementos como a cultura, a instrução, o estilo de vida, por exemplo?

Nas ciências sociais e, em particular, no âmbito da sociologia, o conceito de classe envolve sempre a consideração de outros capitais que não apenas o económico. O capital cultural e o capital social, por exemplo, são elementos fundamentais de classificação social, simultaneamente objetiva e simbólica.

Numa visão mais concisa, poderemos dividir as classes médias em classe média-alta, classe média-média e classe média-baixa ou essa divisão não tem sentido em termos mais rigorosos?

O conceito de classes médias engloba uma grande diversidade de atores, de condições e de estilos de vida. Contudo, sabemos que segundo o já mencionado estudo da OCDE, apenas um terço dos portugueses se identifica como parte integrante das classes médias. A estrutura social portuguesa encontra-se polarizada entre a burguesia e as classes populares. No âmbito das classes médias, encontramos situações de vida objetivas, tal como estratégias simbólicas que aproximam ou tentam aproximar algumas das suas franjas para cima (burguesia) e para baixo (classes populares).

Para terminar: pode traçar-nos, de um modo sucinto, um retrato-robô de uma mulher pertencente à classe média-alta, à classe média-média e à classe média-baixa?

Neste livro, nós não aprofundámos a dimensão de género. Contudo, podemos dizer que quando pensamos as condições e as oportunidades socioeconómicas das mulheres deveremos ter em conta a sua pertença de classe, a qual introduz variações importantes na vivência de género. Apesar disso, é bom lembrar que ser mulher em Portugal, independentemente da sua classe de pertença, implica ser relativamente mais vulnerável ao desemprego e à precariedade laboral devido a situações de gravidez e maternidade, por exemplo, ter menos oportunidades de progressão na carreira profissional e, muito provavelmente, uma remuneração mais baixa. Portanto, a pertença a um estrato social mais elevado não elimina por completo as desvantagens sociais de se ser mulher, não apaga inequivocamente os efeitos negativos da desigualdade de género.

Tags: classe média artigo sociedade clases médias portuguesas portugal lígia ferro sociologia mundo
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