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Os miúdos estão bem?

O que leva uma mãe a criar um espaço online baseado nos filhos? Expondo a vida familiar – com fins comerciais ou não – como combate a um dos lados mais negros do digital: haters, pedófilos e outros perigos que se escondem por trás dele?
Por Pureza Fleming, 21.08.2018

O empoderamento do online já não é surpresa para ninguém. Diariamente há um novo site que surge, abordando os mais diversos interesses: de moda, de beleza ou de ambos, de restauração, de fitness, de desabafos, pensamentos e emoções, pessoal, impessoal, etc. O céu – ou, neste caso, o espaço digital – é realmente ilimitado. Os interesses são variados, sendo que, quer se queira quer não, os comerciais vencem. Mas o que leva uma mãe a criar um espaço tão público como o online pode ser, onde os filhos são o conteúdo principal? Trata-se dos tais interesses comerciais ou as emoções falam mesmo mais alto?

Márcia D’Orey, de 36 anos, não criou Minnie Mars com o intuito de esta ser uma conta de Instagram focada na maternidade – ainda que as duas filhas, Juju e Pi, como são conhecidas, ocupem quase cem por cento do feed. "[A conta] é uma continuação do que sempre fiz, desde muito nova. Mantinha um diário, por ano, com mensagens, autocolantes e detalhes que permitiam reviver os momentos." É então que me assalta a memória dos (bons velhos) tempos em que um diário era um bloco trancado a sete chaves, onde nem pais, nem amigos, mesmo os mais próximos, podiam chegar perto. Dos tempos em que um diário era algo secreto, pessoal e intransmissível. O mesmo não se passa com uma conta de Instagram. Por mais controlo que se deseje e que se acredite ter em teoria, o que se passa é que assim que sejam publicados uma imagem ou um texto estes ganham corpo na vastidão que é o espaço digital. Ainda acerca dos diários de antigamente, recordo-me não só de os ter como, e principalmente, de os queimar assim que preenchia a última página e me preparava para passar ao próximo. Na Internet, não há fogo que incendeie o que já foi criado. Mas há outros propósitos por detrás da criação de espaços digitais baseados na vida pessoal e (ou) dos filhos – já que se pode incluir ambos na mesma categoria. Catarina Ferreira, 31 anos, inaugurou o seu espaço Ties há sete. Com dois filhos com menos de dois anos na altura (agora já vai em quatro filhos), havia terminado um curso de pintura e encontrava-se numa fase em que sentia necessidade de comunicar: "Tinha 24 anos, os meus amigos ainda não tinham filhos e estávamos em fases de vida desencontradas. O blogue era um espaço muito pessoal, publicado de uma forma muito espontânea para a família e amigos, apesar de ser público.Escrevia quase um diário de bordo, podia falar livremente das noites mal dormidas ou da ida ao parque, que tinha sido tão boa, ou das últimas conquistas ou graças dos miúdos. O blogue funcionava como uma companhia e uma ferramenta que me ajudava a dar mais sentido ao que estava a viver." O espaço Ties nascia numa altura em que blogues de todos os tipos brotavam do chão e Catarina rapidamente se apercebeu de que este era lido por outros e que aquilo que escrevia e fotografava fazia sentido para outras pessoas. "Deste ponto até se ter tornado um blogue de mãe para mães foi uma eternidade", esclarece. Apesar do nome A Mãe Já Vai, o blogue de Maria Ana Ferro, de 38 anos, não nascia para ser um site focado (só) na maternidade, mas antes de uma parceria entre a autora e um espaço ligado ao fitness chamado Fhit Unit - personal training, cujo objectivo seria, com o acompanhamento de um personal trainer, mostrar às pessoas que era possível levar uma rotina familiar normal e, ao mesmo tempo, um estilo de vida saudável. "A maternidade e os temas mais pessoais foram ganhando força. Quando engravidei do terceiro filho deixei o exercício, mas os assuntos relacionados com a maternidade e com tudo à sua volta eram sempre espontâneos e constantes e, por isso, o blogue manteve-se."

Vale mais prevenir...

