Culturas

'Parasitas' foi o vencedor dos Óscares e Bong Joon-Ho pôde ir beber descansado

Hollywood tornou-se, nem que apenas por uma noite, sul-coreana. 'Parasitas' venceu os Óscares de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Argumento Adaptado e Bong o de Melhor Realizador. "Grande honra. Obrigado. Sim."
Por Diogo Barreto, 10.02.2020

Era uma vez duas famílias: uma muito pobre e outra muito rica. Os Kim eram unidos e trapaceiros, enquanto os Park eram simpáticos e dedicados. Eles queriam ter uma vida mais confortável e sair da sub-cave (onde vislumbravam por uma janela o exterior), os outros queriam viver a sua vida em paz, contemplando o seu jardim privado. A partir daí conta-se uma história sobre luta de classes em que não há bons e maus, heróis e vilões, apenas seres humanos com qualidades e defeitos. O filme é inteiramente falado em coreano (salvo raríssimas exceções com algumas passagens em inglês) e não só foi o grande vencedor no Festival de Cinema de Cannes, como também na noite dos Óscares. Bong Joon-Ho e Parasitas levaram para casa os prémios de Melhor Filme, Melhor Argumento Original, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Realizador. Quando recebeu o Óscar de Melhor Argumento Adaptado, o realizador teve apenas a dizer: "Great Honor. Thank you. Yeah." ("Grande honra. Obrigado. Sim.")

"(...) Peço-vos encarecidamente: Quando escreverem a crítica deste filme coíbam-se – na medida do possível – de revelar o que acontece depois da entrada dos dois irmãos como explicadores... A vossa atenciosa contenção constituirá uma dádiva maravilhosa aos vossos leitores e à equipa que fez deste filme uma realidade", pediu o realizador aos críticos, para que o público pudesse ficar surpreendido. Mas talvez a maior surpresa venha mesmo de ter vencido o grande prémio do cinema norte-americano. 

Com a história milenar da procura por melhores condições a sua humanidade (alegria, tristeza, raiva, desespero, amor e crueldade) exposta na tela, Bong Joon-Ho superou a revolução cinematográfica de Joker, a tecnicidade de 1917, a emoção de Marriage Story, a velocidade de Le Mans '66: O Duelo, a epicidade de Mulherzinhas, a subversão de Era uma Vez... em Hollywood, a excentricidade de Jojo Rabbit ou a contenção de O Irlandês

Encontramos os Kim a viver numa atolada casa, onde a sanita está colocada na parede, onde a família tem de procurar o Wi-Fi dos restaurantes e onde se dobram caixas de pizza para ganhar dinheiro. A família fica até feliz quando um exterminador começa a limpar a rua: "Vamos ter uma exterminação gratuita", gritam alegres. 


Até que surge uma oportunidade de ouro: o filho consegue arranjar um trabalho de explicador para uma família rica. Depois vai tentar criar um esquema para que toda a sua família possa ter uma oportunidade de uma vida melhor, mesmo que para isso tenha de pisar outros. 

A verdade é que os Kim enganam os Park e "tramam" uma série de pessoas pelo caminho, apesar de nenhuma daquelas personagens lhes ter feito algum mal. Mas o espectador é levado a pensar que tudo é justificado, porque Bong nunca permite que se odeie verdadeiramente nenhuma das personagens. Os pobres não são maldosos, apenas querem subir na vida; os ricos não são desdenhosos, apesar de não suportarem o cheiro a pobres ("rabanetes velhos"). E num filme sobre os problemas do capitalismo selvagem e a luta de classes é impressionante como a violência parte dos pobres para com os outros pobres.

Parasitas vem na senda de Shoplifters - Assunto de Família, o filme japonês de 2018 que venceu a Palma de Ouro, o prémio de maior prestígio de Cannes, sobre uma "família" de pequenos ladrões, onde o filme explora as relações humanas na pobreza. 

Bong Joon-Ho avisou nos Globos de Ouro: "Quando vocês superarem as barreiras dos filmes com legendas, conhecerão muitos filmes fascinantes". Quando recebeu o Óscar de Melhor Realizador disse que podia ir beber descansado até de manhã. Depois o seu filme venceu o principal prémio e a sua missão ficou completa: Hollywood já não é mais só americana.

O que ficou para trás
1917 estava lançado para ser o filme mais premiado, tendo conseguido três Óscares (Melhor Fotografia, Melhor Mistura de Som e Melhores Efeitos Especiais), mas falhando em todas as categorias principais.

Joker, o mais nomeado acabou por vencer apenas na categoria de Melhor Ator (Joaquin Phoenix foi provavelmente a menor surpresa da noite) e Melhor Banda Sonora Original.

A Netflix teve de se contentar com Melhor Documentário (American Factory) e Melhor Atriz Secundária (Laura Dern, em Marriage Story) e O Irlandês de Martin Scorsese não ganhou um único Óscar. Na verdade, a maior homenagem ao mítico realizador veio de Joon-Ho, quando referiu o nome do autor de Touro Enraivecido ao vencer a estatueta de Melhor Realizador ("Cresci a estudar os teus filmes, Martin").


Houve ainda tempo para consagração de atores como Brad Pitt que venceu o Óscar de Melhor Ator Secundário pelo seu trabalho em Era Uma Vez… em Hollywood, o filme de época de Quentin Tarantino, e Renée Zellweger, a Melhor Atriz pelo papel em Judy e a entrega de um Óscar a Elton John, pela canção para o seu filme biográfico Rocketman.

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