Culturas

Por que bate o coração de Sandra Faleiro?

O filme 'A Herdade', de Tiago Guedes continua a encher salas de cinema – já foram mais de 50 mil espetadores. Fascinados pelo carisma da sua protagonista, Sandra Faleiro, fizemos-lhe um desafio. Quisemos falar de personagens, histórias, dramaturgos e temas que terão atravessado o seu percurso de atriz nos últimos 30 anos. O que guardam afinal as atrizes da ficção? O que muda num corpo que dá sentimentos ao abandono? Quem decide se uma personagem é eficaz, o retorno que se recebe do público? Ou as lições que ficam para a vida?
Por Tiago Manaia, 14.10.2019

A cinemateca é uma ilha em Lisboa. Quando atravessamos os corredores cheios de pósteres de Fellini, sentimo-nos longe. As imagens de Lauren Bacall coladas nas paredes dão-nos também um fôlego estanho. Por momentos o pandemónio da especulação financeira e turística que engoliu o centro da cidade parece ter desaparecido. No café do primeiro andar, os empregados de mesa vestem camisas brancas. O detalhe transporta. Observamos o serviço, ouvimos as conversas. À nossa volta, desconhecidos evocam planos cinematográficos e falam do excesso de Festivais de Cinema em Lisboa. "Até que ponto não está o Doc a tirar público ao Indie?", questionam. Concluem que seria melhor ter um grande Festival na cidade, em vez de tantas Mostras dispersas que se roubam apoios e protagonismo. Na Cinemateca, as questões passam todas pelo cinema.

Sandra Faleiro chega, olhar luminoso, camisa branca e um perfume que fica no ar. A sua voz poderia ser reconhecida entre mil outras. Aguarda que o seu café arrefeça, vai acabar por lhe dar um só golo ao longo da entrevista. O que se passa nas mesas à nossa volta é agora secundário. Sandra fixa-nos. Não é cinema, é a realidade.

Mal entramos aqui parece que sentimos a aura da ficção, que passámos para outro lado. Uma Lisboa de outra época...

Infelizmente, porque agora é só centros comerciais, não é? Os cinemas tradicionais desapareceram. E não foram só os cinemas, são as casas, os cafés, as tascas, as mercearias. Acho que é um crime o que se está a fazer nas cidades europeias.

Os centros das idades tornaram-se quase parques de diversão?

Sim. Completamente plásticos, este sítio felizmente ainda tem alguma alma.

Estamos rodeados de cartazes de cinema.

São lindos, incríveis.

Vem muito cá?

Não venho há imenso tempo, porque a vida está demasiado acelerada. Sinto que estou sempre em défice, com a família e trabalho. O querer ser atriz e uma mãe presente, faz com que eu falhe imensa coisa. Neste momento da minha vida, posso dizer que me sinto completamente vazia. Não estou com tempo de ir ao teatro, nem ao cinema e sinto que preciso de me alimentar. Nem ler um livro consigo, só leio contos. Estou assim num stress grande de trabalho.

Está a gravar uma telenovela (A Prisioneira, na TVI) e a promover um filme ao mesmo tempo?

Antigamente fazia sempre teatro e televisão ao mesmo tempo. Isto está a entrar numa transformação.

Se calhar os seus papéis mudaram e são maiores.

Não tem a ver com isso, é a forma como a produção está a funcionar. Portanto, acho que também tenho eu de mudar. Estou a precisar de fazer teatro urgentemente para me centrar, o teatro é uma coisa que me centra e fica. Que me põe no mundo. É o que me salva.

Foi para fazer teatro que quis ser atriz?

Foi para contar histórias. Eu tinha um problema quando era miúda, era gaga, era muito tímida e sofri bullying. Não me bateram, nada disso. Era desajeitada e magrinha – gozavam comigo. Tive a sorte de descobrir que tinha um veículo para me poder expressar. 

Na escola teatraliza tudo o que eram apresentações nas aulas, era isso?

Isso. Comecei logo desde pequenina assim e faço isso mesmo na vida agora. Ok, Já não sou gaga e já consigo perceber os mecanismos para resolver as coisas. Agora, o teatro ajuda-me a resolver coisas interiores. É a terapia constante, é uma sorte do caraças.

Vai mais longe nas questões?

Há qualquer coisa que acontece ainda. Na escola não existe qualquer tipo de educação sobre nós próprios, e isso é a base de tudo. Atiram-nos para o mundo e temos de lidar socialmente com toda a gente e são sempre provas atrás de provas. Mas o básico, que é teres tempo de ouvir a tua voz, isso não existe. Há isso em poucas profissões, e eu tive a sorte de escolher uma profissão onde isso acontece.

Já é atriz há quase 30 anos, vou fazer-lhe a pergunta óbvia, o que é ser atriz 30 anos depois?