"A questão relativa à utilização de fotos de crianças na Internet (redes sociais, blogues, sites) é, por estes dias e cada vez mais, uma questão que deve ser objecto de uma análise profunda e consciente. Em particular pelos pais, mas também por todos aqueles que, de alguma forma, têm responsabilidades na formação das crianças (familiares, professores e representantes legais)." As palavras são de André Queiroga, advogado especialista em Direito da Internet, da Informática e Protecção de Dados, que garante que simples publicações de fotografias nas redes sociais "foram sinónimo de casamentos desfeitos, da cessação de empregos, de uso indevido por terceiros (pedófilos), etc." O advogado assevera que este conceito da privacidade, devido à utilização generalizada das redes sociais, "é actualmente um tema que preocupa a sociedade, uma vez que o histórico existente sobejamente demonstrou os perigos e as consequências nefastas que a violação da privacidade tem na vida das pessoas (e das crianças, em particular)". O advogado adiantou à Máxima que "no contexto da nova lei de protecção de dados, que muito em breve será publicada (em resultado do Regulamento Geral de Protecção de Dados que se aplicará, a partir do próximo dia 25 de Maio de 2018, em toda a União Europeia), passará a ser obrigatório o consentimento dos titulares das responsabilidades parentais relativamente aos dados pessoais das mesmas [crianças], sempre que estiver em causa a oferta directa de serviços da sociedade da informação a menores 13 anos de idade". A autora de Minnie Mars, que, entretanto, decidiu intercalar a privacidade da sua conta entre o público e o privado, confirma alguns perigos: "Infelizmente, uma fotografia em que me encontrava a amamentar a minha filha foi colocada, sem a minha autorização, numa conta bastante conhecida num contexto totalmente desapropriado.Rapidamente foi resolvido com diversos pedidos de desculpas, mas confesso que pus tudo em causa e que, nesse momento, o meu mundo gelou", conta. Por esse mesmo motivo, Márcia D’Orey decidiu redobrar os cuidados com quem pode entrar na sua casa virtual: "Optei por controlar, ainda mais, fechando a conta quando vou dormir e só voltar a abri-la ao acordar… Só abro durante algumas horas do dia, no fundo quando sei que posso estar sempre atenta." De acordo com o especialista em Direito da Internet, da Informática e Protecção de Dados, esse cuidado não basta já que, como se sabe, "a partir do momento em que partilhamos uma fotografia na Internet nunca mais temos controlo sobre a mesma (dado que passa a ser do domínio público), o que equivale a dizer que qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pode, directa ou indirectamente, vir a ter acesso à mesma e dar-lhe o uso que bem entender.Ou seja, deixamos uma enorme pegada digital que dificilmente ou nunca conseguiremos apagar". A autora de A Mãe Já Vai opta por, nas suas publicações, não mostrar o rosto dos filhos. Quando questionada acerca dessa escolha se tratar (ou não) de uma forma de protecção da imagem dos três filhos, explica que não: "Os meus filhos não são um segredo de Estado. Se um dia mostrar mais a cara deles, não há problema. Criar um blogue tem de ser uma decisão familiar se houver crianças envolvidas. Eles não são propriedade nossa. E no nosso caso foi assim: decidido entre mim e o meu marido." Conta que a tal decisão de não mostrar rostos baseara-se numa questão de tipo de conteúdo que prioriza a escrita: "O grande motivo [da criação do blogue] foi escrever sobre eles, mas sem cair na tentação diária de os mostrar nas suas rotinas. Eu gosto de escrever e as imagens, às vezes, retiram-nos essa obrigação. Assim, para fazer passar uma ideia ou uma mensagem, eu tenho mesmo de gastar palavras e isso é bom." Catarina Ferreira, mentora de Ties, assegura que nunca sofreu algum susto e que quando lhe é colocada a questão dos perigos iminentes da Internet a sua resposta é que "a pedofilia e os raptos existem mesmo antes de existirem blogues com crianças expostas", afirmando não conseguir ver como estes assuntos se podem tocar. Esta mãe de quatro filhos confessa sentir que "existe um histerismo pouco fundado com este assunto". Com histerismo ou sem histerismo, reconhece que já pensou encerrar a conta por ler comentários de "anónimos ordinários" no seu espaço: "Isso, sim, é o lado mais obscuro, [esse] onde vivem muitas cabeças doentes", arremata. E considera essencial que se proteja a imagem das crianças e que se deve evitar expor algum tipo de fotografias, nomeadamente aquelas relacionadas com a nudez, ainda que parcial. Não menos importante, enuncia, é"proteger a intimidade das crianças: os detalhes do seu crescimento, alguns distúrbios, momentos mais difíceis (que todos sabemos que existem)." A instagramer Márcia D’Orey assume ser "muito conhecida" pelas suas stories diárias, onde, admite, se expõe bastante e mostra muito do seu mundo. Outra das tácticas que utiliza para se proteger, bem como às suas duas filhas pequenas, é verificar sempre quem entra, quem segue e, assegura, "raramente são homens". No fundo, explica: "É como na minha casa… Espreito sempre pela fechadura antes de abrir a porta.Sou muito selectiva, não procuro muitos seguidores, mas sim ter as pessoas certas à minha volta. Admitindo que dá trabalho e que se perde bastante tempo a verificar, mas é a única forma de controlar quem a vê. E funciona."

