Culturas

Monja Coen, das polémicas ao budismo

Com uma história ligada ao rock n’ roll, a Monja Coen foi mãe aos 17 anos, casou várias vezes e esteve presa. Passou por Lisboa para apresentar A sabedoria da transformação, e falou sobre o zen budismo e o poder da mudança.
Por Rita Silva Avelar, 10.10.2019
O dia em que me encontrei com a Monja Coen, na tarde de uma terça-feira, na livraria Travessa, em Lisboa, poderá ter sido o dia menos "zen" do ano. Pelo menos para mim. Talvez o universo tenha querido colocar-me à prova e conjugou uma série de fatores avessos à expressão: vai tudo correr bem. Neste dia, o naturalmente caótico trânsito de Lisboa ainda mais caótico, aliou-se ao frenesim habitual que antecede um jogo do Benfica. Atrasos e mal-entendidos levariam a que ficasse à beira de um ataque de nervos, não fosse chegar ao local e ter uma plateia de leitores e fãs ansiosos à espera de um autógrafo da Monja Coen. Lembrei-me de respirar fundo e contar até três (o que, no momento, me pareceu bastante irónico) e depois reivindiquei os meus valores jornalísticos. Não queria uma audiência. Queria ouvir a história da Cláudia sozinha, no sossego e na tranquilidade de uma sala onde apenas os livros que revestiam as paredes nos podiam ouvir, sem mais seres humanos à vista. Pedido, por fim, aceite, depois de esgotar a minha reserva de paciência (que, para dizer a verdade, já estava no limite). Recordei as perguntas e parti à descoberta da vida desta monja. "É preciso sabermo-nos colocar. Como você fez. Não quis brigar com ninguém, não quis xingar, mostrou a sua maneira de trabalhar, insistindo, mas não ficou com raiva, não ficou brava, não saiu chorando. É preciso aprender a colocar-se no mundo sem guerra e sem violência", dir-me-ia a Monja Coen no final desta conversa. Respirar fundo, afinal, vale sempre pena, foi a conclusão da tarde.

Mas viremos as atenções para a história da Monja Coen. Longe de ter tido um percurso de vida inicial ligado ao conceito que comummente conhecemos como "zen", pelo menos a nível pessoal, Cláudia Dias Baptista de Souza (1947, São Paulo) viveu episódios controversos e acontecimentos mediáticos, antes de se converter ao zen budismo. Cresceu rodeada de livros e de música, no seio de uma família católica com ascendência portuguesa. Estudou num colégio de freiras. Casou aos 14 anos, foi mãe de Fábia aos 17. No Brasil e ainda jovem, trabalhou como repórter no extinto jornal A Tarde, antes de ir para Londres. Quando foi casada com o responsável por iluminação americano Paul Weiss, trabalhou como assistente de backstage de artistas como Alice Cooper ou David Bowie. Em 1972 esteve três meses presa por tráfico de LSD, tentou suicidar-se e fez dois abortos induzidos. O seu primeiro contacto com o zen budismo foi no Zen Center de Los Angeles, nos EUA, onde fez os votos monástiscos em 1983 e adoptou o apelido Coen (que significa "um só círculo" em japonês). De modo a especializar-se nesta filosofia, Coen viajou para o Japão onde acabou por viver oito anos no Mosteiro Feminino de Nagoya. Regressou à cidade natal em 1995 com o monge japonês Shozan Murayama, seu marido na altura, para viver no Templo Busshinji. No ano seguinte foi eleita presidente da Federação das Seitas Budistas do Brasil, com um mandato que durou um ano, tornando-se na primeira mulher e a primeira monja de descendência não japonesa com este cargo.

Foi a fundadora da Comunidade Zen Budista do Brasil, criada em 2001. Mundialmente conhecida por Monja Coen ou Coen Roshi, e aos 72 anos, é mãe, avó e bisavó, escreve livros e dá palestras um pouco por todo o mundo. Faz parte das vozes do projeto MOVA, um canal de Youtube com mais de 1 milhão de subscritores onde são partilhadas histórias que inspiram à mudança. De passagem por Lisboa, acaba de publicar o livro A sabedoria da transformação. É a monja mais mediática do Brasil, e talvez uma das mais influentes no mundo. 