Quando comecei, era uma criança a sonhar entrar em palco, com pessoas a aplaudir. Uma criança sonha em ter imenso sucesso e ser a maior atriz de Portugal. Isto era uma criança. Agora isso não tem nada a ver comigo. Não me interessa nada disso, o que me interessa mesmo é contar histórias, contá-las bem. E que me tirem o tapete, por favor. Tirem-me da zona de conforto. Para eu me questionar e crescer, e fazer as perguntas certas. Às vezes passamos a vida sem as fazer. Quero que as pessoas gostem, obviamente, trabalhamos para o público.  

Se lhe tirarem demasiado o tapete não tem medo de falhar?

Falhar, falhar melhor.

Está a repetir a frase tornada mote pelo Samuel Beckett?

Sim, claro. Nos últimos anos perdi o medo de imensas coisas. Porque aconteceram coisa na minha vida tão avassaladoras.

Está a falar da morte?

De várias coisas. De repente o medo para mim tornou-se outra coisa. O medo que eu tenho, não é de arriscar ou de ir para uma zona de desconforto. Não é de falhar. O medo que eu tenho é deixar de sentir, e deixar de estar atenta e apaixonada.

A herança de Catherine Deneuve

No filme A Herdade tem o seu primeiro grande papel em cinema. Li algures que a sua personagem quase não existia no guião. Concretamente, como a criou com o Tiago Guedes? Foi na observação de pessoas à sua volta, foram memórias suas de uma época, ou pessoas que conheceu?

Eu venho de uma família classe média, e no filme estamos a falar da filha de um general, classe alta, latifundiários e famílias muito ricas com tradições muito rigorosas – heranças muito pesadas. Isso não me é nada familiar, a minha família é muito mais cool. Mas tenho algumas amigas, das quais consigo imaginar as mães.

É importante ter um boneco em que se inspira?

Não é boneco. É uma energia. É um bater de coração.

Passa pelo corpo?

Claro, às vezes nem é tanto racional. Muitas vezes nos processos dos atores, descobrimos as coisas pelo corpo. E para construir a Leonor da A Herdade houve uma atriz que me inspirou... A Catherine Deneuve.

A Deneuve jovem, nos filmes que fez com o Luis Buñuel? Ou a mulher que é agora?

Do Buñuel. Aquele lado frio e quente... Misterioso. Aquela densidade. Mas foi uma inspiração. Nem sequer voltei a ver filmes dela. São coisas que te ficam no corpo.

O cinema que viste fica-te na memória. Vi muita coisa no passado. Agora já não tenho tempo e por isso estou a ficar desesperada.

E [em A Herdade] há o lado histórico, o facto de a ação do filme se desenrolar durante a ditadura, influencia tudo. As mulheres não podiam divorciar-se, não podiam viajar sem autorização do marido e ela é mulher de um general que faz parte de um regime que trata as mulheres abaixo de cão.

Há um comportamento que se impõe?

Com certeza. Neste caso a forma como a personagem estava escrita, é uma submissa. Mas depois não é só isso, as personagens têm várias camadas no filme. Ela é forte e frágil. Ela é submissa, mas também é rebelde. Ela está em silêncio, mas é um silêncio gritante.

Concretamente, a Sandra e o realizador o que fizeram?

Dia a dia, fomos rescrevendo o argumento e houve alturas em que fizemos três versões da Leonor. À medida que íamos filmando íamos descobrindo. Foi uma loucura, foi esquizofrénico. E filmámos naquela herdade que é um sítio com uma energia própria. Aquilo é uma espécie de um reino, é uma zona de um tempo que não passou. Vês pessoas que nunca saíram dali e consegues fazer um mapa visual. Isso ajudou-me a construir a personagem. Agora foi sempre pelos sentimentos, pelos estados de alma, pela verdade. Essencialmente, uma atriz tem de ouvir. Já o João Mota meu professor no conservatório dizia, "ouvir para reagir". Se tu ouvires, se tu confiares, está tudo feito. Neste caso era impossível não reagir a tudo o que a rodeia na herdade. Agora se eu a levo a personagem para casa? Levo uma energia. Estive dois meses sempre angustiada, tensa com uma energia pesada. Era a Leonor, a minha personagem, que estava naquele estado? Não. Era eu.

Ser atriz é estar em modo de sobrevivência

O filme estrou no Festival de Veneza, foi a primeira vez que foi a um grande festival de cinema?

Sim. Também há sempre tão poucas oportunidades.

O que provocou em ti?

Fui à Disney. Fui ver a vida da estrela de cinema durante três dias (risos). Mas é muito especial, o hotel é incrível e depois tem aquela história de ter sido ali  filmado A Morte em Veneza do Visconti, é um dos meus filmes preferidos.

O Festival de Veneza trouxe de volta a menina sonhadora que foi quando pensou ser atriz?

Não. Foi outra coisa, foi festa e o coração cheio e alegria. Agora se senti que era uma grande atriz? Não estou nesse sítio. É outra zona. Os atores estavam juntos a mostrar trabalho num ambiente que tem a mística do cinema.

Leva disso fôlego?

