Festival Vodafone Paredes de Coura

Sensible Soccers: "É complicado viver da música quando não se fazem refrães cantarolantes"

Com uma plateia cheia, e antes do concerto de Patti Smith, os portugueses Sensible Soccers levaram sons mágicos e evasivos ao palco Vodafone Fm. Antes disso, conversaram de forma amistosa com a Máxima.
Por Rita Silva Avelar, 20.08.2019

É um dos discos portugueses mais bem recebidos do momento e foi um dos mais aplaudidos e esperados no último dia do festival Vodafone Paredes de Coura. Falamos do recém-lançado Aurora, uma brilhante composição do colectivo Sensible Soccers, atualmente composto por Hugo Gomes (teclas), Manuel Justo (teclados e sintetizador) e André Simão (baixo e ‘drumpads’) e também Sérgio Freitas (teclados e sintetizadores) e Jorge Carvalho (percussão) em concertos. Produzido por B Fachada, o disco foi gravado em dezembro do ano passado, em regime de residência na Casa do Soto (Arouca). Descontraídos, otimistas e risonhos, assim como a sua sonoridade, é assim que encontramos os três para uma conversa antes do concerto no palco Vodafone FM.

Qual é a história da fundação dos Sensible Soccers?

Hugo: Os Sensible Soccers passaram por várias fases, a primeira dura pouco tempo, por volta de 2010, demos os primeiros concertos como trio, depois decidimos avançar com uma banda e aí já como quarteto fizemos o nosso primeiro EP, lançámos um segundo EP e gravámos o primeiro disco, que era o 8. Nessa altura começámos a dar concertos pelo país fora e a entrar no circuito dos festivais e nos alinhamentos normais de bandas portuguesas. O 8 foi um disco bem recebido, com alguns prémios de disco do ano. Nessa altura saiu o nosso baixista, o Emanuel [Botelho] e o Simão começou a fazer parte da banda. Lançámos em 2016 o Villa Soledade, o nosso segundo disco, que foi relativamente simples de fazer e manteve o que já tínhamos estabelecido – cada música é de uma nação e trocámos as voltas às pessoas com aquilo que fomos fazendo ao vivo. Depois desse disco sai o nosso guitarrista Filipe Azevedo e com essa saída o baixo passou a ser a voz principal, responsável pelas linhas melódicas que eram feitas pela guitarra com outra textura. Passámos a ter percussionista, que é o Jorge Carvalho, e mais um conjunto de teclados tocados pelo Sérgio Freitas. Começámos a tocar juntos, preparámos a banda para tocar ao vivo num concerto que aconteceu no Boom Festival em 2018, e nessa altura já estávamos a fazer músicas novas que fazem parte deste disco, o Aurora.

Sentem que este disco foi uma espécie de renascer?

Manuel: Nós tentamos fazer isso de música para música e de disco para disco, mas neste caso também foi uma necessidade, porque ficámos sem a guitarra. Naturalmente a primeira decisão que tomámos foi a de que não iriamos ter guitarra, uma voz solitária que pairava por cima das nossas músicas e que dividimos por um coro de mais sintetizadores e com o baixo a invadir o espaço da guitarra, o que gerou misturas completamente novas. Aliás, até as nossas personalidades e a nossa forma de trabalhar foi muito diferente porque foi a primeira vez que trabalhámos os três e isso nota-se nas músicas, que são mais verticais.

André: Há uma coisa que acho ser importante, que é o facto de apesar de sermos indivíduos com gostos musicais diferentes e algumas derivas, este disco foi muito mais à volta das coisas que nos uniam e menos à volta das coisas que nos separam - que também surgem no disco - mas no final sentimos que tínhamos um disco muito colorido e muito diverso, resultado das nossas diferenças. Neste processo um bocado esquizofrénico, intensivo, extensivo, chegámos ao fim e tínhamos um disco.

Porquê Aurora?

Manuel: na verdade era o nome de uma música, e importa dizer que isso foi tudo decidido no fim. Nós pensámos acerca do que era o disco muito no fim de o fazermos, e como o juntámos.

Hugo: durante a gravação do disco só há música, e no fim tentamos perceber o que é que aconteceu. Desta vez pensámos em chamar ao disco Aurora, até sugerido pelo [André] Simão, um pouco porque transmitia a ideia de recomeço mas também de amanhecer. E se até agora a nossa discografia era mais cinzenta e melancólica, esta era mais bem-disposta.