Como viveu a sua infância? Sei que viveu sempre rodeada de livros…

Recordo-me que tínhamos muitos livros em casa. Aos nove anos comecei a entender o que lia e tudo o que eu encontrava. E o meu pai tinha uma coleção do Eça de Queiroz, primeiro li O Mandarim, e depois li os outros. Aos seis anos a minha mãe ensinou-me a decorar poesia, mas não eram histórias infantis. Eram histórias que tinham a ver com a sociedade, com questões como a educação, a pobreza, as diferenças sociais. Isso vai forjando na gente uma mudança, dá-nos um olhar sobre o mundo diferente. O meu pai tinha muitos livros de História, cresci numa família muito ligada às letras. Recordo-me de primos que eram mais ligados à Música, e recebíamos muitos saraus em casa. A minha mãe declamava, eu também, os meus avós tocavam piano, violão, e cantavam e dançavam. Foi uma infância muito divertida, ninguém bebia demais nem fumava em casa. A minha mãe tinha muito orgulho em que a família fosse das mais antigas lá, constituída por portugueses. O meu pai era filho de portugueses: o meu avô era de Guimarães e a minha avó de Vila Nova de Gaia.

Descobriu cedo o poder do pensamento crítico?

Não é suficiente saber fazer poesia, só rimar… é o sentido que se dá, como é que se usa a palavra para provocar um pensamento e uma reflexão. Os livros são transformações para nós. Ao ler, eu recebo e discuto, e no fim enriquece-me. A minha infância foi ligada às letras, à literatura, e a minha mãe a certa altura foi estudar Filosofia na universidade. Sentada no colo dela, li livros de antropologia que foram muito importantes para mim. Um deles falava de matriarcado em África, onde as mulheres eram líderes e ninguém se casava. Tinha 10 anos, e na altura percebi que havia mundos diferentes.

Casou muito nova. Como é que tudo aconteceu?

Sim, tive uma filha aos 17 anos e o marido já tinha ido embora (quando casámos ele tinha 21 anos e eu 14). A minha mãe chorava muito, afinal ele foi apanhado a tentar subir à minha janela tal Romeu e Julieta (risos). Antes, a minha mãe decidiu que iriam levar-me numa viagem pela Europa para me dissuadirem do namoro, do casamento e do sexo. E quem sabe deixar-me num colégio interno. Eu ouvi essa conversa e disse que se o fizessem eu fugia. Passeámos pela Europa, visitando museus, catedrais… e eu escrevendo e recebendo cartas de amor. Quando eu voltei, como o casamento estava marcado, eu casei. O casamento não durou muito.

Foi mãe aos 17 anos. Como foi a experiência da maternidade?

Sim. Tive que voltar a morar com os meus pais. Quando a minha filha tinha 2 anos, o meu pai disse-me que eu tinha que ir estudar ou trabalhar. Eu adorava cuidar do meu bebé, lavar as fraldas, fazia bordados… e estava no céu. Como o meu pai gostava de mulheres intelectuais, empurrou-me para trabalhar. Queria estudar filosofia, mas o meu pai não queria… queria que eu tivesse uma profissão liberal. Então entrei na Faculdade de Direito e me decepcionei. Nessa época um amigo disse-me que no Jornal da Tarde estavam contratando pessoas.

O que é que essa profissão lhe deu para a vida?

Fui trabalhar no Jornal da Tarde, e foi uma abertura de consciência. Trabalhei três anos na época do Governo Militar, dos movimentos estudantis, altura em que muitas pessoas eram presas e desapareciam. Conheci pessoas de classes sociais diferentes e chamavam-me a repórter "da geral", nunca sabia o que ia fazer mas era muito estimulante. Eu comecei a pensar no que poderia fazer para que a sociedade fosse diferente. Nessa altura pediram-me para escrever uma matéria sobre sociedades alternativas e entre as várias que existiam na altura, muitas delas inteligentes e modernas, o grupo zen, na Califórnia, trabalhava sem agro-tóxicos e fazia reciclagem de tudo. Isso seduziu-me um pouco. Um pouco antes soube-se que os Beatles meditavam e eles tinham uma capacidade de comunicação em massa muito grande.

Foi nessa altura que foi para Londres?

Pedi uma licença ao jornal para ir estudar inglês em Londres. Essa ida para Inglaterra foi uma grande mudança, nunca tinha morado sozinha. Foi tudo muito bom, deixei de ser uma pessoa que tinha um laço a uma família. Deu-me uma liberdade assustadora.