Sim para continuar, porque quando somos atores estamos sempre em modo de sobrevivência. Estamos sempre a fazer as coisas com sacrifício, o teatro muitas vezes é feito sem condições e o cinema também. Estamos sempre em luta para que as coisas possam existir.

Ter certezas das incertezas

Antes de a entrevistarmos pedimos que se lembrasse dos trabalhos ou personagens que mais a marcaram ao longo do seu percurso de atriz. A sua agente fez-nos chegar uma lista em que menciona a Hedda Gabler, uma peça de Henrik Johan, e também O Jardim Zoológico de Cristal de Tennessee Williams, que fez como atriz e mais tarde como encenadora. Todas as personagens que a marcaram parecem ter em comum a mesma coisa, estão de certa forma espartilhadas pela sociedade. São inadaptadas, remetem para a emancipação das mulheres.

Porque é um tema atual. As mulheres são espartilhadas de alguma forma. Algumas de maneira mais subtil, outras de forma mais gritante, mas a misoginia e o machismo continuam a existir.  É também uma questão de lugar. Só agora é que as mulheres começam a ocupar lugares de poder, e claro que há estas histórias, destas mulheres que são maiores do que a sociedade lhes permite. Sentem-se espartilhadas. A Hedda Gabler tem um fim trágico porque era uma apaixonada, não queria o dia a dia corriqueiro de família, pequenino e mesquinho. Ela queria paixão e grandiosidade, era um animal selvagem.

Porque procura personagens assim?

Gosto destas mulheres torturadas que têm várias camadas. Têm um lado assim de menina e de mulher forte. Gosto de trabalhar nestes paradoxos. E o Ibsen escreve muito bem sobre mulheres.

É fácil de representar?

Quando lês em voz alta é estranho, mas à medida que vais entrando é incrível. Ele percebe as mulheres. Acho que acertei naquele papel, porque às vezes também acontece estar completamente ao lado.

Quando diz que acertou, foi no olhar dos outros que sentiu isso? O olhar exterior é importante para si?

Tem a ver comigo. Eu sou muito lixada comigo própria.

Em que sentido?

Sou muito crítica. Quando estás a fazer uma peça de teatro, atingir aquele estado em que a coisa está mesmo a fluir, em que estás a surfar. Isso é raríssimo. Mesmo nos melhores trabalhos. É tão raro termos oportunidades para trabalhar estes textos. Porque estes textos ensinam-nos a fazer teatro. Estão tão bem escritos. Têm a música toda lá e a música é uma coisa abstrata, mas que está presente na vida. O Jardim Zoológico de Cristal foi uma peça que me perseguiu. Eu não andei atrás dela, ela vinha sempre ter comigo. Se isto tem algo de místico, não sei.

Há uns anos falei consigo e dizia-me que não era fácil ser atriz e envelhecer, falava das rugas. Tem pensado nesta questão?

A questão é simples, tem a ver com o trabalho. Porque há menos papéis para mulheres mais velhas, é uma realidade. É muito engraçado, eu na idade que tenho, sinto que estou no meu auge. Nunca me senti tão bem na vida como me sinto agora. Tenho muitas certezas das incertezas. Não tenho certezas e não tenho medo.

Como um funâmbulo que se equilibra num arame sem rede?

Embora lá! Isso é fantástico. Penso de facto que os papéis para mulheres mais velhas começam a escassear, e isso é uma coisa que me preocupa.

Tem medo de se ver feia na imagem?

Não. Já fiz tantas peças em que estava feia. Não me importo nada. Claro que gosto de me ver bonita, também sou vaidosa. E há imagens em A Herdade em que me vejo e penso, ‘uau estou gira, os meus netos vão ver que a avó era gira’. (risos)

A sua família ficou em suspenso durante os dois meses em que rodou o filme?

Não, por isso é que ando sempre esgotada. E quando percebia que não podia dormir em casa nesta rodagem, ou não podia estar com os meus filhos com qualidade... Iam para casa da avó ou para o pai. Isto sempre foi uma coisa que me preocupou na vida, e sinto que estou em défice. Falho montes de vezes, mas esforço-me imenso para estar presente. Nós estamos sempre em défice na nossa sociedade, está tudo acelerado e as relações estão em défice, até connosco próprios, não temos tempo para nada, para pensar para nada.

Quase não tem tempo para ser atriz como queria?

Não.

O que lhe poderiam dar para ficar sem tapete?

Quero trabalhar com algumas pessoas. O Nuno Carinhas ou novamente com o Tiago Guedes. Há pessoas que me mexem nas entranhas. E vou encenar O Cerejal do Tchekhov, para o ano. É um texto atual sobre a perda, e há muita coisa que está a acabar. O Cerejal representa uma época ou um tempo que já não existe. Onde cabe a filosofia a poesia. O que está a acontecer é que as pessoas estão a transformar-se em máquinas e nem sequer têm tempo para olhar para as cerejeiras. O teatro está a acabar também, e quero falar sobre isso. Quero falar dessas coisas que me atormentam. É a forma que tenho de me expressar.

 

 

 

 

 

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