Festival Vodafone Paredes de Coura

“Nunca imaginámos ouvir as nossas músicas nas rádios portuguesas”

Boogarins, a banda com origem numa das cidades brasileiras com maior cenário alternativo e experimental, atuou pela primeira vez no festival Vodafone Paredes de Coura. Por sua vez, o público mostrou conhecê-los bem num concerto que inaugurou o palco Vodafone desta edição.
Por Rita Silva Avelar, 19.08.2019

Ligados por uma cultura musical única, a da cidade de Goiânia, no estado brasileiro de Goiás, e depois de vários anos de "shows", Benke Ferraz e Fernando "Dinho" Almeida quiseram gravar as músicas que os amigos e as plateias desta cidade tanto aplaudiam em concertos locais, transformando-as em disco, dois anos depois de formarem a banda, em 2012. A esta dupla juntar-se-iam, mais tarde, o contrabaixista Raphael Vaz (que também se aventura nos sintetizadores) e o baterista Ynaiã Benthroldo (que ocupou o lugar de Hans Castro). Assim nasceram os Boogarins.

A envolvência com as origens alternativas desta cidade, contam Benke, o guitarrista, e Ynaiã, à Máxima, durante o festival Vodafone Paredes de Coura, foi decisiva para a formação deste coletivo que combina rock psicadélico com neopsicodelia. "Goiânia tem uma cena de música autoral, de festivais independentes, que sempre movimentou os jovens. Desde os meus 12 anos - e o "Dinho" desde os seus 11 – que frequentamos os shows de bandas locais, festivais e concertos para mil pessoas", começa por contar Benke. "Quando eu conheci o Dinho no ensino médio, no Colegial, tínhamos 15 anos e ele já tinha uma banda própria e eu só assistia. O que movimentava o nosso tempo de lazer era a música na cidade e o tocar, essencialmente porque gravar sempre foi uma coisa muito cara. O Dinho teve uma banda durante seis anos, que nunca gravou absolutamente nada, viviam a fazer shows".

Cientes de que entrar em estúdio seria um passo grande para a banda, amadurecendo a sua sonoridade tão particular, os Boogarins gravaram o disco de estreia As Plantas que Curam, em 2014. "Quando Boogarins começou, eu e o Dinho queríamos aprender a gravar para ter um registo das músicas que sempre tocávamos, já que a gente sempre se acostumou a fazer shows para a galera (…). E tendo essa perceção de como as coisas funcionam do jeito profissional, pensámos em lançar música para ver se as pessoas gostavam – e foi assim que aconteceu" explica. "Em Goiânia ouvíamos muito o stoner rock, um rock mais garage, com influência dos anos sessenta (...) Mas era sempre uma coisa muito energética, e os Boogarins também entraram com essa energia, esse brilho sempre carismático, mas também com um lado sistemático e pensado." As gravações serviram para criar paisagens sonoras, tanto pelas melodias como pela forma como gravaram, o que diferenciou os Boogarins de tudo o que estava a acontecer em Goiânia. "Depois aconteceu tudo muito rápido, o disco foi editado por um selo americano, começou a chegar à Europa e começámos a fazer coisas que não imaginávamos, como ouvir as nossas músicas nas rádios portuguesas", conta Benke.

Ao ouvirmos a música Invenção, um dos singles do novo disco, entendemos de imediato que Boogarins soa a algo novo, fresco, selvagem, seja nas composições como nas melodias díspares e inesperadas que parecem quase atropelar-se de forma surpreendente. "Desde que lançámos o disco em 2014, e que viemos a Portugal ao Milhões de Festa, nunca mais tocamos menos de 100 shows num ano, e isso ajuda a banda a desenvolver um tipo de frequência sonora e mental, o que [por sua vez] desenvolve uma comunicação e um som enquanto grupo [que se vai transformado] em algo único. Para o guitarrista "o caminho que os Boogarins têm procurado é realmente não ter um caminho específico quando se fala de género, e isso vai ficando mais claro de disco para disco. A influência de cada um de nós é muito nítida". 