Como é que tudo aconteceu a partir daí até se tornar monja?

As pessoas foram-me dando livros de presente, comecei a ler e a estudar sozinha. Em Inglaterra, que é muito ligada à Índia, havia muitos gurus. Foi nessa altura que descobri a música, o rock n’roll tinha músicas muito bonitas. Começo a descobrir a música através da poesia. Voltei ao Brasil, tinha muitas saudades na minha filha, e pensei em ficar lá. Nessa altura casei com um norte-americano, fui morar em Los Angeles, na Califórnia e lá encontrei o Zen Center de Los Angeles e comecei a fazer meditação. Percebi que era aquilo que eu queria e que dava sentido à minha existência. Separei-me e virei monja, com relutância de toda a família. Pedi para ir para o Japão, e fui para um mosteiro feminino com todos os sonhos e ilusões sobre o que era a vida monástica.

Quer explicar melhor essa desilusão?

Caí na real. São seres humanos, convivendo juntos e cuja convivência não é fácil. Aprender a tocar sinos agente aprende, decorar sutras agente aprende, mas o relacionamento humano foi muito difícil. Briguei algumas vezes com a minha superior, até. Levei oito anos a entender a grandiosidade dela. Na hora de ir embora, pensei: foi tão bonito e por que é que eu não apreciei mais? Porque é que eu reclamei tanto? Fiquei ainda um tempo no Japão, onde casei com um monge japonês que me levou de volta ao Brasil.

Foi nessa altura que foi viver no Templo japonês Busshinji…

Fui acolhida nesse templo, durante seis anos ficámos lá, e ele apoiou-me muito para ser a superiora desse templo. As pessoas diziam que não era um cargo para mulheres. Mas houve uma altura que os senhores da comunidade japonesa ficaram com medo que os brasileiros fossem tomar o templo. Fizeram um movimento com um monge japonês mais velho. E eu falei que eram três discriminações numa frase, "homem", "japonês" e "mais velho". Se eu não tivesse capacidade era uma coisa… acabei saindo. Acabaram por eleger uma presidente brasileira.

Como explicaria a uma criança o que distingue o budismo das outras religiões? Quais são os seus fundamentos?

Buda é aquele que acorda, que desperta, que vê a vida com maravilhamento e que descobre que cada instante é único e não se repete. Tudo está interligado, somos um só corpo com tudo, com as árvores, os insectos, água, animais… e com outros seres humanos. Somos diferentes, não somos iguais, mas temos o mesmo valor. Todas as formas de vida têm o mesmo valor. O budismo não é antropocentrista, o ser humano não é o centro do universo, nem o universo foi criado para o ser humano. Nós somos uma das formas de vida que surge na terra.

 E o que é que torna especial o zen budismo em particular, sobretudo quando zen foi uma palavra que ficou na moda – foi um rótulo?

O zen é a meditação, é o caminho do despertar. É sobre sentar quieto. (…) Conhecer o que é mente humana, porque é que há sofrimento no mundo, doença, morte, levar-nos a todas essas questões. Todos nós vamos envelhecer, a juventude é passageira. Que sentido tem a existência?

No livro fala sobre a ideia de desapego. No seu caso, conseguiu desligar por completo?

Sim, em relação à minha filha há uma saudade que não tem fim. O facto de ter feito o voto monástico, de ter tido a aprovação da minha mãe e da minha filha, não implicou não ter saudade. Escrevia muito para ela, encontrávamo-nos uma ou duas vezes por ano, e sempre fica uma coisa de não a ter visto crescer. Ela ainda é uma pessoa que eu estou descobrindo. Eu já estou de volta ao Brasil há quase vinte anos, e ela ainda é uma pessoa que eu conheço e não conheço. A minha mãe é que cuidou mais dela. Eu fiquei como uma amiga ou irmã mais velha.

Assistimos ao fim da era do ego ou continuamos muito centrados em nós?

Ainda estamos muito centrados, como humanidade, é por isso que temos guerras e brigas por poder. Mas existe um caminho que nos leva a saber, cada vez mais, qual é o lugar do ego na nossa vida, o egoísmo, o "eu" em primeiro lugar. A meditação é um canal de libertação. Somos mantidos vivos na terra por tudo o que nela existe.

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