Culturas

"Alexander McQueen tinha o mundo a seus pés"

Ian Bonhôte e Peter Ettedgui, os realizadores do mais recente documentário sobre a vida de Alexander McQueen, conversaram com a Máxima. Recordamos a entrevista no dia em que o icónico designer de moda faria 50 anos.
Por Rita Silva Avelar, 17.03.2019

Quando os realizadores Ian Bonhôte e Peter Ettedgui decidiram que queriam narrar a história do designer britânico Lee Alexander McQueen que, em 2010, pôs fim à vida, estavam longe de pensar que se debruçariam sobre cerca de 200 fontes de imagens de arquivo e que falariam com mais de três dezenas de pessoas. A Máxima interrompeu deliberadamente as férias de ambos para conversar, em exclusivo, sobre o documentário McQueen, que estreou a 27 de setembro, em Portugal.

Ian e Peter, porque decidiram contar a história de McQueen? Era algo que estava nos vossos planos, como realizadores?

Ian: Eu tenho trabalhado no mundo da moda, ao nível da imagem do cinema, e o Lee era uma das figuras mais inspiradoras deste mundo pela sua imagem ser tão teatral e visual. A ideia [de realizar o documentário] foi crescendo à medida que falávamos com pessoas diferentes. Depois, aquela história de vida que é um percurso muito interessante porque o Lee passou de uma realidade pobre para o topo da indústria da moda. Além disso, ele tinha uma abordagem tão diferente ao mundo da moda. Ele não era o típico designer...

O que é que McQueen procurava, incessantemente?

Ian: Durante toda a vida e carreira, o Lee estava constantemente em luta com esse mesmo mundo da moda porque ele não estava completamente incorporado nele. Toda a sua vontade de criar fora da indústria da moda, mas, ao mesmo tempo, não estar fora dela e jogar esse jogo continua a ser algo deveras interessante de se entender. Por fim, a forma triste como a sua vida chegou ao final levou-nos a querer responder aos porquês, olhando para a sua vida, a fim de tentar compreender as razões [para se ter suicidado]. Ou, pelo menos, tentar perceber o porquê de alguém que veio do nada e que chegou ao topo dos topos e decidiu ter aquele fim trágico. Ele era rico, bem-sucedido e adorado. Ele tinha o mundo a seus pés.

Antes de realizar este filme, o que é que ambos tinham a certeza que iriam contar sobre a vida deste designer?

Ian: Nós queríamos assegurar-nos de que retrataríamos a verdadeira e inspiradora história de Alexander McQueen. Não há nada tão inspirador como saber, como referi, de que ele proveio de uma realidade que não tem qualquer ligação à Arte. A família não o expunha à Pintura nem à Música e ele teve de se enriquecer a si mesmo criativamente e "ir por aí fora" para se encontrar [como designer]. O filme tem subjacente uma mensagem de esperança, de foco e de força, mas também há um alerta para termos cuidado com a indústria criativa. Falando do Lee ou de outros artistas, a verdade é que quando se tem ritmo de trabalho muito exigente é difícil que a pessoa em causa viva uma vida normal, equilibrada e saudável.

O filme também quer passar essa mensagem?

Ian: Claro, há uma mensagem de saúde mental muito forte [no documentário] sobre como viver com um bom equilíbrio entre o trabalho, a paixão, a vida e depois a vida pessoal. O Lee estava constantemente a lutar para equilibrar todos esses elementos.

A certo momento, e no decorrer da pesquisa, acabaram por sentir essa mesma angústia na pele?

Ian: Quando passámos um ano a ler tudo, desde artigos a livros ou a qualquer página na Internet, ao mesmo tempo que falámos com mais de 30 pessoas, é normal que fôssemos tendo uma grande perceção de como era o verdadeiro Lee.

Quem são as pessoas cruciais que falam no documentário?

Ian: Nunca decidimos entrevistar os comentadores da indústria da moda. Só queríamos ter as pessoas que estavam todos os dias na vida do Lee, ou seja, com ele. E a família dele, as pessoas que partilhavam o seu ADN, que cresceram com ele. Este documentário não é sobre fazer do Lee um ícone, mas sim de mostrar quem ele era realmente. É sobre o verdadeiro homem por detrás do ícone.

Qual foi a fase da vida de McQueen mais difícil de retratar?

Peter: Do ponto de vista de quem conta a história, mas também de conseguir que as pessoas falassem, foi, sem dúvida, a última parte da sua vida, aquilo a que chamamos, no documentário, o capítulo quinto. Há muita emoção e tragédia, mas também trauma. E por isso é preciso ser-se incrivelmente sensível ao entrevistar as pessoas sobre isso. Foi preciso, sempre, fazê-las saber que estavam protegidas. Depois, porque o Lee não deu muitas entrevistas no final da vida, havia muito menos material desse período.

Por fim, quão difícil foi perceber quem era o verdadeiro Lee Alexander McQueen?

Ian: É sempre difícil ter um entendimento completo de uma pessoa, especialmente com uma tragédia no fim. Eu e o Peter nunca quisemos dar uma explicação explícita para esse fim, mas acabamos por expor as razões que o podem ter desencadeado. Nunca foi nossa intenção tentar explicar tudo, até porque isso nunca será possível. Poderá não ser exato ou perfeito, mas espelha o seu percurso e tudo aquilo que McQueen queria, ainda, conquistar.

Peter: Quisemos mostrar o ser humano com todas as fragilidades e forças. E eu acho que o conseguimos, a um certo nível.

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