Porquê Boogarins? "Queríamos um nome para nos lançar. O bogarin é uma flor que a gente só achou de verdade porque tínhamos que achar um nome para a banda. E também é um nome extraordinário, não se encontra em lado nenhum (…). É uma flor que exalava o amor puro e isso também casava bem com o nosso estilo de vida ao sermos pessoas que não buscam problemas nem atritos – e a gente passa isso para a música desde sempre," revela Benke. "Nesses cinco anos, conseguimos pular bastante as frustrações, as quebras de espectativa, sempre focando no trabalho, e tentando manter uma relação com as pessoas que ouvem a nossa música".

Sobre a presença neste festival, essa que já era muito aguardada, o guitarrista explica que "o Paredes de Coura era um festival de que todo o mundo falava e é o último [onde tocamos] depois de quase cinco anos de vindas a Portugal. É bom estar chegando neste festival que todo o mundo sempre falou que era aonde a gente pertencia. É legal isso acontecer de forma natural, sempre encaixando com os ciclos de lançamento de discos e aquilo a que agente se está propondo a fazer em relação às digressões. Isso define o modo de fazer música e shows. Aliás, os nossos discos saem de dentro das tournées," explica Benke. O segundo disco, Manual, ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos foi gravado num estúdio em Espanha, e foi um dos mais aplaudidos pela crítica, em 2015. Seguiu-se Lá Vem a Morte, em 2017, e o recém-lançado Sombrou Dúvida, que apresentaram no primeiro dia do festival, ambos gravados em Austin, no Texas. "Fico feliz em ouvir que as pessoas nos tenham como uma banda que tem uma sonoridade peculiar, mas a nossa busca foi por criar um encruzamento que fosse bem claro e espontâneo e consequentemente fomos tomando escolhas que foram nos levando a experimentar. Nos concertos fomos perdendo o medo de nos jogarmos, de sair da zona de conforto e buscar outros espaços que a música está ali mostrando e oferecendo a todo o momento" revela Ynaiã, o baterista.

Sobre o facto de a música brasileira independente estar cada vez mais presente nos alinhamentos musicais dos festivais e rádios portuguesas, Ynaiã explica que tem sido "um processo de expansão cada vez maior, e o que eu venho a perceber é que muitos artistas brasileiros estão vindo para cá, houve um boom do consumo da música brasileira, principalmente a independente, e nesses últimos anos há uma abertura maior para a nossa música. E isto acontece não só na música como com o que o Brasil produz". Benke concorda. "No Brasil está acontecendo isso também. Portugal foi um país que consumiu muita música brasileira, da popular à independente, e fica mais evidente quando o mercado brasileiro começa a se organizar mais e há mais artistas com uma qualidade específica ou com um apelo popular maior. Notamos que os festivais aqui, como o Paredes de Coura são festivais de grande porte e trazem artistas gigantes, e também fazem parte de um circuito europeu bem estruturado. No Brasil é o tipo de coisa que acontece uma ou duas vezes no ano, porque é muito longe e não faz parte desse circuito. Acho natural para Portugal que esteja a consumir mais música nova, porque é só ligar a rádio do carro e podem estar conhecendo coisas novas. Também tem tudo a ver com a proporção (…) e por vezes até brincamos com o facto de acharmos que somos mais conhecidos em Portugal do que no Brasil. Você vê uma banda como Capitão Fausto, uma das melhores bandas do ano, e você está tocando ao lado deles, e no Brasil isso é muito distante. Não se entende como chegar na televisão, por exemplo, a não ser que você esteja a fazer algo muito pop ou tenha um dinheiro focado naquilo. Não é uma coisa que aconteça naturalmente você ver a as bandas dos amigos que tocam nos festivais independentes ir tocar na televisão. Mas a gente está aqui para mudar isso também".

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