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Ricardo Toscano: "Um músico de jazz quer ter espaço para improvisar"

Chama-se Ricardo Toscano Quartet e é o disco de estreia do coletivo. A prova derradeira de que o jazz está bem vivo e que, ao mesmo tempo que adivinha as melodias do futuro, não deixa de lado a nostalgia do passado.
Por Rita Silva Avelar, 14.11.2018

Durante esta conversa, que teve lugar num fim de tarde de junho passado, na pastelaria Versailles Belém, e sem querer antecipar muito, o ar comprometido de Ricardo Toscano já adivinhava um disco de jazz para os últimos meses do ano. Tinha acabado de voltar de uma aula de boxe, um desporto que se tornou um hábito diário e pelo qual se evade dos pensamentos musicais. "Não penso em música, a única coisa que a música me dá no boxe é o ritmo e o improviso", diz-me. Como um golpe bem estudado, assim nasce o novo disco deste que é um dos mais elogiados novos talentos do jazz português. Chama-se Ricardo Toscano Quartet e é, nada mais, nada menos, que a materialização do talento fervilhante do quarteto composto pelo próprio, com Romeu Tristão (contrabaixo), João Pedro Coelho (piano) e João Lopes Pereira (bateria) e que segue em crescendo desde a data da sua génese, em setembro de 2013. Com evidente influência no jazz afro-americano, este disco foi apresentado no Hot Clube no último dia 6 de novembro.

É inevitável apontar que o coletivo de Ricardo Toscano está a contribuir para o renascimento – e para a afirmação – do jazz no panorama nacional. Logo no ano de estreia do grupo conseguiram esgotar o pequeno auditório da Culturgest em duas datas consecutivas. E a brincadeira repetiu-se, no ano passado, como prova de um público que não esquece, desta vez na sala pequena do Centro Cultural de Belém. Filho de pai músico e apaixonado pelo jazz clássico, Ricardo Toscano sorri com o olhar quando fala dos clássicos que adora, como Coltrane, e recorda-nos, nesta conversa, como filho de peixe sabe mesmo nadar.

Começou por tocar clarinete, entrando aos 13 anos no Conservatório, na classe deste instrumento. Aos 15, entrou para a Escola Profissional Metropolitana. Como se deu a troca para o saxofone?

Comecei a tocar clarinete aos oito anos, na banda filarmónica. Era muito pequenino, na altura o saxofone era muito grande para mim, e ainda bem que comecei no clarinete porque a melhor coisa que eu fiz na vida foi não ter aulas de saxofone clássico. O meu pai é músico, toca saxofone.

Foi a sua primeira referência, portanto…

Sim, o meu pai também começou com clarinete. E, como ele tocou clarinete até um certo nível, percebeu que faz toda a diferença. Nem que seja por aprender a tocar dois instrumentos bem. É mais fácil mudar do clarinete para o saxofone do que do saxofone para o clarinete. Quem toca sabe. Estudei clarinete até ao Ensino Secundário (o que equivale ao 8.º grau do Conservatório). Eu tive, sem dúvida, uma grande influência no meu pai. Tens um pai músico, que "até toca bem", queres ser como ele. A música sempre esteve lá em casa, eu cresci a ouvir discos de jazz.

Cresceu na Amora. Como era tocar na banda filarmónica? Tocava nas procissões?

Até gostava de fazer as procissões, curto das marchas de procissão, ainda as sei todas de cor. O facto de tocar clarinete, que é instrumento solista, permitiu-me fazer sempre os solos. Mas sei lá… está a fazer-me voltar a grandes sítios. Gosto da Nossa Senhora das Dores e da Corpo Místico [risos]. Tocava também na banda do Seixal, onde o meu tio é maestro.

Aos 16, acabou por rumar à Escola de Jazz Luiz Villas-Boas, na classe de saxofone de Desidério Lázaro. Neste momento nascia o Ricardo saxofonista?

A fasquia esteve sempre alta, em casa ouvia muito jazz, discos do Coltrane... O que é bom e mau porque em certos momentos tinha de lidar com muitas pessoas de fasquias diferentes e muitas delas puxavam-me para baixo. Quando já tocas bem, és muito apaixonado e queres tocar melhor, és "um artista". "És um artista, tens a mania que és do jazz!" Ouvi isto até ao fim da Escola Metropolitana, tinha 17 anos, e já tocava com "toda a gente". Descobri que há pessoas muito mal educadas, artisticamente.

Foi quando se deu a passagem para a Escola Superior de Música de Lisboa, no estatuto de superdotado?

Isso foi um erro grande. Devia ter acabado a Metropolitana como deve ser e depois passava para a Superior [frequentou as duas, em simultâneo]. Entrei, estava tudo bem, mas foi um ano doloroso.

Por causa da adaptação?

O problema foi fazer as coisas ao mesmo tempo, e lidar com pessoas más que me puxavam para baixo. Ao mesmo tempo, isso não me tornava mais forte ou mais fraco. Dentro de mim, eu estava distante disso. Não estava a estudar para provar algo a alguém, claro. Acabei por ficar só na Escola Superior, aí evoluí bastante. Toquei com muitas pessoas…

Que professores mais o inspiraram?