Sharing is caring?

Partilhar ou não partilhar é a questão que se coloca num momento em que o mundo vive de olhos expostos no digital. A linha que separa o privado do público é tão ténue como o tempo que demora a ser feito um print screen: um segundo, sensivelmente. E se nos adultos esta realidade levantou um sem-número de questões de várias ordens – sendo que a psicológica é a mais debatida, uma vez que se perdeu, definitivamente, a noção dos limites daquilo que deve ser público do que não deveria passar a barreira do privado –, nas crianças a urgência chegou a dar origem a um nome. Referimo-nos ao termo sharenting (share + parenting) ou oversharenting, usado para descrever o uso excessivo das redes sociais por parte dos pais que partilham conteúdos baseados nos filhos. Não sendo um termo muito falado, a nível nacional, no estrangeiro é uma realidade: pedopsiquiatras e pediatras começam a indagar de que forma é que o sharenting pode afectar a infância e a vida familiar, implorando, em simultâneo, por bom senso na hora da partilha. Paula Trigo da Roza, psicoterapeuta, reforça a importância das relações próximas e íntimas entre pais e filhos, que, sublinha, "os irão ajudar a crescer seguros e com carácter próprio, independente da moda ou do olhar dos outros". E acrescenta que não se deve exigir que os filhos sejam "produtos ‘comerciais’ aparentemente perfeitos, reforços do narcisismo e da idealização da vida dos pais". A psicoterapeuta levanta uma das questões que mais assola o mundo digital que é a de se usar espaços pessoais para se vender marcas e produtos. O usuário da conta recebe o produto (ou um pagamento em numerário) e em troca publicita-o. Esta é uma realidade que não é novidade. Acerca deste tema, Márcia D’Orey acentua a sua posição: "Não sou blogger, nem tenciono ser... Nunca mencionei uma marca [na conta de Instagram que possui]." Catarina Ferreira, por sua vez, conta que os filhos fizeram, inclusive, campanhas comerciais para televisão: "Não foi algo que pudesse prever, mas é algo que posso controlar e decidir em conjunto com eles, principalmente os mais velhos. O respeito pelo seu espaço e pela sua intimidade é a minha regra principal." Adianta que não são obrigados a participar e a fotografar. Esclarece: "Os meus filhos sabem que existe o blogue, mostro-lhes as fotografias e, até hoje, tem sido muito positivo porque é um espaço em que eles conseguem, rapidamente, ver fotografias de quando eram pequenos ou da viagem especial que fizeram." E remata: "Um dia talvez se zanguem comigo." Na opinião de Maria Ana Ferro, mãe de três filhos, "a privacidade dos filhos tem de ser gerida pelos pais com o melhor bom senso possível". E defende: "Mais importante que a rua onde vivem ou a escola onde andam é a sua intimidade. Um dia vão ler o que escrevemos sobre eles e o meu cuidado está todo aí. Não quero que se sintam ofendidos ou envergonhados com as minhas palavras." Além da intimidade que, como bem descreve a psicoterapeuta, "é íntima" – uma redundância que faz todo o sentido, já que funciona mais como um sublinhar da sua importância –, deparamo-nos com a não menos importante questão da imitação. "Se os pais valorizam muito a imagem perante os outros e, até, perante eles próprios, em deterimento do que sentem,   a criança vai sofrer com isso." A psicoterapeuta alerta para a natureza das redes sociais que "são, muitas vezes, não mais que tentativas de relações fugazes que procuram o olhar e a aprovação do outro". A autora do blogue A Mãe Já Vai considera que as mães que têm blogues públicos fazem o seu próprio exercício de consciência, salientando: "Se há uma coisa que aprendi com a maternidade é que cada uma sabe de si. Não posso julgar uma mãe pelo número de publicações que faz ou pelo tipo de fotografias que põe dos seus filhos. É claro que tenho as minhas preferências, como toda a gente, e, às vezes, questiono o porquê de determinada fotografia. Mas não vou muito além disso."

