Culturas

Salma Jô: “Eu não me vejo como cantora, nem como poeta, é muito doido”

Pela primeira vez em Portugal, o coletivo brasileiro Carne Doce, liderado por Salma Jô, é um grito de liberdade de expressão em nome do indie.
Por Rita Silva Avelar, 25.10.2019

Quando nos encontramos com Salma Jô no Musicbox, no Cais Sodré em Lisboa, onde se prepara para atuar nessa mesma noite, pensamos que estamos perante outra pessoa que não a performer que vimos nos videoclips da banda Carne Doce. Camaleónica e expressiva em palco, Salma é discreta e ligeiramente reservada, o que lhe confere algum mistério. Nunca pensou tornar-se artista, formando-se em Direito, e também só se via do lado da plateia. Mas a cultura musical da sua terra natal, Goiâna (berço de outros artistas emergentes como o grupo Boogarins) foi mais forte e conquistou-a.

Em 2013 nascem os Carne Doce, banda indie que criou com o marido Macloys Aquino (guitarrista), e à qual se juntaram os elementos João Victor Santana (guitarra e sintetizadores), Aderson Maia (baixo), Frederico Valle (bateria, substituindo Ricardo Machado). Se Carne Doce [2014], o primeiro disco, foi uma surpresa, o segundo, Princesa [2016] foi considerado um dos melhores do ano pela imprensa nacional, entrando no top 10 da Rolling Stone Brasil. Autora das composições dos Carne Doce, em Artemísia, o single de apresentação disco, Salma fala sobre aborto, na primeira pessoa. E as questões que marcam a atualidade continuam a definir este disco, como a política do Brasil ou o preconceito para com a comunidade LGTB. O terceiro disco, Tônus (e o que vêm apresentar a Portugal) é a prova consagrada de que os Carne Doce são uma das bandas mais talentosas da sua geração, num género que no Brasil ainda luta para ganhar um lugar ao sol. Depois de um primeiro concerto em Coimbra, no Salão Brazil, passaram pelo Musicbox, em Lisboa. Esta quinta, 24, atuam nos Maus Hábitos, no Porto, e sexta, 25, seguem para a Bang Venue, em Torres Vedras, e encerram a passagem pelo país em Aveiro, a 26, no GrETUA (Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro).

Como é que se apaixonou pela música? Hoje canta sobre emoções…

A primeira música que eu adorei foi uma de Tracy Chapman, Forgive Me. Eu acho que Chico Buarque é uma das primeiras memórias, e um dos autores que me fez passar muito tempo concentrado nas letras dele e me envolver com as histórias da letra. Apresentou-me às emoções, aos conflitos. Foi o primeiro.

Apaixonou-se pela letra antes da sonoridade. Como é que isso aconteceu?

Eu sempre me vi na música enquanto público, alguém que estaria sempre assistindo. Em Goiâna tem uma cena musical forte, e eu sempre ia para assistir, e nem era um estilo que era tanto meu na época, quando assistia em adolescente era mais stoner e metal. Era o lugar onde se juntavam todas as pessoas que não se reconheciam na cultura tradicional do Estado e da cidade, que era sertanejo rural. Todas as pessoas com estilos e identidades diferentes se encontravam nessa cena. Admirava os músicos e achava fascinante. Formei-me em Direito mas no final da faculdade, para fugir do caminho tradicional, entrei numa banda de rock dos anos setenta por distração. Entretanto casei com o Mac [de Macloys] e, porque ele já tinha experiência com bandas, decidimos criar a nossa e assim surgem os Carne Doce.

As vossas composições falam sem filtros sobre tudo. Essa sempre foi uma das premissas da banda?

A primeira vez que eu compus foi porque um dos compositores que eu acompanhava era o Fernando Simplista, estava em minha casa, e sempre me incentivou a escrever. Eu achava que isso era algo reservado às pessoas com talento específico para isso. Desde aí, eu pensei: ‘nossa, talvez eu tenha alguma sensibilidade para isso!’ E foi uma faísca. Eu não me vejo como cantora, nem como poeta, é muito doido, mas eu percebi que nas letras era onde eu poderia fazer algo especial, então eu agarrei isso na banda. Sou eu que faço as letras. Fui ficando cada vez mais à vontade com isso. E tenho sempre vontade de escrever coisas emocionantes. 

