Entrevista

“Nada há nada como ter uma audiência a querer que o concerto seja memorável” conta Skin, dos Skunk Anansie

Vinte e cinco anos após a sua génese, a banda britânica Skunk Anansie celebra com um disco ao vivo. Em conversa com a Máxima, Skin e Ace relembram os áureos anos noventa.
Por Rita Silva Avelar, 26.02.2019

Sentados num terraço em Lisboa, Skin (na verdade, Deborah Anne Dyer) e Ace (Martin Kent) estão contentes por ver o sol raiar logo de manhã, em Lisboa, como nos confessam antes desta entrevista. Em Portugal a promover o novo álbum gravado ao vivo para assinalar os 25 anos da icónica banda de britrock (rock alternativo, hard e indie), os Skunk Anansie surgem Londres, no ano de 1994. A Skin e Ace, juntaram-se Cass (Richard Lewis) e Mark Richardson. Skin tornou-se conhecida não só por ser líder da banda como pela sua voz inconfundível e selvática e pela presença energizante em palco, e (aparentemente) inesgotável. A banda, que se separou em 2001 e voltou a juntar em 2009, gravou sete álbuns – o 25LIVE@25 é o oitavo (e foi gravado ao vivo).

Ace e Skin: viajamos até aos anos noventa. Como recordam a cultura musical britânica nesse tempo?

Ace: A cultura musical britânica era muito interessante, pois era um tempo em que tudo era possível, assim de repente. Foi quando surgiu o britpop, e foi um tempo de mudança, um tempo muito interessante. Havia bandas de todos os géneros, todas elas tinham um mood diferente – umas maiores que outras – por isso testemunhamos um movimento. Íamos aos sítios e conhecíamos as pessoas, não havia internet ou telemóvel – era preciso sair de casa. Havia bandas a atuar constantemente, era interessante e divertido, e todos estávamos a tentar fazer algo diferente do que já havia. Punk, metal, britpop… era como uma comunidade que se expressava através da música por isso foi um tempo entusiasmante. A forma como a banda [Skunk Anansie] se conheceu foi num desses encontros, havia os da [zona] King’s Cross e os da [zona] de Camden.

Skin: Camden era mais uma zona de restaurantes e de bandas elegantes, com mais classe, era uma zona cool e trendy, mas nós estávamos numa zona mais underground e suja e pequena, que era King’s Cross. Durante o dia via-se prostituição, drogas, grupos de músicos e pessoas do seio artístico, que não poderiam sustentar-se em Camden, mas que faziam música incrível. Era diversa, multicultural, e vibrante. Todos os nossos amigos estavam lá, costumávamos ir sair sempre à noite lá, havia sempre novas bandas. Era a parte mais underground da cidade, estava próxima de tudo, só íamos a Camden quando íamos tomar um copo com jornalistas ou ver rapazes elegantes.

Ace: Conhecemo-nos num clube no centro de King’s Cross, o Splash Club, durante gigs e concertos de outras bandas. Começamos a juntar-nos, a fazer mixtapes, e houve uma ocasião em que juntámos todos os nossos fãs para o nosso primeiro concerto.

As tecnologias vieram mudar toda esta energia dos gigs que existia? O que mais mudou nestes 25 anos?

Ace: Não podíamos "googlar-nos" uns aos outros nessa altura, tínhamos mesmo gostar uns dos outros (risos).

Skin: Antes dos telemóveis as pessoas costumavam sair, e ficar fora de casa por dois ou três dias para estar com amigos, ir a concertos…Se tínhamos um compromisso, esse compromisso era cumprido, não se deixava ninguém à espera. Eu costumava ter um limite de espera de meia hora… porque, caso contrário, perdíamos a vida toda à espera.

Nessa altura, "o medo de ficar de fora" era bem mais real, porque não havia redes sociais para partilhar esses momentos…

Ace: Sim, havia "o medo de ficar de fora" (o FOMO: Fear of Missing Out), porque caso não fossemos, ficávamos a pensar que poderia ser de facto incrível e memorável e nós estaríamos em casa, ausentes.

Skin: Se não saíssemos, perdíamos tudo. Ouvíamos falar dos eventos com duas semanas de antecedência. Sabíamos que estavam a acontecer coisas legendárias… se íamos ao Studio 54, estávamos mesmo no Studio 54. Hoje, eu posso pegar no meu iPhone e estar lá, em palco, a assistir a um concerto de um país diferente, através de um website de realidade virtual. É de loucos. A internet mudou a vida, mudou o mundo. Vivemos na era da informação, que sucedeu logo após a era industrial. Nada será nunca como era de antes, com a chegada da internet.