É, definitivamente, uma nova era, esta do digital. O mundo de hoje é demasiado diferente do que era há uma década (tão escandaloso quanto isso) e a adaptação aos novos tempos é, mais que uma necessidade, uma imposição. Para a psicoterapeuta – e para estas mães em particular – não há nada que substitua o bom senso. Com uma visão mais racional, o especialista em Direito da Internet, da Informática e Protecção de Dados insiste: "Enquanto não existir legislação mais detalhada sobre o assunto, os pais deverão ter a preocupação contínua de gerir as situações com bom senso e rigor." E remata com a velha máxima que defende que mais vale prevenir que remediar."A exposição dos meus filhos nas redes sociais tem uma razão igual à de tantas mães: partilhar a alegria, o melhor que temos. Partilhar a imagem dos nossos filhos parece inofensivo", confessa Catarina Ferreira. É que "sharing" pode ser só "caring". E nada mais que isso.

Quais os critérios a ter em conta antes de qualquer publicação de acordo com o Mindfulness?

Apesar de ainda não se poder falar das verdadeiras consequências, no futuro, da exposição das crianças de hoje, por se tratar de uma realidade recente, existem, contudo, alguns exemplos de filhos de estrelas hollywoodescas que, vivendo sob os holofotes, se revelaram adolescentes problemáticos, com fraca auto-estima. Mikaela Övén, especialista em Mindfulness, Heartfulness e Parentalidade Consciente, alerta para alguns cuidados imperiosos a ter em conta, na hora da partilha.

  1.   Questionar a intenção da partilha, sempre.
  2.   Dar conhecimento aos filhos e ter sempre a sua aprovação quando têm idade para tal, respeitando, desta forma, a sua integridade.
  3.   Colocar-se perguntas antes de avançar com a publicação: "Se eu fosse criança gostaria de ver esta fotografia minha publicada? Este comentário? Que consequências pode esta imagem trazer para o futuro do meu filho?"
  4.   Partilhar apenas momentos felizes e nunca situações que envolvam birras, algum tipo de imagem constrangedora ou as fragilidades dos menores. Não para sugerir a ilusória ideia de que a vida é feita apenas de coisas boas, mas simplesmente porque as emoções das crianças não devem ser partilhadas. Elas sentem com a mesma força que nós, merecendo o máximo respeito dos adultos.
  5.   A partir de determinada altura, explicar-lhes que a vida não são likes e que a validação enquanto seres humanos não surge das redes sociais. Equilibrar muito bem a questão da validação, retirando importância ao feedback que chega das redes.
  6.   Ter partilhas mais educativas. É engraçado divulgar as roupas e as marcas que as crianças usam, assim como mostrar a decoração do quarto para inspirar seguidores, mas deve-se balancear isso com temas mais sérios e que possam acrescentar algo que vá além da imagem exterior.
Este artigo foi originalmente publicado na edição de maio da Máxima.
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