André: E depois tinha umas certas referências engraçadas às auroras boreais, essa coisa psicadélica, e também porque é um nome feminino. 

Como é que se proporciona produzir com o B Fachada?

Hugo: Isso acontece porque mudámos o nosso método de trabalho para este disco, até agora estávamos confortáveis, gravávamos a maior parte das nossas coisas em casa (…) como trabalhámos extensivamente neste disco, que demorou um ano e meio a fazer, era muito importante haver uma voz externa que olhasse com algum distanciamento para as músicas e tivesse opiniões pertinentes acerca das mesmas. Era importante que fosse alguém em cujo bom gosto confiássemos, com elegância, talento e sobretudo  qualidade como produtor – e reconhecemos tudo isso no B Fachada. Queríamos que trouxesse a doçura que lhe é caraterística, e a capacidade de conjugar a parte eletrónica com a parte orgânica.

Sentem que os portugueses estão mais predispostos a ouvir discografias mais experimentais?

Manuel: Sim, claro. Proliferam bandas por todo o lado e as coisas são imediatas, chegam a Portugal assim que nascem nos Estados Unidos, em Inglaterra ou em qualquer outro sítio, há mais informação e as pessoas ouvem muito mais. Naturalmente estão com maior apetência para ouvir e interiorizar coisas novas.

André: E eu acho que há assim um encontro meio cósmico entre o próprio momento do país (e nós somos crianças dos anos oitenta e noventa) e o facto de à nossa frente ou atrás de nós haver gerações que já pensam de maneira diferente. Isto tudo juntamente com as redes sociais, que mudaram as regras. Nos anos 2000 houve uma espécie de liberdade total, e a relação das pessoas com a música é muito mais madura.

Hugo: É muito mais aberta. As pessoas antes olhavam para géneros como o experimentalismo, para o noise ou para o jazz como uma coisa esquisita e não aceitavam muito bem, nem davam hipótese. Agora dão oportunidade porque também há bandas pop a integrar esses elementos nas suas músicas.

Manuel: Acho que nós somos muito pop e acho que é isso que nos traz uma grande aproximação com o público. (…) Ou seja, apesar de as nossas músicas não terem voz dão todas para cantarolar, e isso faz muita diferença. Foi uma coisa que nos surpreendeu desde o início e que nos continua a espantar porque não é fácil as coisas continuarem cool e na moda durante uma década e as pessoas continuam a estar connosco da maneira que estavam.

André: Está tudo muito diferente, e antes as pessoas procuravam muito aquilo que vinha contra elas. Há pouco falávamos de uma edição de Paredes de Coura que tinha como cabeças de cartaz os Nickelback, os Korn e os Queens of The Stone Age, hoje em dia as pessoas movem-se muito mais em coisas de nicho.

Hoje já é possível ser artista em Portugal?

Hugo: Nos últimos anos criou-se, finalmente, um mercado para as bandas, em Portugal. As bandas sabem a que sítios vão tocar, e quando chegam a esses sítios têm lá equipas de produção. Dá-se valor ao papel do técnico de som. Há regras, toca-se a horas. As bandas começam a funcionar também como pequenas empresas e com um modelo de negócio. Agora, há pouco dinheiro em Portugal e é um país pequeno e este mercado tem muitas limitações. É muito complicado, e sobretudo quando não se fazem músicas com verso e refrão e extremamente radiofónicas, cantarolantes, é muito complicado viver exclusivamente da música. Acho que já é possível e que já há muita gente a fazer isso.

André: O mercado mudou muito. E é engraçado como é que estas coisas funcionam, os artistas têm pouco jeito para ganhar dinheiro e tratar a sua arte como um negócio e esta sindicância foi feita por outros antes de nós. De repente quando nos demos conta, tínhamos muitos amigos que eram técnicos de som profissionais, programadores profissionais, que trabalhavam em auditórios, uma série de pessoas para quem a música se tornou uma profissão. Os músicos foram os últimos a chegar a esse lugar.

Manuel: Nós pensamos muito nestas coisas, e nunca sentimos falta de lirismo da nossa parte. Pensar nisto assim é uma continuação de se ser lírico. Continuamos a fazer música pela noite adentro.

Hugo: Das coisas mais importantes para nós é a nossa música continuar a ser pertinente, fazer-se ouvir, e ter validade artística. Isto é fundamental, e quando isto acabar a banda também acabou.

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