Como é que sente que as pessoas reagem às vossas letras? Falam sobre aborto, amor transgénero, feminismo e outros temas que ainda estão a quebrar barreiras e estereótipos. Ou isso já mudou em pleno?

Eu acho que em pouco tempo, nos últimos seis anos, esse assunto explodiu e virou uma pauta (em alguns momentos meio que obrigatória). No segundo disco [Princesa, 2016], quando agente estava compondo, eu sentia que eu precisava escrever sobre essas coisas. Ainda mais porque se eu escrevia sobre política, eu ia escrever sobre isso. Escrevendo como mulher, eu percebi do primeiro para o terceiro disco que no primeiro eu ainda era preocupada em escrever letras em que eu não colocava o meu género. Eu não me apresentava como mulher porque achava que isso ia limitar e não ia ser tão universal. Para ser universal, achava que precisava de adoptar uma letra que não tivesse uma personagem definida, que não escrevesse da minha perspectiva feminina. No segundo disco isso já não aconteceu, porque já estava lendo sobre outras artistas que também estavam discutindo isso. 

O que é que o novo álbum quer dizer ao mundo?

Neste terceiro disco a discussão já era outra. Foi uma reflexão sobre como se banalizou o feminismo ao criar uma discussão que muitas vezes foi usada como saída comercial. Escrever letra militante não significa, às vezes ser militante. [É um disco] sobre como o debate fica cada vez mais crítico e mais complexo, naturalmente. Eu nunca me vi mesmo como uma militante apenas porque não tinha o conhecimento político suficiente para falar sobre esses assuntos. Nem sobre o feminismo ao longo da história. Eu percebi que o que eu conseguia fazer melhor nas letras era explorar emoções, as minhas, e emocionar as pessoas com elas. Fui por esse caminho. Eu continuo a falar de política mas o meu foco é ir buscar as emoções.

Porque Tônus?

Este disco tem muito um sentido de resignação que reflecte o nosso momento político. Sinto que está todo o mundo meio apático, cansado, stressado e indignado ao mesmo tempo. Sem saber como reagir ou o que fazer, já ferido de várias coisas. Tônus é músculo, tonificação, é sobre se tornar resistente, amadurecer perante as experiências. É um disco que também reflecte o nosso amadurecimento como banda, a nossa experiência de palco. É mais maduro, calmo e paciente.

O que é que a faz sentir livre, numa performance?

A minha performance é muito importante. No começo eu era muito tímida, não sabia o que fazer com o meu corpo. Aprendi a dançar os instrumentos, e que quando eu dançava e marcava os instrumentos com o corpo isso também fazia as pessoas a escutar melhor o show. É por isso que é muito importante estar dançado, sendo muito dramática e teatral.

Perguntam-lhe muitas vezes como é ser a única mulher numa banda onde predominam elementos do sexo oposto?

Eu não sou uma pessoa muito sociável, sou uma pessoa muito solitária, no meu canto. Eu sempre fiquei muito à vontade com essa posição, eu tenho uma liberdade e um poder. Sinto que mando neles em alguns aspectos, por que sou muito líder (risos).

O que é que está a emergir, hoje, na cultura musical brasileira?

O funk! Vi hoje uma reportagem que dizia que o funk é o estilo brasileiro mais escutado fora do Brasil. É esquisito porque no Brasil não é valorizado assim, pelas instituições. Os artistas "funkeiros" não são valorizados como deveriam saber, pelo impacto que têm na cultura. É o estilo mais popular que o Brasil está produzindo. Todos os outros estilos estão sendo abafados pelo sertanejo que é financiado por políticos, que é um mercado que não é real, tem muito dinheiro investido. O rap está muito forte, rock está em decadência e o indie que agente faz é muito reduzido a um nicho, e é um conflito particular meu e nosso sobre como fazer da nossa música algo mais popular ou mais verdadeiro, mais brasileiro. A maior parte dos grandes artistas do indie são os que fazem canção (como o Tim Bernardes, que faz muito sucesso aqui em Portugal).

Tags: salma jô carne doce banda musicbox música artistas brasil indie indie rock goiâna performance
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