O mais engraçado é que muitas dessas pessoas são com quem eu toco hoje. Entre as pessoas que me inspiraram muito, e que foram meus professores, posso falar no trompetista João Moreira, no guitarrista Afonso Pais [de Sousa], no saxofonista Pedro Moreira, no Jorge Reis, que também era saxofonista, no Nelson Cascais, contrabaixista com quem toquei muito. Uns meses depois de entrar para a [Escola] Superior, estavam a convidar-me para fazer concertos com eles. A escola era um ponto de encontro. Desde aí que o meu foco tem sido sempre tocar com músicos do mais alto nível.

Como é que nasce o Ricardo Toscano Quarteto?

Estávamos numa fase em que éramos os "putos da cena" e decidimos fazer uma banda. Na verdade, ficou o meu nome porque me ligaram para apresentar uma banda minha no Hot Clube e foi esse o momento. Temos evoluído bastante e cada um de nós tem evoluído no seu caminho, o que é fixe porque isso traz mais ao coletivo do que se estivéssemos todos a evoluir para o mesmo.

Onde é que mais gostam de tocar? Como é estar em palco?

Em qualquer palco que tenha um público que goste de ouvir jazz, e respeite o que está a acontecer ali no momento, eu sinto-me em casa. É o meu sítio preferido. Eu não me sinto nervoso para ir tocar… A minha banda, Ricardo Toscano Quarteto, tem cinco anos [celebrados em setembro passado]. Temos feito muitos concertos, a malta gosta de nós. Começámos o ano com uma casa cheia na Culturgest, tocámos em Portalegre num festival de jazz, e o maior palco onde tocamos, este ano, foi no Funchal Jazz, no Parque de Santa Catarina. Éramos a única banda portuguesa no cartaz.

Como é que acontece o processo de composição das músicas?

Eu escrevo em casa, com um caderno e um lápis (…). Eu gosto de escrever a melodia e a harmonia, e o ritmo, claro. O tema para mim é um assunto, não é um produto final, e depois "volta a casa". A primeira vez que compus um tema não foi bem um tema, foi uma frase vaga e ambígua e foi assustador (…). Foi uma coisa mais direta, mas que acabou por ter muitas texturas.

O que é que um músico de jazz mais deseja, num concerto?

Na minha opinião, um músico de jazz tem muitas oportunidades para improvisar, que é o que nós queremos fazer, ter o nossos espaço para improvisar, para criar em tempo real. Isso é o que mais gostamos de fazer. Num concerto meu, sempre que toco, estou a improvisar ou a tocar melodias. Estou a criar, a tocar aquilo que me apetece, a construir.

Recorda algum momento inesperado, durante uma jam?

Estar a tocar num concerto onde eu era o convidado especial de uma orquestra e estar um saxofonista muito importante da História do jazz a assistir, um artista que tocou em discos do Miles Davis nos anos 50.

Com quem partilharia um palco?

Adorava tocar com um pianista americano que eu estava a ouvir agora em casa que se chama Marcus Roberts. É um pianista inacreditável. Posso falar do Herbie Hancock, porque é possível e não é possível; mas continua a ser possível porque ele está vivo, eu estou vivo e vivemos no mesmo planeta. Falando em nomes mais atingíveis, o pianista Jason Moran, com quem eu estive na Madeira. Tive uma aula ao pequeno-almoço, no hotel, e ficámos em contacto. Combinámos às cinco e meia da manhã que às dez da manhã estaríamos a tomar o pequeno-almoço a conversar.

Nova Iorque continua a ser a cidade-referência para descobrir a cultura musical urbana no seu estado mais puro?

Passei um mês em Nova Iorque, em abril deste ano. Já lá estive algumas vezes. Se eu tivesse dinheiro para me sustentar em Nova Iorque um ano e meio ou dois anos, iria para lá. Daquilo que eu oiço dizer, é sempre duro [sobressair em Nova Iorque] de acordo com o tempo em que se está [falando da última década na música]. Harlem é uma boa zona para "viver as coisas de hoje".

O que é que isso quer dizer?

Imagina, eu estava a falar com este pianista, o Jason Moran, e estava a dizer-lhe: "Meu, tenho andado a ouvir um disco dos anos 80 em que o pianista e o baterista têm esta relação inacreditável em que o baterista está sempre a apertar com o pianista, mas o gajo é ‘inapertável’, nunca quebra." E ele disse: "Sei bem, conheço esse disco de trás para a frente, e mudou a minha vida." E de repente acrescentou: "Mas sabes, hoje em dia, isso era ‘o aperto’ deles naquela altura, hoje em dia temos de perceber onde está o nosso."

É uma constante, no Ricardo Toscano Quarteto, fazer nascer coisas novas?

Uma pessoa quando tem um ideal na cabeça é um ideal baseado em coisas que já conhece, não se consegue projetar nada que não exista. Consegue-se, sim, projetar um conjunto de coisas que se sabe que pode resultar numa coisa nova. Se eu soubesse que estava a tocar com alguém e a tentar recriar algo novo, ficava a pensar "uau, estou a partir a loiça toda! Mas espera aí, isto já foi feito há 30 anos". Não deixa de ser válido, mas é preciso perceber o que é que é disruptivo no agora. No presente.

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