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“O desafio foi escrever um argumento que dissesse mais sobre o país de Eusébio do que sobre ele”

Conversámos com Leonor Pinhão sobre o filme Ruth, onde a jornalista revela o enredo do episódio rocambolesco da troca de Eusébio do Sporting para o Benfica.
Por Rita Silva Avelar, 26.04.2018

A primeira longa-metragem do jovem realizador António Pinhão Botelho (filho do emblemático realizador português João Botelho) conta a história do jovem futebolista Eusébio (que viajou para Lisboa no início dos anos 60, incógnito, com esse nome), ao mesmo tempo que traça o perfil de um Portugal ultramarino. O argumento, escreveu-o a mãe, Leonor Pinhão, que viveu, ouviu e reouviu o rocambolesco (e conturbado) episódio da troca do "Pantera Negra" do Sporting para o Benfica. Pautado pelo humor que acentua a disputa entre as "águias" e os "leões", o filme tem como protagonista o ator Igor Regalla (no papel de Eusébio) e no elenco atores como Fernando Luís (como o então presidente do Benfica, Maurício Vieira de Brito), Lídia Franco (como D. Otília, do lar do jogador do Benfica) ou Vítor Norte (como Domingos Claudino, funcionário do clube). A Máxima conversou com a jornalista (também tradutora e ghost-writer) que tão bem conhece o contexto desportivo português. O maior desafio, conta-nos, foi retratar o Portugal dos anos 60, tal como ele era – submisso ao regime fascista, pobre e isolado.

Qual foi o ponto de partida para o argumento de Ruth?

Nunca me passou pela cabeça construir uma história inspirada nestes acontecimentos até ao dia em que o Paulo Branco me apareceu com a ideia de um filme sobre o Eusébio. Perguntou-me se eu não queria escrever um argumento sobre o jogador, que tinha morrido há coisa de meses, e eu disse-lhe o que pensava sobre um projeto desses. Basicamente, que só me interessaria escrever sobre o Eusébio se o protagonista não desse um pontapé numa bola porque tentar reproduzir ou fazer representar a lenda no exercício da sua arte numa obra de ficção ficaria sempre uma coisa bastante pindérica por estar inevitavelmente muito, muito aquém do original. Sugeri-lhe então, como ponto de partida do argumento, a história rocambolesca da transferência do jogador do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica que eu poderia escrever por a conhecer bem, por ter conhecido muitos dos seus intervenientes, por a ter ouvido contar e recontar e por considerar que, à medida do Portugal da época, poderia resultar num enredo envolvente, uma espécie de história de espionagem em que os espiões são talhantes, num thriller passado em barbearias, restaurantes de luxo, quartos de hotel, cafés, corredores e tascas. E que, enfim, poderia ficar bem.

Já estava a ser pensado há muito tempo?

Foi uma proposta que me surpreendeu. Pedi ao Paulo Branco três meses para pesquisar os jornais da época e para escrever o argumento. Interessava-me para a escrita do guião ser fiel às notícias de 1960 e 1961 porque toda a verosimilhança do filme viria daí.

Que influência teve a sua paixão, assumida, pelo Benfica, na escrita deste argumento?

 Não foi muito relevante.

Como foi retratar a década de 60, aquela em que cresceu?

Eu nasci em 1957. E, na verdade, só quando comecei a pesquisar é que dei conta de que todo o episódio da transferência do jogador aconteceu num período raro de instabilidade do regime. O desvio do paquete Santa Maria, o início da guerra colonial em Angola, as censuras e as exigências da ONU à nossa administração ultramarina eram os temas do dia e ocupavam as atenções do regime e da imprensa. Nem nos jornais desportivos o caso Eusébio fazia grandes manchetes. Aliás, na "Metrópole", ninguém tinha visto jogar aquele rapaz de 17 anos, portanto toda aquela disputa entre os clubes de Lisboa era vista genericamente apenas como mais um episódio, ainda que suficientemente exótico, da rivalidade entre os dois emblemas.

Qual foi o momento mais desafiante de contar? 

O maior desafio, chamemos-lhe assim, foi escrever um argumento que dissesse mais sobre o país de Eusébio do que propriamente sobre o Eusébio.

E porquê?

Porque seria sempre da eficácia desse pressuposto narrativo que resultaria, ou não, a adesão do público.

Como foi trabalhar com o seu filho neste que é o seu primeiro projeto de longa-metragem?

Quando entreguei o argumento ao Paulo Branco não sabia quem iria ser o realizador. Aliás, sempre pensei que nunca iria haver filme. A escolha do realizador foi do produtor. Depois de escolhido o realizador, trabalhamos juntos dois fins de semana, não mais do que isso, sobre o argumento e terminou aí a minha colaboração. Não assisti a um único dia da rodagem. Só conheci o Igor Regalla (o ator que representa a personagem de Eusébio) na semana passada.

Qual foi o momento mais emocionante de toda a produção de Ruth?

 A estreia.

Ainda há poucas mulheres a escrever argumentos para filmes, em Portugal. Isso está a mudar ou ainda temos um longo caminho pela frente?

Não sei, não conheço o meio. Mas acredito muito nos longos caminhos pela frente.

Que história ou histórias gostaria mesmo de contar, no futuro?

Às vezes penso que gostaria de ter liberdade total para escrever uma novela ou uma série para a televisão, mas isso nunca vai acontecer. Em primeiro lugar, por causa desse pormenor da liberdade total e, depois, porque sou um bocado bicho do mato, não tenho "sindicato", chamemos-lhe assim… Nem quero ter.

O filme estreia a 4 de maio.

 

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