A vossa energia em palco é uma das vossas assinaturas. Como é que é manter essa vibe ao longo de um quarto de século?

Skin: A energia é uma daquelas coisas que não se aprende, ou se tem ou não se tem. Pode desenvolver-se e melhorá-la, isso sim.

Ace: Isso, e a energia das pessoas que estão à nossa volta, o entusiamo que elas têm é contagiante…Isso, e uma boa máquina de café (risos).

Quem eram os outros artistas que ouviam, e que vos inspiravam, no início?

Como banda ouvíamos muita música "pesada", e não eramos indie – e as nossas influências eram muito distintas. O nosso som era muito americano do princípio dos anos setenta (…). O Kurt Cobain tinha acabado de morrer… e de certa forma podemos dizer que o grunge também morreu… e nós surgimos logo a seguir. Ouvíamos bandas como Motörhead, que não eram bonitas nem a escolha mais comum.

Continuam a ouvir artistas novos, ou preferem ouvir aqueles que vos inspiram desde sempre?

Skin: O oposto. Eu acho que no momento em que se deixa de ouvir música, deixamos de nos conseguir auto-superar. Passamos a primeira parte das nossas vidas a "encontrarmo-nos", as nossas raízes, e se não tivermos cuidado podemos deixar que elas se comecem a decompor. Ouvir novas músicas, novos artistas, novos "hits" e estar num ambiente em que a música expande a mente, cria uma sonoridade em nós (…) especialmente quando se é mais maduro e se está há 25 anos numa banda. Há a tendência para nos mantermos a ouvir sempre o mesmo, ficar confortáveis e comodistas a achar que não precisamos de trabalhar mais arduamente. Esses são os momentos em que não nos permitir deixar desabar.

Ace: Quando se é mais jovem, tudo é mais excitante… os nossos "contemporâneos" surgiram ao mesmo tempo que nós! E olhando para trás, vemos como vivemos numa era emblemática para a música. Fizemos parte de uma verdadeira explosão [na Música], a meio dos anos noventa. Lembro-me de irmos ao Fuji Rock Festival, no Japão, e ver os Rage Against the Machine e os Limp Bizkit; ou irmos à Holanda e tocarmos com bandas como os Foo Fighters.

Skin: Eu acho que assim como os anos setenta foram inspirados pelos blues e pelo early rock dos anos cinquenta, os anos noventa inspiraram-se nos anos setenta (em bandas como Led Zeppelin ou Motörhead, já referido). Eu acho que as bandas de hoje também se inspiram nos anos noventa.

O novo álbum reúne os vossos maiores êxitos num quarto de século, ao vivo. Foi nostálgico escolher as canções?

Skin: É preciso dizer que é uma experiência intensa gravar um álbum de êxitos. O Ace fez imensa pesquisa, ao ouvir tudo. Não foi muito desafiante, mas foi sem dúvida divertido – recordar fotografias e vídeos fez-nos sentir nostálgicos. Nunca tínhamos feito nada assim. Foi uma experiência interessante.

Ace: Tem sido uma experiência especial, ouvir todos os espectáculos, e escolher os mais icónicos. Foi divertido, nostálgico, e na verdade bastante fácil. 

Que concertos se tornaram memoráveis?

Skin: Há vários! Glastonbury vem-me logo à memória. Mas, por exemplo, uma vez que tocámos em Frankfurt, um gangue atacou o palco. Foi em Düsseldorf, era a primeira vez que lá tocávamos e a plateia já estava insana antes sequer de começarmos. Nada há nada como existir uma audiência que quer mesmo que o concerto seja memorável. A energia vem directamente a nós, e nós devolvemo-la de imediato. Nem sei quantas vezes regressámos ao palco… [para encore].

E em Portugal, agora que estão prestes a regressar a Vilar de Mouros?

Ace: Eu tenho uma boa história de quando tocámos em Portugal, porque foi quando quase nos matámos (risos) no último dia da tour. Tocámos num festival, lembro-me que até lá demorámos duas horas de carrinha, e na volta, pelas 2h ou 3h da manhã, vínhamos todos a dormir, e o motorista adormeceu. Lembro-me de pensar: «oh homem, não nos mate no último dia da tour» (risos).

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